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Canção do crepúsculo





















morrem
na paleta do sol no ocaso
os derradeiros tons

ao raiar da aurora
floresce a luta

e o amor renasce



Jofre Rocha

Canção do crepúsculo




















morrem
na paleta do sol no ocaso
os derradeiros tons
ao raiar da aurora
floresce a luta
e o amor renasce



Jofre Rocha

Paisagem do nordeste


















rio estátua
braço sem carne

chuva no mar
em terra seca

sol na paisagem
terra em desgraça

fome nos lábios
fome nos olhos

ossadas brancas
urubus em volta

terra em brasa
ar calcinado

plantas com fome
homens com fome

fome nos olhos
no ar morte




Jofre Rocha

Canto para Angola
















Hei-de compor um dia
um canto sem lirismo
nem tristeza
digno de ti, ó minha terra.
Hei-de compor um canto
livre e sem regras
que de boca em boca vai partir
nos lábios de velhos e meninos.
Será o canto do pescador
com todos os sons do mar
com os gemidos do contratado
nas roças de São Tomé.
Será o canto de todos os dramas
do algodão do Lagos & Irmão
o das tragédias nas minas
da kitota e da Diamang.
Será o canto do povo
o canto do lavrador
e do estudante
do poeta
do operário
e do guerrilheiro
falando de toda Angola
e seus filhos generosos.




Jofre Rocha

Cântico de Alforria

























Vem, segura a minha mão
Iniciemos um roteiro amargo de peregrinação:
Pelo trilho batido do fundo da floresta
Partamos até ao mar cruel
O mar sem fim, veículo da nossa servidão.

Não, não feches os olhos à tragédia
Olha os negreiros ancorados na baía da
[nossa desgraça
Os nossos irmãos acorrentados
Como gado, sorvidos pelo negrume dos
[bojos insaciáveis
Semelhando ventres de deuses bárbaros.
Virgínia, Alabama
Mississipi
Sangue vermelho
Suor de negro branqueando algodão
Cuba, Brasil
Martinica
Mais sangue vermelho,
Suor de negro movendo engenhos de açúcar.

Eis o nosso povo sacrificado
Eis a nossa gente
A nossa gente transpondo mares e mares
Carne da nossa carne
Sangue do nosso sangue disperso pelo Mundo.

Vem, segura a minha mão serena
Em passo firme caminhemos até à orla do mar algoz
Escutemos as vozes perdidas na profundeza
[dos abismos
Os ecos dos gritos abafados
Congelados em pedaços de nossa carne
[ensangüentada
Congelados em miríades de búzios abandonados
[ao sabor das ondas

Vem, irmão, seca as lágrimas nas pupilas
Toma a minha mão amiga
Percorramos o mesmo trilho batido do fundo
[da floresta
Na jornada de regresso que nosso povo não caminhou
E à volta da árvore milenar à beira do caminho
Saudemos a alforria ansiada pela nossa geração.



Jofre Rocha
In Tempo de cicio

Quando a Manhã Vier





Quando a manhã vier
com um sol maduro
ofertando beijos
aos órfaos da ternura
quando a manhã vier
em apoteose de luz
a semear no vento
risos de alegria


quando a manhã vier
definitivamente
em alvorecer roseo
de paz e tranquilidade


de mãos nas mãos
saberemos chegado o nosso dia.


Jofre Rocha
(1961)


E a manhã chegou há 30 anos!
Finalmente.

Poema do regresso


.. Posted by Picasa


Quando eu voltar da terra do exílio e do silêncio,
não me tragam flores.

Tragam-me antes todos os orvalhos,
lágrimas de madrugadas que presenciam dramas.
Tragam-me a fome imensa de amor
e o queixume dos sexos túrgidos na noite constelada.
Tragam-me a noite longa de insônia
com mães chorando de braços vazios de filhos.

Quando eu voltar da terra do exílio e do silêncio,
Não, não me tragam flores...

Tragam-me apenas, isso, sim,
o último desejo dos heróis tombados ao amanhecer
com uma pedra sem asas na mão
e um fio de cólera a esgueirar-se dos olhos.


Jofre Rocha
60 canções de amor e luta

Quando a manhã vier


.. Posted by Hello


Quando a manhã vier
com um sol maduro
ofertando beijos
aos órfaos da ternura
quando a manhã vier
em apoteose de luz
a semear no vento
risos de alegria

quando a manhã vier
definitivamente
em alvorecer roseo
de paz e tranquilidade

de mãos nas mãos
saberemos chegado o nosso dia.


Jofre Rocha
(1961)

INSUBMISSÃO

Cansei-me deste horror de silêncio
a encobrir murmúrios nas bocas.

BASTA!

Prefiro alarido,
gritos de luz nas órbitas vazias.
Jofre Rocha
Do livro: "Tempo de cicio", Cadernos Capricórnio, 1973, Angola/África