segunda-feira, julho 23, 2007
Cacusso
"Rei do lixo" de Kiluanji Kia Henda, da sua galeria
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.
Manuel Bandeira
terça-feira, setembro 21, 2004
Cacusso

Quando estás vestida,
Ninguém imagina
Os mundos que escondes
Sob as tuas roupas.
(Assim, quando é dia,
Não temos noção
Dos astros que luzem
No profundo céu.
Mas a noite é nua,
E, nua na noite,
Palpitam teus mundos
E os mundos da noite.
Brilham teus joelhos.
Brilha o teu umbigo.
Brilha toda a tua
Lira abdominal.
Teus seios exíguos -
Como na rijeza
Do tronco robusto
Dois frutos pequenos -
Brilham.)
Ah teus seios!
Teu dorso!
Teus flancos!
Ah, tuas espáduas!
Se nua, teus olhos
Ficam nus também;
Teu olhar mais longo,
Mais lento, mais líquido.
Então, dentro deles,
Bóio, nado, salto,
Baixo num mergulho
Perpendicular!
Baixo até o mais fundo
Do teu ser, lá onde
Me sorri tua alma,
Nua, nua, nua.
Manuel Bandeira..