O peso da vida















O peso da vida!
Gostava de senti-lo à tua maneira
e ouvi-la crescer dentro de mim,
em carne viva,

não queria somente
rasgar-te a ferida,
não queria apenas esta vocação paciente
do lavrador,
mas, também, a da terra
e que é a tua

Assume o amor como um ofício
onde tens que te esmerar,

repete-o até à perfeição,
repete-o quantas vezes for preciso
até dentro dele tudo durar
e ter sentido

Deixa nele crescer o sol
até tarde,
deixa-o ser a asa da imaginação,
a casa da concórdia,

só nunca deixes que sobre
para não ser memória.




Eduardo White
In "O pais de mim"

Dia Mundial de quê???


Quem poderá domar























Quem poderá domar os cavalos do vento
quem poderá domar este tropel
do pensamento
à flor da pele?

Quem poderá calar a voz do sino triste
que diz por dentro do que não se diz
a fúria em riste
do meu país?

Quem poderá proibir estas letras de chuva
que gota a gota escrevem nas vidraças
pátria viúva
a dor que passa?

Quem poderá prender os dedos farpas
que dentro da canção fazem das brisas
as armas harpas
que são precisas?


Manuel Alegre





Adriano deixou-nos há 25 anos. A sua voz perdurará sempre na nossa memória.
Aqui é apresentada uma versão desta magnífica balada.

Retrato do Herói
















Herói é quem num muro branco inscreve
O fogo da palavra que o liberta:
Sangue do homem novo que diz povo
E morre devagar de morte certa.

Homem é quem anónimo por leve
Lhe ser nome o nome própria traz aberta
A alma à fome fechado o corpo ao breve
Instante em que a denúncia fica alerta.

Herói é quem morrendo perfilado
Não é santo nem mártir nem soldado
Mas apenas por último indefeso.

Homem é quem tombando apavorado
Dá o sangue ao futuro e fica ileso
Pois lutando apagado morre aceso.


Manuel Alegre
in "O Canto e as Armas"

Quem muito viu




















Quem muito viu, sofreu, passou trabalhos,
mágoas, humilhações, tristes surpresas,
e foi traído, e foi roubado, e foi
privado em extremo da justiça justa;

e andou terras e gentes, conheceu
o mundo e submundos; e viveu
dentro de si o amor de ter criado;
quem tudo leu e amou, quem tudo foi
não sabe nada, nem triunfar lhe cabe
em sorte como todos os que vivem.
Apenas não viver lhe dava tudo.

Inquieto e franco, altivo e carinhoso,
será sempre sem pátria. E a própria morte,
quando o buscar, há-de encontrá-lo morto.



Jorge de Sena

in "Poesia", Vol III

Sonhos















Teria passado a vida
atormentado e sozinho
se os sonhos me não viessem
mostrar qual é o caminho

umas vezes são de noite
outras em pleno de sol
com relâmpagos saltados
ou vagar de caracol

quem os manda não sei eu
se o nada que é tudo à vida
ou se eu os finjo a mim mesmo
para ser sem que decida.


Agostinho da Silva

Aromas























Africa (1998), óleo de Raphael Sirianni




Deitada me fico
acordada sonhando,
no escuro espio
o sono esperando...

Já estou embalada,
Piso terra dura;
vermelha , cheirosa
calor que perdura...


Aromas gritantes
de tropicais frutas;
sons familiares
de aves malucas...

Logo à minha frente
altiva , frondosa,
se ergue , gigante,
mangueira formosa.

Corro num repente
de braços abertos...
Lágrimas saltando
E sonhos despertos...

Choro amargamente
A ela abraçada...
Falo docemente
de dor carregada...




Ana Bela

Poema ela, a noite e eu

















O Mundo naquela noite
era apenas um seio branco
macio como sumaúma
a cintilar na prisão escura das minhas mãos.

o seio branco era o Mundo
e nada mais havia perto ou longe
nem um agente disfarçado
que fosse sequer uma insinuação de Vida
a não ser o desejo crescendo
crescendo como um vulcão dentro dos olhos semi-desmaiados
voluptuosamente.

E
só o seio branco
maravilhosamente branco de «lanho»
era o Mundo sem injúrias
vibrante e nu cântico de carne.
Só o seio branco e a treva
naquela noite empaludada de frémitos
era o Mundo.



José Craveirinha
In “Poemas Eróticos”

Torresmos em machimbombo queimado



















À partida o machimbombo parecia
um ónibus lotado de gente
em viagem.

Lá para o quilómetro 20 a ou este da Gorongosa
chaparia e respectivo tejadilho ficaram
fuliginoso similar de frigideira
fritando várias doses de torresmos
derivantes fósseis de passageiros
interrompidos antes do terminal.

Sobra este prosaico odor da sintomática
machimbombesca fotocópia de esquife.

O impaciente estardalhaço dos tiros
ainda por cima esfrangalhou o original.



José Craveirinha

Primeiro poema


















Senti entre o sono e a certeza uma ave desenxabida de cores
Lutando dentro de mim,
Esgrimindo com Deus e o Diabo…
Tentando esgueirar-se por algum orifício do ar que só ela sabia existir.

Estou com Deus dizia, estou com o Diabo sabia…

Não.
Estou com Deus menino
Neste largo desfiladeiro em que me encontro liso e escorregadio.
Escorregadio, tão desumanamente perdido no pólo Norte ou Sul,
Bêbedo do álcool que não mais importava,
Simplesmente sem que o vento soprasse,
Sentia essa ave lutando dentro de mim esquivando-se da vida…

Queria voar,
Mas tão longe estava o chão que de certeza me magoaria…
Queria gritar,
Mas a afonia ensurdecia os miseráveis e os distraídos,
Queria chorar,
Mas a gota húmida do choro, a lágrima,
Caía em desalinho no solo,
Nas calças em xadrez de Accra,
Nas escadas que levavam ao inferno delicioso
Que todos tentam esquecer (ignorar)
E assim, as gotas húmidas das lágrimas;
Caíam no remoto e imenso calcanhar
Que um dia a ave possuíra…

Queria pentear os cabelos…

Ah! Que engraçado…
Onde teriam eles os cabelos bonitos e os cachos ido parar?
Sabia a ave desenxabida de cores que nunca mais sentiria os cabelos…
Os anos passaram,

Os séculos despertaram
E finalmente chegaram os milénios
E a ave nunca mais sentiu os cabelos.

Sentiu sim,
As mãos.
Essas mãos lindas de Deus e desejadas pelo Diabo
Que em vida tão amargamente nos queimam beatas de cigarro nos
lábios.
Sentia tão perto de si a ave,
As mãos que puxando,
Puxando…
Iam torturando aquilo que outrora
Tinha sido a ave graciosa em cores e sabores…

Queria amar,
Mas não podia porque tristeza…
Diziam os reflexos de mim ao espelho que já tinha amado.
MEN-TI-RA..
Tinha sim a ave limitando-se à fêmea
Como o macho ao íman, nada mais, nada mais…

E lindos são eles os que ficaram
As duas estrelas cadentes
No céu que Deus e o Diabo
Lembraram-se de me presentear
No dia em que acordei com a certeza
Que tinha sido o sono e vi que não morri.



Ana Maria Branco

Na milésima de tempo















Foto de Steve Vinh Nguyen





A inversão do mundo nos cabelos do infinito
Uma lua apagada de prazer
A razão é um jardim florido pela ilusão
Na milésima de tempo de uma entrega



Amélia Dalomba

Receita do português























Coloque uma vasilha dentro d’água. A massa só alcançará o ponto exato se os ingredientes forem misturados em recipiente mergulhado na água salgada. Senão, a receita desanda.

Ingredientes:

- Homens pré-históricos do vale do Tejo e do Sado.
-Um punhado de povos indigenas, principalmente Lusitanos. Se possível, da tribo liderada por Viriato.
- Celtas – apenas para polvilhar.
- Romanos.
- Bárbaros: Alanos caucasianos, Vândalos germânicos e escandinavos, Suevos e Visogodos germânicos - estes últimos dissolvidos na civilização romana.
- Mouros: tribos islamizadas do Marrocos e da Mauritânia.
- Uma pitada de árabes.
- Judeus sefarditas (ibéricos) – coloque um punhado entre um ingrediente e outro. Reserve a porção maior para o final da receita.
- Cristãos a gosto.

Modo de fazer:

Coloque na vasilha os pré-históricos. Dê preferência aos que apresentarem características físicas do português contemporâneo: estatura mediana e dolicocéfalos. A arqueologia prova que os pré-históricos ibéricos já se assemelhavam aos gajos pós-modernos – ora, pois.

Tampe a vasilha com um pano úmido. Espere-os fermentar até se transformarem em tribos pacíficas e receptivas à ondas migratórias oriundas de vários pontos europeus. Não se preocupe se alguns, sorrateiramente, fugirem pela borda da vasilha.
O ancestral do português já cultivava vocação viajeira, muitos chegaram à Inglaterra e à Normandia. Apenas oriente os neofujões para não tomarem o rumo de Brasília. Nunca se sabe o que lhes pode acontecer.

Polvilhe um pouco de Celtas. Além do charme, você vai introduzir o domínio da metalurgia e a vocação para o esoterismo. Afinal, quem não gosta de druídas? Além de estarem em moda, eles acrescentarão o toque exótico ao paladar do prato.

Lentamente, despeje os romanos. Atenção: vai sair pancadaria. Maneje com calma a colher de pau para driblar Viriato e outros caudilhos que não apreciarão o novo ingrediente. Cuidadosamente, misture os revoltosos, os romanos e as tribos que se lixaram para a invasão romana. No final, dará certo. É questão de paciência.

Bata levemente durante 500 anos. A massa crescerá e revelará um povo urbano, meio escravo/meio livre, que falava latim vulgar e sofisticou o comércio e a agricultura. Enfim, quase um luxo.

Introduza os Bárbaros. Primeiro os Alanos, Vândalos e Suevos. Capriche nos Suevos pois eles chegam para marcar presença: adoram trabalhar com enxadas e logo escolherão terras para cultivar. Por favor, convença-os a abandonar os instrumentos agrícolas às margens da vasilha. Alguém pode quebrar o dente quando o português for servido.

Descanse a colher de pau. Os romanos embolaram tanto o meio de campo que a turma abriu os braços para os novos conquistadores. Deixe a natureza agir. Você verá que, infiltrados na massa, estes bárbaros inaugurarão a era dos portugueses de olhos claros – um charme.

Adicione os Visigodos romanizados – ou Federados, como os romanos chamavam os povos conquistados que, de rabo entre as pernas, lutavam para defendê-los. Espertamente, o Império de Roma utilizava a estratégia de lançar bárbaros contra bárbaros. Mais ou menos como os norte-americanos de hoje, que engrossam seu exército com negros e latinos da periferia – alguém ainda duvida que a História se repete?

Misture cuidadosamente. Este momento é delicado: o sucesso do português dependerá, exclusivamente, de sua competência culinária. O gosto dos Visigodos deve sobrepôr-se ao dos Vândalos e dos Alanos. Apenas suavemente os bárbaros vencidos perfumam o prato - quase uma especiaria, o toque de classe.

Quando Vândalos e Alanos se dissolverem, bata vigorosamente pois Visigodos e Suevos tenderão a encaroçar por 150 anos. Mantenha-se atento à receita. Não pare de bater nem mesmo quando os Visigodos argumentarem serem os inventores do status quo da sociedade medieval portuguesa: clero, nobreza e povo – grande novidade. Faça-se de surdo e, até o último Visigodo desmanchar, capriche em revolver a massa. Afinal, Visigodos são guerreiros: podem armar uma falseta e solar o português.

Espere inúteis três séculos – Visigodo é um chuchu histórico, só faz volume, não larga gosto - e jogue os árabes e mouros. A massa ficará mais encorpada, adquirirá novos contornos, novas falas, novas técnicas, uma nova arquitetura. O sociólogo brasileiro Gilberto Freyre, autor de Casa Grande & Senzala, assinala que é neste momento que surge o português típico, além de um original subgrupo característico do Norte, emblemático da milenar cruza de raças: homens morenos, cabelos castanhos, escuros olhos mouros, com barba e bigode louros ou ruivos.

O Brasil que - no final do século XIX, início do XX - recebeu maciça imigração de lusitanos do Norte, tem incontáveis homens morenos de barba clara. A maioria não sabe, mas eles são os representantes tropicais da malemolência lusa, useira e vezeira em misturar o próprio sangue ao sangue dos visitantes - eta povo hospitaleiro, este que nos descobriu.

Amasse, delicadamente, os islâmicos e os judeus sefarditas que, aos punhados, você veio introduzindo entre um e outro ingrediente. Deixe descansar, eles se aglutinarão naturalmente. Naquele tempo, estes dois povos, amigos, interagiam sem culpas.

Nesta altura, o português estará quase pronto. Agora, basta levar ao forno bem quente – eles são passionais, não assam em banho-maria.

Com o açúcar, faça uma calda em ponto de bala. Adicione cristãos a gosto, de todos os matizes e origens. Está pronto o português.

Desenforme e sirva-os ao Novo Mundo.


Angela Dutra de Menezes
In "O Português Que Nos Pariu"


Um relato positivo sobre a influência portuguesa na cultura brasileira escrito com muito humor.
Angela Dutra de Menezes, uma conceituada escritora brasileira, propõe em "O Português Que Nos Pariu" uma nova maneira de encarar a História.
Uma linguagem bem-humorada e sem a rigidez dos livros didácticos.


Recebido via Vila Pery

Wild World
















Now that I've lost everything to you
You say you wanna start something new
And it's breakin' my heart you're leavin'
Baby, I'm greavin'

But if you wanna leave, take good care
I hope you have a lot of nice things to wear
But then a lot of nice things turn bad out there

Chorus:
Oh, baby, baby, it's a wild world
It's hard to get by just upon a smile
Oh, baby, baby, it's a wild world
I'll always remember you like a child, girl

You know I've seen a lot of what the world can do
And it's breaking my heart in two
Because I never wanna see you a sad girl
Don't be a bad girl

But if you wanna leave, take good care
I hope you make a lot of nice friends out there
But just remember there's a lot of bad and beware

Chorus

Baby, I love you
But if you wanna leave, take good care
I hope you make a lot of nice friends out there
But just remember there's a lot of bad and beware

Chorus



Cat Stevens














Universalidade do gesto da ave






















derrubadas no grito do meu silêncio sugerem lágrimas
a rima do batom marrom sugere prata suor e ouro
que fenómeno matará a distância?

no deserto eros mãos e sol anunciam o cântico do arco-íris
ao mesmo tempo que a ave
o hino pleno da ave plena anuncia de cristal
o fim do canto do pranto que habita em mim em cada gesto

de riso em riso
tece o convexo sacro-belo da génese da nova poesia
em cada gesto humano da ave
há expresso ensejo universal de nação



Trajanno Nankhova Trajanno

De asas sob a terra


















Beijo o teu rosto, Luanda,
malar vigília de pássaros
estrangulados

cheira a crepúsculo e água
teu sexo aberto
ao gume dos astros

ó tambor do sangue
espuma de um
tempo de metal à proa

que mãos
te alijam o som
de asas sob a terra



José Luís Mendonça

Canto interior de uma noite fantástica















Sereno, mas resoluto
aqui estou - eu mesmo! - gritando desvairado
que há um fim por que luto
e me impede de passar ao outro lado

Ante esta passagem de nível
nada de fáceis transposições
Do lado de cá - pareça embora incrível
é que me meço: princípio e fim das multidões

Não quero tudo quanto me prometam aliciantes
Nada quero, se para mim nada peço,
o meu desejar é outro - o meu desejo é antes
o desejo dos muitos com que me pareço

Quem quiser que venha comigo
nesta jornada terrena, humana e sincera
E se for só - ainda assim prossigo
num mar de tumulto impelido os remos sem galera

Que venham glaucas ondas em voragem
que ardam fogos infernais
que até os répteis soltem seus instintos
e me envolvam traiçoeiras e viscosos

Que me derrubem e arremessem ao chão
que espezinhem meu corpo já cansado
à tortura e ao chicote ainda responderei não
e a cada queda - de novo serei alevantado

E não transporei a linha divisória
entre o meu e o outro caminho
Mesmo que a minha luta não tenha glória
é no campo de combate que alinho

Assim continuarei a lutar, ai a lutar!
num perigoso mar de paixões e escolhos
e - companheiros - se neste sofrer me virdes chorar
não acrediteis em vossos olhos!



António Jacinto

Poema setenta e seis






















Hoje
acordado,
às tantas da madrugada
vi-te chegar.
Eram lentos teus passos
mas segredavas-me como sempre
tua calma
teu sorriso bonito
teu olhar sereno
(às vezes de um brilho triste).

Pouco depois
contornada a estante
explicavas-me então
toda a imensa verdade da doçura
perdida
esquecida
esganada
no justo momento do adeus.

Tenho comigo
a lupa
a fotografia em versalhes
os livros do carlos de oliveira
os discos proibidos
(mandados pelo eniuka de paris)
as cartas do joão purgante
o busto de tolstói
a prova quádrupla do rotary.

Mas não tenho mais
o teu rosto tranquilo
a infinita compreensão do mundo
os passeios à ilha
(com a mãe mais a manuela)
as histórias do socorro vermelho
as cartas da maria lamas
a canção do roberto
só eu mais a solidão.

Tu em mim
eu sem ti
só eu mais a solidão.




Carlos Ferreira

Décimo sétimo poema





















E,
O tempo que não passa para me trazer sorrisos,
Pois percorro-o à espera de chegue a hora
Em que possa apagar tudo para não sofrer mais...
Apagar o dia em que nasci em terras ciocas;
Apagar os primeiros anos;
Apagar as lembranças da infância perdida pelo capim,
Com os amigos das sanzalas vizinhas,
Apagar a primeira visita à cidade;
Apagar os sonhos sobre as pernas longas do Infante Henrique;
E os braços ondulantes do Príncipe Perfeito, tão lindo;
Apagar os anos na metrópole; o colégio de freiras;
As brincadeiras e risadas das crianças no pátio,
As missas de Domingo todas elas rezadas;
Os cânticos a que me forçava decorar,
As matinés do Sandokam e do Trinitá
A Cristina amiga de Santiago que nunca mais vi;
Apagar a perda de um lar;
Apagar a infância mal vivida,
O trabalho a que me obrigavam;
O sol que me queimava;
A enxada que me esfacelava as mãos;
As ervas daninhas e orvalhadas que cortava;
As vezes que meus pés as uvas frescas de Setembro esmagavam
As idas e vindas constantes ao alambique
As pedaladas a caminho da escola; tendo Zorba por companhia;
O peso que carregada às costas do burro humano a que me chamavam;
Apagar o quarto frio e feio onde cresci;
O medo de morrer gelada durante o Inverno;
Os poucos beijos que a meu Pai dei enquanto crescia;
Apagar as fugas para os milharais;
O livro lido às escondidas;
A madrasta que não me via;
O Pai que não me sentia;
A mãe que me esquecia;
As irmãs que de mim dependiam;
Apagar o tempo que fugiu;
A chegada ao outro lado do Atlântico;
O primeiro amor;
A grande paixão de 84
O casamento falhado com as culturas de sangue dos ilhéus;
Apagar o tempo;
Apagar as dores de parto que tive;
Apagar os filhos;
Apagar os anos em terras shonas; onde vi as ruas cobertas
de laranja, rosa, amarelo, violeta;
E senti o cheiro do belo da decência;
Apagar o tempo calmo em terras de Samora,
Onde falei o ronga e visitei os beira;
Apagar as alegrias, as tristezas, os sorrisos os choros e as gargalhadas;
Apagar as lágrimas;
As mentiras que contei e as que ouvi O esforço do sustento;
A fome; As Guerras, Os mares e os Oceanos;
A necessidade;
Apagar os amores;
Os sonhos; as vezes que amei e fui amada;
Apagar os amantes, os amigos, a família, os conhecidos;

Apagar os livros
As histórias;
A poesia;
Os poetas; Apagar as luzes ir embora...

Apagar tudo para não sofrer mais!



Ana Maria Branco

No próximo encontro
























Finalmente amor,
És tu que me faltavas.

Tua voz
É meu canto para sempre preferido.
No próximo encontro traz unguento.
Mbafo.
Também capim de Deus
Para misturarmos cuidadosamente
Com o bafo
Dos perfumes das nossas vidas.



Garcia Bires

A luz da noite
















Foto de Alexander Orlov






Vou à lua
fugir da terra

Enviarei ouro
P’ra teus seios tirar-me a morte

Um dia...
Levar-te-ei

A conhecer o sorriso das estrelas



Lúcio Assis

Sonho contemplado















Foto de Jorge Neto, em Africanidades



A acompanhar com o vinho
Na tasca do tagarelice
Serve-se de Mim em bandeja
Para petisco e gira-disco
Eu por cá estou feliz
Por ter tido um sonho

Sonho avesso em diagonal
Alma na travessia atlântica
Banhada com a espuma da lua
naveguei no leque do tubarão
e o corpo jaz no ilhéu d' Areia

Pensar amarfanhado no divagar amorfo
Na embriaguez das ondas do libertar
Duelo esgrime-se na arena da barbárie
Nas praças lavra-se a verdade em série

E eu nesta cabana do pescador
Na ternura do descanso na preia-mar
Contemplo a fortuna emérita do sonhar



A. Quadé

Até sempre!



Una furtiva lagrima


Luciano Pavarotti
1935 - 2007

Sumidouro























I
Tocas a fímbria dos desfiladeiros,
fruindo a cor do figo e da romã
no nascente e secreto sumidouro.
É tarde nas folhas e nos muros,
nas sombras do tanque de lodo e musgo,
é tarde já. é noite – e o sol vem vindo
e a primavera vindo onde a água
é o mel feroz de pássaros em tua língua,
onde o amor deságua em delta e tudo é fogo.



II
Direi então: amor é onde
o junco alto e as dunas soam mais brando
e os frutos cheiram mais e são mais doces,
onde há a embriaguez e uma tensão
de corda esticada no limite
e tudo é lasso, onde
as abelhas perdem a ferocidade
sendo mais mel, onde tudo é ordem e labirinto




Olga Savary



















O meu amado chega e enquanto despe as sandálias de couro
marca com o seu perfume as fronteiras do meu quarto.
Solta a mão e cria barcos sem rumo no meu corpo.
Planta árvores de seiva e folhas.
Dorme sobre o cansaço
embalado pelo momento breve da esperança.
Traz-me laranjas. Divide comigo os intervalos da vida.
Depois parte.
Deixa perdidas como um sonho as belas sandálias de couro.




Ana Paula Ribeiro Tavares

Tudo o que foi quase um poema






















"O Pensador" de Thó Simões
via Os Nacionalistas internacionalistas






Tudo o que foi quase um poema veio com o teu âmago
e talvez seja essa febre interior que te faz
corrigir com as lágrimas a posição
dos guaches.




Adriano Botelho de Vasconcellos

Poema Panfletário























"Fuga do Inferno" de Filipe Salvador




Duras serão as pedras no chão que pisaremos.
Por serem duras é que abandonei
Os caminhos movediços
Deste mundo em agonia...

Suaves serão as palavras que falaremos.
Por serem suaves é que abandonei
Os caminhos movediços
Deste mundo em agonia...

Pedras e palavras: certas, necessárias
Duras, suaves e seguras.
E uma casa nova.
E caminhos novos de alegria...




António Cardoso

O Nosso Mar
















Cabo Ledo, Julho de 1996





O nosso mar,
O mar africano,
Não se parece com os outros mares.
Terá o mesmo corpo,
Talvez...
A alma, porém é como os palmares:
Tem a energia, tem o dolência
A vida e a morte na sua essência,
Tocadas do mistério africano.
Sua linguagem é toda nossa:
Não a percebe quem nos ignora,
Não comove a quem não comove

O nosso drama, que é noite e aurora.

Não conhece quem não conhece
O seu murmúrio, que é nosso pranto
Sua revolta, nosso protesto,
- nossas vozes semelham-se tanto!

O seu silêncio tão resignado
Cheio de unção, de paz e perdão,
Lembra o olhar manso do desgraçado
Levado longe dos seus queridos.

A sua espuma, essa branca espuma,
vem-lhe da graça, vem da inocência,
de mil crianças de tez escura,
de olhar de luz, sem concupiscência.

Cheio de graça, cheio de força,
como se agita o mar africano!
Negro e feroz está a lembrar
braços hercúleos, trabalho insano.

Mar africano,
não te conhece quem não conhece
a alma africana,
que o mar e a terra irmana:
Num só abraço fazendo um
o longe e o perto, a dor e a esperança,
tal como o riso e o choro em criança.



Dom Alexandre do Nascimento

Nelson Évora

















Foto daqui





Parabéns, Nelson!!

Se tivesse o engenho e a arte de Raim teria feito um «boneco» em que esta foto, como medalha, seria colocada na lapela dum dos fulanos que tiveram um famoso cartaz no Marquês de Pombal.

Africa

























Foto de Brigida Rocha Brito em Caminhadas e Descoberta em STP






África:
dos encontros, dos desencontros e dos reencontros;
dos sentidos e das emoções;
das paixões e das contradições.

África:
dos amantes ardentes e dos amores fugazes;
dos sonhos váguos e por realizar;
da esperança tornada impossibilidade.

África:
do desejo recriado;
da vontade alimentada;
das recordações revividas... dia após dia.
(A Ti) ST, Janeiro 2004



Brígida Rocha Brito




O África de Todos os Sonhos faz hoje 3 anos.
Aqui ficam os merecidíssimos parabéns e a homenagem á autora com a publicação aqui deste magnífico poema.

Metade























Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo que acredito não me tape os ouvidos e a boca.
Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio.

Que a música que eu ouço ao longe seja linda, ainda que triste.
Que a mulher que eu amo seja sempre amada, mesmo que distante.
Porque metade de mim é partida e a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor,
Apenas respeitadas como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimento.
Porque metade de mim é o que eu ouço, mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço.
Que essa tensão que me corroe por dentro seja um dia recompensada.
Porque metade de mim é o que eu penso e a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste, que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto o doce sorriso que eu me lembro de ter dado na infância.
Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade eu não sei...

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria para me fazer aquietar o espírito.
E que o teu silêncio me fale cada vez mais.
Porque metade de mim é abrigo, mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba.
E que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer.
Porque metade de mim é a platéia e a outra metade, a canção.

E que minha loucura seja perdoada.
Porque metade de mim é amor e a outra metade... também.



Oswaldo Montenegro