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Balada da Flor de Espuma
























Foto de Salucombo_Jr em "Portfolio Photografico"





Descalça vai pro mercado
Don’ Ana pelas barrocas
vai formosa e vai segura...

Com quatro notas de cem,
em alegre sinecura
leva na boca o refrém
duma canção de ternura.
Vai formosa, e tão segura
Don’ Ana pelas barrocas...

Don’ Ana foi ao mercado,
foi ao mercado do Prenda
com quatro notas de cem
e com uma fome tremenda!
Com seu passinho estugado,
descalça pelas barrocas,
foi de quitanda em quitanda
Don’ Ana pelo mercado,
depressa, como quem anda
a cogitar no almoço.
Pelo mercado do Prenda,
foi num alegre alvoroço
com quatro notas de cem
florindo-lhe a mão pequena.

Mas de quitanda em quitanda.
saltando daqui para além
– com que surpresa, coitada!
com quatro notas de cem
Don’ Ana não comprou nada!

Cada vez mais lentamente,
foi de quitanda em quitanda
olhando p’ra toda a gente.
E as quatro notas de cem,
quatro pétalas de espuma
como uma coisa indecente,
como flor de frustração,
foram murchando uma a uma...

Descalça pelas barrocas,
Don’ Ana voltou p’ra casa
devagar, como quem chora.
E as quatro notas de cem
que Don’ Ana deitou fora
com o desgosto de as ter,
cantam ainda o refrém
numa vozinha cansada:

“mal-me-quer
bem-me-quer,
muito-pouco,
ou nada...”



Henrique Abranches

Ao bater da chuva




















A porta fechada é uma obsessão.
As vozes caladas em torno de nós,
as pausas alongadas em silêncios de uma angústia
nova,
são a descontinuidade do tempo interrompido
dentro da casa que arrombaram ontem,
no coração da aldeia do Mazozo.
A chuva cai em bátegas doces, a chuva bate o capim
molhado,
e soa...
A humanidade é fria.

As mulheres já choraram tudo
- A Mãe Gonga comandou o coro.
Esvaem-se agora em surdina muda,
que agudiza o bater da chuva.
Os homens dizem de quando em quando
um nome obstinado.

Chamava-se Infeliz
aquele rapaz
que levaram ontem
do coração da aldeia.

A chuva matraqueia ainda e sempre
na porta fechada como uma obsessão.
Como ela nos lembra o som odiado
que dia após dia
nos sobressalta!
Como ela recorda o som da metralha,
que dia após dia
desce o morro da Calomboloca
e bate naquela porta fechada,
obcecada de protecção!

A gente conhece o som da metralha
quando ela vem no fim do dia.
Quando ela vem, silencia a aldeia,
então, em sobressalto, o povo diz:
- Foram fuzilados...

E ninguém sabe do Infeliz,
aquele rapaz que levaram ontem...




Henrique Abranches

Ode solitária





















Misturam-se as ideias num concerto atonal,
esvoaçam palavras com a brisa que vem da chana.
Palavras de mensagem que perderam o Norte
como grãos de uma areia leviana
varrendo a paisagem matinal
dum Namibe que cheira ainda a morte.

A solidão do poeta
na sua casa assombrada,
tem a dimensão abissal
dum Kombaditókua no deserto.
Murmúrio de uma vida asceta
com factos cheios de nada,
regressos e batalhas adiadas,
vitórias apenas vislumbradas,
ladainhas de aprendiz de profeta
com uma voz de modelar incerto!
Na casa assombrada do poeta
a maravilhosa criança morreu no feto.

Lá fora ribomba o temporal.
Trovões, aguaceiros, vento em rabanadas
que ameaçam cada vez mais perto
empapando os caminhos da História!
Tempo imoral de fantasmas de gesta
que correm do passado para o futuro.

E a solidão do poeta no ermo da sua casa,
no beiral da tempestade em festa,
entre quatro paredes que não têm tecto,
sobrevive como a estátua equestre
duma velha fraternidade
desprovida de objecto.
Nem mesmo a multidão que manifesta
os formidáveis ideias que já perdeu,
que recita as palavras de ordem
de uma ordem senil e diluída
como a prece do moribundo ateu
que pergunta por deus no fim da vida,
vence o medo e ultrapassa a musa
que pouco a pouco se entranhou de desgraça.

A solidão verdadeira do poeta,
no abraço da multidão confusa
é a solidão de toda a massa
de um povo heróico que perdeu a meta.



Henrique Abranches