Receita do português























Coloque uma vasilha dentro d’água. A massa só alcançará o ponto exato se os ingredientes forem misturados em recipiente mergulhado na água salgada. Senão, a receita desanda.

Ingredientes:

- Homens pré-históricos do vale do Tejo e do Sado.
-Um punhado de povos indigenas, principalmente Lusitanos. Se possível, da tribo liderada por Viriato.
- Celtas – apenas para polvilhar.
- Romanos.
- Bárbaros: Alanos caucasianos, Vândalos germânicos e escandinavos, Suevos e Visogodos germânicos - estes últimos dissolvidos na civilização romana.
- Mouros: tribos islamizadas do Marrocos e da Mauritânia.
- Uma pitada de árabes.
- Judeus sefarditas (ibéricos) – coloque um punhado entre um ingrediente e outro. Reserve a porção maior para o final da receita.
- Cristãos a gosto.

Modo de fazer:

Coloque na vasilha os pré-históricos. Dê preferência aos que apresentarem características físicas do português contemporâneo: estatura mediana e dolicocéfalos. A arqueologia prova que os pré-históricos ibéricos já se assemelhavam aos gajos pós-modernos – ora, pois.

Tampe a vasilha com um pano úmido. Espere-os fermentar até se transformarem em tribos pacíficas e receptivas à ondas migratórias oriundas de vários pontos europeus. Não se preocupe se alguns, sorrateiramente, fugirem pela borda da vasilha.
O ancestral do português já cultivava vocação viajeira, muitos chegaram à Inglaterra e à Normandia. Apenas oriente os neofujões para não tomarem o rumo de Brasília. Nunca se sabe o que lhes pode acontecer.

Polvilhe um pouco de Celtas. Além do charme, você vai introduzir o domínio da metalurgia e a vocação para o esoterismo. Afinal, quem não gosta de druídas? Além de estarem em moda, eles acrescentarão o toque exótico ao paladar do prato.

Lentamente, despeje os romanos. Atenção: vai sair pancadaria. Maneje com calma a colher de pau para driblar Viriato e outros caudilhos que não apreciarão o novo ingrediente. Cuidadosamente, misture os revoltosos, os romanos e as tribos que se lixaram para a invasão romana. No final, dará certo. É questão de paciência.

Bata levemente durante 500 anos. A massa crescerá e revelará um povo urbano, meio escravo/meio livre, que falava latim vulgar e sofisticou o comércio e a agricultura. Enfim, quase um luxo.

Introduza os Bárbaros. Primeiro os Alanos, Vândalos e Suevos. Capriche nos Suevos pois eles chegam para marcar presença: adoram trabalhar com enxadas e logo escolherão terras para cultivar. Por favor, convença-os a abandonar os instrumentos agrícolas às margens da vasilha. Alguém pode quebrar o dente quando o português for servido.

Descanse a colher de pau. Os romanos embolaram tanto o meio de campo que a turma abriu os braços para os novos conquistadores. Deixe a natureza agir. Você verá que, infiltrados na massa, estes bárbaros inaugurarão a era dos portugueses de olhos claros – um charme.

Adicione os Visigodos romanizados – ou Federados, como os romanos chamavam os povos conquistados que, de rabo entre as pernas, lutavam para defendê-los. Espertamente, o Império de Roma utilizava a estratégia de lançar bárbaros contra bárbaros. Mais ou menos como os norte-americanos de hoje, que engrossam seu exército com negros e latinos da periferia – alguém ainda duvida que a História se repete?

Misture cuidadosamente. Este momento é delicado: o sucesso do português dependerá, exclusivamente, de sua competência culinária. O gosto dos Visigodos deve sobrepôr-se ao dos Vândalos e dos Alanos. Apenas suavemente os bárbaros vencidos perfumam o prato - quase uma especiaria, o toque de classe.

Quando Vândalos e Alanos se dissolverem, bata vigorosamente pois Visigodos e Suevos tenderão a encaroçar por 150 anos. Mantenha-se atento à receita. Não pare de bater nem mesmo quando os Visigodos argumentarem serem os inventores do status quo da sociedade medieval portuguesa: clero, nobreza e povo – grande novidade. Faça-se de surdo e, até o último Visigodo desmanchar, capriche em revolver a massa. Afinal, Visigodos são guerreiros: podem armar uma falseta e solar o português.

Espere inúteis três séculos – Visigodo é um chuchu histórico, só faz volume, não larga gosto - e jogue os árabes e mouros. A massa ficará mais encorpada, adquirirá novos contornos, novas falas, novas técnicas, uma nova arquitetura. O sociólogo brasileiro Gilberto Freyre, autor de Casa Grande & Senzala, assinala que é neste momento que surge o português típico, além de um original subgrupo característico do Norte, emblemático da milenar cruza de raças: homens morenos, cabelos castanhos, escuros olhos mouros, com barba e bigode louros ou ruivos.

O Brasil que - no final do século XIX, início do XX - recebeu maciça imigração de lusitanos do Norte, tem incontáveis homens morenos de barba clara. A maioria não sabe, mas eles são os representantes tropicais da malemolência lusa, useira e vezeira em misturar o próprio sangue ao sangue dos visitantes - eta povo hospitaleiro, este que nos descobriu.

Amasse, delicadamente, os islâmicos e os judeus sefarditas que, aos punhados, você veio introduzindo entre um e outro ingrediente. Deixe descansar, eles se aglutinarão naturalmente. Naquele tempo, estes dois povos, amigos, interagiam sem culpas.

Nesta altura, o português estará quase pronto. Agora, basta levar ao forno bem quente – eles são passionais, não assam em banho-maria.

Com o açúcar, faça uma calda em ponto de bala. Adicione cristãos a gosto, de todos os matizes e origens. Está pronto o português.

Desenforme e sirva-os ao Novo Mundo.


Angela Dutra de Menezes
In "O Português Que Nos Pariu"


Um relato positivo sobre a influência portuguesa na cultura brasileira escrito com muito humor.
Angela Dutra de Menezes, uma conceituada escritora brasileira, propõe em "O Português Que Nos Pariu" uma nova maneira de encarar a História.
Uma linguagem bem-humorada e sem a rigidez dos livros didácticos.


Recebido via Vila Pery

Wild World
















Now that I've lost everything to you
You say you wanna start something new
And it's breakin' my heart you're leavin'
Baby, I'm greavin'

But if you wanna leave, take good care
I hope you have a lot of nice things to wear
But then a lot of nice things turn bad out there

Chorus:
Oh, baby, baby, it's a wild world
It's hard to get by just upon a smile
Oh, baby, baby, it's a wild world
I'll always remember you like a child, girl

You know I've seen a lot of what the world can do
And it's breaking my heart in two
Because I never wanna see you a sad girl
Don't be a bad girl

But if you wanna leave, take good care
I hope you make a lot of nice friends out there
But just remember there's a lot of bad and beware

Chorus

Baby, I love you
But if you wanna leave, take good care
I hope you make a lot of nice friends out there
But just remember there's a lot of bad and beware

Chorus



Cat Stevens














Universalidade do gesto da ave






















derrubadas no grito do meu silêncio sugerem lágrimas
a rima do batom marrom sugere prata suor e ouro
que fenómeno matará a distância?

no deserto eros mãos e sol anunciam o cântico do arco-íris
ao mesmo tempo que a ave
o hino pleno da ave plena anuncia de cristal
o fim do canto do pranto que habita em mim em cada gesto

de riso em riso
tece o convexo sacro-belo da génese da nova poesia
em cada gesto humano da ave
há expresso ensejo universal de nação



Trajanno Nankhova Trajanno

De asas sob a terra


















Beijo o teu rosto, Luanda,
malar vigília de pássaros
estrangulados

cheira a crepúsculo e água
teu sexo aberto
ao gume dos astros

ó tambor do sangue
espuma de um
tempo de metal à proa

que mãos
te alijam o som
de asas sob a terra



José Luís Mendonça

Canto interior de uma noite fantástica















Sereno, mas resoluto
aqui estou - eu mesmo! - gritando desvairado
que há um fim por que luto
e me impede de passar ao outro lado

Ante esta passagem de nível
nada de fáceis transposições
Do lado de cá - pareça embora incrível
é que me meço: princípio e fim das multidões

Não quero tudo quanto me prometam aliciantes
Nada quero, se para mim nada peço,
o meu desejar é outro - o meu desejo é antes
o desejo dos muitos com que me pareço

Quem quiser que venha comigo
nesta jornada terrena, humana e sincera
E se for só - ainda assim prossigo
num mar de tumulto impelido os remos sem galera

Que venham glaucas ondas em voragem
que ardam fogos infernais
que até os répteis soltem seus instintos
e me envolvam traiçoeiras e viscosos

Que me derrubem e arremessem ao chão
que espezinhem meu corpo já cansado
à tortura e ao chicote ainda responderei não
e a cada queda - de novo serei alevantado

E não transporei a linha divisória
entre o meu e o outro caminho
Mesmo que a minha luta não tenha glória
é no campo de combate que alinho

Assim continuarei a lutar, ai a lutar!
num perigoso mar de paixões e escolhos
e - companheiros - se neste sofrer me virdes chorar
não acrediteis em vossos olhos!



António Jacinto

Poema setenta e seis






















Hoje
acordado,
às tantas da madrugada
vi-te chegar.
Eram lentos teus passos
mas segredavas-me como sempre
tua calma
teu sorriso bonito
teu olhar sereno
(às vezes de um brilho triste).

Pouco depois
contornada a estante
explicavas-me então
toda a imensa verdade da doçura
perdida
esquecida
esganada
no justo momento do adeus.

Tenho comigo
a lupa
a fotografia em versalhes
os livros do carlos de oliveira
os discos proibidos
(mandados pelo eniuka de paris)
as cartas do joão purgante
o busto de tolstói
a prova quádrupla do rotary.

Mas não tenho mais
o teu rosto tranquilo
a infinita compreensão do mundo
os passeios à ilha
(com a mãe mais a manuela)
as histórias do socorro vermelho
as cartas da maria lamas
a canção do roberto
só eu mais a solidão.

Tu em mim
eu sem ti
só eu mais a solidão.




Carlos Ferreira

Décimo sétimo poema





















E,
O tempo que não passa para me trazer sorrisos,
Pois percorro-o à espera de chegue a hora
Em que possa apagar tudo para não sofrer mais...
Apagar o dia em que nasci em terras ciocas;
Apagar os primeiros anos;
Apagar as lembranças da infância perdida pelo capim,
Com os amigos das sanzalas vizinhas,
Apagar a primeira visita à cidade;
Apagar os sonhos sobre as pernas longas do Infante Henrique;
E os braços ondulantes do Príncipe Perfeito, tão lindo;
Apagar os anos na metrópole; o colégio de freiras;
As brincadeiras e risadas das crianças no pátio,
As missas de Domingo todas elas rezadas;
Os cânticos a que me forçava decorar,
As matinés do Sandokam e do Trinitá
A Cristina amiga de Santiago que nunca mais vi;
Apagar a perda de um lar;
Apagar a infância mal vivida,
O trabalho a que me obrigavam;
O sol que me queimava;
A enxada que me esfacelava as mãos;
As ervas daninhas e orvalhadas que cortava;
As vezes que meus pés as uvas frescas de Setembro esmagavam
As idas e vindas constantes ao alambique
As pedaladas a caminho da escola; tendo Zorba por companhia;
O peso que carregada às costas do burro humano a que me chamavam;
Apagar o quarto frio e feio onde cresci;
O medo de morrer gelada durante o Inverno;
Os poucos beijos que a meu Pai dei enquanto crescia;
Apagar as fugas para os milharais;
O livro lido às escondidas;
A madrasta que não me via;
O Pai que não me sentia;
A mãe que me esquecia;
As irmãs que de mim dependiam;
Apagar o tempo que fugiu;
A chegada ao outro lado do Atlântico;
O primeiro amor;
A grande paixão de 84
O casamento falhado com as culturas de sangue dos ilhéus;
Apagar o tempo;
Apagar as dores de parto que tive;
Apagar os filhos;
Apagar os anos em terras shonas; onde vi as ruas cobertas
de laranja, rosa, amarelo, violeta;
E senti o cheiro do belo da decência;
Apagar o tempo calmo em terras de Samora,
Onde falei o ronga e visitei os beira;
Apagar as alegrias, as tristezas, os sorrisos os choros e as gargalhadas;
Apagar as lágrimas;
As mentiras que contei e as que ouvi O esforço do sustento;
A fome; As Guerras, Os mares e os Oceanos;
A necessidade;
Apagar os amores;
Os sonhos; as vezes que amei e fui amada;
Apagar os amantes, os amigos, a família, os conhecidos;

Apagar os livros
As histórias;
A poesia;
Os poetas; Apagar as luzes ir embora...

Apagar tudo para não sofrer mais!



Ana Maria Branco

No próximo encontro
























Finalmente amor,
És tu que me faltavas.

Tua voz
É meu canto para sempre preferido.
No próximo encontro traz unguento.
Mbafo.
Também capim de Deus
Para misturarmos cuidadosamente
Com o bafo
Dos perfumes das nossas vidas.



Garcia Bires

A luz da noite
















Foto de Alexander Orlov






Vou à lua
fugir da terra

Enviarei ouro
P’ra teus seios tirar-me a morte

Um dia...
Levar-te-ei

A conhecer o sorriso das estrelas



Lúcio Assis

Sonho contemplado















Foto de Jorge Neto, em Africanidades



A acompanhar com o vinho
Na tasca do tagarelice
Serve-se de Mim em bandeja
Para petisco e gira-disco
Eu por cá estou feliz
Por ter tido um sonho

Sonho avesso em diagonal
Alma na travessia atlântica
Banhada com a espuma da lua
naveguei no leque do tubarão
e o corpo jaz no ilhéu d' Areia

Pensar amarfanhado no divagar amorfo
Na embriaguez das ondas do libertar
Duelo esgrime-se na arena da barbárie
Nas praças lavra-se a verdade em série

E eu nesta cabana do pescador
Na ternura do descanso na preia-mar
Contemplo a fortuna emérita do sonhar



A. Quadé

Até sempre!



Una furtiva lagrima


Luciano Pavarotti
1935 - 2007

Sumidouro























I
Tocas a fímbria dos desfiladeiros,
fruindo a cor do figo e da romã
no nascente e secreto sumidouro.
É tarde nas folhas e nos muros,
nas sombras do tanque de lodo e musgo,
é tarde já. é noite – e o sol vem vindo
e a primavera vindo onde a água
é o mel feroz de pássaros em tua língua,
onde o amor deságua em delta e tudo é fogo.



II
Direi então: amor é onde
o junco alto e as dunas soam mais brando
e os frutos cheiram mais e são mais doces,
onde há a embriaguez e uma tensão
de corda esticada no limite
e tudo é lasso, onde
as abelhas perdem a ferocidade
sendo mais mel, onde tudo é ordem e labirinto




Olga Savary



















O meu amado chega e enquanto despe as sandálias de couro
marca com o seu perfume as fronteiras do meu quarto.
Solta a mão e cria barcos sem rumo no meu corpo.
Planta árvores de seiva e folhas.
Dorme sobre o cansaço
embalado pelo momento breve da esperança.
Traz-me laranjas. Divide comigo os intervalos da vida.
Depois parte.
Deixa perdidas como um sonho as belas sandálias de couro.




Ana Paula Ribeiro Tavares

Tudo o que foi quase um poema






















"O Pensador" de Thó Simões
via Os Nacionalistas internacionalistas






Tudo o que foi quase um poema veio com o teu âmago
e talvez seja essa febre interior que te faz
corrigir com as lágrimas a posição
dos guaches.




Adriano Botelho de Vasconcellos

Poema Panfletário























"Fuga do Inferno" de Filipe Salvador




Duras serão as pedras no chão que pisaremos.
Por serem duras é que abandonei
Os caminhos movediços
Deste mundo em agonia...

Suaves serão as palavras que falaremos.
Por serem suaves é que abandonei
Os caminhos movediços
Deste mundo em agonia...

Pedras e palavras: certas, necessárias
Duras, suaves e seguras.
E uma casa nova.
E caminhos novos de alegria...




António Cardoso

O Nosso Mar
















Cabo Ledo, Julho de 1996





O nosso mar,
O mar africano,
Não se parece com os outros mares.
Terá o mesmo corpo,
Talvez...
A alma, porém é como os palmares:
Tem a energia, tem o dolência
A vida e a morte na sua essência,
Tocadas do mistério africano.
Sua linguagem é toda nossa:
Não a percebe quem nos ignora,
Não comove a quem não comove

O nosso drama, que é noite e aurora.

Não conhece quem não conhece
O seu murmúrio, que é nosso pranto
Sua revolta, nosso protesto,
- nossas vozes semelham-se tanto!

O seu silêncio tão resignado
Cheio de unção, de paz e perdão,
Lembra o olhar manso do desgraçado
Levado longe dos seus queridos.

A sua espuma, essa branca espuma,
vem-lhe da graça, vem da inocência,
de mil crianças de tez escura,
de olhar de luz, sem concupiscência.

Cheio de graça, cheio de força,
como se agita o mar africano!
Negro e feroz está a lembrar
braços hercúleos, trabalho insano.

Mar africano,
não te conhece quem não conhece
a alma africana,
que o mar e a terra irmana:
Num só abraço fazendo um
o longe e o perto, a dor e a esperança,
tal como o riso e o choro em criança.



Dom Alexandre do Nascimento

Nelson Évora

















Foto daqui





Parabéns, Nelson!!

Se tivesse o engenho e a arte de Raim teria feito um «boneco» em que esta foto, como medalha, seria colocada na lapela dum dos fulanos que tiveram um famoso cartaz no Marquês de Pombal.

Africa

























Foto de Brigida Rocha Brito em Caminhadas e Descoberta em STP






África:
dos encontros, dos desencontros e dos reencontros;
dos sentidos e das emoções;
das paixões e das contradições.

África:
dos amantes ardentes e dos amores fugazes;
dos sonhos váguos e por realizar;
da esperança tornada impossibilidade.

África:
do desejo recriado;
da vontade alimentada;
das recordações revividas... dia após dia.
(A Ti) ST, Janeiro 2004



Brígida Rocha Brito




O África de Todos os Sonhos faz hoje 3 anos.
Aqui ficam os merecidíssimos parabéns e a homenagem á autora com a publicação aqui deste magnífico poema.

Metade























Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo que acredito não me tape os ouvidos e a boca.
Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio.

Que a música que eu ouço ao longe seja linda, ainda que triste.
Que a mulher que eu amo seja sempre amada, mesmo que distante.
Porque metade de mim é partida e a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor,
Apenas respeitadas como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimento.
Porque metade de mim é o que eu ouço, mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço.
Que essa tensão que me corroe por dentro seja um dia recompensada.
Porque metade de mim é o que eu penso e a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste, que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto o doce sorriso que eu me lembro de ter dado na infância.
Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade eu não sei...

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria para me fazer aquietar o espírito.
E que o teu silêncio me fale cada vez mais.
Porque metade de mim é abrigo, mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba.
E que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer.
Porque metade de mim é a platéia e a outra metade, a canção.

E que minha loucura seja perdoada.
Porque metade de mim é amor e a outra metade... também.



Oswaldo Montenegro

A Flor e a Náusea


















Foto de Yun




Preso à minha classe e a algumas roupas,
Vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me'?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.




Carlos Drummond de Andrade

Metáfora da condição humana



















Águia e a Galinha



Era uma vez um camponês que foi à floresta vizinha apanhar um pássaro para mantê-lo em sua casa.
Conseguiu pegar um filhote de águia.
Coloco-o no galinheiro junto com as galinhas.
Comia milho e ração própria para galinhas, embora a águia fosse o rei/rainha de todos os pássaros.
Cinco anos depois, este homem recebeu em sua casa a visita de um naturalista.

Enquanto passeavam pelo jardim, disse o naturalista:
- Esse pássaro aí não é galinha. É uma águia.
- De facto – disse o camponês. É águia. Mas eu criei-a como galinha. Ela não é mais uma águia. Transformou-se em galinha como as outras, apesar das asas de quase três metros de extensão.
- Não – retrucou o naturalista. Ela é e será sempre uma águia. Pois tem um coração de águia. Este coração a fará um dia voar ás alturas.
- Não, não – insistiu o camponês. Ela virou galinha e jamais voará como águia.

Então decidiram fazer uma prova.
O naturalista tomou a águia, ergueu-a bem alto e desafiando-a disse:
- Já que você de facto é uma águia, já que você pertence ao céu e não a terra, então abra suas asas e voe!
A águia pousou sobre o braço estendido do naturalista. Olhava distraidamente ao redor. Viu as galinhas lá embaixo, ciscando grãos. E pulou para junto delas. O camponês comentou:
- Eu lhe disse, ela virou uma simples galinha!
- Não – tornou a insistir o naturalista. Ela é uma águia. E uma águia será sempre uma águia. Vamos experimentar novamente amanhã.

No dia seguinte, o naturalista subiu com a águia no tecto da casa. Sussurrou-lhe:
- Águia, já que você é uma águia, abra as suas asas e voe!
Mas quando a águia viu lá embaixo as galinhas, ciscando o chão, pulou e foi para junto delas.
O camponês sorriu e voltou à carga:
- Eu lhe havia dito, ela virou galinha!
- Não – respondeu firmemente o naturalista. Ela é águia, possuirá sempre um coração de águia.
Vamos experimentar ainda uma ultima vez. Amanhã a farei voar.

No dia seguinte, o naturalista e o camponês levantaram bem cedo.
Pegaram a águia, levaram para fora da cidade, longe das casas dos homens, no alto de uma montanha.
O sol nascente dourava os picos das montanhas.
O naturalista ergueu a águia para o alto e ordenou-lhe:
- Águia, já que você é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, abra suas asas e voe!
A águia olhou ao redor.
Tremia como se experimentasse nova vida. Mas não voou.
Então o naturalista segurou-a firmemente, bem na direção do sol, para que seus olhos pudessem encher-se da claridade solar e da vastidão do horizonte.
Nesse momento, ela abriu suas potentes asas, grasnou com o típico kau-kau das águias e ergue-se, soberana, sobre se mesma.
E começou a voar, a voar para o alto, a voar cada vez mais para o alto.
Voou... voou... até confundir-se com o azul do firmamento...

Havemos de Voltar



















Às casas, às nossas lavras
às praias, aos nossos campos
havemos de voltar

ÀS nossas terras
vermelhas do café
brancas de algodão
verdes dos milharais
havemos de voltar

Às nossas minas de diamantes
ouro, cobre, de petróleo
havemos de voltar

Aos nossos rios, nossos lagos
às montanhas, às florestas
havemos de voltar

À frescura da mulemba
às nossas tradições
aos ritmos e às fogueiras
havemos de voltar

À marimba e ao quissange
ao nosso carnaval
havemos de voltar

À bela pátria angolana
nossa terra, nossa mãe
havemos de voltar

Havemos de voltar
À Angola libertada
Angola independente



Agostinho Neto
in "Sagrada Esperança"

Mãos atadas


















Não devo
Não posso
Calar a voz do coração
Esconder a solidão

Não devo
Não posso
Voltar o tempo
Vigiar o pensamento
Aprisionar a dor
Esquecer um amor
Matar a saudade
Destilar pequenas crueldades
Liquidificar as lembrança
Viver sem esperança

Não devo
Não posso
Beber os desalentos
Naufragar os sofrimentos
Matar os pensamentos
Amarrar os sonhos
Correr do medo
Desvendar velhos segredos
Beijar a cruz do destino e
morrer antes da hora!



Zena Maciel

Na geometria das tuas nádegas

















Na geometria das tuas nádegas
minhas unhas aprendem o ritmo
da arquitectura natural da curva.
Deslizo nelas meu júbilo.
Quem inventou a magia desse lado?
E a quem cabe extinguir as nádegas
se nelas há a geometria do mundo
o homem busca os tons da parábola
e a mulher não ignora esse destino?

De nádegas o que o homem aprende
é estar nelas onde elas sabem
jungi-lo no que são:
amuleto nos olhos
liturgia das mãos
ou estar-lhes em cima.



José Craveirinha
In “Poemas Eróticos”

Tudo está ligado

















"Tudo está ligado,
como o sangue que une uma família.
Todas as coisas estão ligadas.
O que acontece à Terra
recai sobre os filhos da Terra.
Não foi o homem que teceu a trama da vida.
Ele é só um fio dentro dela.
Tudo o que ele fizer à teia
estará fazendo a si mesmo."



Seattle, Chefe das tribos Suquamish e Duwamish

Voar















"Voar é muito importante,
tão ou mais importante que viver,
que comer,
pelo menos para Fernão, uma gaivota que pensa e sente o sabor do infinito.
É verdade, que sai caro pensar diferentemente do resto do bando,
passar dias inteiros só voando, só aprendendo a voar,
longe do comum dos mortais,
estes que se contentam com o que são,
na pobreza das limitações."



Richard Bach
in Fernão Capelo Gaivota

Menir




















Salve, falo sagrado,
Erecto na planura
Ajoelhada!
Quente e alada
Tesura
De granito
Que, da terra emprenhada,
Emprenhas o infinito!



Miguel Torga

A Terra















Também eu quero abrir-te e semear
Um grão de poesia no teu seio!
Anda tudo a lavrar,
Tudo a enterrar centeio,
E são horas de eu pôr a germinar
A semente dos versos que granjeio.


Na seara madura de amanhã
Sem fronteiras nem dono,
Há de existir a praga da milhã,
A volúpia do sono
Da papoula vermelha e temporã,
E o alegre abandono
De uma cigarra vã.


Mas das asas que agite,
O poema que cante
Será graça e limite
Do pendão que levante
A fé que a tua força ressuscite!


Casou-nos Deus, o mito!
E cada imagem que me vem
É um gomo teu, ou um grito
Que eu apenas repito
Na melodia que o poema tem.


Terra, minha aliada
Na criação!
Seja fecunda a vessada,
Seja à tona do chão,
Nada fecundas, nada,
Que eu não fermente também de inspiração!


E por isso te rasgo de magia
E te lanço nos braços a colheita
Que hás de parir depois...
Poesia desfeita,
Fruto maduro de nós dois.


Terra, minha mulher!
Um amor é o aceno,
Outro a quentura que se quer
Dentro dum corpo nu, moreno!





Miguel Torga

Ao bater da chuva




















A porta fechada é uma obsessão.
As vozes caladas em torno de nós,
as pausas alongadas em silêncios de uma angústia
nova,
são a descontinuidade do tempo interrompido
dentro da casa que arrombaram ontem,
no coração da aldeia do Mazozo.
A chuva cai em bátegas doces, a chuva bate o capim
molhado,
e soa...
A humanidade é fria.

As mulheres já choraram tudo
- A Mãe Gonga comandou o coro.
Esvaem-se agora em surdina muda,
que agudiza o bater da chuva.
Os homens dizem de quando em quando
um nome obstinado.

Chamava-se Infeliz
aquele rapaz
que levaram ontem
do coração da aldeia.

A chuva matraqueia ainda e sempre
na porta fechada como uma obsessão.
Como ela nos lembra o som odiado
que dia após dia
nos sobressalta!
Como ela recorda o som da metralha,
que dia após dia
desce o morro da Calomboloca
e bate naquela porta fechada,
obcecada de protecção!

A gente conhece o som da metralha
quando ela vem no fim do dia.
Quando ela vem, silencia a aldeia,
então, em sobressalto, o povo diz:
- Foram fuzilados...

E ninguém sabe do Infeliz,
aquele rapaz que levaram ontem...




Henrique Abranches

Poesia























Ai deixa, deixa lá que a Poesia
no perfume das flores, no quebrar
das ondas pela praia,
na alegria
das crianças que riem sem porquê
— deixa-a lá que se exprima, a Poesia.

Fica sentado aí onde estás, Poeta,
e não mexas os lábios nem os braços:
deixa-a viver em si;
não tentes segurá-la nos teus braços,
não pretendas vesti-la com palavras...

Se a queres ter,
se a queres sempre ver pairando à flor das coisas, fica aí
no teu cantinho, e nem respires, Poeta, e não te bulas,
p’ra que ela não dê por ti.

Não a faças fugir, toda assustada
Com a tua presença...
Deixa-a, nua, pairando à flor das coisas
que ela não sabe que a viste,
nem sabe que está nua,
nem sequer sabe que existe...



Sebastião da Gama