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As muralhas da Noite




A mão ía para as costas da madrugada

As mulheres estendiam as janelas da alegria

onde não se apagavem as alegrias

Entre os dentes do mar acendiam-se braços

Os dias namoravam sob a barca do espelho

Havia uma chuva de barcos enquanto o dia tossia

E da chuva de barcos chegavam colchões,

camas, cadeiras, manadas de estradas perdidas

onde cantavam soldados de capacetes

para pintar no coração da meia-noite

Eram os barcos que guardavam as muralhas

da noite que a mão ouvia nas costas

da madrugada entre os dentes do mar...




João Maimona

Eu cantava as lágrimas
























Para ti, rapariga sem nome,
cujos dedos atravessaram meu
muro com suas estrelas

fazia de teu rosto a semente,
o sol da carícia,
as palavras do dia cinzento.

de tua língua fazia a luz,
as folhas, as árvores
dos lugares que nos restam.

e do rio da pele
eu cantava a pele do coração.

cantava as lágrimas sólidas
nos olhos da noite onde
fingias dizer as noites onde
dizias não ser a raiz da estrada.

cantava as lágrimas antigas
que caíam no cesto dos sonhos
do dia que escondia o tempo
do dia que adivinhava os lugares.

e do rio da pele
eu tocava a pele do coração.


João Maimona

Ó Angola meu berço do Infinito


















Ó Angola meu berço do Infinito
meu rio da aurora
minha fonte do crepúsculo
Aprendi a angolar
pelas terras obedientes de Maquela
(onde nasci)
pelas árvores negras de Samba-Caju
pelos jardins perdidos de Ndalatandu
pelos cajueiros ardentes de Catete
pelos caminhos sinuosos de Sambizanga
pelos eucaliptos das Cacilhas
Angolei contigo nas sendas do incêndio
onde os teus filhos comeram balas
e
regurgitaram sangue torturado
onde os teus filhos transformaram a epiderme
em cinzas
onde das lágrimas de crianças crucificadas
nasceram raças de cantos de vitória
raças de perfumes de alegria
E hoje pelos ruídos das armas
que ainda não se calaram pergunto-me:
Eras tu que subias montanhas de exploração?
que a miséria aterrorizava?
que a ignorância acompanhava?
que inventariavas os mortos
nos campos e aldeias arruinados
hoje reconstituídos nos escombros?
A resposta está no meu olhar
e
nos meus braços cheios de sentidos

(Angola meu fragmento de esperança)
deixai-me beber nas minha mãos
a esperança dos teus passos
nos caminhos de amanhã
e
na sombra d´árvore esplendorosa.)



João Maimona
In “Traço de união”

Acalmia ruidosa. Em quatro sinos

















1. instante inicial

eis a história das sílabas igualmente
os confins das linhas de água.
a alegria peregrina percorre cidadelas
como as sentinelas do mar: as águas
vêm dar à beleza das sílabas
como se houvesse um luminoso
reencontro: era o instante inicial.


2. primeiro instante intermédio

esperava que a paisagem pintasse
noites vizinhas. e insígnias rebuscando
cacimbos numa desconhecida povoação.
porém, apareceram riozinhos esverdeados
iluminando armadilhas, angústias
e telas infernais: a nação comum
encerrando torturas sobre as lágrimas.


3. segundo intermédio

parecia um reino de pasto fascinante
suficiente para enriquecer estômagos estranhos.
precioso? os rios não diziam o contrário.
e desfilava maldita miséria insuficiente
para desencantar a plenitude humana.
em reino que raspava a fortuna
crescia a flor do dia frequentando
abraços virgens. Ricos em sonhos enfeitiçados.


4. instante final

teria o solo da eternidade outras cinzas?
onde adormece o abrigo crescem
um insondável silêncio e delicadas
folhas cuja cor saúda a origem da sombra:
todas as cinzas pronunciavam a eternidade.
era a repetição dos passos e imagens.
imagens estáticas do milénio anterior.



João Maimona

É útil redizer as coisas



















Foto daqui




É útil redizer as coisas
as coisas que tu não viste
no caminho das coisas
no meio de teu caminho.

Fechaste os teus dois olhos
ao bouquet de palavras
que estava a arder na ponta do caminho
o caminho que esplende os teus dois olhos.

Anuviaste linguagem de teus olhos
diante da gramática da esperança
escrita com as manchas de teus pés descalços
ao percorrer o caminho das coisas.

Fechaste os teus dois olhos
aos ombros do corpo do caminho
e apenas viste uma pedra
no meio do caminho.

No caminho doloroso das coisas.



João Maimona