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Símbolo


















O formato daquele berço foi um símbolo
O menino em miragens impossíveis
dormia sonhando com navios de papel
enquanto eu contemplava
a cismar,
o conjunto daquela harmonia
sumindo-se na linha do mar.

Navio-berço de menino crioulo
navio-guia que ficou sem ir
“navio idêntico ao navio da nossa derrota parada”.



Luís Romano
In “Clima”

Irmão branco




Tuas sementes mortas não poderiam brotar

Misturaste meu sangue negro
na massa de uma terra que desejaste unicamente para ti
Empunhaste os membros que te dei - irmão branco -
e extraiste fortunas no lodaçal onde meus olhos viram a luz

Assim, dia a dia, construiste na destruição
a sepultura dos teus sonhos
hora a hora inoculaste nas minhas veias
o fel que amargamente terias de beber

Agora só te resta o mar - contempla-o -
nessa imendidade
- quiçá -
tens a visão de um símbolo que desfizeste: a união

Onde teus caprichos de negreiro?
Onde tuas galeras repletas das minhas vidas que vendeste
Onde teu fasto que meus filhos extrairam desta lama para te dar?

Tua intolerância, tua inconsciência
Onde? Onde?
Acolhi-te na inocência da minha simplicidade
como uma criança
Tudo foi teu
meus segredos meus tesouros
meus filhos teus escravos
meu corpo teu tapete

E esse deslumbramento foi tua sepultura
Nada viste nem poderias ver

Finalmente só te resta o mar - símbolo da união -
caminho profundo e imenso que te trouxe e hoje te leva

Meus filhos desprezados não te amaram
meus tesouros não poderiam brolhar eternamente na tua fronte
Tua cor que tanto defendeste altivamente
foi tudo
foi o mal que não viste e te destruiu

Branco:
escuta-me um momento
ainda é tempo
porque te falo de irmão para irmão
No mistério daquilo que nos formou
- considera-me -
Só isso nos basta
Só isso
e estende-me tua mão.


Luís Romano
(Clima, 1963)

Vida

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A crioula que meus olhos beijaram a medo
predeu-se na confusão de um porto francês

Ela sorria continuamente, erguendo no seu riso uma cançaão extraordinária.

Não foi um romance de amor
nem mesmo um pequeno segredo entre ambos.

Somente, quando Ela falava ao pé de mim, eu sentia:
um aprazível devaneio
pela maravilha escultural duma Mulher Perfeita.

Depois,
a Vida separando Nós-Dois
a confusão, os ruidos, os braços agitando-se
e o vapor levando para outros mares,
outros portos,
a graça, o mistério, o perfume e os cantares
da crioula que meus olhos beijaram a medo
no tombadilho daquele vapor francês.


Luís Romano
(Clima, 1963)