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Um homem ao crepúsculo
























Um homem ao crepúsculo
sabe que os poetas e as mulheres
percorrem as ruas da cidade


na peregrinação dificílima do amor.
Esperam-nos em caves secretas
ungüentos e odores tropicais
então, um homem tranqüilo torna fácil a nudez.




Maria Alexandre Dáskalos

O que nós não vimos






















O que nós não vimos
donde escorria
o suor da surucucu
que caía
gota a gota
sobre aquela terra.

Um colar de platina
ou
as mãos cheias de missangas
deste modo me prendeste
às flores de laranjeira
que não tive.

Busco o teu corpo
como a sombra das tamareiras.
Dás-me de beber
e eu deslizo pela corrente
dessa água.

Tu és o meu oásis
e dispo os meus véus
em cada palmeira.
Fomos peregrinos de tantos lugares
e de gentes de outras línguas
bebemos água de muitas fontes.

Mas àquela cachoeira
que nos pertencia
não podíamos chegar.
Prenderam-nos no exílio
e na tortura de a sonhar.

Não somos mais peregrinos,
estamos em outro lugar.
Mas viaja a alma
para nessa cachoeira mergulhar.
Calar essa voz
que no caos do mundo,
dulcíssima e magoada,
não é senão um sopro
fora dos caminhos.

Recolher ao útero
quente e macio
não pelo cordão,
perdido para sempre,
mas por essa voz
silenciada



Maria Alexandre Dáskalos

A alma é como a lavra


















Junto á Catedral de Mbanza Congo, foto de Ana Filipa Silva






A alma é como a lavra.
Quando as nossas mãos voltam a desfiar.
O milho amarelo de ouro?
Que outras mãos que as nossas semeiam
O medo e o silêncio da morte?
Porquê este frio? Porquê tão longa a noite?
Como se faz o mundo? Quando começa o mundo?



Maria Alexandre Dáskalos
in “O Jardim das Delícias”

Onde cairá o orvalho se as pedras perderam dono






















Onde cairá o orvalho se as pedras perderam dono
e história
e só as coisas torpes e destruídas
cobriram os campos e tornaram cinza o verde?

Oiço exércitos do norte do sul e do leste
fantasmas lançado o manto das trevas
os rostos exilando-se de si mesmos.
Oiço os exércitos e todo e qualquer som abafarem.
- Não ouves a chuva lá fora, a voz de uma mulher,
o choro de uma criança?
Oiço os exércitos, oiço
os exércitos.

Quero reconstruir tudo - alguém disse
e ouvimos cair as árvores.
E vimos a terra coberta de acácias
e as acácias eram sangue.

Estamos à beira de um caminho
- que caminho é este?
Inventam de novo o vôo dos
pássaros.
Aqui já se ouviu o botão da rosa a desabrochar.




Maria Alexandre Dáskalos
In “Do tempo suspenso

Primeiro amor. Vivi aí.

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Imagem pedida «emprestada» à Maria

Primeiro amor. Vivi aí.
Casa grande de janelas abertas
para o verde, chave do nosso coração.
Meninos do bom Deus com histórias diferentes
e o mesmo temor e segurança.
Tudo tinha muita cor
como as casas pintadas de fresco
e as ruas debaixo da sombra das árvores.
Dos jardins víamos os novos modelos dos carros
dos anos setenta.
Havia concertos para piano sem orquestra.
E, às vezes, mulheres, loiras muito loiras
cantavam músicas de nós desconhecidas.

Posávamos para os fotógrafos
moças virgens esperadas à saída das aulas
e ouvíamos "if you are going to San Francisco".
As fotografias dessa época estão em casa das tias
e os nossos olhos de terra ou de água ou de noite
não são o que eram: por isso, continuam os mesmos.

Ondulam as cortinas levemente
como a última brisa
para lá da sebe junto aos muros baixos
oiço o barulho das árvores
imensas e antigas
e lembra-me um andamento
das Fantasias de Schumann.
Primeira amor. Vivi aí.

Maria Alexandre Dáskalos

Ouvir aqui

No temporal da revolução

No temporal da revolução
os baús de enxovais
preciosos
das raparigas casadoiras
naufragaram.
Ainda hoje me consolo
com as leituras de Marx.

E, no entanto,
perdi meu enxoval.



MARIA ALEXANDRE DÁSKALOS
(Do tempo suspenso, 1998)