Pas de deux

























Fecho a porta e as janelas,
a casa se foi.
eu vou,
leve como quem já conhece o amor,
Nenhum pássaro sabe como é voar com os pés no chão,
eu sei.




Gabriela Marcondes

Después, casi al despertar



















Foto de Rui Romão



Para José Watanabe



La muerte es muerte,
y lo sabe el que oficia la misa,
y el niño agnóstico,
y el profesor en el rincón del aula;
y lo saben las madres que vende olores en el mercado,
y los gallinazos con sus picos manchados.

El patrón se escapó de casa, una mañana,
enamorado tras su sombra;
orillando a sus criados
a artísticas labores celestes.
Y, jamás sabrá la nube lo hermosa que es
cuando se deforma.
Y, si ponen algo de sudor sobre una piedra caliente,
ésta olvidará de inmediato su sacrificio.

El número tres es el tres,
y un ave suele ser un ave,
y la muerte es la muerte,
y la inmensidad es muerte,
y el grito es muerte,
y el llanto es muerte,
y el fruto en la lluvia es muerte,
y la vida bajo de un plástico es muerte,
y la soledad en el anuncio es muerte,
y el equilibrio en un fósforo es muerte,
y la rabia es muerte,
y la ternura sobre un vidrio es muerte,
y la felicidad en un segundo es muerte,
y la indignación en un músculo es muerte,
y la palabra en los ojos es muerte,
y el tocadiscos es muerte,
y la comadrona en su ley es muerte,
y la mirada de una canción es muerte,
y el verano es muerte,
y el ladrido de los perros es muerte,
y la hoja en el cemento es muerte,
y el gusano en el avión es muerte,
y la muerte es cambio,
y el cambio es vida.
Y la vida es vida al cuadrado.




Alan Ybrahim Luna Rodríguez
























A morte da música pode ser lisa entre o início de um verão
e a direção que faz o silêncio. A surdez levanta a imagem
que a sombra distraidamente enterrara a cinco
palmos do chão. Para o coração se salvam as gaivotas
que levaram os mares para bem perto do sol que se despe
com o jeito das mulheres. A cicatriz é delicada
como se tivéssemos que olhar para a memória
com uma outra escolha astúcia. Hesita-se mas sabemos
que no ombro se fazem as glórias muito breves
e à deriva do coração. Cada erro persegue o espírito
que faz o teatro dourar mais que uma lágrima, um longo
cenário acaba por disfarçar-nos perante
o que nunca fomos. Faz-se um corte no dedo indicador
quando se perde a aurora para que a terra
fique mais perto da insónia. Vemos o abandono da juventude
vindo agora de nós uma interpretação
sem chamas. Por isso as palavras vão compondo
numa só estrofe o que a vida mesmo atenta não pode
consagrar.



Adriano Botelho de Vasconcellos

Solidão
























Minhas mãos rugosas
Dormindo as insónias
Da tua ausência
Descrevem o Inverno
Catalisando o tempo
Na esperança do teu regresso

Este dia
Será mais um
E amanhã o outro

Todos são dias de solidão



Cecília Ndanhakukua

Poema setenta e seis






















Hoje
acordado,
às tantas da madrugada
vi-te chegar.
Eram lentos teus passos
mas segredavas-me como sempre
tua calma
teu sorriso bonito
teu olhar sereno
(às vezes de um brilho triste).

Pouco depois
contornada a estante
explicavas-me então
toda a imensa verdade da doçura
perdida
esquecida
esganada
no justo momento do adeus.

Tenho comigo
a lupa
a fotografia em versalhes
os livros do carlos de oliveira
os discos proibidos
(mandados pelo eniuka de paris)
as cartas do joão purgante
o busto de tolstói
a prova quádrupla do rotary.

Mas não tenho mais
o teu rosto tranquilo
a infinita compreensão do mundo
os passeios à ilha
(com a mãe mais a manuela)
as histórias do socorro vermelho
as cartas da maria lamas
a canção do roberto
só eu mais a solidão.

Tu em mim
eu sem ti
só eu mais a solidão.



Carlos Ferreira

Fim de semana de esperança... ou talvez não










Não seja esquecida a fome em África.
Não se vire as costas ao atropelo dos direitos humanos.
Não se ignore o flagelo da SIDA e da malária.
Não se hesite na ajuda á educação e alfabetização.

Que seja aberta uma janela de esperança que evite que outras crianças vejam o seu quotidiano da mesma forma que as do Darfur.

















Desenho de criança do Darfur. Veja outros aqui.

...silêncio...


















Desliguem o mundo por momentos, tirem os carros das ruas.
Apaguem a Lua e as estrelas e façam todas as pessoas dormir.
Estagnem as ondas do mar e o vento não soprará jamais.
Façam a terra parar e os barcos ficarem no cais.
E não haverá chuva pois as nuvens não irão aparecer.
E não existirão pesadelos pois não há nada a temer.
Desliguem toda a loucura neste universo meu
para que possa acreditar que a escuridão venceu
e deixem-me dormir sossegada nas doces mãos que o silêncio tem
até encontrar a paz que procuro, no coração de outro alguém.


Ivone Neves de Almeida
In "Imaginatorium"

A terra que te ofereço




















1
Quando,
ansiosa,
pela primeira vez
pisares
a terra que te ofereço,
estarei presente
para auscultar,
no ar,
a viração suave do encontro
da lua que transportas
com a sólida
a materna nudez do horizonte.

Quando,
ansioso,
te vir a caminhar
no chão de minha oferta,
coloco,
brandamente,
em tuas mãos,
uma quinda de mel
colhido em tardes quentes
de irreversível
votação ao Sul.


2
Trago
para ti
em cada mão
aberta,
os frutos mais recentes
desse Outono
que te ofereço verde:
o mês mais farto de óleos
e ternura avulsa.
E dou-te a mão
para que possas
ver,
mais confiante,
a vastidão
sonora
de uma aurora
elaborada em espera
e reflectida
na rápida torrente
que se mede em cor.


3
Num mapa
desdobrado para ti,
eu marcarei
as rotas
que sei já
e quero dar-te:
o deslizar de um gesto,
a esteira fumegante
de um archote
aceso,
um tracejar
vermelho
de pés nus,
um corredor aberto
na savana,
um navegável
mar de plasma
quente.



Ruy Duarte de Carvalho
In “A decisão da idade”

Canto do nosso amor sem fronteira

















Estamos juntos.
E moçambicanas mãos nossas
dão-se
e olhamos a paisagem e sorrimos.

Não sabemos de áreas de esterlino
de câmbios
vistos de fronteira
zonas de marco e dólar
portagem do Limpopo
canais de Suez e do Panamá.

Amamo-nos hoje numa praia das Honduras
estamos amanhã sob o céu azul da Birmânia
e na madrugada do dia dos teus anos
despertamos nos braços um do outro
baloiçando na rede da nossa casa na Nicarágua.

Ou
com os olhos incendiados
nos poentes do Mediterrâneo
recordamos as noites mornas da praia da Polana
e a beijos sorvo a tua boca no Senegal
e depois tingimos mutuamente
os lábios com as negras amoras de Jerusalém
ambos entristecidos ao galope dos pés humanos
sem ferraduras mas puxando riquexós.



José Craveirinha
in “Karingana ua Karingana”

Identidade











Costumo definir-me a mim própria como a página cem de Gedeão,
à procura da cento e vinte e sete.
Cresci e brinquei com Clarissa, sob um pé de laranja lima; fugia à
escola para passear no rio Mazungue, numa canoa chamada Rosinha.
Tive um cão que se chamava Corto Maltese e com ele percorri os
Jardins Suspensos da Babilónia, à procura da árvore dos direitos
humanos.
Aprendi a amar com Florbela Espanca e Alda Lara. Namorei com
Viriato, fui mulher com Vinícius e descobri que o amor só é eterno
enquanto dura; sofri amor e saudade com António Jacinto, em todas
as cartas que não enviei.
Tornei-me “gente” com Manuel Bandeira, “Che”, Neruda e muitos
mais. Com eles andei em busca da identidade perdida na infância,
esquecida no casamento e mais tarde reencontrada na solidão do
quotidiano.
E quando um dia tiver de ser pó, cinza e nada e não mais com Jorge
Amado poder pastorear as noites e a vida, quero fazê-lo à Mário de
Sá Carneiro e tal como ele ir de burro: a um morto nada se nega;
assim que não me falte champagne e Albinoni, com muito violino
à mistura (de Pagannini, ou até mesmo só aquele do telhado…).




Anny Pereira

Quase haiku















Sobram insones rumores infernais
como que viesse uma tempestade avassalar
os desígnios d’outra moldura





Lopito Feijoó

Aos que virão depois de nós




















I

Eu vivo em tempos sombrios.
Uma linguagem sem malícia é sinal de
estupidez,
uma testa sem rugas é sinal de indiferença.
Aquele que ainda ri é porque ainda não
recebeu a terrível notícia.

Que tempos são esses, quando
falar sobre flores é quase um crime.
Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?
Aquele que cruza tranquilamente a rua
já está então inacessível aos amigos
que se encontram necessitados?

É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver.
Mas acreditem: é por acaso. Nado do que eu faço
Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome.
Por acaso estou sendo poupado.
(Se a minha sorte me deixa estou perdido!)

Dizem-me: come e bebe!
Fica feliz por teres o que tens!
Mas como é que posso comer e beber,
se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome?
se o copo de água que eu bebo, faz falta a
quem tem sede?
Mas apesar disso, eu continuo comendo e bebendo.



Bertold Brecht

Eremita das trevas























Observo as trevas.

As ervas
que apalpo na polpa da escuridão
são apenas tretas da poesia
e orvalho de lágrimas
ouço as trevas num luto
só e só quando me escruto!

Não sei
se sou eu a noite
- a noite o que é senão noite? -
mas sei que mordo as trevas
quando perscruto o frufru das sombras!

Sombras que me contam
as histórias dos seres que fui
antes de ser um querer que era:
um sacrifício oferecido à quimera!

Marcha na penumbra a poesia
eu fornico as sombras do dia
a noite é minha concubina
- sou eu o eremita das trevas!



Cristóvão Luís Neto

Canção do silêncio


















Ouvindo o silêncio das coisas remotas,
Distingo legendas que os outros não lêem...
Vislumbro paisagens confusas, remotas,
- Silhuetas de imagens que muitos não vêem!...

Desvendo os mistérios da selva distante,
Aonde costuma rugir o leão...
- Arroios cantando, num som murmurante,
Anharas perdidas p'ra além do sertão...

Capim verdejante nas húmidas chanas,
Lençol de esmeralda que o sol vai corando...
Matizes da selva, luar das savanas,
Mabecos fugindo, pacaças pastando...

Silêncio das noites sombrias, caladas,
Segredos da selva, murmúrios da aragem...
- Holongos ligeiros, fugindo, em manadas,
Regatos correndo por entre a folhagem...

Latidos de hienas em torno dos quimbos,
Já dentro da noite, se a fome as aperta;
Quimbundas alegres, sachando os arimbos
Depois que o som cavo do goma as desperta

Chingufos ao longe - rufar permanente -
Chamando ao batuque de intensa folganca...
E os pretos, gingando pra trás e pra frente,
Agitam as ancas na febre da dança!...

E a lua, do alto - qual "hostia boiante" -

Envolve o cenário num manto sidério...
- Canção do silêncio da selva distante,
Bem poucos entendem teu som de mistério!
...



M. Correia da Silva
In "Cantares de Angola"

Fonema d'orvalhos


















Dou aos meus versos a sonolência dos teus gemidos
porque não encontrei outra mulher que me aguardasse
com o pote d’orvalhos viçosos:
manhãs de água se levantam no ímpeto
nutres as peles de meus tambores na humanidade
para não mais esquecer as vogais despertas da erosão
desde o primeiro calvário ao hímen nucleado
que estendias nos meus braços de fome.



João Tala

Ó Angola meu berço do Infinito


















Ó Angola meu berço do Infinito
meu rio da aurora
minha fonte do crepúsculo
Aprendi a angolar
pelas terras obedientes de Maquela
(onde nasci)
pelas árvores negras de Samba-Caju
pelos jardins perdidos de Ndalatandu
pelos cajueiros ardentes de Catete
pelos caminhos sinuosos de Sambizanga
pelos eucaliptos das Cacilhas
Angolei contigo nas sendas do incêndio
onde os teus filhos comeram balas
e
regurgitaram sangue torturado
onde os teus filhos transformaram a epiderme
em cinzas
onde das lágrimas de crianças crucificadas
nasceram raças de cantos de vitória
raças de perfumes de alegria
E hoje pelos ruídos das armas
que ainda não se calaram pergunto-me:
Eras tu que subias montanhas de exploração?
que a miséria aterrorizava?
que a ignorância acompanhava?
que inventariavas os mortos
nos campos e aldeias arruinados
hoje reconstituídos nos escombros?
A resposta está no meu olhar
e
nos meus braços cheios de sentidos

(Angola meu fragmento de esperança)
deixai-me beber nas minha mãos
a esperança dos teus passos
nos caminhos de amanhã
e
na sombra d´árvore esplendorosa.)



João Maimona
In “Traço de união”

Sei que aos 30...
















Sei que aos 30,
já a velhice me alcançou
e a vida me venceu.
E há muito tempo que caí de medo.
Há muito tempo que arde
na fogueira a chama da vida.
O fumo
que dela sai,
confunde-se com as nuvens no céu,
confunde-se comigo.



Ana Maria Branco
In “Antologia da poesia feminina dos PALOP”

The Africa you never see on tv

Mar novo



















6

Tudo é fugaz
entre o desenho do teu pé na areia
e a onda que desfaz
a marca

Entre a guerra e a paz
retorno fisicamente o poema a onda
constante meditação primeira.

Nós e as coisas.

Nada permanece que não seja
para a necessária mudança.
Que o diga o mar.



Manuel Rui Monteiro

O peso da vida















O peso da vida!
Gostava de senti-lo à tua maneira
e ouvi-la crescer dentro de mim,
em carne viva,

não queria somente
rasgar-te a ferida,
não queria apenas esta vocação paciente
do lavrador,
mas, também, a da terra
e que é a tua

Assume o amor como um ofício
onde tens que te esmerar,

repete-o até à perfeição,
repete-o quantas vezes for preciso
até dentro dele tudo durar
e ter sentido

Deixa nele crescer o sol
até tarde,
deixa-o ser a asa da imaginação,
a casa da concórdia,

só nunca deixes que sobre
para não ser memória.




Eduardo White
In "O pais de mim"

Dia Mundial de quê???


Quem poderá domar























Quem poderá domar os cavalos do vento
quem poderá domar este tropel
do pensamento
à flor da pele?

Quem poderá calar a voz do sino triste
que diz por dentro do que não se diz
a fúria em riste
do meu país?

Quem poderá proibir estas letras de chuva
que gota a gota escrevem nas vidraças
pátria viúva
a dor que passa?

Quem poderá prender os dedos farpas
que dentro da canção fazem das brisas
as armas harpas
que são precisas?


Manuel Alegre





Adriano deixou-nos há 25 anos. A sua voz perdurará sempre na nossa memória.
Aqui é apresentada uma versão desta magnífica balada.

Retrato do Herói
















Herói é quem num muro branco inscreve
O fogo da palavra que o liberta:
Sangue do homem novo que diz povo
E morre devagar de morte certa.

Homem é quem anónimo por leve
Lhe ser nome o nome própria traz aberta
A alma à fome fechado o corpo ao breve
Instante em que a denúncia fica alerta.

Herói é quem morrendo perfilado
Não é santo nem mártir nem soldado
Mas apenas por último indefeso.

Homem é quem tombando apavorado
Dá o sangue ao futuro e fica ileso
Pois lutando apagado morre aceso.


Manuel Alegre
in "O Canto e as Armas"

Quem muito viu




















Quem muito viu, sofreu, passou trabalhos,
mágoas, humilhações, tristes surpresas,
e foi traído, e foi roubado, e foi
privado em extremo da justiça justa;

e andou terras e gentes, conheceu
o mundo e submundos; e viveu
dentro de si o amor de ter criado;
quem tudo leu e amou, quem tudo foi
não sabe nada, nem triunfar lhe cabe
em sorte como todos os que vivem.
Apenas não viver lhe dava tudo.

Inquieto e franco, altivo e carinhoso,
será sempre sem pátria. E a própria morte,
quando o buscar, há-de encontrá-lo morto.



Jorge de Sena

in "Poesia", Vol III

Sonhos















Teria passado a vida
atormentado e sozinho
se os sonhos me não viessem
mostrar qual é o caminho

umas vezes são de noite
outras em pleno de sol
com relâmpagos saltados
ou vagar de caracol

quem os manda não sei eu
se o nada que é tudo à vida
ou se eu os finjo a mim mesmo
para ser sem que decida.


Agostinho da Silva

Aromas























Africa (1998), óleo de Raphael Sirianni




Deitada me fico
acordada sonhando,
no escuro espio
o sono esperando...

Já estou embalada,
Piso terra dura;
vermelha , cheirosa
calor que perdura...


Aromas gritantes
de tropicais frutas;
sons familiares
de aves malucas...

Logo à minha frente
altiva , frondosa,
se ergue , gigante,
mangueira formosa.

Corro num repente
de braços abertos...
Lágrimas saltando
E sonhos despertos...

Choro amargamente
A ela abraçada...
Falo docemente
de dor carregada...




Ana Bela

Poema ela, a noite e eu

















O Mundo naquela noite
era apenas um seio branco
macio como sumaúma
a cintilar na prisão escura das minhas mãos.

o seio branco era o Mundo
e nada mais havia perto ou longe
nem um agente disfarçado
que fosse sequer uma insinuação de Vida
a não ser o desejo crescendo
crescendo como um vulcão dentro dos olhos semi-desmaiados
voluptuosamente.

E
só o seio branco
maravilhosamente branco de «lanho»
era o Mundo sem injúrias
vibrante e nu cântico de carne.
Só o seio branco e a treva
naquela noite empaludada de frémitos
era o Mundo.



José Craveirinha
In “Poemas Eróticos”

Torresmos em machimbombo queimado



















À partida o machimbombo parecia
um ónibus lotado de gente
em viagem.

Lá para o quilómetro 20 a ou este da Gorongosa
chaparia e respectivo tejadilho ficaram
fuliginoso similar de frigideira
fritando várias doses de torresmos
derivantes fósseis de passageiros
interrompidos antes do terminal.

Sobra este prosaico odor da sintomática
machimbombesca fotocópia de esquife.

O impaciente estardalhaço dos tiros
ainda por cima esfrangalhou o original.



José Craveirinha

Primeiro poema


















Senti entre o sono e a certeza uma ave desenxabida de cores
Lutando dentro de mim,
Esgrimindo com Deus e o Diabo…
Tentando esgueirar-se por algum orifício do ar que só ela sabia existir.

Estou com Deus dizia, estou com o Diabo sabia…

Não.
Estou com Deus menino
Neste largo desfiladeiro em que me encontro liso e escorregadio.
Escorregadio, tão desumanamente perdido no pólo Norte ou Sul,
Bêbedo do álcool que não mais importava,
Simplesmente sem que o vento soprasse,
Sentia essa ave lutando dentro de mim esquivando-se da vida…

Queria voar,
Mas tão longe estava o chão que de certeza me magoaria…
Queria gritar,
Mas a afonia ensurdecia os miseráveis e os distraídos,
Queria chorar,
Mas a gota húmida do choro, a lágrima,
Caía em desalinho no solo,
Nas calças em xadrez de Accra,
Nas escadas que levavam ao inferno delicioso
Que todos tentam esquecer (ignorar)
E assim, as gotas húmidas das lágrimas;
Caíam no remoto e imenso calcanhar
Que um dia a ave possuíra…

Queria pentear os cabelos…

Ah! Que engraçado…
Onde teriam eles os cabelos bonitos e os cachos ido parar?
Sabia a ave desenxabida de cores que nunca mais sentiria os cabelos…
Os anos passaram,

Os séculos despertaram
E finalmente chegaram os milénios
E a ave nunca mais sentiu os cabelos.

Sentiu sim,
As mãos.
Essas mãos lindas de Deus e desejadas pelo Diabo
Que em vida tão amargamente nos queimam beatas de cigarro nos
lábios.
Sentia tão perto de si a ave,
As mãos que puxando,
Puxando…
Iam torturando aquilo que outrora
Tinha sido a ave graciosa em cores e sabores…

Queria amar,
Mas não podia porque tristeza…
Diziam os reflexos de mim ao espelho que já tinha amado.
MEN-TI-RA..
Tinha sim a ave limitando-se à fêmea
Como o macho ao íman, nada mais, nada mais…

E lindos são eles os que ficaram
As duas estrelas cadentes
No céu que Deus e o Diabo
Lembraram-se de me presentear
No dia em que acordei com a certeza
Que tinha sido o sono e vi que não morri.



Ana Maria Branco

Na milésima de tempo















Foto de Steve Vinh Nguyen





A inversão do mundo nos cabelos do infinito
Uma lua apagada de prazer
A razão é um jardim florido pela ilusão
Na milésima de tempo de uma entrega



Amélia Dalomba