.: Se eu fosse um dia o teu olhar :.






















Foto de Mirjam Letsch





Frio
O mar
Por entre o corpo
Fraco de lutar
Quente,
O chão
Onde te estendo
Onde te levo a razão.
Longa a noite
E só o sol
Quebra o silêncio,
Madrugada de cristal.
Leve, lento, nu, fiel
E este vento
Que te navega na pele.
Pede-me a paz
Dou-te o mundo
Louco, livre assim sou eu
(Um pouco +...)
Solta-te a voz lá do fundo,
Grita, mostra-me a cor do céu.

Se eu fosse um dia o teu olhar,
E tu as minhas mãos também,
se eu fosse um dia o respirar
E tu perfume de ninguém.
Se eu fosse um dia o teu olhar,
E tu as minhas mãos também,
se eu fosse um dia o respirar
E tu perfume de ninguém.

Sangue,
Ardente,
Fermenta e torna aos
Dedos de papel.
Luz,
Dormente,
Suavemente pinta o teu rosto a
pincel.
Largo a espera,
E sigo o sul,
Perco a quimera
Meu anjo azul.
Fica, forte, sê amada,
Quero que saibas
Que ainda não te disse nada.
Pede-me a paz
Dou-te o mundo
Louco, livre assim sou eu
(Um pouco +...)
Solta-te a voz lá do fundo,
Grita, mostra-me a cor do céu.



Pedro Abrunhosa


Mulher





















Chamam-te linda, chamam-te formosa,
Chamam-te bela, chamam-te gentil...
A rosa é linda, é bela, é graciosa,
Porém a tua graça é mais subtil.

A onda que na praia, sinuosa,
A areia enfeita com encantos mil,
Não tem a graça, a curva luminosa
Das linhas do teu corpo, amor e ardil.

Chamam-te linda, encantadora ou bela;
Da tua graça é pálida aguarela
Todo o nome que o mundo à graça der.

Pergunto a Deus o nome que hei-de dar-te
E Deus responde em mim, por toda a parte:
Não chames bela — chama-lhe Mulher!



Rui de Noronha

Lisboa


















Digo:
"Lisboa"
Quando atravesso - vinda do sul - o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do meu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas -
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
- Digo para ver



Sophia de Mello Breyner Andresen

Os bilros

















Sobre a almofada, nos bilros,
curtidas mãos exercitam
líquida paciência.
Os bilros têm sons de infância.
As mãos avultam, tranqüilas,
no alegre bater dos bilros.
Mãos e bilros, mãos e bilros
de um fundo a outro do abismo
tecendo a renda do tempo.



Anderson Braga Horta

Por entre as margens da esperança
























por entre as margens da esperança e da morte
meteste a tua mão
e
eu vi alongados nas águas
os dedos que me agarram

em lagoa de um sonho
corpo de jacaré
é soturna jangada de palavras secas
por entre as margens da esperança e da morte

a sul do sonho
a norte da esperança

a minha pátria
é um órfão
baloiçando de muletas
ao tambor das bombas

a sul do sonho
a norte da esperança



Arlindo Barbeitos

Sinto vergonha de mim!


(demora um pouco a carregar)





Sinto vergonha de mim!



"Por ter sido educadora de parte desse povo,
por ter batalhado sempre pela justiça,
por compactuar com a honestidade,
por primar pela verdade
e por ver este povo já chamado varonil
enveredar pelo caminho da desonra.


Sinto vergonha de mim


por ter feito parte de uma era
Que lutou pela democracia,
pela liberdade de ser
e ter que entregar aos meus filhos,
simples e abominavelmente,
a derrota das virtudes pelos vícios,
a ausência da sensatez
no julgamento da verdade,
a negligência com a família,
célula-mater da sociedade,
a demasiada preocupação
com o "eu" feliz a qualquer custo,
buscando a tal "felicidade"
em caminhos eivados de desrespeito
para com o seu próximo.


Tenho vergonha de mim


pela passividade em ouvir,
sem despejar meu verbo,
a tantas desculpas ditadas
pelo orgulho e vaidade,
a tanta falta de humildade
para reconhecer um erro cometido,
a tantos "floreios" para justificar
atos criminosos,
a tanta relutância
em esquecer a antiga posição
de sempre "contestar",
voltar atrás
e mudar o futuro.



'Tenho vergonha de mim



pois faço parte de um povo
que não reconheço,
enveredando por caminhos
que não quero percorrer...



Tenho vergonha da minha impotência,



da minha falta de garra,
das minhas desilusões
e do meu cansaço.
Não tenho para onde ir
pois amo este meu chão,
vibro ao ouvir meu Hino
e jamais usei a minha Bandeira
para enxugar o meu suor
ou enrolar meu corpo
na pecaminosa manifestação de nacionalidade.



Ao lado da vergonha de mim,
tenho tanta pena de ti, povo brasileiro!




"De tanto ver triunfar as nulidades,
de tanto ver prosperar a desonra,
de tanto ver crescer a injustiça,
de tanto ver agigantarem-se os poderes
nas mãos dos maus,
o homem chega a desanimar da virtude,
a rir-se da honra,
a ter vergonha de ser honesto".




Cleide Canton

São sinais de uma tristeza























São sinais de uma tristeza
profundíssima e remota:
a “patada no peito”
e a saída na espera.

Ca-
pitulação
capitólios, pitulinas
kaputos & kaluandas
turras e pulas
e o resto da merda toda
a fermentar no contentor da História
aonde os “vagabundos da verdade”
vêm sondar
os detritos do sonho.

Tem muito filho-de-puta a povoar a crónica.
As criaturas honestas
estão sentadas na sua honestidade
e já agora aproveitam
para ficar quietas
enquanto os outros garantem
o produto nacional.

Se houver cerveja
manda-me chamar.
Talvez encontre então
razão para festas.



Ruy Duarte de Carvalho

Nocturnos






















Café de cais,
Onde se juntam,
Anónimos de iguais,
Os ratos dos porões,
Babel de todos os calões,
Rio de fumo e de incontido cio,
Sexuado rio
Que busca, único mar,
Mulheres de pernoitar,
Unge-te a nojo, não Anfitrite,
Fina ficção marinha,
Mas nauseabundo
E tutelar,
O vulto familiar
Da Virgem Vício,
Nossa Senhora do Baixo Mundo.



Reinaldo Ferreira

1975























E quando te perguntarem
responderás que aqui nada aconteceu
senão na euforia do poema.

Diz que éramos jovens éramos sábios
E que em nós as palavras ressoavam
como barcos desmedidos

Diz que éramos inocentes, invencíveis
e adormecíamos sem remorsos sem presságios

Diz que engendramos coisas simples perigosas:
caroceiros em flor
uma mesa de pedra a cor azul
um cavalo alado de crinas furiosas

Oh, sim! Éramos jovens, terríveis
mas aqui - nunca o esqueças - tudo aconteceu
nos mastros do poema.



Conceição Lima
in "O Útero da Casa"

O Bicho
















"Rei do lixo" de Kiluanji Kia Henda, da sua galeria






Vi ontem um bicho

Na imundície do pátio

Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,

Não examinava nem cheirava:

Engolia com voracidade.


O bicho não era um cão,

Não era um gato,

Não era um rato.


O bicho, meu Deus, era um homem.





Manuel Bandeira

Espiral da vida














"Placenta" de Kiluanji Kia Henda, da sua galeria






as horas caminham em espiral
lúgubres com(o)vidas
em calafrios urdidos
vultos à espreita sonegam.
iminentes.
o mundo grita seu cancro
em mil silêncios. cortantes.
de vidro e agonia.



Conceição Cristóvão

Carta abierta a José Saramago























José Saramago visto por Sergei, aqui





Muy señor mío


Me perdonará Usted mi pobre castellano, pero desde anteayer me entero
de la urgencia de praticarlo. Al "Diário de Notícias" de Lisboa
predijo Usted esto: "acabaremos por integrar-nos" en España.
Preguntado por el periodista Joao Ceu e Silva si nuestro país seria
entonces "una província de Espanha"(le sigo citando en nuestro
antiguo idioma), Usted contestó: "Seria
isso. Já temos a Andaluzia, a Catalunha, o País Basco, a Galiza,
Castilla La Mancha e tínhamos Portugal". Claro, nos asegura,
podremos conservar nuestra lengua, nuestras costumbres,
y así mismo creo yo nuestro fado, pero (no lo dijo, uno entiende) nos
gobernaria el jefe de estado madrileño del momento. Y aunque diga
Usted que no es profeta, no hay que olvidar su proverbial modestia.
En fin, para gente sencilla como yo, sus palabras son un caritativo
aviso del destino. Pues, señor, no y no. Usted, el más famoso de mis
compatriotas, se permite
en público unos juegos muy guapos de futurología. Pero se los guarde
para sus libros, los cuales están perdiendo el suspense de antaño.
Créame, el real futuro de un Portugal integrado en España lo
conocemos ya muy de cerca. Está visible en la Galicia de hoy, donde
la lengua dominante, y los derechos dominantes, y los partidos
dominantes, son los de Madrid. Esto no
es futurología, si no lo qué uno ve. Si quiere verlo.
No creo que sea su caso, Don José. Me contaran que, hace poco, visitó
Usted Galicia invitado por el Pen Club. Le rogaran que hiciera su
discurso en Portugués. Todos podrían entenderle, sin problema, si
hablara en nuestra hermosa variedad de gallego.
Usted - como otras veces ya en Galicia - recusó y habló en Español.
Muchas gracias en realidad. Ahora sabemos cómo hablarán, en la
Província española de Portugal, los futuros traidores.



Amsterdam, 17 de Julio de 2007
Fernando Venâncio
(Professor universitário e crítico de literatura)


Recebi por email de um amigo, reputo como credíveis as alegações produzidas e, naturalmente, não posso deixar de, sem mais comentários, reproduzir...

10 mandamentos da condução

DS - O vaticano e os automoveis

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O humor é muito mais caustico que 1001 discursos inflamados e um milhão de teses.
Brilhante!

Um homem ao crepúsculo
























Um homem ao crepúsculo
sabe que os poetas e as mulheres
percorrem as ruas da cidade


na peregrinação dificílima do amor.
Esperam-nos em caves secretas
ungüentos e odores tropicais
então, um homem tranqüilo torna fácil a nudez.




Maria Alexandre Dáskalos

Anjo do tempo






















"Beleza em Negro" de João Mota da Costa, aqui







Bambos
os joelhos
ó divina ânfora
em que te chovo.

Meu
anjo do tempo
apoteose
do sismo.

Tuas
polpas
gloriosas
em meus tactos.

Cílios
descidos
glória ao sumo
do teu doce
caju novo.




José Craveirinha
In “Poemas Eróticos”

Mãos Esculturais
























Além deste olhar vencido
cheio dos mares negreiros
fatigado
e das cadeias aterradoras que envolvem lares
além do silhuetar mágico das figuras
nocturnas
após cansaços em outros continentes dentro de África

Além desta África
de mosquitos
e feitiços sentinelas
de almas negras mistério orlado de sorrisos brancos
adentro das caridades que exploram e das medicinas
que matam

Além África dos atrasos seculares
em corações tristes

Eu vejo
as mãos esculturais
dum povo eternizado nos mitos
inventados nas terras áridas da dominação
as mãos esculturais dum povo que constrói
sob o peso do que fabrica para se destruir

Eu vejo além África
amor brotando virgem em cada boca
em lianas invencíveis da vida espontânea
e as mãos esculturais entre si ligadas
contra as catadupas demolidoras do antigo

Além deste cansaço em outros continentes
a África viva
sinto-a nas mãos esculturais dos fortes que são povo
e rosas e pão
e futuro.



Agostinho Neto
In "Sagrada Esperança"

Epopeia
























Não mais a África
da vida livre
e dos gritos agudos de azagaia!
Não mais a África
de rios tumultuosos
- veias entumecidas dum corpo de sangue!

Os brancos abriram clareiras
a tiros de carabina.
Nas clareiras fogos
roxeando a noite tropical

Fogos!
Milhões de fogos
num terreno em brasa!

Noite de grande lua
e um cântico subindo
do porão do navio.
O som das grilhetas
marcando o compasso!

Noite de grande lua
e destino ignorado!...
Foste o homem perdido
Em terras estranhas!...

No Brasil
ganhaste calo nas costas
nas vastas plantações do café!
No norte
foste o homem enrodilhado
nas vastas plantações de fumo!

Na calma do descanso nocturno
só saudade da terra
que ficou do outro lado...
- só canções bem soluçadas -
dum ritmo estranho!

Os homens do norte
ficaram rasgando
ventres e cavalos
aos homens do sul!

Os homens do norte
estavam cheios
dos ideais maiores
tão grandes
que tudo foi despropósito!...

Os homens do norte
os mais lúcidos e cheios de ideais
deram-te do que era teu
um pedaço para viveres...
Libéria! Libéria!

Ah!
Os homens nas ruas da Libéria
são dollars americanos
ritmicamente deslizando...

Quando cartas nos cabarés
Fazendo brilhar o marfim da tua boca
É a África que está chegando!

Quando nas Olimpíadas
Corres veloz
É a África que está chegando!

Segue em frente
irmão!
Que a tua música
seja o de uma conquista!

E que o teu ritmo
seja a cadência de uma via nova!

para que a tua gargalhada
de novo venha estralhaçar os ares
como gritos agudos e azagaia!



Francisco José Tenreiro

Depoimento autobiográfico














"Nasci a primeira vez em 28 de Maio de 1922. Isto num domingo. Chamaram-me Sontinho, diminutivo de Sonto. Pela parte da minha mãe, claro. Por parte do meu pai fiquei José.

Aonde? Na Av. do Zichacha entre o Alto Mae e como quem vai para o Xipamanine. Bairros de quem? Bairros de pobres.

Nasci a segunda vez quando me fizeram descobrir que era mulato. A seguir fui nascendo à medida das circunstancias impostas pelos outros. Quando o meu pai foi de vez, tive outro pai: o seu irmão. E a partir de cada nascimento eu tinha a felicidade de ver um problema a menos e um dilema a mais. Por isso, muito cedo, a terra natal em termos de Pátria e de opção. Quando a minha mãe foi de vez, outra mãe: Moçambique.

A opção por causa do meu pai branco e da minha mãe negra.

Nasci ainda mais uma vez no jornal "O Brado Africano". No mesmo em que também nasceram Rui de Noronha e Noemia de Sousa. Muito desporto marcou-me o corpo e o espírito. Esforço, competição, vitória e derrota, sacrifício até à exaustão. Temperado por tudo isso.

Talvez por causa do meu pai, mais agnóstico do que ateu. Talvez por causa do meu pai, encontrando no Amor a sublimação de tudo. Mesmo da Pátria. Ou antes: principalmente da Pátria. Por causa da minha mãe só resignação.

Uma luta incessante comigo próprio. Autodidacta.

Minha grande aventura: ser pai. Depois eu casado. Mas casado quando quis. E como quis.

Escrever poemas, o meu refúgio, o meu país tamé'm. Uma necessidade angustiosa e urgente de ser cidadão desse país, muitas vezes altas horas da noite."




José Craveirinha
Janeiro de 1977

Em Lisboa...



















Foto de Vasco Esteves




...precisa-se:

Progresso
Responsabilidade
Sustentabilidade
Honestidade
Transparência

...quer-se ver garantida:

Independência
Competência
Diálogo
Liberdade
Democracia


Alguém nitidamente vê onde podem ser adquiridas umas e garantidas as outras??
Por mais que tente, com segurança e convicção, não consigo!
Entre as ameaças do passado recente municipal, das nuvens carregadas do presente nacional e as dúvidas do futuro... que escolhas??

Lisboa tem que ter futuro.
Os seus habitantes, os visitantes, os empreendedores, os funcionários... exigem-no!

Canção do Mestiço























"Mestiço", quadro de Cândido Portinari







Mestiço!



Nasci do negro e do branco
e quem olhar para mim
é como se olhasse
para um tabuleiro de xadrez:
a vista passando depressa
fica baralhando cor
no olho alumbrado de quem me vê.


Mestiço!


E tenho no peito uma alma grande
uma alma feita de adição
como l e l são 2.



Foi por isso que um dia
o branco cheio de raiva
contou os dedos das mãos
fez uma tabuada e falou grosso:
— mestiço!
a tua conta está errada.
Teu lugar é ao pé do negro.


Ah!
Mas eu não me danei ...
E muito calminho
arrepanhei o meu cabelo para trás
fiz saltar fumo do meu cigarro
cantei do alto
a minha gargalhada livre
que encheu o branco de calor! ...



Mestiço!



Quando amo a branca
sou branco...
Quando amo a negra
sou negro.
Pois é...




Francisco José Tenreiro

De certo modo os destroços palavras
























de igual modo as partículas invariáveis traços lábias
sempre há uma mulher no mal
por isso trepo meu olhar pelas paredes e pelo tecto
o último cruzar de pernas
zona prestigiada o eixo compreendia o acento de intensidade
junto todos os sentidos no modo algum tempo exacto
sem esquecer na via erudita expressão
o étimo uma mesa com o portal aberto
outro reino de certeza
a comunicação oficial adoptou o berço língua lençol
tanto tempo sonorizado
estava inscrito nas fronteiras este período
das alíneas funções sintácticas
diferenças dos pares vocabulares
nascem outras partículas variáveis destroços



Abreu Paxe

Civilização ocidental


















Latas pregadas em paus
fixados na terra
fazem a casa

Os farrapos completam
a paisagem íntima

O sol atravessando as frestas
acorda o seu habitante

Depois as doze horas de trabalho
Escravo

Britar pedra
acarretar pedra
britar pedra
acarretar pedra
ao sol
à chuva
britar pedra
acarretar pedra

A velhice vem cedo

Uma esteira nas noites escuras
basta para ele morrer
grato
e de fome.



Agostinho Neto

Mukai*






















Foto de Ana Filipa, em Mbanza Congo, in Onde a Lua Anda



1

Corpo já lavrado
eqüidistante da semente
é trigo
é joio
milho híbrido
massambala

resiste ao tempo
dobrado
exausto
sob o sol
que lhe espiga
a cabeleira.

2

O ventre semeado
deságua cada ano
os frutos tenros
das mãos
(é feitiço)
nasce
a manteiga
a casa
o penteado
o gesto
acorda a alma
a voz
olha p'ra dentro do silêncio milenar.

3

(Mulher à noite)

Um soluço quieto
desce
a lentíssima garganta
(rói-lhe as entranhas
um novo pedaço de vida)
os cordões do tempo
atravessam-lhe as pernas
e fazem a ligação terra.

Estranha árvore de filhos
uns mortos e tantos por morrer
que de corpo ao alto
navega de tristeza
as horas.

4

O risco na pele
acende a noite
enquanto a lua
(por ironia)
ilumina o esgoto
anuncia o canto dos gatos
De quantos partos se vive
para quantos partos se morre.

Um grito espeta-se faca
na garganta da noite

recortada sobre o tempo
pintada de cicatrizes
olhos secos de lágrimas
Dominga, organiza a cerveja
de sobreviver os dias.




Ana Paula Ribeiro Tavares
in "O Lago da Lua"


* Mukai: - mulher

M'Banza Congo













A minha memória de Mbanza Congo, em 1972




Mbanza Congo regressou aos títulos de 1ª. página... infelizmente pelas piores razões.
O acidente com um Boeing 737 vitimou seis pessoas.
Apenas um milagre poderá terá impedido que mais mortes ocorressem.
Ainda bem que há... milagres!
A minha solidariedade para com os familiares das vítimas do acidente.
















M'banza Congo é e será sempre um marco fundamental na minha vida.
O acidente trouxe-me á memória características únicas daquela pista, daquela lindíssima cidade e daquele povo portentoso e amigo.

O meu baptismo de voo aconteceu num voo de Luanda para Mbanza Congo, então São Salvador do Congo.























Um «enorme» DC3 da DTA, antecessora da TAAG levantou do Aeroporto Craveiro Lopes, hoje 4 de Fevereiro, escalou Ambriz, Ambrizete, Santo António do Zaire seguindo depois para São Salvador, antes de rumar a maquela do Zombo e regressar finalmente a Luanda.
Uma viagem inesquecível.

Recordo desse tempo as dificuldades que aeronaves de grande porte tinham para ali operar. O avião maior que por ali aterrava era o famoso «Barriga de Ginguba» - o Nord Atlas, militar.
Aviões de escala da DTA não recordo, ali, outro que não fosse o Dakota.

Lembro que a capital da Província do Zaire era, na altura, uma pequena cidade do interior, ameaçada pela guerra que não raramente passava não muito longe dos seus horizontes.

Rodeada de arame farpado por todos os lados, a sua extensão máxima correspondia, grosso modo, ao comprimento da sua pista de aviação - curta e estreita.

A «aerogare» não existia e todo o processo burocrático ligado ás viagens era efectuado numa loja de uma vivenda contígua á pista - a Casa Verde.

A pista do aeroporto tinha, no início da década de 70, características muito especiais. Dividia a cidade em duas, estando de um lado a «cidade branca» e do outro a «cidade negra», a sanzala.

Esta pista era talvez uma das únicas pistas onde de um lado para o outro da cidade circulavam livremente pessoas e veículos. Essa passagem situava-se junto ao CRESSA (Clube Recreativo de São Salvador).

O relato do acidente agora ocorrido recorda-me que um avião com a envergadura do DC3 passava com a ponta das asas sempre muito perto das casas, fossem elas, na altura instalações militares, a Missão Católica, a Catedral de São Salvador... ou as humildes casas de adobes de muitos amigos.
Qualquer incidente nestas circunstâncias pode tornar-se catastrófico.




Não me parecendo, pelos relatos que tenho, que a estrutura urbana á volta da pista se tenha alterado, mesmo que, como se sabe tenha sido melhorada e eliminada a tal passagem, fácil é admitir que uma pequena falha, tenha ela a origem que tiver, ponha em perigo a segurança da aeronave e de toda a zona urbana que ladeia a pista.


Admitir que aeronaves como a que agora sofreu o acidente escalam aquela pista assiduamente, por melhores que hoje sejam as condições, é sem dúvida uma proeza humana dos pilotos da TAAG!

Confesso que, mesmo antes do acidente, se me dissessem para regressar a Mbanza Congo num Boeing 737, o faria de imediato, sem pestanejar. Mas que, até aterrar em segurança, estaria absolutamente espectante quanto á possibilidade do «monstro» conseguir ali pousar, creiam que estaria...


Assisti, ali, a DC3 tentarem a aterragem e terem que abortar o processo, fazendo razante á pista, em aceleração muito próxima do Hospital Provincial, não muito longe do limite da pista, na altura assinalada com metades de bidãos de 200 litros.

A perigosidade daquela pista, fica patente na imagem de um outro acidente ali ocorrido em 1994, provavelmente por motivos idênticos, com um Boeing 727 da TransAfrik.




















Qualquer que seja o avião, quaisquer que sejam os riscos... aí voltarei, estou certo!

Embondeiro























Hoje sentei-me debaixo de tiEmbondeiro
E, ainda que por momentos,
Viajei no tempo do foi assim...
Das savanas extensas feitas de mim
Das queimadas redentoras sem fim
Das chuvas torrenciais do novo capim
Na terra dos cheiros a mandioca e açafrão
E de todas as metamorfoses de que foste guardião.
E senti, no rosto, o beijo de picante paladar
Daquela negra de fascinante olhar
Semi-deusa, semi-nua em corpo de enfeitiçar
Que dentro ti me mostrou um mundo de emoções
Ao som de um batuque que lá do longe
Nos ofertava os delírios de ancestrais iniciações
E nos oferecia lições de aprender a viver
Em tempos a que só o tempo sabia responder.

Hoje sentei-me debaixo de tiEmbondeiro
E, ainda que por momentos,
Fiquei imóvel, esmagado, chão terreno
A olhar-te como quem entende esse segredo
De seres tão grande e tão pequeno
E de me fazes sentir este imenso degredo
De só te poder viver nos sonhos de um aceno.
Mas, ainda assim, vivi, sonhei, abri asas e gritei.
E cavalguei no dorso das gazelas
Subi ao penhasco das águias, soltei-me, planei com elas
Bebi água com o leão, entre javalis e zebras
Descansei à sombra dum elefante, ouvi o choro das hienas
Fui mais alto que as girafas, fui animal de mil raças.
E entre bandos multicolores em acrobacias de perigo
Voei horizontes de azul rasgados a vermelho vivo
Para lá da tela do sol-pôr que me ofertavas
Enquanto, deleitado, debaixo de ti me abandonava
Ao sabor da brisa que canta o imenso hino
Que, de tão intenso, cabe numa simples semente de tamarindo.

Hoje sentei-me debaixo de tiEmbondeiro
E, ainda que por momentos,
Fui livre na criança que te aprendeu a pinceladas de negro
E se fez homem nos encantos da mulata em requebro
Em batucadas de feitiço vestidas de mil saris
E revestidas com cânforas de cheiro e óleos subtis
Emolduradas pelos olhares dos longínquos mandarins,
Que me fizeram crescer entre o carrinho de arame e lata
E a lângua de matope onde pescava cacanas cor de prata
No tempo em que as cobras eram simples animais
E me ofereciam de prazer todos os pecados originais
Herdados directamente da estirpe de Gungunhana
Imortalizados nos vermelhos fortes de Malangatana.
E eu sonhava com manchimbombos amarelos em ilusões abertas
Que rumassem a um futuro de saudáveis descobertas
Da harmonia dos cheiros de África e dos orientais incensos...
Mas que o homem, abruptamente, manchou de fatais contra-sensos.

Hoje sentei-me debaixo de ti...Embondeiro
E, ainda que por momentos...Revivi!
Depois..., parti.



António San

Sobre a violência




















Do rio que tudo arrasta
se diz que é violento
Mas ninguém diz violentas as
margens que o comprimem



Bertold Brecht

Ultimatum futurista
























Às gerações portuguesas do séc.XXI



Acabemos com este maelstrom de chá morno!
Mandem descascar batatas simbólicas a quem disser que não há tempo para a criação!
Transformem em bonecos de palha todos os pessimistas e desiludidos!
Despejem caixotes de lixo à porta dos que sofrem da impotência de criar!
Rejeitem o sentimento de insuficiência da nossa época!
Cultivem o amor do perigo, o hábito da energia e da ousadia!
Virem contra a parede todos os alcoviteiros e invejosos do dinamismo!
Declarem guerra aos rotineiros e aos cultores do hipnotismo!
Livrem-se da choldra provinciana e da safardanagem intelectual!
Defendam a fé da profissão contra atmosferas de tédio ou qualquer resignação!
Façam com que educar não signifique burocratizar!
Sujeitem a operação cirúrgica todos os reumatismos espirituais!
Mandem para a sucata todas as ideias e opiniões fixas!
Mostrem que a geração portuguesa do século XXI dispõe de toda a força criadora e construtiva!
Atirem-se independentes prá sublime brutalidade da vida!
Dispensem todas as teorias passadistas!
Criem o espírito de aventura e matem todos os sentimentos passivos!
Desencadeiem uma guerra sem tréguas contra todos os "botas de elástico"!
Coloquem as vossas vidas sob a influência de astros divertidos!
Desafiem e desrespeitem todos os astros sérios deste mundo!
Incendeiem os vossos cérebros com um projecto futurista!
Criem a vossa experiência e sereis os maiores!
Morram todos os derrotismos! Morram! PIM!




José de Almada Negreiros

Sonho
















Foto de Nuno Mendes em Caminhadas e descoberta em STP





Pudesse eu um dia voltar à minha terra
ver os coqueiros e os cafezais em flor
ver as sanzalas transformadas em casas dignas
de homens que trabalham noite e dia


pudesse eu tornar a ver-te mãe
e abraçar-te e beijar-te até não mais
e ver finalmente os meus irmãos de cor
respeitados como eu sempre sonhei


pudesse eu ver as palmeiras da avenida
gingando ao vento e ao grande calor
e pisar essa terra agora nossa


pudesse eu daqui dizer-vos tudo
que sinto e que quero transmitir
pois mesmo longe estarei sempre ao vosso lado




Olinda Beja
in "Bô Tendê?"

Canto para Angola
















Hei-de compor um dia
um canto sem lirismo
nem tristeza
digno de ti, ó minha terra.
Hei-de compor um canto
livre e sem regras
que de boca em boca vai partir
nos lábios de velhos e meninos.
Será o canto do pescador
com todos os sons do mar
com os gemidos do contratado
nas roças de São Tomé.
Será o canto de todos os dramas
do algodão do Lagos & Irmão
o das tragédias nas minas
da kitota e da Diamang.
Será o canto do povo
o canto do lavrador
e do estudante
do poeta
do operário
e do guerrilheiro
falando de toda Angola
e seus filhos generosos.




Jofre Rocha

Tenho saudades
















Tenho saudades do tempo
Em que corria descalço
Pelas areias do rio;
Comigo, os meus companheiros
Também descalços, correndo,
A correr ao desafio.

Tenho saudades do Largo
Onde estava a minha casa,
Com mulembas altaneiras;
Tenho saudades das sombras
Com que os seus ramos cobriam
Sempre as nossas brincadeiras.
(- Quem tem o canhé?
És tu!
Pescoço de ganso, monco de peru…
Quem tem o canhe?
Sou eu!
Diabo, diabo, vais p’ra o céu…)

Tenho saudades, meu Deus,
Tanta, tantas que nem sei
Como me cabem aqui;
Tenho saudades, até, Das saudades que senti.

II

No quintal da minha casa
Vestido de prata nas noites de luar,
As sombras das mangueiras
Eram rendas espalhadas
Pelo chão.
E as horas do serão
Corriam apressadas.
As moças a namorar,
As crianças a brincar
Rindo,
Cantando,
Chorando
Dum trambulhão;
As velhas, quase em surdina,
Contavam histórias do mato,
Do tempo da escravatura:
-Um branco, um coelho e um gato,
Outros bichos à mistura,
Bichos sabidos que falavam.
Depois, quando a lua descia
P’ra se esconder no Sombreiro,
Todos, todos se juntavam
Em redor da minha avó.
Havia quifufutila,
Havia pé de moleque…
…E a lua desaparecia
No Casseque!...

III

Onde está o meu quintal
Vestido de prata nas noites de luar,
Com rendas de sombras espalhadas pelo chão?
Onde estão esses meninos
Que riam chorando
Dalgum trambulhão?

A vida os levou p’ra longe de mim!

Agora, de tudo isso,
Só me ficou o feitiço
Desta saudade sem fim.
E quando a lua se esconde
No Sombreiro
Fico sozinho na praia
À laia
Não sei de quê,
Olhando o mar,
Carpindo saudades,
A olhar
A olhar…




Aires Almeida Santos