O que as notícias de hoje me lembraram...

No País dos Sacanas


Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?
Todos os são, mesmo os melhores, às suas horas,
e todos estão contentes de se saberem sacanas.
Não há mesmo melhor do que uma sacanice
para poder funcionar fraternalmente
a humidade de próstata ou das glândulas lacrimais,
para além das rivalidades, invejas e mesquinharias
em que tanto se dividem e afinal se irmanam.

Dizer-se que é de heróis e santos o país,
a ver se se convencem e puxam para cima as calças?
Para quê, se toda a gente sabe que só asnos,
ingénuos e sacaneados é que foram disso?

Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.
Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice,
porque no país dos sacanas, ninguém pode entender
que a nobreza, a dignidade, a independência, a
justiça, a bondade, etc., etc., sejam
outra coisa que não patifaria de sacanas refinados
a um ponto que os mais não são capazes de atingir.

No país dos sacanas, ser sacana e meio?
Não, que toda a gente já é pelo menos dois.
Como ser-se então nesse país? Não ser-se?
Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.
Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma.


Jorge de Sena

Saudação

Se não voltar,
não hesites: é distância.
se não sorrir,
não sofras: é lembrança.

alongo-mena música
das canções sem sons
dizendo em melodia
chorar alegria e dor.

se mundo sofrer
não lamentes: é alegria.
se só gritar e rir,
beija-me: é solidão.

isola-me o pensamento
no desencontro do quotidiano
apelo ancestral lançado
no despertar telúrico do lago

tão sempre só...
tão trágicamente só...


Ruy Burity da Silva
Foi assim - 1971





30 de Agosto de 1996, uma última olhadela sobre Luanda... um momento duro e doloroso! Intimamente repeti as mesmas palavras de 24 anos antes - voltaremos a encontar-nos!

Nesse longinquo dia 10 de Setembro, sob as asas do 747-B, começara já o destilar do ódio irracional que tantas vidas inocentes custou ao mártir povo angolano. Estava a 7 horas de voo de uma outra realidade... No aeroporto de Lisboa grita-se a plenos pulmões:

EL PUEBLO UNIDO JAMAIS SERÁ VENCIDO! CHILE VENCERÁ!

Fazia 1 ano que Salvador Allende havia sido assassinado... Entre a turba imensa, lembro sentimentos absolutamente contraditórios - revolucionários, e outros nem tanto, ululando pela Revolução Chilena, recebendo negros refugiados aturdidos e transidos de medo, colonos negreiros e gente sem rumo nem destino, procurando familiares que nunca viram... A alegria da revolução e o desespero da fuga ao inferno para os braços da mais completa incerteza!

24 anos depois, tudo mais burguês, mais civilizado... A família, sorrisos e abraços a acolher... e uma terrível sensação de mergulho na inutilidade, sabendo-se que para trás havia ficado um mundo onde me sentia útil.

Ao voltar a percorrer a 2ª. Circular, recordo, devem ter-me estranhado - havia emudecido, estava distante, muito distante... e, no entanto, larguei uma sonora gargalhada!! Estaria louco?? Defeito profissional, á medida que o carro deslizava sobre o asfalto procurava na coxia do passeio o lixo da Lisboa, suja, que os seus habitantes tanto gostam de afirmar sem saberem o que dizem... e sorri!!! Pelo lixo que não vi, pela inutilidade do que me esperava, pela fantasmagoria da teia burocrática que me iria envolver em breve sobre algo que.... não conseguia descortinar!! E, a 7 horas de voo, o lixo era tão penosamente comum como aqui me parecia a sua ausência... Sentia que era lá, por ser útil e pelo amor áquela terra, que deveria estar!

Que vontade tive de voltar para trás!! Largar tudo, pegar na família e zarpar!!!

Um dia acontecerá...

Não estou convencido da justeza da minha «condenação» a ficar por aqui a morrer aos poucos até à «libertação» dos 65 anos!

Veremos durante quanto tempo se manterá a resistência ao apelo de África!

A Fome





Quem pouco fala não diz nem bem nem mal
e o morto, no caixão
não tem voz activa.
Tu, quando falas
matas os da cobra
e os da hiena
vão para a sepultura.

Para que nós, na desgraça, não roubemos
para que nós, viajantes, não roubemos ninguém
Senhor, Deus de Nangobe
dá-nos a chuva.
Avô dos miseráveis
Mãe dos pobres
Tio dos famintos
Mãe, Avô e Tio dos que caem nos caminhos da fome
faz sair a chuva
faz crescer os mantimentos
inunda-nos com a tua água.
Ajuda os pobres, Deus de Nangobe.
Cai chuva
e traz-nos a bênção
do canto das rãs.
Aonde dorme, a chuva?
Na figueira da Haudila?
Nos grandes paus de Solela?
Eu queria o vento.
Eu queria a tempestade
e a faísca que levanta
pela raiz
a pequena palmeira.

Rei Mahondi de Mwaeta
soberano Kahondi do Muvale:
Senhor!
O calor já está a prolongar-se.
A massambala seca
a semente definha
e a rama murcha.
A fome aproxima-se, Senhor!
A seca já chegou às nossas portas
e até já se instalou em nossas casas.

Levou alguns para a lagoa
outros foram para o Lubango.
Não há para onde fugir
quando se é presa da fome.
A fome é filha das feras
está no teu estômago e diz:
vai roubar, vai roubar.
Os seus cornos são agudos e direitos
mais finos do que azagaias.
Não deixam marca
nem ferida nem chaga.
Oh meu boi magro
quando a chuva morre
não há casa que não faça o inventário.
Luto pesado!

Ruy Duarte de Carvalho

(origem Kwanyama)
Ondula, savana branca

Baby Can I Hold You




Sorry
Is all that you can say
Years gone by and still
Words don't come easily
Like sorry like sorry

Forgive me
Is all that you can say
Years gone by and still
Words don't come easily
Like forgive me forgive me

But you can say baby
Baby can I hold you tonight
Maybe if I told you the right words
At the right time you'd be mine

I love you
Is all that you can say
Years gone by and still
Words don't come easily
Like I love you I love you

But you can say baby
Baby can I hold you tonight
Maybe if I told you the right words
at the right time you'd be mine

Baby can I hold you tonight
Maybe if I told you the right words
at the right time you'd be mine
You'de be mine
You'd be mine....

Tracy Chapman

Exílio




Longe embora cidade peráclita
a língua se nos cole ao céu da boca
se vier o olvido.

Banhas-te connosco em águas de desterro
flutuas sempre por nossa boca
nas praias da memória.

Nos dias mais soalheiros da diáspora
és tu quem materna vem dizer «aqui estou»
à emoção que nos habita.

Marulham outras águas aqui
mas quando as invocamos é Baía do Espírito Santo
o nome que nos corre á boca.

São lembranças que viajam para ti
mãe estuante que nos deste o leite e o mel
hoje por tão longe dissipados.


Fonseca Amaral
in revista Caliban nº. 2, Novembro 1971

Poema de amor

Luanda, foto de Rui Guerra


Adoro-te, África semente,
amor profundo
nobre fruto do meu eu vivente.
Adoro a calidez das tuas tranças,
manta preta do meu primeiro calafrio.

E o dorso largo em que dormi o sono infantil
e acordei já homem feito.

Jorge Macedo
Iº. temtembu, 1966

«O Graxa»




-Graxa, patrão?
O joelho preste
aflito
dobrou.

Mestres no vaivém
ritualista diário
de rolar bola de funge
em molho bom de dendem
já os dedos calejados
palpam
untam
tamborilam
o sapato autoritário.

Entre pano e calçado
ritmo estala.
Panquepam
Panquepampam
Panquepam
Panquepampam

É o batuque que fala,
Ora exultante, ora trágico,
é o batuque que fala
na linguagem remota
das matas de Angola.

Panquepampam
Panquepampam

Sibilino mágico
se evola
um recado distante
de tribos sobados.

Panquepampam
Panquepampam
Panquepampam

Pano e calçado
joelho dobrado
mãos que batucam
sons que se formam
e se transformam

palavra
existência
grito
presença.

na esplanada
imperativo
reclamativo
o batuque.

Batuque semeco
nos ouvidos tapados
nos olhos vazados
nos rostos parados

Panquepampam
Panquepampam
Panquepampam
Panquepampam
Pam!

-Pronto, patrão, cabon!
miliquinhento.

O bruáa regressa recendescente
Sensacionalista nas palavras ocas
Urgente na busca do tempo perdido
Como se nada tivesse acontecido.
Grada.

No fim da rua,
já quase a perder de vista,
«graxa» sapateia. E tange
na tosca caixa ensebada
harpejos de quissange
acordes de marimba.

E entoa um cântico langue
de sonâncias graves, roncas.

Entardece.
O sol é todo um coágulo de sangue
É a noite que se aproxima
de pura angústia se nimba.


Maria Eugénia Lima
Binómio de sangue

África

Mulata Azul, Di Cavalcanti


É neste silêncio neste assalto do vento a
navegar a floresta neste sol neste amor
neste vegetal cobrir-me de verde e ser
catana cerce a executar o ânimo
afagar as mulheres no regresso da lavra
fazer das mãos a festa sonora do sexo
na cultivação do milho

É neste grito rente ao corpo frágil das
folhas que mais em ti me venço e
moro nas grandes batalhas da vida
no extenso vale das nossas angústias
no duelo cíclico das nossas intenções

David Mestre

Agradecimento... a preto e branco!


Obrigado a todos...
A Kitanda é vossa!

Gosto de pensar nisto como um espaço comum, de todos, genuinamente livre e fraterno...
Nada do que aqui está é meu e, se alguma vez foi, deixou de o ser logo que foi partilhado convosco!
Desejo que este espaço seja tão amplo e apaixonante como a vastidão imensa das savanas de África!

Com amigos como vós vejo-me «obrigado» a ficar velho... por aqui!
Um imenso kandandu para todos!

Raio de clima, o europeu, onde não chove quando faz calor!

Esta exclamação da IO lembra-me a primeira noite que passei em Luanda no regresso a Angola.

Havia sido um dia cheio de emoção... Todas as palavras aqui me parecem inexpressivas para descrever esse regresso.
Um dia feliz que começara na véspera... Um dia de 48 horas!
Cansado e tranquilo adormeci.
A meio da noite, subitamente, um barulho ensurdecedor...
Abri os olhos, vi os raios iluminarem o quarto, a chuva a cair impiedosamente...
«Rebobinei o filme»... perguntei-me onde estava, obtive como resposta Luanda...
Considerei de imediato a situação normal, voltei-me para o outro lado, sorri e voltei a dormir...
Sonhei que estava na varanda de minha casa, 23 anos antes, em Mbanza Congo e assistia, sobre o vale do Rio Lueje, a um dos mais belos e poderosos espectáculos da natureza - uma trovoada em África!
De manhã, ao levantar-me, deparou-se-me isto...
Fabuloso!












Um ano


Há um ano começava assim...

Amigos:
Agradeço-vos a alegria e a honra de cada uma das vossas visitas.
Agradeço-vos as palavras de estímulo que foram deixando.
Agradeço-vos os ensinamentos técnicos, de cultura e de vida que recebi.

Foram 560 posts e a visita de quase 16000 amigos!
A aventura irá continuar!

Um imenso abraço de amizade e reconhecimento a todos!

Angola




Não nasci do teu ventre
mas amei-te em cada Primavera
Com a exuberância de semente...

Não nasci do teu ventre
mas foi em ti que sepultei
as minhas saudades
e sofri as tempestades
de flor transplantada
prematuramente...

Não nasci do teu ventre
mas bebi o teu sortilégio
em noites de poesia
transparente...

Não nasci do teu ventre
mas foi á tua sombra
que fecundei rebentos novos
e abri os braços
para um destino transcendente...

Angola,
não serás a terra do meu berço
mas és a terra do meu ventre!


Amélia Veiga
Poemas



Gavilán o paloma




No dejabas de mirar y estabas sola
Completamente bella, sensual
Algo me arrastró hacia ti como una ola
Y fui te dije hola que tal

Esa noche entre tus brazos caí en la trampa
Cazaste al aprendiz de seductor
Y me diste de comer sobre tu palma
Haciéndome tu humilde servidor.

Amiga hay que ver cómo es el amor
Que vuelve a quien lo toma gavilán o paloma
Pobre tonto ingenuo charlatán
Que fui paloma por querer ser gavilán
Amiga hay que ver cómo es el amor
Que vuelve a quien lo toma gavilán o paloma

Yo bajé la cremallera de tu vestido
Y tú no me dejaste hablar
Solamente suspirabas te necesito
Abrázame más fuerte, más

Al mirarte me sentí desengañado
Solo me dio frío tu calor
Lentamente te solté de entre mis brazos
Y dije estate quieta por favor

Amiga hay que ver cómo es el amor
Que vuelve a quien lo toma gavilán o paloma
Pobre tonto ingenuo charlatán
Que fui paloma por querer ser gavilán

Amiga hay que ver cómo es el amor
Que vuelve a quien lo toma gavilán o paloma
Pobre tonto ingenuo charlatán
Que fui paloma por querer ser gavilán

Amiga hay que ver cómo es el amor
Que vuelve a quien lo toma gavilán o paloma
Pobre tonto ingenuo charlatán
Que fui paloma por querer ser gavilán


Pablo Abraira


Talvez




Talvez não ser,
é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando
o meio dia com uma
flor azul,
sem que caminhes mais tarde
pela névoa e pelos tijolos,
sem essa luz que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez ninguém soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas, enfim,
sem que viesses brusca, incitante
conhecer a minha vida,
rajada de roseira,
trigo do vento,

E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos...
E por amor
Serei... Serás... Seremos...


Pablo Neruda

Morna


As mesmas casas... as mesmas ruas...
o mesmo largo...
Só os rostos dos homens é que não são os mesmos
e, ébrios, os braços pendem, os homens tombam...

Som de violino escapando-se da casa térrea.
Cheiro a petróleo e a fumo.
Quêrèna treme os dedos sobre as cordas,
olhos vidrados, berra por mais gróg!

Titina sente-se frágil sob os braços de Armando.

A Morna traz ao corpo a lassidão e o sonho,
como a lua pondo sombras em coisas impossíveis...


António Nunes
Poemas de longe





Vou dar uma volta

A Volta a Portugal está na estrada.
Acabou de passar á minha porta uma parte da caravana.
O meu espírito desportivo falou mais alto!
Tirei a pasteleira da garagem, tomei um suplemento vitamínico... e aqui vou eu, amigos!
Espero ter pedalada para chegar ao fim...
Até breve!
Fiquem bem!

Receita




Um colar de missangas fica bem.
E um dongo na baía.
Acácias rubras quanto baste.
E uma negra Maria.

Uma vóvó qualquer, de preferência
muito velha e negrinha.
Uma côr de miséria pitoresca
Pintada com decência.

Contratado também não fica mal.
E um poente vermelho sobre o mar.
Benguela é indispensável
E um versito em kimbundo é magistral.

Um ar contestador não sei de quê
Com odes ao pirão e á sanzala.
Marcar bem a distância complacente
Da pessoa que fala.

«Angolano» dizer como Arquimedes
No banho disse «eureka»
Mas jamais englobar a descoberta
No sentido mais lato de africano.

De cultura europeia nem falar
De cultura africana nem saber.
Mas «cultura angolana» com certeza.
Leva-se ao forno e dá-se a quem gostar.


Jorge Huet Bacelar
(inédito)
In No Reino de Caliban II

Roça

Roça de Monte Café, foto de Emanuel Pais em Caminhadas e Descoberta em STP


A noite sangra
no mato,
ferida por uma aguda lança
de cólera.
A madrugada sangra
de outro modo:
é o sino de alvorada
que desperta o terreiro.
É o feitor que começa
a destinar as tarefas
para mais um dia de trabalho.

A manhã sangra ainda:
salsa a bananeira
com um machim de prata;
capinas o mato
com um machim de raiva;
abres o côco
com um machim de esperança;
cortas o cacho de andim
com um machim de certeza.

E á tarde regressas
á sanzala;
a noite esculpe
os seus lábios frios
na tua pele.
E sonhas na distância
uma vida mais livre,
que o teu gesto
há-de realizar.


Maria Manuela Margarido
(in Poetas de S. Tomé e Príncipe, 1963)

Paraíso e Inferno

O que é o Paraíso? E o Inferno?


O PARAÍSO É UM LUGAR ONDE:
- A polícia é britânica
- Os cozinheiros franceses
- Os mecânicos alemães
- Os amantes portugueses
- E tudo é organizado pelos suíços



O INFERNO É UM LUGAR ONDE:
- A polícia é alemã
- Os cozinheiros ingleses
- Os mecânicos franceses
- Os amantes suíços
- E tudo é organizado pelos portugueses

Irresistível!!... Recebido por email

Adeus, irmão branco!




ADEUS, meu irmão branco, boa viagem!

Chegou a hora de você voltar
para a Europa, a sua terra.
Quando você chegar, há-de falar
dos encantos que encerra
esta África Negra, tão distante,
tão distante, irmão branco...
Pois eu quero, neste instante
da partida, pedir-lhe uma promessa:
-Não se esqueça da alma do negro,
não se esqueça!

Você há-de falar das terras africanas,
da mata e da cubata,
dos montes e das chanas;
mas não se esqueça da alma.
Você há-de falar do sol fogoso,
de caçadas e queimadas,
das noites que viveu em batucadas
no mais feiticeiro gozo;
mas não se esqueça da alma.

Vai falar do café, do algodão, do sisal,
da fruta tropical, enfim de toda a flora;
mas não se esqueça da alma.
Você há-de falar dos negros no seu mato,
da negra tentadora
de corpo sensual,
mostrando até retrato;
mas não se esqueça da alma.

Adeus, meu irmão branco! Lá na Europa,
quando falar da tropical paisagem,
não se esqueça da alma do negro.

Adeus, meu irmão Branco, boa viagem!


Geraldo Bessa Victor
Cubata Abandonada

A fraternidade das palavras


O céu
é uma m'benga
onde todos os braços das mamanas
repisam os bagos das estrelas.

Amigos:
as palavras mesmo estranhas
se têm música verdadeira
só precisam de quem as toque
ao mesmo ritmo para serem
todas irmãs.

E eis que num espasmo
de harmonia como todas as coisas
palavras rongas e algarvias ganguissam
neste satanhoco papel
e recombinam em poema.


José Craveirinha
Karingana ua karingana

E se...?


E se... a desgraça que percorre o nosso país passasse pelo Monsanto?? Acham que toda a gente ficaria pela lamúria??
E se... em vez da casa rural, do palheiro ou do curral perdidos por essas serranias do nosso belo país ardesse o Restaurante Monte Verde, o Papagaio da Serafina ou o Luneta do Panças?? Acham que ficaria tudo na mesma??
E se... o acaso, a negligência ou o crime varresse o pulmão de Lisboa??? Acham que ficaria tudo igual??
Alguém acredita, neste caso, que o pretenso incendiário, se detido, voltaria a ser libertado??
Alguém supõe seja possível que uma vez detido não respondesse cabalmente a umas quantas perguntas pertinentes??? Ou ficar-se-ia, também aqui pela lengalenga do atrasado mental com problemas sexuais??? Alguém acredita nisso??
Se ninguém acredita nisso porque razão não há acção???
Alguém, algum dia vai ter que pôr um ENORME ponto final nesta pouca vergonha!
Quanto mais tarde pior, mais doloroso será, maiores custos económicos e ambientais existirão.
Seguramente que daqui a algumas dezenas, poucas, de anos não estarei cá... mas não será por isso que EU e os MEUS CONTEMPORÂNEOS deixaremos de ser julgados pelos nossos netos!
A verdade, neste momento, é que há uma evidente INDÚSTRIA DOS INCÊNDIOS!!
A Quinta da Marinha ardeu, debaixo de tremendo alarido político-mediático em 2003.´


Quantas mais desgraças serão necessárias??
Quem acode a este país???

Ianques


DEPOIS DE HIROXIMA
DEPOIS DE VIETNAME
DEPOIS DE


Piores
Muito piores
Que Átila o tal
Que por onde passava
O capim diziam que secava

Átila o bárbaro
Como adjectivado nos foi
Quando meninos coloniais
Nos ensinaram de Portugal
A História Universal

Não houvera ainda Hiroxima
Não houvera Vietnames
Não houvera ainda

Foi depois oh foi depois
Muito depois que sangrou Hiroxima
Que sangraram Vietnames
E de Átila
O mundo se recordou

Mas de Átila porquê

Átila não
Que muito piores que ele
Eles o foram

Muito piores
Que Átila o tal
Que por onde passava
O capim diziam que secava

Oh sim
Muito muito piores os ianques
Que por onde passam
Chewingamizando-se endolarados

Cresce o capim
Onde havia trigo
Semeiam-se escravos
Onde nasciam homens
Colhem-se cinzas
Onde cresciam crianças

Oh sim
Bárbaros são eles
Os ianques

Átilas elevados
Á potência imperial


Rui Nogar


Na véspera dos 60 anos do lançamento da primeira bomba atómica sobre Hiroxima.
Recordei este poema também pelo post da fantástica IO e dos comentários que suscitou.

Oração Sioux




Grande Espírito!


Voz que eu escuto nos ventos
E o sopro que dá vida
a todo esse mundo,

Eu sou pequeno e frágil.
Necessito de sua forçae sabedoria.
Deixe-me andar por entre a beleza.

E faça que meus olhos captem
sempre o por do sol
vermelho e violeta.

Faça com que minhas mãos
respeitem as coisas que produz
E meus ouvidos precisos
para ouvir sua voz.

Faça-me sábio
Para que eu possa entender as coisas
que você ensinou ao meu povo

Deixe-me aprender as lições
que você escondeu
em cada folha e pedra.

Eu busco força.
Não para ser melhor
do que meu irmão,

Mas para lutar contra
meu maior inimigo,
o meu próprio eu.

Faça-me de todas as maneiras
estar sempre pronto
Para chegar a você
com minhas mãos limpas e olhos directos.

Assim quando a vida esmaecer,
como o por de sol que se esvai
Meu espírito possa vir a você,
sem vergonha.


Á procura dum caracoli...




Tava eu tirando moncos
lá da cana do nariz
quanto fazia uma mija
assim tipo chafariz

Tinha a bexiga tã chêia
que fiquê lá uma hora
quando me assomê em volta
tinha ido tudo embora

Sacudi o coiso e tal
enquanto coçava a bilha
de tal manêra atascado
que o entalê na braguilha

tirê as botas do lodo
que fizera na mijada
sacudi tamém as calças
sempre com ela entalada

pedi ajuda à Ti micas
que cerca dali morava
mas depilou-me os tomates
a força com que a puxava

ensanguentado na pila
fui aos tombos pelo monti
vomitando quasi as tripas
nã sêi se queres que te conti

como comera dôs pães de quilo e um garrafão
p'rajudar a empurrare
na admira que tivesse
três horas a vomitare

Detê-me na palha fresca
para ver se descansava
enterrê-me logo em bosta
de uma vaca que passava

E foi assim que essa tarde
conheci um caracoli
os dois deitados na palha
com os cornos a secare ao soli


(Poesia Alentejana)
por email

Minha Viola




Infidelidade dos caminhos da vida
Enterrou nossos sonhos numa medida
Tirou-nos a felicidade
A maldade nos separou
Que calamidade no nosso seio
Ai que saudade do teu meio

Levarei minha viola
Lá na frente do combate
Para fazer uma canção
Para você oh minha Maria

Cascar nunca foi minha vontade
Casar contigo é uma verdade
Mas tenho medo da nossa idade

Farrar contigo é minha especialidade
Falar contigo com sinceridade
Ao nosso amor aumenta a qualidade

Cascar não é minha vontade
Ficar contigo é minha especialidade
Andar contigo eu tenho vontade
Mas tenho medo da nossa idade
Oh Maria!

Levarei minha viola
Lá na frente do combate
Para fazer uma canção
Pra você oh minha Maria


Irmãos Almeida

Africa


Quadro de Mukia (1996) adquirido no Mercado de Benfica, Luanda

Lisboa - anos 30

Marquês de Pombal