A cor dos teus olhos

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Teus olhos eram a cor
da vida que recusára
anos antes.
Aquele momento
foi o sentido certo,
a dimensão exacta
da palavra amor.

Mais que o sexo
cujo odor pairava
ainda no ar.
Mais que as palavras doces
que me ouves agora.

De verdade, esse momento
teve a magia
de se repetir na dor
da saudade
duma qualquer imaginação
efémera.

Teus olhos são a esperança
da vida que já não esperava
acontecer.
É assim que te quero amar.
Mostrar nos olhos a verdade
que vi nos teus.


António Metelo Dias
02/07/97

Poema da alienação

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African Summer Night, Jeane Granada Coutts


Não é este ainda o meu poema
o poema da minha alma e do meu sangue
não
Eu ainda não sei nem posso escrever o meu poema
o grande poema que sinto já circular em mim
O meu poema anda por aí vadio
no mato ou na cidade
na voz do vento
no marulhar do mar
no Gesto e no Ser
O meu poema anda por aí fora
envolto em panos garridos
vendendo-se
vendendo
ma limonje ma limonjééé”
O meu poema corre nas ruas
com um quibalo podre à cabeça
oferecendo-se
oferecendo
“carapau sardinha matonaji ferrera ji ferrerééé...”
O meu poema calcorreia ruas
“olha a probíncia” “diááário”
e nenhum jornal traz ainda
o meu poema
O meu poema entra nos cafés
“amanhã anda a roda amanhã anda a roda”
e a roda do meu poema
gira que gira
volta que volta
nunca muda
“amanhã anda a roda
amanhã anda a roda”
O meu poema vem do Musseque
ao sábado traz a roupa
à segunda leva a roupa
ao sábado entrega a roupa e entrega-se
à segunda entrega-se e leva a roupa
O meu poema está na aflição
da filha da lavadeira
esquiva
no quarto fechado
do patrão nuinho a passear
a fazer apetite a querer violar
O meu poema é quitata
no Musseque à porta caída duma cubata
“remexe remexe
paga dinheiro
vem dormir comigo”
O meu poema joga a bola despreocupado
no grupo onde todo o mundo é criado
e grita
“obeçaite golo golo”
O meu poema é contratado
anda nos cafezais a trabalhar
o contrato é um fardo
que custa a carregar
“monangambééé”
O meu poema anda descalço na rua
O meu poema carrega sacos no porto
enche porões
esvazia porões
e arranja força cantando
“tué tué tué trrarrimbuim puim puim”
O meu poema vai nas corda
encontrou sipaio
tinha imposto, o patrão
esqueceu assinar o cartão
vai na estrada
cabelo cortado
“cabeça rapada
galinha assada
ó Zé
”picareta que pesa chicote que canta
O meu poema anda na praça trabalha na cozinha
vai à oficina
enche a taberna e a cadeia
é pobre roto e sujo
vive na noite da ignorância
o meu poema nada sabe de si
nem sabe pedi
O meu poema foi feito para se dar
para se entregar
sem nada exigir
Mas o meu poema não é fatalista
o meu poema é um poema que já quer
e já sabe
o meu poema sou eu-branco
montado em mim-preto
a cavalgar pela vida.


António Jacinto

Luanda 1996

Antes de aterrar no Aeroporto 4 de Fevereiro no dia 10 de Abril, há nove anos atrás, tentei recuperar ao máximo tudo quanto recordava de uma cidade espantosa.
Ia comigo a vontade de poder, mesmo que modestamente, contribuir para melhorar a limpeza urbana da cidade.
A minha frieza analítica e profissional e o africanismo, superavam largamente o ruído de fundo constituído por toda a lengalenga da «chapa 5», que o jpt tão bem descreve na sua Ma-Schamba, bem como a ideia estúpida e racista de que «não há pedra sobre pedra».
Luanda, entre a interrupção da Guerra Civil e o seu recomeço era, em 1996, uma cidade que denotava a grandeza que lhe conheci em meados da década de 70 e mostrava abundantemente todas as chagas derivadas dessa mesma guerra e do facto de as infraestruras da cidade, nomeadamente no saneamento, não suportarem mais que as 500.000 pessoas para as quais estavam dimensionadas.
O transporte do aeroporto para o local de acolhimento deu para fazer um primeiro balanço - infraestruras degradadas mas muito longe do cenário caótico que os «profetas da desgraça» sempre traçam.
Relembro desses momentos de reencontro o calor imediato do povo angolano, que já conhecia mas que, no meio de tanta tragédia, julgava ter sido duramente golpeado.
O povo angolano tem um orgulho e uma coragem inacreditáveis.
Recordo a viagem entre a Aeroporto e o local de alojamento e a música que ouvi - Song for Guy, por Elton John. Curioso, porque foram desta melodia os últimos acordes musicais que ouvi em Luanda quando, quatro mese e meio depois, parti.
Tive a felicidade de ficar instalado num «aldeamento» para cooperantes na Estrada de Catete, município de Kilamba-Kiaxi, muito perto já de Viana.
Poderá ser paradoxal dizer isso de um local em que estavamos guardados por «armários», de óculos espelhados, portadores de AK-47.
Tenho, para mim, que estando em contacto directo com o povo e tendo a percepção, por via organizacional das questões tecnicas e profissionais, podia ter uma visão mais perto da realidade do que teria se acaso ficasse, principescamente, instalado nalguma unidade hoteleira.
Verifiquei, na visita efectuada á cidade, nesse primeiro dia que, a limpeza urbana era bastante má mas havia ainda assim uma diferença - a «cidade de alcatrão» apesar de má, estava melhor que as áreas limítrofes, os musseques e os bairros populares.
Fiquei a saber que a minha missão era colaborar nos aspectos organizativos e operacionais da limpeza, no que diz respeito á «cidade de alcatrão».
Verdadeiramente pouco... mas verdade, também, que não havia nem meios, nem tempo para efectuar tudo o que deveria ser realizado.
Os documentos que ficam são aspectos desse trabalho.


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Sei que muitas alterações ocorreram. A limpeza deixou de estar a cargo da ELISAL. Sei que há muitas melhoria... no centro da cidade. Sei que muito está feito mas há uma imensidão de coisas por fazer. Sei que nos musseques continua quase tudo, invariavelmente, na mesma.

Melhores dias virão.
Sei que Luanda não era uma cidade suja e voltará a ostentar, para o bem dos seus habitantes, um ambiente mais limpo e saudável.

Esta «conversa» toda foi-me «sugerida» pelo post da amiga IO no seu laurentino e espantoso Chuinga pelas diferenças entre Maputo e Luanda.
Tinha que defender aminha «dama»!

Voltarei a Luanda e conhecerei Maputo e igualmente o, dizem, lindíssimo Bilene de quem a minha Maria «morre» de saudades.

Barcos


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"Nha terra é quel piquinino
É São Vicente é que di meu"

Nas praias
Da minha infância
Morrem barcos
Desmantelados.

Fantasmas
De pescadores
Contrabandistas
Desaparecidos
Em qualquer vaga
Nem eu sei onde.

E eu sou a mesma
Tenho dez anos
Brinco na areia
Empunho os remos...
Canto e sorrio...
A embarcação:
Para o mar!
É para o mar!...

E o pobre barco
O barco triste
Cansado e frio
Não se moveu...

Yolanda Morazzo

Novo membro da família... Pôpas

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Pôpas.

A juntar ao Pantufa, ao Misha, ao Miau, ao Marradinhas e ao Maria.
Ainda está com a mãe mas prevejo já reboliço em casa.
Prometo dar notícias e juntar foto melhor (argghh...)

Melhor só mesmo no template do Paquecas, da Maria Papoila.

Virtual

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Você faz nascer poemas de mim
Como filhos de mulher.
Sou sua terra fértil
E você é meu grão.
Oh, meu Deus!!!
Que amor doido é esse
Que me tira os pés do chão?!

Sou princesa, sou fada,
Sou mulher,
Sou a estrela e a lua,
Sou tudo o que você quiser.
Sou sonho, verdade,
Sou virtual, sou real.

Oh!... e esse amor que me bole,
Me dá explosões de alegria
E toneladas de ansiedade.
É você que chega,
Não te vejo,
Não te ouço,
Mas te sinto...

Me viro ao avesso,
Padeço
Faço poemas
E você me endoidece.

Oh!... e esse amor que me dói...
Me corrói,
Dor doída
De vontade de te ver...


Leticia Thompson

Convite

Agora que o fim de semana está aí, convido-os a vir até á Ilha, á Praia do Afrodiziakus, a última, antes do Barracuda.

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É aproveitar que o cacimbo está á porta e, com isso, acabam os banhos.
Ver este pôr do sol.

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Sentados, com isto á frente e, mesmo não devendo, puxar disto, comprado junto num cruzamento da Estrada de Catete, aos miúdos, bem perto da Vila Alice, acendendo-o com isto.

E esquecer, aquecendo a alma e o corpo!

Bom fim de semana a todos!

Encontramo-nos lá.

Divino conteúdo


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fogo fátuo
luz néon
homo-sapiens
eis o que somos

na fatia
de cada dia
cada gomo
um gnomo
se instala
se estala
na festa viva da poesia


Zhô Bertholini
(in Sem Ensaio)

Poesia


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A poesia
é uma família
dispersa
de náufragos
bracejando
no tempo
e no espaço.


Augusto de Campos

Estarrecido!

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É crime interromper o sofrimento atroz a um doente terminal.
É crime uma mulher interromper uma gravidez.
Não é crime a condenação á morte de um ser, por impedimento de uma transfusão sanguínea!

Estranha e irracional sociedade esta!
Será possível??

Agradecimento

Á Brigida pelo seu imenso talento e sensibilidade.
Só isso permite a esta «loja» fazer umas «flores».
Obrigado, amiga, pela companhia e pelas amáveis palavras!

Leituras


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O Incompetente e a Brígida lançaram-me o desafio e, como não sou de «ficar nas covas»…

Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
Não li Fahrenheit 451, nem vi o filme. Se a questão é ser um livro no mundo infernal de Fahrenheit 451 seria, sem dúvida, Papillon de Henri Charrière, pela coragem que me daria a resistir e a vencer.

Já alguma vez ficaste apanhadinho por um personagem de ficção?
em dúvida, Papillon, Dax (em Os Aventureiros, de Harold Robbins), Richard Bach (em Ponte para a Eternidade e Fernão Capelo Gaivota), Ellie Arroway (em Contacto, de Carl Sagan)… e muitos, muitos outros.

Qual foi o último livro que compraste?
Ventos do Apocalipse de Paulina Chiziane.

Qual foi o último livro que leste?
A Ilha das Trevas, de José Rodrigues dos Santos (muito bom!)

Que livros estás a ler?
Releeio um desconhecido, mas fantástico, livro de Robert Gaillard – Reino da Noite. Seguirei por Equador, de Miguel Sousa Tavares e Anjos e Demónios, do «indexado» Dan Brown.

Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
1. O Principezinho de Antoine de Saint Exupéry.
2. Papillon, de Henri Charrière.
3. Spartacus, de Howard Fast.
4. Antologia Poética com infindáveis poemas onde estivessem representados todos os «sabores» da língua portuguesa.
5. Dicionário Português - Polinésio para me poder entender com as nativas… embora nós, tugas, sejamos bastante desenrascados.
;-)

A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e porquê?
Aos meus excepcionais amigos Margem, António e Io, as belíssimas palavras com que nos brindam diariamente enchem-me de curiosidade quanto aos seus mestres.

E os vencedores são?
Os livros, apesar de desmesuradamente caros!

Mulata


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Os teus defeitos são graça
que mais me prendem, querida...
Mistério de duas raças
que se encontram na vida.

E, no mato, em nostalgia,
num exílio carinhoso,
fizeram essa alegria
do teu olhar misterioso.

E deram forma de sonho,
em seu viver magoado,
a essa estilo risonho
do teu corpo bronzeado...

Que é bem e grácil maneira
em que a volúpia se anima,
- bailando duma fogueira
queimando quem se aproxima!

A tua boca dolente,
cicatriz de algum desgosto
é um vermelho poente
no lindo sol do teu rosto.

E os beijos que pronuncias
são palavras dolorosas
Teus beijos são tiranias
são como espinhos de rosas...

Que me embriagam, amantes,
no éter do seu perfume...
Teus beijos são navegantes
sobre as ondas do ciúme.

Os teus defeitos são graças
desse mistério profundo...
Saudade de duas raças
que se abraçaram no mundo!


Tomaz Viera da Cruz

Em torno da minha baía


Baía de Ana Chaves (São Tomé), foto de Brigida Rocha Brito, aqui Posted by Hello


Aqui, na areia,
Sentada à beira do cais da minha baía
do cais simbólico, dos fardos,
das malas e da chuva
caindo em torrente
sobre o cais desmantelado,
caindo em ruínas
eu queria ver à volta de mim,
nesta hora morna do entardecer
no mormaço tropical
desta terra de África
à beira do cais a desfazer-se em ruínas,
abrigados por um toldo movediço
uma legião de cabecinhas pequenas,
à roda de mim,
num voo magistral em torno do mundo
desenhando na areia
a senda de todos os destinos
pintando na grande tela da vida
uma história bela
para os homens de todas as terras
ciciando em coro, canções melodiosas
numa toada universal
num cortejo gigante de humana poesia
na mais bela de todas as lições


Alda do Espírito Santo

Meditemos


.. Posted by Hello

Live as if you were to die tomorrow.  
Learn as if you were to live forever.

Mahatma Gandhi

Subpoesia


Feiticeiro, do Anomalias Posted by Hello


Subsaarianos somos
sujeitos subentendidos
subespécies do submundo

subalimentados somos
surtos de subepidemias
sumariamente submortos

do subdólar somos
subdesenvolvidos assuntos
de um sul subserviente


José Luís Mendonça
(Chuva novembrina)

Lembrei-me deste poema depois de ter lido isto no excelente Pululu.

Hoje apetece-me passear...


Mercado do Benfica, Luanda Posted by Hello

...e esquecer-me no fascínio das cores e das formas da arte africana.
Apetece-me comprar ginguba á quitandeira e ir beber uma Cuca no primeiro bar popular na berma da estrada.
Apetece-me ouvir kimbundu sem perceber uma palavra e estremecer ao ritmo da música angolana em altos berros da aparelhagem...
Apetece-me, em Benfica, por entre arte e uma Cuca, falar de Mantorras e desse outro Benfica, longínquo que poderia, perfeitamente, ter ontem iniciado uma obra prima...
Apetece-me...

O cercado


Entrance to african village, Dan Civa Posted by Hello


De que cor era o meu cinto de missangas, mãe
feito pelas tuas mãos
e fios do teu cabelo
cortado na lua cheia
guardado do cacimbo
no cesto trançado das coisas da avó

Onde está a panela do provérbio, mãe
a das três pernas
e asa partida
que me deste antes das chuvas grandes
no dia do noivado

De que cor era a minha voz, mãe
quando anunciava a manhã junto à cascata
e descia devagarinho pelos dias

Onde está o tempo prometido p'ra viver, mãe
se tudo se guarda e recolhe no tempo da espera
p'ra lá do cercado


Ana Paula Ribeiro Tavares
(Dizes-me coisas amargas como os frutos)

Comboio malandro


.. Posted by Hello

O comboio malandro passa
passa sempre c'oa força dele
u-u hi-hi te-que-tem te-que-tem
nas janelas muita gente
ah boa viagée adeus homée
n'ganas bonitas
quintandeiras de lenço encarnado
levam cana no Luanda p'ra vender
u-u hi-hi
aquele vagon de grades tem bois
mu mu mu
tem outro igual
com este dos bois
leva gente muita gente como eu
cheio de poeira
gente triste como os bois
gente que vai no contrato

tem bois que morre no viagée
mas preto não morre
canta como é criança
mulondé iakessoa!
uadibalée uadibalée uadibalée
esse comboio malandro
sozinho na estrada de ferro passa
passa sem respeito
u-u hi-hi
com muito fumo no trás
tem-que-tem tem-que-tem

Comboio malandro
o fogo que sai no corpo dele
vai no capim e queima
vai nas casas dos preto e queima
esse comboio malandro
já queimou meu milho

Se na lavra do milho
tem pacaças
eu faço armadilha no chão
se na lavra tem Kiombos
eu tiro espingarda de Kimbundo
e mato neles!

Mas se vai lá fogo
de comboio malandro deixa
só fica fumo
muito fumo mesmo...

Mas espera só
quando esse comboio malandro descarrilar
e os branco chamar os preto p'ra empurrar
eu vou... mas não empurro

Nem com o chicote
finjo só que faço força
comboio malandro
você vai ver só o castigo
vai dormir mesmo no meio do caminho!


António Jacinto

Os detractores dos western...


Cowboy at sunset Posted by Hello

...tinham toda a razão!! Diziam eles que, o fim de todos os filmes era sempre igual -
ao pôr do sol, a rapariga fica sózinha, vendo partir o herói, envolto em poeira, que se irá casar com o cavalo.

Nunca acreditei e cultivei o género... afinal aconteceu!!

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Com Ruy Cinatti, em Timor


Foto de João Pedro Graça, aqui Posted by Hello


Dili-Timor,
dor sempre esquecida,
tão presente dor.
Ruy Cinatti

Talvez Ruy Cinatti
esteja agora em Dili
com um ramo
de flores
na mão - um ramo
de lágrimas. Os mortos
nunca repousam quando
os que amaram sofrem,
choram, feridos
na medula.

Um dia, o sol
virá mais cedo para enxugar
as lágrimas
e o luto, e do chão
empapado de sangue brotará
uma espiga vermelha. A espiga
da alegria.


Albano Martins
(in «Cástalia e Outros Poemas»,
Campo das Letras, 2001)

Aerograma (Põe o meu retrato...)


Imagem daqui Posted by Hello


Deus queira que esta
Vos mate a fome aos sentidos
Por agora

Deus queira que esta
Vos guarde a dor aos gemidos
Noite fora

Dançamos fandangos
Sobre uma navalha
Pássaros em bando
Em nuvens de limalha

E assim eu cá vou indo.

Vem-me o fel à boca
As tripas ao coração
A noite trás a forca pela sua mão

Sonho com fantasmas
De pele preta e luzidia
Com manuais de coragem e cobardia

Dizem que há sempre
Um barco azul para partir
Nosso hino
Embarca a alma
E os restos de um rosto a sorrir
Do destino

Põe o meu retrato
No altar de S. João
E uma vela com formato de canhão

Cansa-se esta escrita
Com dois dedos num baraço
Assim o quis a desdita
Vai um abraço.


João Monge (as palavras)
Trovante (a música)

She

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She may be the face I can't forget,
A trace of pleasure or regret,
May be my treasure or
The price I have to pay.

She may be the song that summer sings,
May be the chill that autumn brings,
May be a hundred different things
Within the measure of a day.

She may be the beauty or the beast,
May be the famine or the feast,
May turn each day into a
Heaven or a hell.

She may be the mirror of my dream,
A smile reflected in a stream,
She may not be what she may seem
Inside her shell.

She who always seems so happy in a crowd,
Whose eyes can be so private and so proud,
No one's allowed to see them
When they cry.

She may be the love that cannot hope to last,
May come to me from shadows of the past,
That I remember till the day I die.

She may be the reason I survive,
The why and wherefore I'm alive,
The one I'll care for through the
Rough and ready years.

Me, I'll take her laughter and her tears
And make them all my souvenirs
For where she goes I've got to be.
The meaning of my life is she, she, she--.



Charles Aznavour


Utopia

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Quisera virar a vida pelo avesso
Criar um mundo só meu
Onde eu pudesse rasgar as máscaras
Quebrar as amarras do medo
Realizar sonhos adormecidos
Resgatar folhas do passado e
arquivá-las na alma
Encontrar as horas perdidas
Fechar os olhos para a realidade
Beijar a boca da alegria
Esvaziar a caixa de saudades
Afogar as tristezas reprimidas
Curar todas as feridas do coração
Tatuar nas retinas as melhores
lembranças
Apagar o tédio
Expulsar a solidão
Romper a monotonia
pálida do cotidiano
Seguir a velocidade do vento
Entrar em uma utopia
Dominar a ciência do tempo
Dar asas aos pensamentos e
brincar de ser feliz!!!!!!!!


Zena Maciel

Nenhum monumento

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(Ruínas da Sé, Mbanza Congo)


Não são aparentes em ti as marcas da grandeza,
nenhum monumento desfigura
ou altera a monotonia sem convulsões
do teu rosto quase anónimo.
A escassez de ogivas, arcobotantes,
rosáceas, burilados portais, cobra-la tu
na gravidade das tuas sombras
e do teu silêncio. Não vem sequer
da tua voz a opressão que cerra
as almas de quantos de ti
se acercam. Não demonstras,
não afirmas, não impões.
Elusiva e discretamente altiva,
fala por ti apenas o tempo.


Rui Knopfli

Que semelhanças?

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O leitor habituado à poesia neste boteco achará que, ao ver a foto da Carla Matadinho, resolvi regalar os sentidos com outra «poesia»... Não deixa de ser verdade... porém, o título e a foto abaixo deixá-los-á perplexos!

Mas que raio poderá ter George W. Bush a ver com Carla Matadinho???

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Este problema, dilacerante surgiu-me ao ler um post de Agradecimento em Raminhos de Oliveira. Lá o motivo de incremento de visitantes foi o «avião» lá em cima...
Aqui uma boa percentagem de visitantes aparecem por pesquisarem o lado ridículo da guerra (war...lol) e chegarem á foto que publiquei nos primeiros tempos desta loja.

Antes o agradecimento tivesse que ser feito (e seria de toda a justiça - e por uma boa causa - digo eu...) á Carla Matadinho!
Para mal dos meus pecados, que gosto tanto dele como Michael Moore (ou menos), tenho que agradecer a George W. Bush o inestimável e decisivo contributo que deu para o aumento da popularidade deste modestíssimo blog.

As mãos

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As mãos
são a paisagem do coração.
Elas se separam às vezes
como desfiladeiros
para que forças indescritíveis rolem.

A mesma mão que o homem
apenas abre quando cheia de fadiga,
agora ele percebe:
por causa dele somente,
outros podem caminhar em paz...

Mãos são como paisagem.
Quando se abrem,
a dor de suas mágoas
corre livre como riacho.
Porém, sem sentimento de dor...
sem grandeza de dor...
Apenas para sua própria
maravilha de grandeza
Ele não conhece a forma
de nomear a mesma.


Andrzej Jawien
(pseudónimo literário de João Paulo II)
1960

Sol no musseque

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Redonda lâmpada acesa
a amarela luz alastrando-se
por sobre o zinco das cubatas
Os fartos cabelos
das mulembeiras
raparigas cartando água
no chafariz
Meninos de barriga inchada
brincando com bola ou
tampas de garrafa


João Melo

Requiem

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Viam a luz nas palhas de um curral,
Criavam-se na serra a guardar gado.
À rabiça do arado,
A perseguir a sombra nas lavras,
aprendiam a ler
O alfabeto do suor honrado.
Até que se cansavam
De tudo o que sabiam,
E, gratos, recebiam
Sete palmos de paz num cemitério
E visitas e flores no dia de finados.
Mas, de repente, um muro de cimento
Interrompeu o canto
De um rio que corria
Nos ouvidos de todos.
E um Letes de silêncio represado
Cobre de esquecimento
Esse mundo sagrado
Onde a vida era um rito demorado
E a morte um segundo nascimento.


Miguel Torga

Coleccionador de quimeras

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Quando as minhas angustias
comecam a morder-me
ponho-lhes a trela
saio a rua a passeá-las
e deixo-as ladrar
ao tédio transeunte.

Depois ponho-lhes asas
e deixo-as voar
como passaros
em busca de primaveras
imprevisiveis.


António Tomé