quarta-feira, junho 16, 2010
Cacusso

Quando a fitei extasiado,
Suas mãos pálidas, mimosas,
Escolhiam frutas bem cheirosas
Num recanto calmo do mercado.
E por mero acaso, (eu sei!,
Senhora minha desconhecida,
Ai! só por mero acaso...)
Vossos olhos belos,
Plácidos e meigos,
Negros, fulgurantes,
Sobre mim poisaram,
– P’ra logo se afastarem
Indiferentes, distantes...
Ao compor na rede
A gostosa fruta,
Um pouco vos baixastes
E o decote largo
Do vestido azul
Afastou-se lento
Como onda branda
De cansado mar...
Maurício Gomes
quarta-feira, março 16, 2005
Cacusso

Imagem
daqui
A minha terra tem cor...
Eu não o conheço outra terra
onde haja tanta beleza
nas síncopes coloridas
dum fim de tarde...
Inda está p´ra ser fadado
um tão nevado luar
que derrame tanto leite
em noites de Lua cheia...
No meu corpo bronzeado,
na minha terra tão linda,
há orgias embriagantes
de cor.
— Se a minha terra é de cor!...
Na chagar sangrenta
da rubra queimada
sem fim
queimando dentro de mim,
e no pesado negrume
de certas noites sem lua.
e com a lume apagado
no rutilante luzeiro
onde foi crucificada a minha Raça.
— A minha terra tem cor!...
Nos frutos tão bons,
nas águas imensas,
nos campos lavrados,
nos céus anilados,
nos corpos tão negros
dos pretos,
das pretas,
nas estrelinhas trementes,
— lágrimas de Deus
derramadas
pelos negros inocentes —
já doces tonalidades
mistérios,
suavidades,
cambiantes
fascinantes
de cor.
— Se a minha terra é de cor!...
Mauricio Almeida Gomes