Três visões do inferno
domingo, abril 22, 2007

NOITE INFERNAL
Esta mágoa em noite de cacimbo
martela lentamente o pensamento
no instante em que ruge o avião
partindo o silêncio com estrondo...
as bombas vomitando o fogo
que a combustão do napalm espalha
nas aldeias de fantasmas famintos
que matam todas as esperanças
da gente pobre e franzinas crianças
que tentam fugir de qualquer jeito
- vergonha da pátria sem o proveito!
Meus olhos brilharam de espanto
ao verem a sanzala em chamas...
ali sufocadas no calor das labaredas
ficaram as crianças de choro abafado,
bombas a rasgar sulcos nas veredas
por onde se arrastavam os corpos
queimados num sofrimento danado.
Quando a consciência salta o orvalho
por um lapso de tempo vi o inferno
com as bombas riscando os céus...
o rebentamento de efeito medonho
rasgou as palhotas com gente dentro
e o aniquilamento daquela sanzala
deixou-me preso à sequência da morte
com a garganta presa e sem fala.
Um cheiro intenso ataca as narinas
perde-se a seiva nas balas de fogo
e dilui-se o medo do alastramento
de tantas queimadas feitas à toa...
o absurdo de quem manda no jogo
está muito longe, talvez em Lisboa!
Joaquim Coelho
Onzo, 1962
in "Espaço Etéreo"
ALDEIA QUEIMADA
Mas
nas noites
desparasitadas de estrelas
é que as hienas
actuam.
É
de cinzas
o vestígio das palhotas.
José Craveirinha
in "Babalaze das Hienas"
AUTOBIOGRAFIA
Não existe mais
a casa onde nasci
nem meu Pai
nem a mulembeira
da primeira sombra.
Não existe o pátio
o forno a lenha
nem os vasos e a casota do leão.
Nada existe
nem sequer ruínas
entulho de adobes e telhas
calcinadas.
Alguém varreu o fogo
a minha infância
e na fogueira arderam todos os ancestres.
Costa Andrade
In “Palavra de Poeta”








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