Que Outro Nome




Que rio se pode
abrir na língua acesa
para o capim
crepitando baixo.

Que palavra
por ele nasce
e corre corre a lua
e outra lua
sem que regresse ao corpo.

Que outro nome
te demos vestida...
e no escuro desposada.
LIBERDADE.

Que tempo de ocultar o nome
Sabíamos perder
e nem de moscardo zumbias:

NGOLA

nosso pouco maruvo eras
no terreiro anunciada.
LIBERDADE.

Quem das copas pronuncia
os teus lábios na terra?

NZAMBI

neles tivesse
mordiscado leve.
Liberdade.


David Mestre

A minha história




A minha história é simples

A tua, meu Amor,

É bem mais simples ainda:

"Era uma vez uma flor.

Nasceu à beira de um Poeta..."

Vês como é simples e linda?

(O resto conto depois;

Mas tão a sós, tão de manso,

Que só escutemos os dois.)


Sebastião da Gama

Paisagem

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No fundo
além da fortaleza sonhadora,
das acácias em flor,
da cidade espalhada em colinas,
da cascata de vidros nas encostas,
do vôo disparado daquele patos
e do calor de tua mão,
no fundo,
feito paisagem indiferente,
o ruído do mar.

Monótono, constante, distraído,
marcando-me o compasso ao pensamento.

E o pôr-de-sol, as nuvens cor de fogo,
a cinza abrasada, um dongo na baía,
a fortaleza debruçada, além,
como quem espreita para além do mar...
Toda a beleza cálida me fere,
só porque o mar,
monótono, indiferente,
repete aquelas frases, cáusticas, brutais,
que eu trouxe no meu peito com vinte anos
os versos de combate,
o meu olhar altivo,
as horas de visão
e os passos muito incertos e tão fortes
que eu sentia no rumo do futuro.

Há uma sombra no céu
e uma névoa nos meus olhos.

As janelas apagam-se em penumbra,
o dongo atravessou a água mansa
e a tua mão aquece a minha mão.

E a tua mão aquece a minha mão.
Crispas os dedos, sentes esta angústia:
a beleza completa-se com dor.

Ao fundo, o mar,
o mar que nos embala e nos conforta,
o mar...
Ó meu amor, e diz,
eu ouço, ele diz,
que a alma não está gasta,
a ânsia não está morta,
se os olhos são capazes de chorar!


Cochat Osório
(No reino de Caliban II - antologia
panorâmica de poesia africana de expressão portuguesa)

Aborto - Testemunho contra a hipocrisia!

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As listagens das imagens não estão inteiramente correctas como uma leitura atenta poderá verificar mas permite aferir civizacionalmente onde nos encontramos e a 'companhia que temos!!


Sem mais palavras recomendo vivamente a leitura do testemunho da minha corajosa amiga Jucimara no seu Nectar da Juci

Proposta ecológica




Usar casacos de peles sem ferir ecológicas susceptibilidades!
Não venham dizer que não é um belíssimo contributo!!

La musica andina




La música andina
es una cascada
que se encuentra en un bosque tranquilo:
juguetona y poderosa al mismo tiempo.

La música andina
es la voz del viento
que aulla entre las peñas altas:
nacida solo del aire, pero muy fuerte.

La música andina
es el vuelo del cóndor
que hace un dibujo en el cielo:
parece arte, pero da el sustento


June Ireland

Antikuna ñauraytaki
(quechua poem)

Kissama

Foto daqui


Há sonhos profundos e extenuantes
de passeios por clareiras e planícies
os antílopes se atascam no lodo
e o terreno molhado é feitiço

Eu não fugia perseguia o sonho meu
a chuva torrencial continuava e eu
à espera de mais palancas ao largo
e vinda do esteval a pacaça entrou no rio

Meu Deus! Estou na Kissama !
Aqueles passáros são de Cabo Ledo
as minhas rédeas soltei-as e desenfreada
fui até a trilha dos elefantes sem medo

Acordei porque acordei?
O tecido do meu fato tolhia-me os
movimentos.
Porque não vi o Jacarés pagar imposto?
Porque não vi os hipopotamos a brincar?
Porque não comi churrasco no acampamento
do lugar?
Porque não passei a jangada?
Porque não vi a família de leões?
E porque não vi o Pai da Edu a me acenar?
Guarda deste Santo lugar!!!
E Porque não vi sobretudo.....
a virgem de madeira no rio
a boiar?


Massemba
in Poesia de Maglotei

Pessoal da limpeza é um.... espectáculo!!!




Em altura de campanha eleitoral ainda não vi nenhum candidato prometer galanteios do pessoal da limpeza... pode ainda vir a aparecer!

Prudência!!
:-)

Irresistível

Um presidente de Câmara passeia tranquilamente quando é atropelado e morre.

A alma dele chega ao Paraíso e dá de cara com São Pedro na entrada.

- Bem-vindo ao Paraíso! - diz São Pedro, que continua...

- Antes que você entre, há um pequeno problema. Raramente vemos políticos por aqui, sabe, por isso não sabemos bem o que fazer convosco.

- Não vejo problema, é só deixar-me entrar, diz o antigo presidente

- Eu bem gostaria, mas tenho ordens superiores. Vamos fazer o seguinte, você passa um dia no Inferno e um dia no Paraíso. Só depois pode escolher onde quer passar a eternidade.

- Não precisa, já resolvi. Quero ficar no Paraíso, diz o ex-presidente.

- Desculpe, mas temos as nossas regras.

Assim, São Pedro acompanha-o até ao elevador e ele desce, desce, desce até ao Inferno.




A porta abre-se e ele vê-se no meio de um lindo campo de golfe.

Ao fundo o clube onde estão todos os seus amigos e outros políticos com os quais havia trabalhado.

Todos muito felizes em traje social.

Ele é cumprimentado, abraçado e começam a falar sobre os bons tempos em que ficaram ricos à custa do povo.

Jogam uma partida descontraída e depois comem lagosta e caviar.

Quem também está presente é o diabo, um tipo muito amigável que passa o tempo a dançar e a contar anedotas.

Divertem-se tanto que, antes que perceba, já é hora de ir embora.

Todos se despedem com abraços e acenam enquanto o elevador sobe.

Ele sobe, sobe, sobe e a porta abre-se outra vez. São Pedro está á sua espera.

Agora é a vez de visitar o Paraíso.



Ele passa 24 horas junto a um grupo de almas contentes que andam de nuvem em nuvem, tocando harpas e cantando.

Tudo vai muito bem e, antes que ele perceba, o dia se acaba e São Pedro regressa.

- E então?? Passou um dia no Inferno e um no Paraíso. Agora escolha a sua casa eterna.

Ele pensa um minuto e responde:

- Olhe, eu nunca pensei ... O Paraíso é muito bom, mas eu acho que vou ficar melhor no Inferno.

Então São Pedro leva-o de volta ao elevador e ele desce, desce, desce até o Inferno.

A porta abre e ele vê-se no meio de um enorme terreno baldio cheio de lixo. Ele vê todos os amigos com as roupas rasgadas e sujas catando o entulho e colocando em sacos pretos.

O diabo vai ao seu encontro e passa o braço pelo ombro do ex-presidente .

- Não estou entendendo, - gagueja o presidente - ontem estive aqui e havia um campo de golfe, um clube, lagosta, caviar, e nós dançamos e divertimos-nos enquanto aqui estive. Agora só vejo esse fim de mundo de lixo e meus amigos arrasados!!!

O diabo olha pra ele, sorri ironicamente e diz:


- Ontem estávamos em campanha. Agora, já conseguimos o seu voto...


Saudade



Persegue
o meu cheiro
com teu fino faro
de lembrança exata,
memória cheia
no gemer da noite.

Cristina Evelise

Os Teus Pés




Quando não posso contemplar teu rosto,
contemplo os teus pés.

Teus pés de osso arqueado,
teus pequenos pés duros.

Eu sei que te sustentam
e que teu doce peso
sobre eles se ergue.

Tua cintura e teus seios,
a duplicada púrpura
dos teus mamilos,
a caixa dos teus olhos
que há pouco levantaram vôo,
a larga boca de fruta,
tua rubra cabeleira,
pequena torre minha.

Mas se amo os teus pés
é só porque andaram
sobre a terra e sobre
o vento e sobre a água,
até me encontrarem.


Pablo Neruda

The real face of Katrina

A poucas horas da chegada do furacão Rita ao Texas, vejam aqui a face real do Katrina.
Todos esperamos não voltar a ver as imagens de destruição e desepero, dispensamos, de todo, imagens como a que o excelente Yonder Lies it deu a conhecer e partilho convosco!

Aula de desenho




Meu filho põe sua caixa de pintura à minha frente.
Pede que eu desenhe um pássaro.
Ponho o pincel no pote de cor cinza
e pinto um quadrado com fechaduras e grades.
Seus olhos se enchem de surpresa:
Mas isso é uma prisão, papai!
Não sabes desenhar um pássaro?
Digo-lhe: - Filho, perdoe-me.
Esqueci a forma dos pássaros.


Meu filho põe então
o caderno de desenhos à minha frente.
E pede para que desenhe uma espiga de trigo.
Tomo um lápis. E desenho uma arma.
Meu filho ri de minha ignorância, perguntando:
Papai, não sabes a diferença
entre uma espiga de trigo e uma arma?


E digo:
Filho, uma vez usei a forma da espiga de trigo,
a forma do pão, a forma da rosa.
Mas nestes tempos duros
as árvores da floresta
Juntaram-se aos homens da milícia
e a rosa agora veste uniformes escuros.

Neste tempo de espigas,
de trigos armados,
de pássaros armados,
de cultura armada,
e de religião armada,
não se pode comprar o pão
sem encontrar uma arma em seu interior.

Não se pode colher uma rosa do campo
sem que seus espinhos nos arranhe a cara.
Não se pode comprar um livro
que não vá explodir entre nossas mãos.


Meu filho se senta na borda da minha cama
e pede que eu recite um poema.
Uma lágrima cai de meus olhos na almofada.
Ele a toma, surpreendido, dizendo:
Mas esta é uma lágrima, papai!
Não é um poema!


Digo-lhe:
Quando cresceres, meu filho,
e quando aprenderes o diwan da poesia árabe,
descobrirás que palavra e "lágrima"
são irmãs gémeas e que o poema árabe
não é mais do que uma lágrima chorada
por dedos que escrevem.


Meu filho toma seus pincéis,
a caixa de tintas da minha frente
e pede que eu desenhe uma pátria.
O pincel treme em minhas mãos
e eu me afundo, chorando...


Nizzar Qabbani
Escritor sírio
(1923-1998)

Considerado um dos maiores poetas
árabes do amor e da política.
Destacou-se com obras eróticas
que quebraram as tradições literárias
do Oriente Médio e pela defesa incansável
da emancipação da mulher.

TchiIoIi

Foto de Décio Lopes e Sofia em Caminhadas e Descoberta em STP


Apitos

tambores

canas de bambu

tremem

ressoam

excitam os corpos

que dançam

e ouvem



escoa-se a tarde

escoa-se o tempo

de risos e lágrimas

e na mata frondosa

fica a história/tragédia

do Imperador Carlos Magno.

Não é uma festa.

Não é um teatro.

É um modo de vida.


Olinda Beja

Kimi ga Ita kara





Osaekirenai omoi ya
Hito ga naitari nayandari suru koto wa
Ikiteru shouko da ne
Waraitai yatsura niwa
Warawasete okeba ii sa
Bokura wa kaze ni fukareyou

Kanjiaeba subete ga wakaru
Kotoba wa nakutemo
Nando mo kujikesou ni natte
Koko made kitanda
Oh, Ima bokura no kokoro wa hitotsu ni naru
Furimukeba itsumo kimi ga ita kara

DOA wo akete naka ni hairou to shitemo
Iriguchi ga mitsukaranakute
Dareka wo kizutsuketa...
Sonna toki
Hito ga jibun yori eraku mieta yo
Boku wa chippoke na yatsu datta

Maru de tori ni natta mitai ni
Jiyuu ni habataku yo
Nani ga tadashii...
Nani ga machigatte iru noka nante...
Oh, Nakama no naka ni itemo kodoku wo kanjite ita...
Me wo tojiru to soko ni kimi ga ita kara

Kagayaku toki no naka de yume wa
Aoku somaru darou
Ushinau mono wa nani hitotsunai
Ai sae areba
Oh, Kono sekai ni odori tsuzukeru shika nai noka...
Kokoro no naka ni kimi ga ita kara


Sakai Izumi

Para ti, amiga Mariza Takeda

Pátria




Pátria é, pois, o sol que deu o ser
Drama, poema, tempo e o espaço,
Das gerações, que passam, forte laço
E as verdades que estamos a viver.
Pátria... é sepultura... é sofrer
De quem marca, co’a vida, um novo passo.
Ao povo - uma Pátria - é, num traço
simples... Independência até morrer !
Do trabalho o berço, paz, tormento,
Pátria é a vida, orgulho, a aliança
Da alegria, do amor, do sentimento.
Pátria... é tradições, passado e herança !
O som da bala é ... Pátria, de momento !
Pátria ... é do futuro a esperança !


Xanana Gusmão

New Orleans...ainda



Vale a pena ler o excelente post da Carmen L Vilanova em Eu Sei Que Vou Te Amar.
Não adianto mais nada. Leiam.

Machu Picchu




I
Ciudad cóndor devorando infinito
granítica plata en palpitantes metafísicas
alucinar de feláticas orquídeas
convergen espacios hanan — urin

II
Orgasmo de piedra estremeciendo al viento
lomos violadores de cumbres
constelaron wancas de orfebrería
jadeando lítico arco iris

III
Techumbre de sueños
preñaron la garganta de Wilcamayo
paucar waman quispe copuladores
siderales
aprisionaron lumbre solar
ardiente fuego sangriento
tajamar de luna cósmico diseño

IV
Horizonte de atalayas
ángulos pétreos del amanecer
coítica ternura — vibrante manantial
palabras en piedra
Machupicchu
constructor milenario
BATALLAS ANDINAS

Granos escarlata incendian el tiempo
quintu de coca — chicha dorada
cubren líticos senos
andenes en pétalos frutecen
agua en acústicas cristalinas
granítico escalar
libraron en milenarias batallas andinas
guerreros del maíz papa quiwicha
aguadores del espacio
caminaron caminan caminarán
guerreando los confines del hambre
sinfonías cautivas en la mirada
recordando manos domesticadoras
de ojos de llama
genitales alpaca
latidos vicuña:::::::::::::tternura illa


Ana Vizcarra

Canyon Song

Imagem daqui


I live deep within
Steep canyons,
That cradle sparkling creeks,
Where trees and bushes
Garment the hillsides
In a million shades of green.
When I walk the ridge
Early in the day
I keep company
With squirrel, fox and deer.

Osprey call down the canyon
As the morning sun
Turns the treetops silver.

I stand high above Elk Creek
A song teases itself
Into my awareness.

I wait.

Far down the canyon
It begins.

A sound like rushing water.

From miles away,
It begins to build.

It starts at the mouth
Of Elk Creek,
Where it joins the Klamath River.

The sound holds me.

Far in the distance
The trees begin to dance.

Wind!

That's the sound,
The song I hear.

Here it comes
Up the canyon.

Sweeping along,
Swaying the trees,
Sight and sound merging.

Crescendo.

A
Forest
Orchestra
Plays just for me.

Loud the song of wind and trees
Swirling around and through me,
Coming up the canyon.
I am in awe.

For long moments
I am the chorale,
And then it's past
Moving up the Canyon,
Fading into the distance.

Diminuendo.

I stand alone
Humbled by the gift
Of these precious moments;

To be awake and aware,
To catch
The Canyon's Song.


Judi Armbruster
Poet from Karuk Tribe of California

Cacusso


Montagem feita com este brinquedo, descoberto aqui.

Sem comentários

Imagem daqui

A arte de viver



Habito no halo
dos meus versos
onde incansavelmente
rimo palavras sem rima
e seco lágrimas sem pranto

é a arte de viver...

como lacrar a vida e o amor
sem cantar?
como vencer o tédio e o temor
sem bailar?
eis a razão
porque sonho sem sono
porque voo sem asas
porque vivo sem vida

no avesso dos versos escondo
o tesouro da minha contrariedade
o mistério da minha enfermidade
e o feitiço da minha eternidade


Armando Artur







Orquestra marrabenta Star de Moçambique
Elisa Gomara Saia

Adeus á hora da largada




Minha Mãe
(todas as mães negras
cujos filhos partiram)
tu me ensinaste a esperar
como esperaste nas horas difíceis

Mas a vida
matou em mim essa mística esperança

Eu já não espero
sou aquele por quem se espera

Sou eu minha Mãe
a esperança somos nós
os teus filhos
partidos para uma fé que alimenta a vida

Hoje
somos as crianças nuas das sanzalas do mato
os garotos sem escola a jogar a bola de trapos
nos areais ao meio-dia
somos nós mesmos
os contratados a queimar vidas nos cafezais
os homens negros ignorantes
que devem respeitar o homem branco
e temer o rico
somos os teus filhos
dos bairros de pretos
além aonde não chega a luz elétrica
os homens bêbedos a cair
abandonados ao ritmo dum batuque de morte
teus filhos
com fome
com sede
com vergonha de te chamarmos Mãe
com medo de atravessar as ruas
com medo dos homens
nós mesmos

Amanhã
entoaremos hinos à liberdade
quando comemorarmos
a data da abolição desta escravatura

Nós vamos em busca de luz
os teus filhos Mãe
(todas as mães negras
cujos filhos partiram)
Vão em busca de vida.


Agostinho Neto
(Sagrada Esperança)









Rui Mingas

Mais tarde




A minha morte chegará um dia
Um dia na primavera, luminoso e gracioso
Um dia de inverno, poeirento, distante
Um dia vazio de outono, desprovido de alegria.

A minha morte chegará um dia
Um dia doceamargo, como todos os meus dias
Um dia oco como o que passou
Sombra de hoje ou de amanhã.

Os meus olhos adaptam-se à penumbra dos pátios
As minhas faces parecem frio, pálido mármore
Subitamente o sono arrasta-se sobre mim
Livro-me de todos os gritos dolorosos.

Lentamente minhas mãos deslizam sobre anotações
Que chegaram até mim debaixo do feitiço da poesia,
Relembro que outrora em minhas mãos
Retive o sangue flamejante da poesia.

A terra convida-me para os seus braços,
As gentes reúnem-se para me sepultar aqui
Talvez à meia-noite os meus amantes
Coloquem sobre mim coroas de muitas rosas.


Forough Farrokhzad
tradução: Vasco Gato

Transcrito do blog da amiga Márcia Maia, Alfabeto.
Beijo, amiga!

Sonho

Emanuel Pais - Samy e um gémeo (foto em Caminhadas e Descoberta em STP)


Pudesse eu um dia voltar à minha terra
ver os coqueiros e os cafezais em flor
ver as sanzalas transformadas em casas dignas
de homens que trabalham noite e dia

pudesse eu tornar a ver-te mãe
e abraçar-te e beijar-te até não mais
e ver finalmente os meus irmãos de cor
respeitados como eu sempre sonhei

pudesse eu ver as palmeiras da avenida
gingando ao vento e ao grande calor
e pisar essa terra agora nossa

pudesse eu daqui dizer-vos tudo
que sinto e que quero transmitir
pois mesmo longe estarei sempre ao vosso lado


Maria Olinda Beja
Bô Tendê?

Rota longa




Irei na rota branca
da rosa de espuma
na hora madrugada
promissora da brisa.

Rota longa rota longa

Irei com a pétala ressequida
da tórrida paisagem
para além das distâncias secas.

Rota longa rota longa

Rota longa de espuma
vou irei espalhar minhas pétalas ressequidas
na hora madrugada
das correntes desatadas.

Rota longa rota longa

Vou irei sem detença
para além das distâncias secas
em busca do abraço ancorado
na outra margem da curva líquida.

Rota longa rota longa

Vou irei na hora alta desta vigília
e a manhã clara acontecerá.

Rota longa rota longa

Vou irei contra todas as cadeias protestantes do meu rumo
em cada protesto que embarco
na ondulação que se desatraca.


Teobaldo Virginio
(in "Viagem para lá da fronteira", 1973, Lisboa,
Publicações da Casa de Cabo Verde)

Bem sei





Bem sei
ser sol
quando
tudo em mim
anoitece.


Zhô Bertholini

Também já fui brasileiro




Eu também já fui brasileiro
moreno como vocês.
Ponteei viola, guiei forde
e aprendi na mesa dos bares
que o nacionalismo é uma virtude.
Mas há uma hora em que os bares se fecham
e todas as virtudes se negam.

Eu também já fui poeta.
Bastava olhar para mulher,
pensava logo nas estrelas
e outros substantivos celestes.
Mas eram tantas, o céu tamanho,
minha poesia perturbou-se.

Eu também já tive meu ritmo.
Fazia isso, dizia aquilo.
E meus amigos me queriam,
meus inimigos me odiavam.
Eu irônico deslizava
satisfeito de ter meu ritmo.
Mas acabei confundindo tudo.
Hoje não deslizo mais não,
não sou irônico mais não,
não tenho ritmo mais não.


Carlos Drummond de Andrade
Alguma Poesia (1930)

Sinais de preocupação

Cartoon de Luís Afonso


Escutar todos os nossos políticos, ver, ler ou ouvir a comunicação social, dar ouvidos ás várias corporações ou dar crédito a todos os lobbies, hoje em dia, é um acto de demência. Ninguém fica esclarecido, e a ideia não é esclarecer, obviamente…

Qualquer cidadão anónimo que tenha uma mediana inteligência e possua um mínimo de sensibilidade social, tenha suficiente acuidade auditiva e visual, perante o penoso dia-a-dia chega a algumas observações.

Os sinais de desconforto que se vêm e ouvem, as conversas de café e de transportes públicos, o descrédito (o real e o induzido) da classe política, o desprezo que uma parte de nós sente por algumas atitudes e formas de fazer política, levam a crer a eminência de que algo estará para suceder, quanto mais não seja porque a situação já aparenta ser irresolúvel.

Sem ser adepto de teorias conspirativas, sinto demasiado a ebulição contida, o calor e o cheiro a esturro…

- As finanças públicas estão num nível mais profundo que a Fossa de Mindanau!! Não se vislumbra qualquer remédio possível e ninguém faz por credibilizar uma qualquer solução que colectivamente assumamos ser a ideal, sabendo-se que não deixará de passar pelos mesmos apertos e cortes de sempre!

- Funcionários ministeriais confidenciam a particulares, que fazem divulgação de produtos financeiro, que o melhor é comprarem conservas em lata porque o “clima” vai …aquecer no Outono!

- As forças de segurança estão cada vez mais viradas para conquistas corporativas que na estrita defesa da ordem e da segurança públicas.

- Os militares estão em absoluta efervescência. Já me pareceu mais longe o momento em que haverá necessidade de uma qualquer “brigada do reumático” em nome de sublevados assumidos, ou não, tenha que prestar vassalagem aos dignitários de um regime mal amado, mal construído, mal defendido e, aparentemente, em declínio. É bom não esquecer que, se as Forças Armadas «fizeram» o 25 de Abril, mais vezes interferiram nos últimos 100 anos para que a democracia não vencesse.

- A vontade de restauracionismo de 24 de Abril, patente na direita, viu-se na vitória de 2002, sentiu-se na sua acção, na sua atabalhoada tentativa de manter o poder a todo o transe, sentiu-se e continua a sentir-se todos os dias. A fé sebastiânica na vitória presidencial de 2006 encaixa-se no propósito, propicia mais uma vez a ideia de vingança e dá corpo á tradicional, desde os tempos do Estado Novo, guerrilha entre Belém e São Bento.

- O agudizar de situações de extremismo, a sua proliferação, a sua defesa, publicitação e inacreditável incapacidade de lutar contra essas organizações.
De cada vez que se abre mais o fosso da pobreza criam-se as condições básicas de poder para estas correntes marginais.

- A falta de credibilidade de um sistema judicial, verdadeiramente justo, democrático, organizado e de acessibilidade universal é algo de inaceitável!... Se há falha aqui, há falha na qualidade do estado de direito democrático! Quando a única preocupação na justiça parece ser a diminuição das férias judiciais, creio que está tudo dito!!!... Não haverá mais nada a fazer naquele ministério?? Depois do que Alberto Costa fez na Administração Interna no tempo de Guterres não era de esperar outra coisa!!!

- A cedência do governo em questões de princípioe de ética, em favor de soluções populistas é preocupante! É salutar, e necessário, é absolutamente imprescindível, reformar… mas isso tem que ser feito sem estratégia, sem pensar, por atacado, sob pressão mediática?? Não há ninguém capaz de parar para pensar, bem, uma vez que seja??

- Há demasiadas vozes por esse país fora, por esse espaço virtual, a efectuarem a apologia de situações que pressupõem «caudilhismos pseudo-independentes pró-eanistas» que, sinistramente apelam a falsos unanimismos e amanhãs que riem, cheios de virtudes, alegrias esfusiantes e progresso social e económico imparáveis… Peronismo nem na Argentina funcionou!!!.. Sassá Mutema não passou de um personagem de telenovela… Dom Sebastião jamais voltará!!!

- Sinto hoje, aqui, amargamente, o mesmo que senti em 1996, em Angola e relativamente a essa terra maravilhosa… O país está a saque!! Perante a incerteza do poder e o risco da queda, a tentação de predação é enorme… há pessoas estupidamente ricas, uma infinita maioria a viver cada vez de forma menos remediada (gasta-se 118 %, em média, do que se ganha)… e um número crescente a viver na indigência, ou perto! Pressentem-se todas as tropelias e ninguém mexe uma palha… Angola era auto-suficiente no capítulo alimentar, morria-se (e morre-se) á fome. Uma visita ao Angoy-Frankas (ex-Jumbo de Luanda) revelava prateleiras cheias de produtos… portugueses.
Não me ocorre ter visto nada com a etiqueta de «Produto de Angola»… Por aqui vivemos quase o mesmo síndroma – raros são os produtos portugueses.

- É público e notório o desnorte perante as continuadas deslocalizações de empresas, apesar o esforço no seu combate e no facto de que, cada mês que se adia o destino fatal constituir, economicamente, a ampliação da sepultura da economia portuguesa – tão grandes, tão mal aproveitados são os benefícios oferecidos e tanto desprezo pelas autoridades portuguesas… É assustador, de cada vez que tal é referido, que a «acusação» recaia sobre os «altos» salários dos trabalhadores portugueses… sabendo-se que, á falta de imaginação, virão mais e mais sacrifícios!

- Tornou-se óbvio há muito que se mantivemos a independência durante 9 séculos não conseguiremos chegar ao milénio. As sucessivas guerras que vencemos, e tornaram viável este rectângulo, constituem glórias, efémeras, do passado… Aquela que urgia travar, está perdida há muito, muito por culpa de empresários que destratam os «maus» trabalhadores portugueses, os mesmos que fazem a riqueza de outros países… Os mesmos empresários que fazem do combate aos funcionários públicos a razão da sua existência, não com intuitos reformistas ou de aumento de eficácia, mas para que mais lhes sobre para a operação de mendigagem de subsídios a título de tudo e de nada. Que necessidade têm os empresários portugueses de investir, de arriscar, de internacionalizarem as suas empresas, de defender, dessa forma, a economia portuguesa se, por via dos subsídios do estado, o lucro está garantido??

Acho que chegou o momento de, com a serenidade possível, entendermos que conduzimos, colectivamente, o país a uma encruzilhada não sendo possível manter as evasivas e as hesitações quanto ao nosso futuro colectivo.

Salvaguardando o essencial, a democracia, a liberdade e a superioridade de podermos regular as nossas relações e construir o nosso futuro com base em leis, há que ter a coragem de colocar tudo em causa… pensarmos numa forma de melhor construirmos as nossas organizações políticas e económicas, numa forma saudável de, com isso, construirmos o nosso futuro e o dos nossos filhos, dando melhores condições de governabilidade áqueles que, de forma positiva e responsável soubermos eleger e a quem, com toda a naturalidade não tenhamos que pedir responsabilidades porqu,e a todo o momento, estarão nas nossas mãos.

O nosso futuro colectivo não pode ser viver á conta da «subsídiodependência» de Bruxelas…

O nosso problema é de rumo… e a pergunta fatídica é – O QUE QUEREMOS AFINAL DO NOSSO PAÍS???

Creio não ser responsabilidade de Bruxelas responder á pergunta mas, de certeza, que têm resposta para ela… compete-nos não continuar a assobiar para o lado e enfrentar, de vez e seriamente, o problema!

Irmão branco




Tuas sementes mortas não poderiam brotar

Misturaste meu sangue negro
na massa de uma terra que desejaste unicamente para ti
Empunhaste os membros que te dei - irmão branco -
e extraiste fortunas no lodaçal onde meus olhos viram a luz

Assim, dia a dia, construiste na destruição
a sepultura dos teus sonhos
hora a hora inoculaste nas minhas veias
o fel que amargamente terias de beber

Agora só te resta o mar - contempla-o -
nessa imendidade
- quiçá -
tens a visão de um símbolo que desfizeste: a união

Onde teus caprichos de negreiro?
Onde tuas galeras repletas das minhas vidas que vendeste
Onde teu fasto que meus filhos extrairam desta lama para te dar?

Tua intolerância, tua inconsciência
Onde? Onde?
Acolhi-te na inocência da minha simplicidade
como uma criança
Tudo foi teu
meus segredos meus tesouros
meus filhos teus escravos
meu corpo teu tapete

E esse deslumbramento foi tua sepultura
Nada viste nem poderias ver

Finalmente só te resta o mar - símbolo da união -
caminho profundo e imenso que te trouxe e hoje te leva

Meus filhos desprezados não te amaram
meus tesouros não poderiam brolhar eternamente na tua fronte
Tua cor que tanto defendeste altivamente
foi tudo
foi o mal que não viste e te destruiu

Branco:
escuta-me um momento
ainda é tempo
porque te falo de irmão para irmão
No mistério daquilo que nos formou
- considera-me -
Só isso nos basta
Só isso
e estende-me tua mão.


Luís Romano
(Clima, 1963)

Do povo buscamos a força




Não basta que seja pura e justa
a nossa causa
É necessário que a pureza e a justiça
existam dentro de nós.

Dos que vieram
e connosco se aliaram
muitos traziam sobras no olhar
intenções estranhas.

Para alguns deles a razão da luta
era só ódio: um ódio antigo
centrado e surdo
como uma lança.

Para alguns outros era uma bolsa
bolsa vazia (queriam enchê-la)
queriam enchê-la com coisas sujas
inconfessáveis.

Outros viemos.
Lutar pra nós é ver aquilo
que o Povo quer
realizado.
É ter a terra onde nascemos.
É sermos livres pra trabalhar.
É ter pra nós o que criamos
Lutar pra nós é um destino -
é uma ponte entre a descrença
e a certeza do mundo novo.

Na mesma barca nos encontramos.
Todos concordam - vamos lutar.

Lutar pra quê?
Pra dar vazão ao ódio antigo?
ou pra ganharmos a liberdade
e ter pra nós o que criamos?

Na mesma barca nos encontramos
Quem há-de ser o timoneiro?
Ah as tramas que eles teceram!
Ah as lutas que aí travamos!

Mantivemo-nos firmes: no povo
buscáramos a força
e a razão

Inexoravelmente
como uma onda que ninguém trava
vencemos.
O Povo tomou a direcção da barca.

Mas a lição lá está, foi aprendida:
Não basta que seja pura e justa
a nossa causa
É necessário que a pureza e a justiça
existam dentro de nós


Agostinho Neto

Os 2 primeiros poemas da Impaciência


I

Tatuagens de lua
no corpo quente
da terra-mãe

e assim nua nua
no leito vermelho
virginal ainda
ela espera a semente
que tarda a chegar

que tarda a chegar

II

Que venham
mas não de braços cruzados

aqui amigos
o sexo vermelho da terra
lateja de febre e de cio

é preciso saciá-lo
e depressa

que venham
sim que venham
mas repito não de braços cruzados

aqui amigos
aqui
a terra fenece
na fome de arados
que tardam em chegar

que tardam a chegar

ah! que tardam tanto a chegar


Rui Nogar

New Orleans

Foto daqui



Encontrei aqui esta carta de Michael Moore que subscrevo em absoluto.



Friday, September 2nd, 2005

Dear Mr. Bush: Any idea where all our helicopters are? It's Day 5 of Hurricane Katrina and thousands remain stranded in New Orleans and need to be airlifted. Where on earth could you have misplaced all our military choppers? Do you need help finding them? I once lost my car in a Sears parking lot. Man, was that a drag.

Also, any idea where all our national guard soldiers are? We could really use them right now for the type of thing they signed up to do like helping with national disasters. How come they weren't there to begin with?

Last Thursday I was in south Florida and sat outside while the eye of Hurricane Katrina passed over my head. It was only a Category 1 then but it was pretty nasty. Eleven people died and, as of today, there were still homes without power. That night the weatherman said this storm was on its way to New Orleans. That was Thursday! Did anybody tell you? I know you didn't want to interrupt your vacation and I know how you don't like to get bad news. Plus, you had fundraisers to go to and mothers of dead soldiers to ignore and smear. You sure showed her!

I especially like how, the day after the hurricane, instead of flying to Louisiana, you flew to San Diego to party with your business peeps. Don't let people criticize you for this -- after all, the hurricane was over and what the heck could you do, put your finger in the dike? And don't listen to those who, in the coming days, will reveal how you specifically reduced the Army Corps of Engineers' budget for New Orleans this summer for the third year in a row. You just tell them that even if you hadn't cut the money to fix those levees, there weren't going to be any Army engineers to fix them anyway because you had a much more important construction job for them -- BUILDING DEMOCRACY IN IRAQ!

On Day 3, when you finally left your vacation home, I have to say I was moved by how you had your Air Force One pilot descend from the clouds as you flew over New Orleans so you could catch a quick look of the disaster. Hey, I know you couldn't stop and grab a bullhorn and stand on some rubble and act like a commander in chief. Been there done that. There will be those who will try to politicize this tragedy and try to use it against you. Just have your people keep pointing that out. Respond to nothing. Even those pesky scientists who predicted this would happen because the water in the Gulf of Mexico is getting hotter and hotter making a storm like this inevitable. Ignore them and all their global warming Chicken Littles. There is nothing unusual about a hurricane that was so wide it would be like having one F-4 tornado that stretched from New York to Cleveland.

No, Mr. Bush, you just stay the course. It's not your fault that 30 percent of New Orleans lives in poverty or that tens of thousands had no transportation to get out of town. C'mon, they're black! I mean, it's not like this happened to Kennebunkport. Can you imagine leaving white people on their roofs for five days? Don't make me laugh! Race has nothing -- NOTHING -- to do with this! You hang in there, Mr. Bush. Just try to find a few of our Army helicopters and send them there. Pretend the people of New Orleans and the Gulf Coast are near Tikrit.

Yours, Michael Moore

Feiticeira




De que noite demorada
Ou de que breve manhã
Vieste tu, feiticeira
De nuvens deslumbrada

De que sonho feito mar
Ou de que mar não sonhado
Vieste tu, feiticeira
Aninhar-te ao meu lado

De que fogo renascido
Ou de que lume apagado
Vieste tu, feiticeira
Segredar-me ao ouvido

De que fontes de que águas
De que chão de que horizonte
De que neves de que fráguas
De que sedes de que montes
De que norte de que lida
De que desertos de morte
Vieste tu feiticeira
Inundar-me de vida.


Luís Represas




Luís Represas e Pablo Milanés
Feiticeira

Pobre velha música





Pobre velha música!
Não sei porque agrado,
Enche-se de lágrimas
Meu olhar parado.

Recordo outro ouvir-te.
Não sei se te ouvi
Nessa minha infância
Que me lembra em ti.

Com que ansia tão raiva
Quero aquele outrora!
E eu era feliz? Não sei:
Fui-o outrora agora.


Fernando Pessoa