Ilha de Moçambique

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Imagens daqui


Ilha de oiro e angustia
Feita de sol e de prata
Marfim talhado em relíquias
Cobre batido do vento
Num moinho de saudades.

Fortaleza escancarada
A memórias esquecidas...

Senhora do Baluarte velando
As brancas velas do Canal.

Sermões de S. Francisco Xavier
Guardados nas rochas de coral.

Riquexós vagueando ao sol
Brancas praias sonolentas
Enfeitadas de saris e cofios
Brancos, pretos, encarnados

E rostos cor da verdade
De viver num monumento
De prata, de oiro e de cobre
Cobre batido do vento...

Pórtico dos sonhos, momento
de índias descobertas e vencidas
Monumento, monumento,
De memórias esquecidas...

Além-portas de marfim
Paredes meias com a História
Dentro da fama e memória
Para que nela sempre fique
A Ilha de Moçambique.



Neves e Sousa

Fair Play






Ajax vs Den Haag


O visionamento do clip dispensa quaisquer palavras.
Não dispensa uma pergunta:
- Em Portugal, algum dos 3 grandes teria a mesma atitude da equipa do Ajax Amsterdham??

Vergonha















(Imagem online da Caracas TV)




Que ninguém se cale - é intolerável!

Hugo Chavez, ditador, golpista e populista sem escrupulos está a lançar o povo venezuelano em mais uma tenebrosa versão de obscurantismo.

O mundo ocidental encolhe os ombros.

A esquerda sente-se, aparentemente, confortável perante este ataque ás «mais amplas liberdades democráticas». Nem uma palavra!






Participação de acidente de trabalho






















(clique na imagem para poder ler)

Momento























Uma espécie de céu,
Um pedaço de mar,
Uma mão que doeu,
Um dia devagar.
Um Domingo perfeito,
Uma toalha no chão,
Um caminho cansado,
Um traço de avião.



Uma sombra sozinha,
Uma luz inquieta,
Um desvio na rua,
Uma voz de poeta.



Uma garrafa vazia,
Um cinzeiro apagado,
Um Hotel numa esquina,
Um sono acordado.
Um secreto adeus,
Um café a fechar,
Um aviso na porta,
Um bilhete no ar.



Uma praça aberta,
Uma rua perdida,
Uma noite encantada
Para o resto da vida.



Pedes-me um momento,
Agarras as palavras,
Escondes-te no tempo
Porque o tempo tem asas.
Levas a cidade
Solta no cabelo,
Perdes-te comigo
Porque o mundo é um momento.



Uma estrada infinita,
Um anúncio discreto,
Uma curva fechada,
Um poema deserto.
Uma cidade distante,
Um vestido molhado,
Uma chuva divina,
Um desejo apertado.



Uma noite esquecida,
Uma praia qualquer,
Um suspiro escondido
Numa pele de mulher.



Um encontro em segredo,
Uma duna ancorada,
Dois corpos despidos,
Abraçados no nada.
Uma estrela cadente,
Um olhar que se afasta,
Um choro escondido
Quando um beijo não basta.



Um semáforo aberto,
Um adeus para sempre,
Uma ferida que dói,
Não por fora, por dentro.



Pedes-me um momento,
Agarras as palavras,
Escondes-te no tempo
Porque o tempo tem asas.
Levas a cidade
Solta no cabelo,
Perdes-te comigo
Porque o mundo é um momento.



Pedro Abrunhosa


África



















Tambor está velho de gritar
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
corpo e alma só tambor
só tambor gritando na noite quente dos trópicos.

Nem flor nascida no mato do desespero
Nem rio correndo para o mar do desespero
Nem zagaia temperada no lume vivo do desespero
Nem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero.

Nem nada!

Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terra
Só tambor de pele curtida ao sol da minha terra
Só tambor cavado nos troncos duros da minha terra.

Eu
Só tambor rebentando o silêncio amargo da Mafalala
Só tambor velho de sentar no batuque da minha terra
Só tambor perdido na escuridão da noite perdida.

Oh velho Deus dos homens
eu quero ser tambor
e nem rio
e nem flor
e nem zagaia por enquanto
e nem mesmo poesia. Só tambor ecoando como a canção da força e da vida
Só tambor noite e dia
dia e noite só tambor
até à consumação da grande festa do batuque!
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
só tambor!



José Craveirinha

Se me perguntares























Se me perguntares
Quem sou eu
Cavada de bexiga de maldade
Com um sorriso sinistro
Nada te direi
Nada te direi

Mostrarte-ei as cicatrizes de séculos
Que sulcam as minhas costas negras
Olhar-te-ei com olhos de ódio
Vermelhos de sangue vertido durante séculos
Mostrar-te-ei minha palhota de capim
A cair sem reparação
Levar-te-ei às plantações
Onde sol a sol
Me encontro dobrado sobre o solo
Enquanto trabalho árduo
Mastiga meu tempo
Levar-te-ei aos campos cheios de gente
Onde gente respira miséria em toda a hora
Nada te direi

Mostrar-te-ei somente isto
E depois
Mostrar-te-ei os corpos do meu Povo
Tombados por metralhadoras traiçoeiras,
Palhotas queimadas por gente tua
Nada te direi

E saberá porque luto.




Armando Guebuza
Moçambique, 1977

Consciencialização





















Medo no ar!

Em cada esquina
sentinelas vigilantes incendeiam olhares
em cada casa
se substituem apressadamente os fechos velhos
das portas
e em cada consciência
fervilha o temor de se ouvir a si mesma

A historia está a ser contada
de novo

Medo no ar!

Acontece que eu
homem humilde
ainda mais humilde na pele negra
me regresso África
para mim
com os olhos secos.




Agostinho Neto
In “Sagrada esperança”

Eu sou tudo e sou nada
























Eu sou tudo e sou nada
Mas busco-me incessantemente
Não me encontro !
Oh farrapos de nuvens, passarões não alados
levai-me convosco !
Jà nâo quero esta vida
Quero ir nos espaços
para onde nâo sei



Amílcar Cabral
In "Emergência da poesia em Amilcar Cabral" de Oswaldo Osorio

Raízes


















"Maianga Maianga
Bairro antigo e popular
Da velha Luanda
Com palmeiras ao luar ..."

''A Praia do Bispo
Cheiinha de graça
De manha á noite
sorri a quem passa ..."

(das Marchas Populares em Luanda)



Longo era o bairro ao longo da marginal
Longo era o bairro do morro de S. Miguel ao morro da Samba
Grande era o bairro e grandes as casas
No meio o bairro operário e a igreja de S.Joaquim,
estreitas as ruas, pequenas as casas.

Nas traseiras, o morro,
no alto o Palácio,
Na frente a larga avenida,
o paredão, as palmeiras e os coqueiros
a praia que já não era do Bispo
mas das pedras, dos limos e dos detritos.

Mais além a ilha que era península
com a sanzala dos pescadores
casas de colmo no areal
da extensa e boa praia
o mar sem fim.

Em Luanda nasci
Em Luanda vivi
Em Luanda estudei

Não Angola mas Portugal
Todos os rios e afluentes
Todas as linhas férreas e apeadeiros
Todas as cidades e vilas
Todos os reis e algumas batalhas
as plantas e animais
que não eram do meu país.

De Angola
pouco sabíamos
até ao 4 de Fevereiro, até ao 15 de Março
Veio a guerra e
a mentira
que alimenta
a Guerra,
Veio a guerra e a violência
veio a guerra e a liberdade.

Em Évora a 11 de Novembro
Em Luanda a bandeira do meu país
no mastro subiu.
Era o tempo da liberdade e da esperança.

No Porto
Em Lisboa
Em Évora estudei
Em Évora casei
Em Évora vivi e nasceram o Rui e a Susana.

Em Setúbal moro e no Barreiro trabalho

Perdidos os amigos,
perdida a infância
Estrangeiro sem raízes sou em Portugal.





Victor Nogueira
1989

I ask























I lay down my knife
beside your gun,
And ask . . .
Is it good, that we not fight?


I give you my blanket,
In return for your coat
And ask . . .
Is it good, that we exchange?


I give you my land
In return for your progress
And ask . . .
Is it good, that we advance?


I share with you my beliefs,
In return for your beliefs,
And ask . . .
Why . . .
Is it good that we lose our identity?




Pam Taylor
Cherokee

Amor entre ferrolhos






















Amor de lágrimas florida na cruel distância
amor do grito sufocado na garganta estraçalhada
amor do abraço que prolonga a pausa

Quem tão terrível inventou o mel de amor
para entremeá-lo de escarpas de salitre
E cravá-lo de punhais de afastamento?

Quem tão horrendo e tão arrefecido
fez do calor de um beijo a despedida
adeus que roça morte do luar?
Oh!, amor saudade meu silêncio a voz chorada
caleidoscópio de muralhas fantasia
pudesse reduzir o céu a uma gota azul

Ferrolhos de tanto amor amado!



Costa Andrade

Acalmia ruidosa. Em quatro sinos

















1. instante inicial

eis a história das sílabas igualmente
os confins das linhas de água.
a alegria peregrina percorre cidadelas
como as sentinelas do mar: as águas
vêm dar à beleza das sílabas
como se houvesse um luminoso
reencontro: era o instante inicial.


2. primeiro instante intermédio

esperava que a paisagem pintasse
noites vizinhas. e insígnias rebuscando
cacimbos numa desconhecida povoação.
porém, apareceram riozinhos esverdeados
iluminando armadilhas, angústias
e telas infernais: a nação comum
encerrando torturas sobre as lágrimas.


3. segundo intermédio

parecia um reino de pasto fascinante
suficiente para enriquecer estômagos estranhos.
precioso? os rios não diziam o contrário.
e desfilava maldita miséria insuficiente
para desencantar a plenitude humana.
em reino que raspava a fortuna
crescia a flor do dia frequentando
abraços virgens. Ricos em sonhos enfeitiçados.


4. instante final

teria o solo da eternidade outras cinzas?
onde adormece o abrigo crescem
um insondável silêncio e delicadas
folhas cuja cor saúda a origem da sombra:
todas as cinzas pronunciavam a eternidade.
era a repetição dos passos e imagens.
imagens estáticas do milénio anterior.



João Maimona

O fado do encontro





Vou andando
Cantando
Tenho o sol à minha frente
Tão quente, brilhante
Sinto o fogo à flor da pele
Tão quente, beijando
Como se fosses tu

Ao longe,
Distante,
Fica o mar no horizonte
É nele, por certo
Onde a tua alma se esconde
Carente, esperando
Esse mar és tu

Pode a noite ter outra cor
Pode o vento ser mais frio
Pode a lua subir no céu
Eu já vou descendo o rio...

Na foz
Revolta
Fecho os olhos penso em ti
Tão perto
Que desperto
Há uma alma à minha frente tão quente,
Beijando
Por certo que és tu

Pode a lua subir no céu
E as nuvens a noite toldar
Pode o escuro ser como breu
Acabei por t'encontrar

Vou andando
Cantando
Tive o sol à minha frente
Tão quente brilhando
Que a saudade me deixou
Pra sempre, por certo
O meu Amor és tu



Tim

A alma é como a lavra


















Junto á Catedral de Mbanza Congo, foto de Ana Filipa Silva






A alma é como a lavra.
Quando as nossas mãos voltam a desfiar.
O milho amarelo de ouro?
Que outras mãos que as nossas semeiam
O medo e o silêncio da morte?
Porquê este frio? Porquê tão longa a noite?
Como se faz o mundo? Quando começa o mundo?



Maria Alexandre Dáskalos
in “O Jardim das Delícias”

Manhã















Foto de João Vasco em 1000 Imagens






Erguida do fundo das águas plácidas
dum lago surge Mulher.
Limos na pasta dos cabelos
escondem o mistério dos olhos
olhando a curva do seu ventre.
Flutuando
entre sombras e reflexos
duma luz longínqua,
a forma dos braços
ganha o mais e mais fundo das águas.
Os seios erguidos
apontam ao longe
a aurora que vem.
Em volta,
musgos, líquens, algas,
em fosforescências arbóreas
de constelações que lembram
os recessos da vida.
Em plantas aquáticas, marítimas,
chegam-lhe da floresta
lutas de homens, desesperos e cansaços,
feras e povos divididos, misturados
confundidos
para a sua criação.
E tudo esquecido ou ignorado,
só no lago
o corpo erguido,
jovem,
abrindo nas sombras o seu perfil que nasce
o seu perfil de Mãe
dos Homens do futuro.



Alexandre Dáskalos
In “Poesia

Ehotiyo, o caracol
























O meu amigo tem prurido da mudança de lugar.
Não constrói casa.
Para morar tem o corpo e a casa no mesmo lugar
Com prurido da mudança não constrói casa para morar.



José Samuila Kakueji

Lenda da Fonte





















Maria do monte
Nascida e criada
Na encruzilhada
Que fica de fronte
Da fonte sagrada
A lenda é antiga
Mas há quem a conte
Que descia do monte
Uma rapariga
Para beber na fonte.

E àquela hora
Por ela marcada
De noite ou de dia
O Chico da nora
Na encruzilhada
Esperava a Maria
Seguiram depois
Bem juntos os dois
Ao longo da estrada
Matar de desejos
A sede com beijos
Na fonte sagrada.

Mas um certo dia
Como era esperada,
Na encruzilhada
Não veio a Maria
À hora marcada
Seus olhos divinos
Para sempre fechou
Aldeia rezou
Tocaram os sinos
E a fonte secou.

E àquela hora
Por ela marcada
De noite ou de dia
O Chico da nora
Na encruzilhada
Esperava Maria
Mas ó santo deus
Escureceram-se os céus
Finou-se a beldade
E diz-se no monte
Que a velhinha fonte
Secou de saudade.



Maria Branco

É melhor Bento XVI ir pondo as barbas de môlho...



























Se o Principe Carlos resolver "inventar"... o Papa está em perigo! Confiram aqui.

Portugal em Paris





















Solitário
por entre a gente eu vi o meu país.
Era um perfil
de sal
e abril.
Era um puro país azul e proletário.
Anónimo passava. E era Portugal
que passava por entre a gente e solitário
nas ruas de Paris.


Vi minha pátria derramada
na Gare de Austerlitz. Eram cestos
e cestos pelo chão. Pedaços
do meu país.
Restos.
Braços.
Minha pátria sem nada
despejada nas ruas de Paris.


E o trigo?
E o mar?
Foi a terra que não te quiz
ou alguém que roubou as flores de abril?
Solitário por entre a gente caminhei contigo
os olhos longe como o trigo e o mar.
Éramos cem duzentos mil?
E caminhávamos. Braços e mãos para alugar
meu Portugal nas ruas de Paris.



Manuel Alegre

Livre Livre Livre





















É possível falar sem um nó na garganta

é possível amar sem que venham proibir
é possível correr sem que seja fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.

É possível andar sem olhar para o chão
é possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros
se te apetece dizer não grita comigo: não.

É possível viver de outro modo. É
possível transformares em arma a tua mão.
É possível o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.

Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre livre livre.



Manuel Alegre

O 24 de Abril por Jorge de Sena




















A Canalha




Como esta gente odeia, como espuma
por entre os dentes podres a sua baba
de tudo sujo sem sequer prazer !
Como se querem reles e mesquinhos,
piolhosos, fétidos e promíscuos
na sarna vergonhosa e pustulenta !
Como se rabialçam de importantes,
fingindo-se de vítimas, vestais,
piedosas prostitutas delicadas!
Como se querem torpes e venais
palhaços pagos da miséria rasca
de seus cafés, popós e brilhantinas !
Há que esmagar a DDT, penicilina
e paus pelos costados tal canalha
de coxos, vesgos, e ladrões e pulhas,
tratá-los como lixo de oito séculos
de um povo que merece melhor gente
para salvá-lo de si mesmo e de outrém.




Jorge de Sena
7 de Dezembro de 1971

No me llames estranjero

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No me llames extranjero,
porque haya nacido lejos,
o porque tenga otro nombre
la tierra de donde vengo.

No me llames extranjero,
porque fue distinto el seno,
o porque acunó mi infancia
otro idioma de los cuentos.

No me llames extranjero
si en el amor de una madre,
tuvimos la misma luz, en el canto y en el beso,
con que nos sueñan iguales las madres contra su pecho.

No me llames extranjero,
ni pienses de dónde vengo,
mejor saber dónde vamos,
adónde nos lleva el tiempo.

No me llames extranjero,
porque tu pan y tu fuego,
calman mi hambre y mi frío,
y me cobija tu techo.

No me llames extranjero,
tu trigo es como mi trigo,
tu mano como la mía,
tu fuego como mi fuego
y el hambre no avisa nunca,
vive cambiando de dueño.

Y me llamas extranjero …
porque me trajo un camino,
porque nací en otro pueblo,
porque conozco otros mares
zarpé un díade otro puerto,
si siempre quedan iguales
en el adiós los pañuelos
y las pupilas borrosas
de los que dejamos lejos.
Los amigos que nos nombran
y son iguales los rezos
y el amor de la que sueña
con el día del regreso.

¡¡¡ NO ME LLAMES EXTRANJERO !!!
Traemos el mismo grito, el mismo cansancio viejo
que viene arrastrando el hombre desde el fondo de los tiempos,
cuando no existían fronteras, antes que vinieran ellos …
Los que dividen y matan, los que roban, los que mienten,
los que venden nuestros sueños,
los que inventaron un día esta palabra … estranjero.

No me llames extranjero
que es una palabra triste,
que es una palabra helada
huele a olvido y a destierro.

No me llames extranjero
mira tu niño y el mío
cómo corren de la mano
hasta el final del sendero

No los llames extranjeros, ellos no saben de idiomas,
de límites ni banderas, míralos se van al cielo
con una risa paloma, que los reúne en el vuelo.

No me llames extranjero piensa en tu hermano y el mío,
el cuerpo lleno de balas besando de muerte el suelo.

Ellos no eran extranjeros, se conocían de siempre;
por la libertad eterna, igual de libres murieron.

¡¡¡ No me llames extranjero !!!

Mírame bien a los ojos,
mucho más allá del odio,
del egoísmo y el miedo

¡Y verás que soy un hombre!

¡¡¡ NO PUEDO SER EXTRANJERO !!!



Rafael Amor
de uma apresentação gentilmente enviada por Aires Bustorff


A rentabilidade do inferno em... discurso directo!


























Imagem daqui





Este testemunho, só assim o posso classificar, anónimo, foi publicado em 07Fev2003, cerca de um mês antes da intervenção anglo-americana no Iraque no site da TSF, quando esta emissora permitia os comentários.

Estava inserido numa notícia em que o ministro Nuno Morais Sarmento, com visível enfado, anunciava, enquanto porta-voz do governo de Durão Barroso a "notável" (como se recordam) medida de Paulo Portas que consistiu na criação do "Dia das Forças Armadas" que passar-se-ia a comemorar a cada dia 24 de Junho.
Penso que o autor deste escrito teve já tempo de se arrepender, pelo menos no que diz respeito ao Iraque, ele e muitos, muitos outros...
Todos quantos foram obrigados a pegar em armas e efectivamente lutar, correr risco de vida, ver matar e morrer, lutar, apesar disso, com honra, de ambos os lados da guerra qualquer que tenha sido a motivação, em todos os teatros de operações sentir-se-ão ultrajados, legitimamente ultrajados...
O depoimento deste comentador anónimo é tristemente relevante... por pôr a nú uma certa maneira muito sui generis como uma parcela significativa da população portuguesa encara (e encarou) a guerra e que, infelizmente, por ter tido eco... fez escola.
O recente encerramento da embaixada portuguesa em Bagdade e o «convulsivo choro» de Marques Mendes a esse respeito, fez-me lembrar, também, este comentário pejado de oportunismo, o mesmo que nos fez embarcar na «cházada» da Lajes e que pretendia garantir para as empresas de construção civil uma fatia da reconstrução do infeliz e devastado Iraque.

Deixo-vos com o depoimento:




"Sou militar reformado em marinheiro da Marinha.
A minha safa foi a Guerra Colonial, e depois o 25 de Abril. Parece contraditório, mas não é.
Até chamarem-me para a guerra, não ganhava muito, as dificuldades eram muitas.
Em bom rigor não houve um chamamento, pois a malta até se matava para ir para lá. Ir para Angola para mim significou (por isso é que nos atropelávamos) receber 10 vezes o que cá recebia. Ou seja, ganhava cá 1700 escudos, e fui lá ganhar durante 6 anos cerca de 17.000 escudos. Era um simples marinheiro, mas ganhava lá mais que cá o ministro da marinha, tudo legal, constava do boletim de vencimento.
Eu e a minha mulher, tinhamos uma bela casa lá posta à disposição pelo Serviço, podia ir a toda a hora à cantina. Foram 6 anos de poupança total.
Guerra, nem vê-la. A única que em que combati foi para poder ser chamado para Angola, mudar a minha vida. E como eu, muitos outros. Podem crer que nos matávamos todos para pôr lá os pés ! Todos queríamos o mesmo !
E hoje é a mesma coisa quando há lugares para a Bósnia, Timor, ou outro lado qualquer. Até chovem cunhas !
Combati e vi combater numa terrível guerra: a guerra das cervejas (as cucas), envolvendo brancos, pretos e mestiços lá na cantina do serviço. Boas amizades então se faziam…
Entretanto, deu-se o 25 de Abril. Eu pensava que a mama acabou.
Mas veio o Vasco Gonçalves e aumentou a malta para o dobro, porque não faltou gente a chorar que a guerra era um inferno ( « nem mais um soldado para as colónias » ).
E ainda, como vi tantos colegas a choramingar e a fazer o mesmo, falei com um médico que me arranjou os papéis, e estou desde então dado como deficiente. Até vale bem a pena porque pago muito menos de IRS, e o carro que comprei no ano passado ficou-me muito barato, já que a minha deficiência justificou a isenção de imposto automóvel. Razão tinha esse médico, em dizer-me que só se eu fosse parvo é que não me dava como deficiente das forças armadas.
Lembro-me da frase do Doutor : « não sejas parvo, o Estado logo te agradece ! ». E ao que oiço, existem 400.000 ex-combatentes como eu que fizeram o mesmo. E agora o Paulo Portas ainda quer aumentar os Ex-combatentes, eu pelo sim pelo não já meti os papéis !Com o dinheiro que trouxe de Angola (para lá não levei nenhum) comprei 2 andares a pronto pagamento, e um automóvel novinho em folha, tudo dinheiro na mão. Nunca fiquei a dever nada a ninguém. E por isso nunca fui a um Banco pedir um tostão que fosse. Sempre detestei fazer figuras tristes. Reformei-me com 39 anos de idade, no auge da minha saúde. Os anos de Angola contaram a dobrar para a reforma. Fiquei logo com a reforma, e assistência médica e medicamentos á borla. Tretas ? Nem pensar !
Fui e sou um homem honesto, não devo nada a ninguém. Fiz o que fizeram muitos e muitos colegas do quadro, só que assumo ! Nunca pedi nada a ninguém, limitei-me a cumprir ordens dos meus superiores hierárquicos, como bom militar que sempre fui. Até a história dos papéis da deficiência, foi uma imposição de um médico capitão de fragata. Toda a unidade já tinha o papel, menos eu, não podia ser… Passo hoje o meu tempo numa pequena quinta que tenho perto do Azeitão, entretido na horta e nos jardins.
Mas o melhor tempo que passei foi em Angola. Nunca fui um retornado, porque fui lá destacado para ir ganhar o meu ! E como eu tantos e tantos outros colegas.
Apesar de mais velho, ainda estava capaz, eu e a minha mulher, de ir para o Iraque !"

Três visões do inferno























NOITE INFERNAL



Esta mágoa em noite de cacimbo
martela lentamente o pensamento
no instante em que ruge o avião
partindo o silêncio com estrondo...
as bombas vomitando o fogo
que a combustão do napalm espalha
nas aldeias de fantasmas famintos
que matam todas as esperanças
da gente pobre e franzinas crianças
que tentam fugir de qualquer jeito
- vergonha da pátria sem o proveito!


Meus olhos brilharam de espanto
ao verem a sanzala em chamas...
ali sufocadas no calor das labaredas
ficaram as crianças de choro abafado,
bombas a rasgar sulcos nas veredas
por onde se arrastavam os corpos
queimados num sofrimento danado.


Quando a consciência salta o orvalho
por um lapso de tempo vi o inferno
com as bombas riscando os céus...
o rebentamento de efeito medonho
rasgou as palhotas com gente dentro
e o aniquilamento daquela sanzala
deixou-me preso à sequência da morte
com a garganta presa e sem fala.


Um cheiro intenso ataca as narinas
perde-se a seiva nas balas de fogo
e dilui-se o medo do alastramento
de tantas queimadas feitas à toa...
o absurdo de quem manda no jogo
está muito longe, talvez em Lisboa!



Joaquim Coelho
Onzo, 1962
in "Espaço Etéreo"




ALDEIA QUEIMADA




Mas
nas noites
desparasitadas de estrelas
é que as hienas
actuam.

É
de cinzas
o vestígio das palhotas.



José Craveirinha
in "Babalaze das Hienas"





AUTOBIOGRAFIA



Não existe mais
a casa onde nasci
nem meu Pai
nem a mulembeira
da primeira sombra.

Não existe o pátio
o forno a lenha
nem os vasos e a casota do leão.

Nada existe
nem sequer ruínas
entulho de adobes e telhas
calcinadas.

Alguém varreu o fogo
a minha infância
e na fogueira arderam todos os ancestres.



Costa Andrade
In “Palavra de Poeta”

Benguela











Foto de Frederico Sá Pinto, aqui





"obrigado por me teres dado a "Mena", a Irmã que
nunca tive"



Numa das longas conversas,
Que tive com minha Avó
Perguntei-lhe se conhecia Benguela.
A minha Avó respondeu-me:
Conhecer eu não conheço,
Mas já ouvi falar dela.
Perguntei-lhe, se conseguia,
Num mapa localizar.
Ou por seus olhos cansados
Ou porque o mapa era velho.
Precorreu-o de alto a baixo
Não conseguiu encontrar.
Para eu não ficar triste,
Pediu-me lápis de cor,
E em seu estilo Naiff,
Sobre uma folha branca,
Com o castanho fez vários riscos,
Com o vemelho fez bolinhas
Chamou-lhe Acácias em flor.
Dum lado e de outro de um morro,
Desenhou duas baías.
Que mais pareciam contorno,
De dois seios de mulata.
Com o azul pintou o mar,
Com o amarelo fez um sol,
A uma chamou-lhe Azul.
A outra chamou-lhe Farta.
Três praias mais desenhou,
A uma chamou Caota...
E Caotinha à mais pequena.
Mais ao lado, para mim,
A mais bonita...
Chamou-lhe praia Morena
Com o mesmo azul da praia,
Fez um rio.
A preto pintou um barco...
Com o amarelo bananas,
De resto tudo era verde...
Chamou-lhe rio Cavaco.


Segurou naquele desenho,
Como não sabia ao certo,
Em que lugar no mapa,
Deveria colocar!
Disse-me escuta meu neto.
Quando para o sul viajares
E chegares a uma cidade
Com praias maravilhosas,
Com acácias floridas,
E muitas mulheres bonitas,
Nas ruas ou à janela.
Pára...
Porque ou já é, ou estás perto
Dessa Cidade tão linda,
A que chamam de Benguela.




Olimpio C. Neves

(Gentilmente enviado pelo amigo Aires Bustorff)

Soneto





















Maputo, foto daqui




Eu tenho a pagar 10 e na carteira
Apenas tenho 8. Eis a arrelia.

Eis-me buscando em mente uma maneira
De pagar o que devo em demasia.

E fico às vezes nisto todo o dia,
Um dia inteirinho em estúpida canseira.
Se busco distrair-me, de vigia,
Olha-me a rir a dívida grosseira.

E entretanto na rua vão passando
Carros de luxo, altivos salpicando
O lodaçal dos trilhos sobre mim...

E sinto, na revolta, o algarismo,
Do trono do brutal capitalismo,
A rir de nós, os bobos do festim!



Rui de Noronha

Timor-Leste: paixão do poeta



























(...)
«I weep for Adonais
because he is dead».

Eu choro por Adonais
porque morreu.

Não está mal... a tradução,
mas tens razão!
Eu sou português e não
falo com a boca cheia.
Esta mania lusíada
de cuspir no chão é feia.
Nós não vivemos na selva.

E ela, tola-lograda:
- Don't be silly. Há o fado!
I like Fado. Não gostas!
Tu tens a melena cheia
de brilhantina. You look
almost like a fadista!

Passei a mão pela testa
e desgrenhei a madeixa,
dizendo: - Queres morangos,
figos amoras ou beijos...
(...)



Ruy Cinatti
in “Manhã Imensa”

Contrastes



















Na dor contida
as mãos atadas
Na vida ferida
a fé abalada
Na corda bamba
o medo presente
Na cor da esperança
a fuga latente
No sorriso do rosto
discreto desgosto
Na tristeza da face
eternos contrastes



Zena Maciel

What a wonderful world



















Em manobra para aterragem em Mbanza Congo





I see trees of green, red roses too
I see them bloom for me and you
And I think to myself, what a wonderful world

I see skies of blue and clouds of white
The bright blessed day, the dark sacred night
And I think to myself, what a wonderful world

The colours of the rainbow, so pretty in the sky
Are also on the faces of people going by
I see friends shakin' hands, sayin' "How do you do?"
They're really saying "I love you"

I hear babies cryin', I watch them grow
They'll learn much more than I'll ever know
And I think to myself, what a wonderful world
Yes, I think to myself, what a wonderful world

Oh yeah



Louis Armstrong