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Desenhar














Foto de Maria Branco



Desenhar
teu perfil com um dedo de criança
na areia de uma praia virgem

Andar
com pés calçados de esperança
caminhos de vertigem

Navegar
um barco de solidão
numa vaga dorida

Inventar
Versos para uma canção
De outra manhã florida.



Manuel Rui

Sempre mar


















Cabo Ledo, Julho de 1996




Mar vezes quando o sol nos enche os olhos
e no promete mais vezes no olhar
fecham-se os olhos no rolar do tempo
de ver andar o antes e o depois
numa miragem que se chama mar
Mar prometendo mais vezes de vermelho
luz transformada num redondo
esquivo
um sol de devagar como descendo
da guerra sem estrondo
na lúcida mutação
de sempre mar.

E a tarde é todo um fim
um beijo tão molhado despenteado
como uma boca a tua boca à beira-
mar depois das ondas e diferentes
princípio de um começo como a noite
antes de o sol se adormecer aquático
formam-se linhas como os pensamentos
linhas carícias que nos fazem ver
que entre os passos da areia e os nossos movimentos
há sempre um pôr-do-sol
de um sol para nascer.



Manuel Rui

Obama e um acto de cultura universal





















Por Manuel Rui, gentilmente enviado pelo amigo Aires Bustorff





Eu sempre me confundi na realidade com a utopia. Ou na insatisfação constante como forma quase de fingir felicidade na busca, na procura e imitação de coisas muito simples como o voar dos pássaros, o declinar do sol, o brilho das estrelas e o mistério das conchas que aconteciam com os meus pés à beira mar na areia. Sempre não me conseguindo encontrar com o paraíso do infinitamente bom e infinitamente belo para todos, quase desinfinitando a morte que é o único lugar infinito mas parte da vida, o infinitamente belo que até poderia ser um contraste com o infinitamente bom que sempre para mim ficaram sem ser, iguais à inexistência ou à infelicidade de não procurar mais nada, muito antes da nostalgia ou depois da saudade da morte.

Afinal viver é também não imaginar aquilo que pode acontecer enquanto estamos vivos. Só que eu nunca pensei que em vida, para além de tanta coisa que estava, ainda que muito longe, mas no horizonte por detrás da noite e da nuvem, pudesse ainda ter vivido sonhos, porque a minha geração viveu sonhos depois de os ter sonhado no passa-palavra de muitos silêncios. E também viveu a morte de muita alegria triste.

Mas agora era demais. Numa data e hora em que um grande amigo meu fazia anos. Quatro de Novembro. Eu a telefonar-lhe e ele quase ou mesmo esquecido do seu aniversário por causa de OBAMA.

Era algo que nos tocava e falámos ao telefone. Porque era uma coisa que estava impensada no nosso tempo. A utopia tinha ultrapassado a nossa imaginação. Já não era tanto uma eleição ou uma vitória. Fazia semanas que vivíamos a novidade. Principalmente porque OBAMA falara mais ou menos que se mudarmos a sala podemos mudar a casa; e se mudarmos a casa podemos mudar a rua; e se mudarmos a rua podemos mudar a cidade; e se mudarmos a cidade podemos mudar o estado; e se mudarmos o estado podemos mudar o país; e se mudarmos o país podemos mudar o mundo.

OBAMA, em gesto de sagrado, no discurso de Filadélfia, tirou o pé do tiro do reverendo Jeremiah Wright. Embora o reverendo tivesse razão mas era uma razão da memória e da injustiça. Uma razão sobre os que haviam sido negados como pessoas, deixando suor e sangue nas plantações de tabaco e açúcar. Uma razão que podia ser entendida como rancor.

Nesse discurso, OBAMA trouxe uma utopia ligando a jovem Ashley e um mais velho que estava ali por Ashley estar.

No dia e hora em que escrevo este texto ainda não sei se OBAMA ganhou. Mas não é tanto por isso que estou a escrever. É mais por causa do outro que nunca percebeu que eu existo e ele só pode ser também se deixar de estar assim para podermos ser todos.

OBAMA tem um significado do maior acto de cultura universal do início deste século. No século passado, quem tinha televisão ficou uma noite inteira à espera que um homem pisasse a lua.

Neste princípio de século, OBAMA conseguiu criar uma energia, um astral de muitas mãos inteiras pelo pensamento de pessoas de todas as partes do mundo, numa corrente parecida com uma constelação de paz sem fronteriras. E Isso é um acto de cultura que vai ficar.

Não importa que este Messias traga milagres. Importa é o milagre cultural de pôr uma boa parte do mundo inteiro a olhar para ele como um salvador e perder uma noite só a olhar para um televisor como se OBAMA fosse uma madrugada.

No século passado, foram à lua. Agora OBAMA parece que desceu da lua e chegou à terra.

No século passado foi Mandela.

Mas antes de Mandela, o reverendo Luter King já tinha orado que tinha um sonho. O reverendo foi assassinado por causa do sonho.

Mandela tornou realidade um bocado do sonho do reverendo. Por cima de tanta memória que sobrou para os blues.

OBAMA acrescenta mais um bocado de realidade ao sonho do reverendo.

Como Agostinho Neto deixou escrito:

E DO DRAMA INTENSO
DUMA VIDA IMENSA E ÚTIL
RESULTOU CERTEZA

AS MINHAS MÃOS COLOCARAM PEDRAS
NOS ALICERCES DO MUNDO
MEREÇO O MEU PEDAÇO DE PÃO.







Manuel Rui

Serenata




















Caem à noite pedras
sobre o templo
do silêncio
de espaço
um ruído de automóvel
um toque de sinos de uma igreja
monotonia diurna que não quebra
a queda das pedras
no silêncio

De dia o templo é
noite
e à noite há o silêncio
o esgaravatar de uma gaivota em fogo
o estalar de folhas novas
numa árvore
sabendo a vício este cigarro
de cheira a seiva dos pinheiros

E as pedras caem
como chuva ou neve
todas as noites que noites
já são poucas

E a seiva pedra sobre o templo
e a gaivota
o vício
a folha
quebrando este silêncio

Onde as guitarras?
Os quissanges acontecem longe



Manuel Rui
In “No reino de Caliban II
- antologia panorâmica de poesia africana
de expressão portuguesa

Trazias tanto mar na pele dos dedos



















Trazias tanto mar na pele dos dedos
onde o teu corpo é sempre o meu princípio
de nunca querer chegar
ao fim a voz da vaga
quantas vezes te disse e te cantei ?
Quantas vezes sal de pôr na boca
Quantas vezes concha seios de maré
búzio de carne
um leito de água no teu ventre
de marulhado espasmo musical ?

E quando a água aquecia nossa fúria
quantas vezes sentimos que o mar não era tudo
e os olhos queriam mais no meio dos ruídos
cazuarinos
um ximbicar nas coisas sem limite.

Mas põe o nosso corpo nestas dunas
de sol pleno e todo destapado
alimentando o lago da miragem
que se descobre na esquina onde só era
o nu da luz na escassez de arbustos
de um pouco-a-pouco deste ar sopro quente
que a nossa boca expira para a boca
e nossos olhos prolongam para sul.

Aqui pressinto o que faltava quase
ao nosso mar
para que fosse a imensidão
mais simples mais essencial.
Ouve-me então nesta coragem de planta
amor eu penso a minha curva de Welwitchia
erecta em solidão da tua ausência
depois que trouxeste tanto mar na pele dos dedos."




Manuel Rui

Uma Onda e África




















1
Uma onda
é amar-te e medo
ciúme deste mar
tan-tan do meu naufrágio
numa canoa de pétala
de acácia

2
Uma jangada
que me tragas feita
de troncos de palmeira
ou de um barco de negreiros
afundado
e dentro de uma concha
uma notícia

3
Amar-te é esta distância
e junto ao mar
senti-lo viajado
azul e com estrondo

4
Amar-te é uma fogueira
sobre a onda
sítio de uma lavra
de milho ou mandioca
na areia que me foge
sob a espuma

5
Amar-te é isto
com o teu perdão
não agarrar a onda
e mastigar-lhe o sal
que apenas sei
ter já beijado
a tua praia

6
Uma onda
que penso.
Outra em que reparo.
A mesma em que pensei
e que retorna ao mar.

7
Porque ficar a onda
— o impossível
(dizem que não havia
mar
remos de sol
nem barcos afundados).



Manuel Rui
A Onda

Uma Onda e África




















Pintura de Bj de Castro





1
Uma onda
é amar-te e medo
ciúme deste mar
tan-tan do meu naufrágio
numa canoa de pétala
de acácia

2
Uma jangada
que me tragas feita
de troncos de palmeira
ou de um barco de negreiros
afundado
e dentro de uma concha
uma notícia

3
Amar-te é esta distância
e junto ao mar
senti-lo viajado
azul e com estrondo

4
Amar-te é uma fogueira
sobre a onda
sítio de uma lavra
de milho ou mandioca
na areia que me foge
sob a espuma

5
Amar-te é isto
com o teu perdão
não agarrar a onda
e mastigar-lhe o sal
que apenas sei
ter já beijado
a tua praia

6
Uma onda
que penso.
Outra em que reparo.
A mesma em que pensei
e que retorna ao mar.

7
Porque ficar a onda
— o impossível
(dizem que não havia
mar
remos de sol
nem barcos afundados).




Manuel Rui
A Onda