As massas fazem o poema de ouro que não podem escrever o povo compõe belos versos que não pode desenhar.
Nos charcos se faz poema de guerra nos campos arrasados pelas bombas de fogo o povo canta um poema na travessia de um rio que devora os que não sabem nem podem nadar os mortos nos legam versos que não podem ler.
O meu poema não sei escrevê-lo também não posso escrever o poema que sinto no peito por serem vários os versos. São tantos os autores do meu poema e versos assim trazem rima doutra inspiração.
Rimam em cada metralha que dispara rimam no chorar do órfão rimam nas grutas protectoras do guerrilheiro.
Não sei escrever este poema.
Gostaria de cantar o poema que me bate no coração mas não posso porque este é o próprio Povo em armas e só ele deve continuar a fazer o poema que eu não posso redigir nem ele pode ler também!
Os que fazem a História Nem sempre podem escrevê-la.
Nito Alves (1945-1977) In Memória da Longa Resistência Popular
Este magnífico poema chegou-me viaJovens de Angola onde, em cada palavra, se sente o pulsar de um povo, os seus debates francos, abertos e plenos de vivacidade e generosidade. Pode ser lido aqui, de onde o retirei. O site daAssociação 27 de Maio merece uma visita.
Germinam as raízes todas Aqui está cada um dos braços e dos rostos Dum só corpo que anda sobre o vento Navega os céus e toda a geografia Desde a minha aldeia e do meu povo Desce o campo refugia-se na cidade Das ruínas às pontes de margens ansiosas Tarda o abraço Demora o dia das horas sucessivas Sem paragem
No tempo de memórias tristes Aqui estamos e estaremos Porque somos Mais do que pó e húmus Unida essência dum jardim de vida Morremos várias vezes no percurso Mas seremos sempre Capazes de chegar à vida Porque somos todos, somos um Em cada um Dos pontos cardeais Deste país. Angola
Por sugestão de Brunokimg do excelente A Irmandade do Macaco respeitaremos aqui o silêncio dos 9 minutos e 25 segundos para ouvir So What, no dia em que, se fosse vivo, Miles Davis comemoraria 80 anos. Ouçamos:
Fica também aqui o tributo a Duke Ellington, excelentemente recordado aqui pela IO no seu fantástico chuinga.d Fica In a Sentimental Mood com John Coltrane. Ouçamos:
I call to the East, where the Father ascends to all Mother Earth where life begins. I fly through the cedars, pines, willows, and birch as animals below me wander and search.
I call to the South, to the land down below. Turtle stands silent, as man strings his bow to hunt food and fur for his kin before snow. A life will end so others will grow.
I call to the North, that yansa once knew. I follow their path til it disappears from view. Once vast in number, there stand but a few. I hear only ghost thunder of millions of hooves.
I call to the West, to the ends of the lands, to the Tsalagi, Kiowa, Comanche ... all bands. Unite for the strength. Teach the young and demand that you are Native Americans. Learn your tongue and stand.
My name is Freedom... I fly through this land. I call to the Four Sacred Winds of Turtle Island.
Ciudad cóndor devorando infinito granítica plata en palpitantes metafísicas alucinar de feláticas orquídeas convergen espacios hanan — urin
II
Orgasmo de piedra estremeciendo al viento lomos violadores de cumbres constelaron wancas de orfebrería jadeando lítico arco iris
III
Techumbre de sueños preñaron la garganta de Wilcamayo paucar waman quispe copuladores siderales aprisionaron lumbre solar ardiente fuego sangriento tajamar de luna cósmico diseño
IV
Horizonte de atalayas ángulos pétreos del amanecer coítica ternura — vibrante manantial palabras en piedra Machupicchu constructor milenario BATALLAS ANDINAS
Granos escarlata incendian el tiempo quintu de coca — chicha dorada cubren líticos senos andenes en pétalos frutecen agua en acústicas cristalinas granítico escalar libraron en milenarias batallas andinas guerreros del maíz papa quiwicha aguadores del espacio caminaron caminan caminarán guerreando los confines del hambre sinfonías cautivas en la mirada recordando manos domesticadoras de ojos de llama genitales alpaca latidos vicuña:::::::::::::tternura illa
Se eu pudesse deixar-te algum presente, deixaria aceso o sentimento de amar a vida dos seres humanos.
A consciência de aprender tudo o que foi ensinado pelo tempo fora... Lembraria os erros que foram cometidos para que não mais se repetissem.
A capacidade de escolher novos rumos. Deixar-te-ia, se pudesse, o respeito àquilo que é indispensável: Além do pão, o trabalho. Além do trabalho, a acção.
E, quando tudo faltasse, um segredo: O de buscar no interior de ti mesmo a resposta e a força para encontrar a saída.
Já no final de um discurso extremamente importante o grande homem de Estado engasgando com uma bela frase oca escorrega e desamparado com a boca escancarada sem fôlego mostra os dentes e a cárie dentária dos seus pacíficos raciocínios deixa exposto o nervo da guerra: a delicada questão do dinheiro.
O tempo presente tem suas rugas o agora é um fotograma o que há sobre a terra passa menos a poesia que desliza como a chuva e molha a existência dos que ousam olhar para a fantasia.
Dos teus seios negros nasceram os rios do povo negro
Eurídice,
e o sol e o fogo foram sol e fogo nos teus olhos de África
Eurídice.
na virgindade do teu sexo, puro como as minhas florestas, morreram milhões de escravos,
Eurídice,
Mas tu és amor, na imensidade do Índico possuindo Moçambique, és o sonho, na tranquilidade do Níger acariciando o Sudão amado, minha África-Eurídice que o tam-tam de guerra ainda não acordou Levanta-te e vem, que soam as marimbas e o tambor do nosso povo! Quando eu construí as pirâmides, só te vi a ti,
Eurídice,
O Cruzeiro do Sul foi nosso palácio quando reinei no meu império do Mali; depois vieram os navios, e arrancaram-me o teu coração, e a minha voz ficou rouca nos trompetes que te procuraram; mas agora
Eurídice,
os nossos corpo voltaram-se a encontrar, as mangas ficaram douradas e as buganvílias floriram, as acácias vestiram o negro do teu corpo nu. E o Zambeze que atravessou toda a África, o Zambeze que acariciou todo o corpo
de Eurídice,
o Zambeze uniu-se ao Congo e ao Niger e ao Nilo e a toda a África-Eurídice.
Vem Eurídice,
vem, vamos correr pela savana e dar as nossas almas à chuva para elas crescerem, rolaremos na esperança verde do capim;
Eurídice,
são doces os frutos das nossas árvores, e as flores da nossa terra vivem em perfume no ar, nos nossos céus há mais estrelas, nos nossos olhos há mais luz, nos nossos pulsos livres há mais sonho...
Não chamo um o maior e outro o menor, Quem quer que preencha o seu período de tempo e lugar é igual a qualquer outro.
Meus signos são uma capa à prova de chuva, bons calçados e um bordão colhido nos bosques. Nenhum dos meus amigos busca descanso em minha cadeira. Não possuo cadeira, nem igreja, nem filosofia, Não conduzo homem algum à mesa do jantar, biblioteca ou casa de câmbio, Mas conduzo cada um de vós, homem ou mulher, para o alto de um outeiro Minha mão esquerda prende-vos pela cintura, Minha mão direita aponta em direcção de continentes e estrada aberta.
Vem, segura a minha mão Iniciemos um roteiro amargo de peregrinação: Pelo trilho batido do fundo da floresta Partamos até ao mar cruel O mar sem fim, veículo da nossa servidão.
Não, não feches os olhos à tragédia Olha os negreiros ancorados na baía da [nossa desgraça Os nossos irmãos acorrentados Como gado, sorvidos pelo negrume dos [bojos insaciáveis Semelhando ventres de deuses bárbaros. Virgínia, Alabama Mississipi Sangue vermelho Suor de negro branqueando algodão Cuba, Brasil Martinica Mais sangue vermelho, Suor de negro movendo engenhos de açúcar.
Eis o nosso povo sacrificado Eis a nossa gente A nossa gente transpondo mares e mares Carne da nossa carne Sangue do nosso sangue disperso pelo Mundo.
Vem, segura a minha mão serena Em passo firme caminhemos até à orla do mar algoz Escutemos as vozes perdidas na profundeza [dos abismos Os ecos dos gritos abafados Congelados em pedaços de nossa carne [ensangüentada Congelados em miríades de búzios abandonados [ao sabor das ondas
Vem, irmão, seca as lágrimas nas pupilas Toma a minha mão amiga Percorramos o mesmo trilho batido do fundo [da floresta Na jornada de regresso que nosso povo não caminhou E à volta da árvore milenar à beira do caminho Saudemos a alforria ansiada pela nossa geração.
Guitarra, que estás tocando ? Não vês a cor do luar ? Não vês a cor do Sertão ?
Não vês a erma magia Romântica Tentação Desta Angola que nos criou E nos toca o coração ?
Repara a ganga infiltrando Em selvagem natureza O feiticeiro espeldor ;
Ouve o cantar das viuvinhas, Dos chacais ouve os latidos ; Vê o clarão das queimadas E o romper das madrugadas Em quadros belos... perdidos...
Guitarra, que estás tocando Nesta noite de luar ? Não vês para além das chamas As mucaias a gingar ? Olha as sombras africanas Bricando sob o palmar...
Ouve o rugir do leão Ouve o chorar duma hiena E verás quão bem pequena É tua voz no Sertão !
E quando vires o manto Do grande Zaire entre as relvas... Pára guitarra teu canto E deixa cantar as Selvas
Minha mãe. Trago a resina das velhas árvores da floresta nas minhas veias. E a sina de nascença no meio das baladas à volta da fogueira tu sabes como é sempre uma dor nova sabes ou não sabes, minha mãe?
Sabes ou não sabes o mistério de olhos inflamados de macho que um dia encontraste no teu caminho de tombasana de pés descalços?
Sabes ou não sabes, Mãe a resina das velhas árvores plantadas pelos espíritos as blasfémias dos mortos salgando as raízes virgens e as grandes luas de ansiedade esticando as peles dos tambores enraivecidos e dando às folhas das palmeiras o brilho incandescente das catanas nuas?
E no sabor do encantamento, Mãe dos nossos desenfeitiçados ancestrais o exorcismo ingénuo das tuas missangas o maravilhoso mecheu nas tuas canções e o segredo do teu corpo possuído mas de materno sangue inviolável donde a minha sina nasceu.
No espaço da tua sepultura de negra sabes ou não sabes a verdade agora sabes ou não sabes minha Mãe?
Deixaram nas ilhas um legado de híbridas palavras e tétricas plantações
engenhos enferrujados proas sem alento nomes sonoros aristocráticos e a lenda de um naufrágio nas Sete Pedras
Aqui aportaram vindos do Norte por mandato ou acaso ao serviço do seu rei: navegadores e piratas negreiros ladrões contrabandistas simples homens rebeldes proscritos também e infantes judeus tão tenros que feneceram como espigas queimadas
Nas naus trouxeram bússolas quinquilharias sementes plantas experimentais amarguras atrozes um padrão de pedra pálido como o trigo e outras cargas sem sonhos nem raízes porque toda a ilha era um porto e uma estrada sem regresso todas as mãos eram negras forquilhas e enxadas
E nas roças ficaram pegadas vivas como cicatrizes - cada cafeeiro respira agora um escravo morto.
E nas ilhas ficaram incisivas arrogantes estátuas nas esquinas cento e tal igrejas e capelas para mil quilómetros quadrados e o insurrecto sincretismo dos paços natalícios. E ficou a cadência palaciana da ússua o aroma do alho e do zêtê d' óchi no tempi e na ubaga téla e no calulu o louro misturado ao óleo de palma e o perfume do alecrim e do mlajincon nos quintais dos luchans
E aos relógios insulares se fundiram os espectros - ferramentas do império numa estrutura de ambíguas claridades e seculares condimentos santos padroeiros e fortalezas derrubadas vinhos baratos e auroras partilhadas
Às vezes penso em suas lívidas ossadas seus cabelos podres na orla do mar Aqui, neste fragmento de África onde, virado para o Sul, um verbo amanhece alto como uma dolorosa bandeira.
Não serei o poeta de um mundo caduco. Também não cantarei o mundo futuro. Estou preso à vida e olho meus [companheiros. Estão taciturnos mas nutrem grandes [esperanças. Entre eles, considero a enorme realidade. O presente é tão grande, não nos [afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos [dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma [história, não direi os suspiros ao anoitecer, a [paisagem vista da janela, não distribuirei entorpecentes ou cartas [de suicida, não fugirei para as ilhas nem serei [raptado por serafins. O tempo é a minha matéria, o tempo [presente, os homens presentes, a vida presente.
Babe tell me where Will you sleep tonight For there's such a pain in my heart And I've got a flame That's dying inside And I feel that we'll soon have to part
When the indians cry And the eagles die Cos the winds of change blow again Then I'll know that you Turned the world into blue And my tears will fall like the rain
Love can be so cruel When the light of hope is gone I know cos I felt it before In the desert of fear I can hear this old song Of a love that won't live anymore
When the indians cry And the eagles die Cos the winds of change blow again Then I'll know that you Turned the world into blue And my tears will fall like the rain
When the indians cry And the eagles die Cos the winds of change blow again Then I'll know that you Turned the world into blue And my tears will fall like the rain
Then I'll know that you Turned the world into blue Then I'll know that you Turned the world into blue And my tears will fall like the rain
Entre o calor da tuas pernas sobressai firme e vigorosa numa atitude de lascúdia a rosa dos meus desejos. E vejo em cada curva das suas pétalas milhões de gestos provocantes que me inundam o corpo com milhões de riachos prateados
Entre o calor das tuas pernas desabrocha muda e esperançosa a rosa dos meus desejos. Por ela vivo uma ânsia profunda de ver chegar o dia em que me deliciarei diluído no seu aroma inebriante.
E nesse dia, milhões de forças gritantes percorrerão o meu sangue e galgarei sobre a montanha sagrada abrindo trilhos por entre o mar de flores penetrarei embriagado nas cavernas negras e alagadas de paredes desejosas e descarregarei todo o meu furor bastante sobre os recantos mais profundos dos subterrâneos conquistados do jardim afrodisíaco
E então regressarei flácido mas ressuscitado e sobre a montanha sagrada dormirei um sonho profundo!
Amadeu Kazunde in As palavras amadurecem Cadernos Diálogo