Aparelhei o barco da ilusão E reforcei a fé de marinheiro. Era longe o meu sonho, e traiçoeiro O mar...
(Só nos é concedida Esta vida Que temos; E é nela que é preciso Procurar O velho paraíso Que perdemos).
Prestes, larguei a vela E disse adeus ao cais, à paz tolhida. Desmedida, A revolta imensidão Transforma dia a dia a embarcação Numa errante e alada sepultura... Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura, O que importa é partir, não é chegar.
Também eu quero abrir-te e semear Um grão de poesia no teu seio! Anda tudo a lavrar, Tudo a enterrar centeio, E são horas de eu pôr a germinar A semente dos versos que granjeio.
Na seara madura de amanhã Sem fronteiras nem dono, Há de existir a praga da milhã, A volúpia do sono Da papoula vermelha e temporã, E o alegre abandono De uma cigarra vã.
Mas das asas que agite, O poema que cante Será graça e limite Do pendão que levante A fé que a tua força ressuscite!
Casou-nos Deus, o mito! E cada imagem que me vem É um gomo teu, ou um grito Que eu apenas repito Na melodia que o poema tem.
Terra, minha aliada Na criação! Seja fecunda a vessada, Seja à tona do chão, Nada fecundas, nada, Que eu não fermente também de inspiração!
E por isso te rasgo de magia E te lanço nos braços a colheita Que hás de parir depois... Poesia desfeita, Fruto maduro de nós dois.
Terra, minha mulher! Um amor é o aceno, Outro a quentura que se quer Dentro dum corpo nu, moreno!
Avivo no teu rosto o rosto que me deste, E torno mais real o rosto que de tou. Mostro aos olhos que não te disfugura Quem te desfigurou. Criatura da tua criatura, Serás sempre o que sou.
E eu sou a liberdade dum perfil Desenhado no mar. Ondulo e permaneço. Cavo, remo, imagino, E descubro na bruma o meu destino Que de antemão conheço.
Teimoso aventureiro da ilusão, Surdo às razões do tempo e da fortuna, Achar sem nunca achar o que procuro, Exilado Na gávea do futuro, Mais alta ainda do que no passado.
Viam a luz nas palhas de um curral, Criavam-se na serra a guardar gado. À rabiça do arado, A perseguir a sombra nas lavras, aprendiam a ler O alfabeto do suor honrado. Até que se cansavam De tudo o que sabiam, E, gratos, recebiam Sete palmos de paz num cemitério E visitas e flores no dia de finados. Mas, de repente, um muro de cimento Interrompeu o canto De um rio que corria Nos ouvidos de todos. E um Letes de silêncio represado Cobre de esquecimento Esse mundo sagrado Onde a vida era um rito demorado E a morte um segundo nascimento.
Há muito tempo já que não escrevo um poema De amor. E é o que eu sei fazer com mais delicadeza! A nossa natureza Lusitana Tem essa humana Graça Feiticeira De tornar de cristal A mais sentimental E baça Bebedeira. Mas ou seja que vou envelhecendo E ninguém me deseje apaixonado, Ou que a antiga paixão Me mantenha calado O coração Num íntimo pudor, Há muito tempo já que não escrevo um poema De amor.