PORTUGAL

















Deseja-se que este cartaz continue válido no fim da tarde de hoje.
Vamos esperar que da baliza de Robinson venha esta música.
Daremos notícia do feito em telemóvel desta marca.








Jorge Perestrelo e Fernando Correia na TSF (2004)

A rosa imaginária...














É preciso que fique escrito
antes que a tua baba peçonhenta
nos corrompa a palavra
de ti, só se ouvirá no fim da noite
o ranger de dentes
que teu ódio acalenta
inútil e partido!

Sabes Velho Histérico
o que é Ter 29 anos, e sol
e vida?!

Acordar todas as manhãs
com a rosa imaginária
que não dou ao meu amor??

Sabes Velho Histérico
o que é Ter 29 anos, e sol
e vida?
nessa catacumba
de esqueletos onde moras?!

Sabes Velho Histérico
onde está o ventre de mundo
que seria um dia, o meu?!
Aonde está a criança
que não nasceu
nesse ventre de mundo
que seria, um dia, o meu??

Berra Velho Histérico
ainda
a tua ordem
enquanto não chega o vento!

Berra Velho Histérico
na rádio e no jornal
ainda
a tua ordem
enquanto montado no vento
não chega o fim da noite!

... e a rosa imaginária
que vou dar ao meu amor...



António Cardoso
(1933-2006)

Os rios da tribo




















Roça de Água Izé, foto de Brígida Rocha Brito em África de Todos os Sonhos



Que rios reverberam em nosso leito?
Quantas tribos injectadas em teu peito?
Nhá Maria de onde é?
Nhô Ambrósio nasceu em Água Izé?
E Katona, Aiúpa, Makolé?
Silva, Danquá, Cassandra, Camblé...
Padiçê, Mé Pó, Filingwé...
Quantos nomes fundam transmutam minha fronte?




Conceição Lima
in O Útero da Casa

Há palavras que nos beijam

























Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.



Alexandre O'Neill

3 Momentos



















Paradise, por Merril Robinson






1.º


ONTEM: Se não existisse a poesia
serias tu musa-poesia
de todos os tempos de todos
os poetas mendigos e irmãos do AMOR.


2.º


HOJE: Voltei do além com marcas
frescas da pureza. O teu sorriso
me acenou. Agora, não sei se o mais
puro é a fonte de pureza que te dá origem
ou o estado de pureza que do além trago.


3.º

AMANHÃ: Quando se inaugurar a cidade da poesia
teu nome escrito com beijos de alecrim
estará com bandeira ao vento saudando
os casais felizes à entrada da cidade.




António Domingos Gonçalves

Os antepassados usam o espelho


























Os antepassados usam o espelho
Todas as noites

Eh! Olha a aldeia dos nossos antepassados
A verdadeira aldeia sombreada de palmeiras
Que nos obrigaram a abandonar
Eh! Os antepassados
Eh! Os nossos antepassados
Mais as aldeias que nos obrigaram a abandonar
As aldeias sombreadas de palmeiras
Eh! O conjunto tão bonito das nossas aldeias
Eh! A aldeia tão bonita dos nossos antepassados
Que nos obrigaram a abandonar

Os antepassados usam o espelho todas as noites



Ana Paula Ribeiro Tavares
In Ex-Votos

Saudades de Luanda

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É CAJU, É CAJUÊ! … COMPRA SÓ, SENHOLA.
TEM MANGA E SAPE-SAPE, TEM CEBOLA,
QUITABA, TCHIFUFUTILA, TEM BANANA . . .


Era assim que apregoava a Barona Adriana,
aquela gorda e atrevida bessangana
que todas as manhãs, no lugar costumeiro,
ia montar, mesmo no passeio, a quitanda
entre as arcadas do Edifício da Fazenda
que se levantava num prédio da Mutamba,
o Largo mais concorrido e de maior animação
da Cidade de S. Paulo de Luanda, da Assunção.


Cedo, bem cedo, mesmo muito cedinho,
na mais fanada carreira das Ingobotas
lá vinha ela, reboluda, toda sorridente
- UAZAKELÊ – cumprimentando toda a gente.


E chegava carregada com a sua jimbamba:
uma velha grade de Cuca, pesada de fruta tanta,
cesta de quitutes, que à cabeça traz para vender,
garrafa quitoto e panela de canjica pra comer.
Trazia tanta coisa … como tinha conseguido?
E por cima de tudo vinha um pano colorido.


Com uma mão segurava a grade na cabeça.
Livre, a outra gesticulava, fazia salamaleque
E muita gente parava e a esperavam até polícia
Que logo que via dizia: - D. Adriana, outra vez?
Agente não quer, mas, um dia, leva-te no xadrez.
E a velha magana fazia que não ouvia e seguia.


Seguia direitinha pró seu lugar. A coitada suava
mas, chegando à arcada, mal a quitanda pousava,


abria a boca no mundo, lançando o seu pregão:


É CAJU, É CAJUÊ! … COMPRA SÓ, SENHOLA.
TEM MANGA E SAPE-SAPE, TEM CEBOLA,
OLHA QUITABA, TCHIFUFUTILA, MAMÃO …




João Mangericão

Solidariedade

Mojtaba Saminejad
Blogger emprisonné pour "insulte au Guide suprême"


Mojtaba Saminejad avait été interpellé une première fois, début novembre 2004, pour avoir dénoncé en ligne l’arrestation de trois de ses confrères webloggers. Pendant sa détention, l’adresse de son blog avait été détournée vers la publication d’un groupe de hackers lié au mouvement extrémiste islamiste iranien Hezblollah (http://irongroup.blogspot.com/). A sa sortie de prison, Mojtaba Saminejad avait relancé son blog sur une nouvelle adresse (http://8mdr8.blogspot.com), ce qui a provoqué sa réincarcération.

Breve interregno




























A semana que agora se inicia a família será, na família, dedicada ao coração.

3ª. feira será verificada em mim a necessidade, ou não, de efectuar bypass...
4ª. feira será a vez de o meu pai se sujeitar exactamente a essa intervenção.

Por esse motivo irei afastar-me uns dias do vosso convívio.
Voltarei, assim o espero, na 5ª. feira para exultar (faz bem ao coração!!) com a passagem de Portugal e Angola aos 8ºs. final do Mundial e com boas notícias cardio-vasculares na família!

Boa semana para todos!


Adenda

Regressei, com angioplastia feita e, por agora, sem necessidade de bypass!
O velhote não foi operado - uma arreliadora complicação de vários problemas em simultâneo impediram, por agora, a intervenção.
Estará, assim o esperamos, tudo controlado em breve de modo a que esta fase seja ultrapassada!

O Golo




















A esfera desce
do espaço
veloz
ele a apara
no peito
e a pára
no ar
depois
com o joelho
a dispõe a meia altura
onde
iluminada
a esfera
espera
o chute que
num relâmpago
a dispara
na direção
do nosso
coração.



Ferreira Gullar

Fantástico























Grande jogo... Gostei francamente do que vi!
Empate que sabe a vitória! E...a sorte faz parte do jogo!
Só tem sorte quem luta por merecê-la!

Adenda:

O que aqui foi escrito relativamente ao Angola-México
é igualmente válido para o Portugal-Irão...
Jogo muito bom e seguro. Não se ficou á espera do sofrimento
habitual dos últimos minutos!
Resta-nos vencer o México e esperar que Angola possa
cilindrar um Irão a caminho de casa!

Vamos a isto!
Portugal e Angola nos oitavos de final!

Lua Nha testemunha




















Cata pensá nhá cretcheu
Ni bô cata imaginá, c'ma longe di bô mi tem sofrido
Perguntá luá na ceu, lua nha companheira... di solidão

Lua
Vagabunda di espaço
Qui contche tudo nha vida
E na desventura
El, qui tá contábu nha cretcheu
Tudo qui tem sofrido
Na ausência e na distância

Mundo...
Bô tên rolado cum mim
Nun jogo di cabra cega
Semp ta perseguirme
Pa, cada volta qui mundo dá,
El tá traze-me un dor
Pra me tchegar mas, pa Deus



B. Léza




Nancy Vieira

Como grilo

























Na gaiola
Cri, cri, cri, cri
O grilo grita
Os campos verdes
O capim macio
O orvalho fresco
A cova quente
O cio
Cri, cri, cri, cri
O grilo chora
A liberdade ida
A clausura activa
A solidão maldosa
O frio destino
Tão vivo
Cri, cri, cri, cri
Na gaiola
O grilo grela
Ódios sem fumo
Coloridas vinganças
Planos túrgidos
Sonhos sem mundo
Tantas raivas
Na prisão perto
Onde embate a dor do grilo
Também eu cri, cri, cri, cri



Luis Rosa Lopes

É Hoje!








































É Hoje!!
Vai ser sofrer... e no fim, ganhe quem ganhar, vou festejar!

Africa

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Imagens magnificas de Africa numa apresentação enviada pela amiga Maria Célia Silva do Venusa - Paixões á qual decidi juntar o meu contributo.

Para reflexão

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O Pintor, o Pássaro e a Gaiola




























Primeiro pinte uma gaiola com a porta aberta
Depois pinte
algo gracioso,
algo simples,
algo bonito
algo útil
para o pássaro.
Então encoste a tela a uma árvore
num jardim
num bosque
ou numa floresta.
Esconda-se atrás da árvore
sem falar
sem se mover...
Às vezes o pássaro aparece logo
mas ele pode demorar muitos anos
antes de se decidir.
Não desanime.
Espere.
Espere durante anos se necessário.
A rapidez ou a lentidão do pássaro
não influi no bom resultado do quadro.
Quando o pássaro aparecer
se ele aparecer
observe no mais profundo silêncio
até o pássaro entrar na gaiola.
E quando ele entrar
delicadamente feche a porta com o pincel.
Então
apague uma a uma todas as grades
tomando cuidado para não tocar
na plumagem do pássaro.
Em seguida pinte a árvore
escolhendo o mais bonito dos seus galhos
para o pássaro.
Pinte também a folhagem verde
e o frescor do vento
o dourado do sol
e a algazarra das criaturas na relva
sob o calor do verão.
E então espere até que o pássaro decida cantar.
Se o pássaro não cantar
é um mau sinal,
um sinal de que a pintura está ruim.
Mas se ele cantar é um bom sinal,
um sinal de que você pode assinar.
Então, com muita delicadeza,
você arranca uma das penas do pássaro
e escreve o seu nome num canto do quadro



Jacques Prévert

Mbanza Congo


























Mbanza Congo, 2000
Obra de Dília Fraguito, aqui

Raul Indipwo

























(1933-2006)


Reflexão
























E se fosse apenas
a dor matemática do chicote
sorria
e olhava-te nos olhos
e cuspia-te na cara
só!

E se fosse apenas
a dor física da inércia das lágrimas
bem, ai talvez fingisse
chorar a mulher amada
e cuspia-te somente à cara!

Mas de que nos adianta agora
discutir a matemática e a física?



Helder Muteia

Serão de menino

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Na noite morna, escura de breu,
enquanto na vasta sanzala do céu,
de volta das estrelas, quais fogareus,
os anjos escutam parábolas de santos...

na noite de breu,
ao quente da voz
de suas avós,
meninos se encantam
de contos bantus...


"Era uma vez uma corça
dona de cabra sem macho...
......................................
...Matreiro, o cágado lento
tuc...tuc...foi entrando
para o conselho animal...

("Não tarde que ele chegou!")
Abriu a boca e falou -
deu a sentença final:
"-Não tenham medo da força!
Se o leão o alheio retém
-luta ao Mal! Vitória ao Bem!
tire-se ao leão - dê-se à corça."


Mas quando lá fora
o vento irado nas frestas chora
e ramos xuxualha de altas mulembas
e portas bambas batem em massembas
os meninos se apertam de olhos abertos:


- Eué


- É cazumbi...


E a gente grande -
bem perto dali
feijão descascando para o quitende -
a gente grande com gosto ri...

Com gosto ri, porque ela diz
que o cazumbi males só faz
a quem não tem amor, aos mais
seres busca, em negra noite,
essa outra voz de cazumbi
essa outra voz - Felicidade...





Viriato da Cruz

Wise words





















Teach your children Love
Teach them the meaning
Take the time out to talk
Listen with open mind
See them with you eyes opened wide

Give your children Love
Hold them close when they cry
Let them show you what they know
Walk with them on the right path
Lead them to a world of wonder

Thank the Creator everyday for sending them
They are his gifts to us all
Treasure them as you would finest jewels
Show them all the trust you can share
In turn they will give you all the care
What you give to them will be returned




Noksi Tsula aka TSULANOKSI

O Sapo e o Poeta





















Alguns gordos e felizes sapos
Ainda batem longos, longos papos
Nos seus lodosos e felizes charcos
Marcos dessa civilização
Que imuna a emoção,
Que desumana o convívio.
Tanto canto de sereia,
Uma filáucia que se ateia
Nas tribos, nos saraus, à mesa,
Uma bazófia burguesa,
Burgomestres emproados,
Sabujos entronisados.
Estamos ficando enfermos
Qual um roseiral apétalo,
Qual noite que esqueceu o orvalho,
Órfãos pensamentos, acéfalos,
Na ventura de virtual sermos
Se virosos não tombarmos falhos.
Estamos deixando poluir-se o amor,
Esvaziar-se a ânsia do sonho impossível,
Grassar a epidemia do torpor,
Arder a brenha, esfumar as estrelas,
Sobejar o medo, desalentar a paz,
Fugir a vida ao escondê-la.
Enquanto isso ainda há gordos sapos
Que batem longos, longos papos,
Que têm a noite, as estrelas, o tempo de amar
Na cumplicidade do silêncio e do luar.
Oh! Trevas, Oh! Bruxas, alerta:
Transformem em sapo este poeta.




Francisco Simões

Ai, Timor... Um Minuto de Silêncio


































Um Minuto de Silêncio


Calai
Montes
Vales e fontes
Regatos e ribeiros
Pedras dos caminhos
E ervas do chão,
Calai

Calai
Pássaros do ar
E ondas do mar
Ventos que sopram
Nas praias que sobram
De terras de ninguém,
Calai

Calai
Canas e bambus
Árvores e "ai-rús"
Palmeiras e capim
Na verdura sem fim
Do pequeno Timor,
Calai

Calai
Calai-vos e calemo-nos
POR UM MINUTO
É tempo de silêncio
No silêncio do tempo
Ao tempo de vida
Dos que perderam a vida
Pela Pátria
Pela Nação
Pelo Povo
Pela Nossa
Libertação
Calai - um minuto de silêncio...



Borja da Costa







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Timor



Lavam-se os olhos nega-se o beijo
do labirinto escolhe-se o mar
no cais deserto fica o desejo
da terra quente por conquistar

Nobre soldado que vens senhor
por sobre as asas do teu dragão
beijas os corpos no chão queimado
nunca serás o nosso perdão

Ai Timor
calam-se as vozes
dos teus avós
Ai Timor
se outros calam
cantemos nós

Salgas de ventres que não tiveste
ceifando os filhos que não são teus
nobre soldado nunca sonhaste
ver uma espada na mão de Deus

Da cruz se faz uma lança em chamas
que sangra o céu no sol do meio dia
do meio dos corpos a mesma lama
leito final onde o amor nascia

Ai Timor
calam-se as vozes
dos teus avós
Ai Timor
se outros calam
cantemos nós



João Monge







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O Sul






















O sol o sul o sal
as mãos de alguém ao sol
o sal do sul ao sol
o sol em mãos de sul
e mãos de sal ao sol



O sal do sul em mãos de sol
as mãos de sul ao sol



um sol de sal ao sul
o sol ao sul
o sal ao sol
o sal o sol
e mãos de sul sem sol nem sal



Para quando enfim amor
no sul ao sol
uma mão cheia de sal?



Ruy Duarte de Carvalho

Conheço o sal...



















Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu Inverno
da carne repousando em suor nocturno.


Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.


Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.


Conheço o sal que resta em minhas mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.


Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.


A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.





Jorge de Sena
in Conheço o Sal...e Outros Poemas

O Meu Poema é o Povo

























O poeta não faz o poema
O poeta escreve a poesia

As massas
fazem o poema de ouro que não podem escrever
o povo
compõe belos versos que não pode desenhar.

Nos charcos
se faz poema de guerra
nos campos arrasados pelas bombas de fogo
o povo canta um poema
na travessia de um rio
que devora os que não sabem nem podem nadar
os mortos nos legam versos que não podem ler.

O meu poema
não sei escrevê-lo também
não posso escrever o poema que sinto no peito
por serem vários os versos.
São tantos os autores do meu poema
e versos assim
trazem rima doutra inspiração.

Rimam em cada metralha que dispara
rimam no chorar do órfão
rimam nas grutas protectoras do guerrilheiro.

Não sei escrever este poema.

Gostaria de cantar o poema que me bate no coração
mas não posso
porque este é o próprio Povo em armas
e só ele deve continuar
a fazer o poema que eu não posso redigir
nem ele pode ler também!

Os que fazem a História
Nem sempre podem escrevê-la.



Nito Alves (1945-1977)
In Memória da Longa Resistência Popular




Este magnífico poema chegou-me via Jovens de Angola onde, em cada palavra, se sente o pulsar de um povo, os seus debates francos, abertos e plenos de vivacidade e generosidade.

Pode ser lido aqui, de onde o retirei.
O site da Associação 27 de Maio merece uma visita.


Poema Armado

























Que o poema venha cantando
ao ritmo contagiante do batuque
um canto quente de força,
coragem, afecto, união

Que o poema venha carregado
de amarguras, dores,
mágoas, medos,
feridas, fomes...

Que o poema venha armado
e metralhe a sangue-frio
palavras flamejantes de revoltas
palavras prenhes de serras e punhais...

Que o poema venha alicerçado
e traga em suas bases
palavras tijolantes,
pontos cimentantes,
portas, chaves, tectos, muros

E construa solidamente
uma fortaleza de fé
naqueles que engordam
o exército dos desesperados

Para que nenhuma fera
não mais galgue escadas
à custa de necessidades iludidas...

E nem mais se sustente
com carne, suor e sangue
dum povo emparedado e sugado
nos engenhos da exploração!



Oubi Inaê Kibuko

Portuguíndio






















Foto de Ricardo Pestana, aqui




Às 21 h e 50 min do Rio de Janeiro - Brasil
- em homenagem à Pátria-Mãe do Brasil

Navego-te, sou um menino,
Oh, ilustre Portugal,
Nos sonhos que descortino,
Rumando ao teu litoral.

Se não disponho de nau,
Eu apenas silencio,
Escolho o verso ideal
E pronto: tenho um navio !

E aporto logo em teu Tejo,
Beijo os versos de Pessoa
E tantos outros que vejo:
Florbela, Régio... a alma voa ...

Bocage, Camões... Sá Carneiro
Tantos míticos poetas...
E faço-me prisioneiro
De tua história inquieta...

Vislumbro tua Lisboa,
Teu Porto, tua Marinha...
A tua gente tão boa...
Teus castelos, tuas vinhas

E nesse ato de amar-te,
Buscar-te e um dia ver-te
Contento-me em sonhar-te,
Que estranho... sem conhecer-te.

Abro meus olhos felizes,
E esse amor repentino
Se faz em vários matizes
Tenho os sonhos de um menino...

Mergulho num tempo antigo
E o meu avô português
De olhos azuis, ri comigo
E diz: - Sabes quem te fez ?

...Uma índia brasileira,
Que um dia arremessou
Uma flechada certeira
No peito do teu avô !



Luiz Poeta
In Voando Fora da Asa

Luanda






















Luanda

Aqui reside tudo
E todos

Germinam as raízes todas
Aqui está cada um dos braços e dos rostos
Dum só corpo que anda sobre o vento
Navega os céus e toda a geografia
Desde a minha aldeia e do meu povo
Desce o campo refugia-se na cidade
Das ruínas às pontes de margens ansiosas
Tarda o abraço
Demora o dia das horas sucessivas
Sem paragem

No tempo de memórias tristes
Aqui estamos e estaremos
Porque somos
Mais do que pó e húmus
Unida essência dum jardim de vida
Morremos várias vezes no percurso
Mas seremos sempre
Capazes de chegar
à vida
Porque somos todos, somos um
Em cada um
Dos pontos cardeais
Deste país. Angola



Costa Andrade