Canto do nosso amor





















Estamos juntos.
E moçambicanas mãos nossas
dão-se
e olhamos a paisagem e sorrimos.

Não sabemos de áreas de esterlino
de câmbios
vistos de fronteira
zonas de marco e dólar
portagem do Limpopo
canais de Suez e do Panamá.

Amamo-nos hoje numa praia das Honduras
estamos amanhã sob o céu azul da Birmânia
e na madrugada do dia dos teus anos
despertamos nos braços um do outro
baloiçando na rede da nossa casa na Nicarágua.

Ou
com os olhos incendiados
nos poentes do Mediterrâneo
recordamos as noites mornas da praia da Polana
e a beijos sorvo a tua boca no Senegal
e depois tingimos mutuamente
os lábios com as negras amoras de Jerusalém
ambos entristecidos ao galope dos pés humanos
sem ferraduras mas puxando riquexós.



José Craveirinha
in “Karingana ua Karingana"

Me Llaman Calle


























me llaman calle, pisando baldosa
la revoltosa y tan perdida
me llaman calle, calle de noche, calle de día
me llaman calle, hoy tan cansada, hoy tan vacía
como maquinita por la gran ciudad

me llaman calle, me subo a tu coche
me llaman calle de malegría, calle dolida
calle cansada de tanto amar

voy calle abajo, voy calle arriba
no me rebajo ni por la vida
me llaman calle y ése es mi orgullo
yo sé que un día llegará, yo sé que un día vendrá mi
suerte
un día me vendrá a buscar, a la salida un hombre bueno
pa toa la vida y sin pagar, mi corazón no es de
alquilar

me llaman calle, me llaman calle
calle sufrida, calle tristeza de tanto amar

me llaman calle, calle más calle

me llaman calle, siempre atrevida

me llaman calle, de esquina a esquina
me llaman calle bala perdida, así me disparó la vida
me llaman calle del desengaño, calle fracaso, calle
perdida
me llaman calle la sin futuro
me llaman calle la sin salida

me llaman calle, calle más calle
la de mujeres de la vida
suben pa bajo, bajan para arriba
como maquinita por la gran ciudad

me llaman calle, me llaman calle
calle sufrida, calle tristeza de tanto amar
me llaman calle, calle más calle

me llaman siempre, y a cualquier hora
me llaman guapa siempre a deshora

me llaman puta, también princesa
me llaman calle, es mi nobleza
me llaman calle, calle sufrida, calle perdida de tanto
amar

me llaman calle, me llaman calle
calle sufrida, calle tristeza de tanto amar

a la puri, a la carmen, carolina, bibiana, nereida,
magda, marga,
heidi, marcela, jenny, tatiana, rudy, mónica, maría,
maría

me llaman calle, me llaman calle
calle sufrida, calle tristeza de tanto amar
me llaman calle, me llaman calle
calle sufrida, calle tristeza de tanto amar
me llaman calle, me llaman calle
calle sufrida, calle tristeza de tanto amar
me llaman calle, me llaman calle
calle sufrida, calle tristeza de tanto amar



Manu Chao


Amizade


















Todo sentimento
Precisa de um passado pra existir
a amizade não
Ela cria como por encanto
Um passado que nos cerca
Ela nos dá a consciência
De havermos vivido anos a fios
Com alguém que a pouco era quase um estranho
Ela supre a falta de lembrança
Como espécie de mágica
Tenha uma boa noite ....



Luiza Castelo

Canção do crepúsculo




















morrem
na paleta do sol no ocaso
os derradeiros tons
ao raiar da aurora
floresce a luta
e o amor renasce



Jofre Rocha

Mãos



















Mãos desenham raízes dos cânticos da terra
Geram vida na identidade da flor entre o espírito da letra
Engendram salmos na inserção da cruz às preces das dores
Mãos são séculos de páginas aos joelhos de Fátima
São lágrimas ao altar do desespero


Amélia Dalomba

Serenata




















Caem à noite pedras
sobre o templo
do silêncio
de espaço
um ruído de automóvel
um toque de sinos de uma igreja
monotonia diurna que não quebra
a queda das pedras
no silêncio

De dia o templo é
noite
e à noite há o silêncio
o esgaravatar de uma gaivota em fogo
o estalar de folhas novas
numa árvore
sabendo a vício este cigarro
de cheira a seiva dos pinheiros

E as pedras caem
como chuva ou neve
todas as noites que noites
já são poucas

E a seiva pedra sobre o templo
e a gaivota
o vício
a folha
quebrando este silêncio

Onde as guitarras?
Os quissanges acontecem longe



Manuel Rui
In “No reino de Caliban II
- antologia panorâmica de poesia africana
de expressão portuguesa

Albano Neves e Sousa

Fabuloso



Esta é a Cidade





















Esta é a cidade. Quem caminha
sorvendo seus odores coloridos?

Caleidóscopicos sons
inebriam os músculos
como doces agulhas

Quem sente o calor do chão
luz de vidro e água
intensa e rumorosa como
um afago?

As crianças percorrema cidade

atrás do tiroteiro
como aves barulhentas. A rota
desta guerra
elas sempre a conheceram

Há uma farra em cada esquina
onde tambores renovados
fazem explodir toda alegria antiga

A liberdade é uma visível linha
de fogo nos olhos dos homens




João Melo

Os Mandamentos Cherokee...




















Treat The Earth And All That Dwells thereon With Respect

Remain Close To The Great Spirit

Show Great Respect For all Beings

Work Together For The Benefit Of All Mankind

Do What You Know Is Right

Look After The Well-being Of Mind And Body

Dedicate A Share Of Your Efforts To The Greater Good

Be Truthful And Honest At All Times

Take Full Responsibility For Your Actions

I Ask




















I lay down my knife
beside your gun,
And ask . . .
Is it good, that we not fight?


I give you my blanket,
In return for your coat
And ask . . .
Is it good, that we exchange?


I give you my land
In return for your progress
And ask . . .
Is it good, that we advance?


I share with you my beliefs,
In return for your beliefs,
And ask . . .
Why . . .
Is it good that we lose our identity?




Pam Taylor
Cherokee

O ritmo do tantã


















Foto de Namibiano Ferreira, aqui




O ritmo do tantã não o tenho no sangue
nem na pele
nem na pele
tenho o ritmo do tantã no coração
no coração
no coração
o ritmo do tantã não tenho no sangue
nem na pele
nem na pele
tenho o ritmo do tantã sobretudo
mais no que pensa
mais no que pensa
Penso África, sinto África, digo África
Odeio em África
Amo em África
Estou em África
Eu também sou África
tenho o ritmo do tantã sobretudo
no que pensa
no que pensa
penso África, sinto África, digo África
E emudeço
dentro de ti, para ti África
dentro de ti, para ti África
Á fri ca
xxxxxxÁ fri ca
xxxxxxxxxxxxÁ fri ca




António Jacinto

Cultura africana



De apresentação enviada pelo amigo Aires Bustorff

Mussunda amigo





















Para aqui estou eu
Mussunda amigo
Para aqui estou eu

Contigo
Com a firme vitória da tua alegria
e da tua consciência

O ió kalunga ua mu bangele!
O ió kalunga ua mu bangele-lé-leleé...

Lembras-te?

Da tristeza daqueles tempos
em que íamos
comprar mangas
e lastimar o destino
das mulheres da Funda
dos nossos cantos de lamento
dos nossos desesperos
e das nuvens dos nossos olhos
Lembras-te?

Para aqui estou eu
Mussunda amigo

A vida a ti a devo
à mesma dedicação ao mesmo amor
com que me salvaste do abraço
da jibóia

à tua força
que transforma os destinos dos homens

A ti Mussunda amigo
a ti devo a vida

E escrevo versos que não entendes
compreendes a minha angústia?

Para aqui estou eu
Mussunda amigo
escrevendo versos que tu não entendes

Não era isto
o que nós queríamos, bem sei

Mas no espírito e na inteligência
nós somos!

Nós somos
Mussunda amigo
Nós somos

Inseparáveis
e caminhando ainda para o nosso sonho

No meu caminho
e no teu caminho
os corações batem ritmos
de noites fogueirentas
os pés dançam sobre palcos
de místicas tropicais
Os sons não se apagam dos ouvidos

O ió kalunga ua mu bangele...

Nós somos!



Agostinho Neto
In “Sagrada esperança”

O Acaso da Vida


















Quem sou?... onde estou?...
Não serei, por acaso, mais um dos acidentes
da vida que por desatenção às
coisas lhe foi retirada a alma?
Ou não serei aquela tocha que por falta
de combustível apagou-se?
Não serei ainda, uma lágrima caída
do rosto de alguém que procura
recanto em braços de outrem?
Não serei... não serei, aquela
a quem, teu coração procura,
a quem tua alma almeja,
teus braços desejam e
cujo nome tua boca pronuncia?

Então quem sou...?
Se na calada da noite meu grito não ouço,
Na penumbra minha sombra não vejo
Nem na clareza do dia meu corpo não sinto.

Procuro, procuro, não ouço nem o bater
Do meu coração. Meu Deus...!
Que faço eu aqui, onde nada faz sentido?




Leila dos Anjos

Aforismo





















Havia uma formiga
compartilhando comigo o isolamento
e comendo juntos.
Estávamos iguais
com duas diferenças:
Não era interrogada
e por descuido podiam pisa-la.
Mas aos dois intencionalmente
podiam pôr-nos de rastos
mas não podiam
ajoelhar-nos.



José Craveirinha

Paisagem do nordeste


















rio estátua
braço sem carne

chuva no mar
em terra seca

sol na paisagem
terra em desgraça

fome nos lábios
fome nos olhos

ossadas brancas
urubus em volta

terra em brasa
ar calcinado

plantas com fome
homens com fome

fome nos olhos
no ar morte




Jofre Rocha

Sonho, de amor























Foto de Dominique Lefort




O meu sonho
e uma madeixa dos teus cabelos
sufocada ao luar de uma noite
cansada de amor

O meu sonho
somos nós, tu e eu
no corcel da vida
à procura do sol

Falo do sonho, amor
do nosso sonho
em que brincamos com crianças não paridas
com esperanças sangrando desesperanças

O meu sonho
és tu, Minda-a-Mulata
sonhando com a vida e morrendo
em tempo de fome farta
e a guerra a acabar
(ou a reatar?)

O meu sonho
é sonho de mar
as ondas indo e vindo
do fim do Mundo
as aves a voar



Domingos Florentino

Apelo de Mbanza Congo

Vamos todos ajudar!

Grande trabalho fizeram e fazem os padres capuchinhos em Mbanza Congo!
Para continuarem a fazer necessitam ajuda.

Vamos a isto!

Grandes professores e grandes homens ali estiveram e ali formaram.
Foram meus professores os Padres Fabiano e Fabio.
Não os esqueci.

A minha velha cortina




















Na janela do meu quarto
desbotada pende a velha cortina.

No seu humor a cortina
exibe-me os fulgores da sua ironia.

A quem olha de fora
a minha velha cortina
ilude.




José Craveirinha
In “Maria”

Ali Farka Touré

Pas de deux

























Fecho a porta e as janelas,
a casa se foi.
eu vou,
leve como quem já conhece o amor,
Nenhum pássaro sabe como é voar com os pés no chão,
eu sei.




Gabriela Marcondes

Después, casi al despertar



















Foto de Rui Romão



Para José Watanabe



La muerte es muerte,
y lo sabe el que oficia la misa,
y el niño agnóstico,
y el profesor en el rincón del aula;
y lo saben las madres que vende olores en el mercado,
y los gallinazos con sus picos manchados.

El patrón se escapó de casa, una mañana,
enamorado tras su sombra;
orillando a sus criados
a artísticas labores celestes.
Y, jamás sabrá la nube lo hermosa que es
cuando se deforma.
Y, si ponen algo de sudor sobre una piedra caliente,
ésta olvidará de inmediato su sacrificio.

El número tres es el tres,
y un ave suele ser un ave,
y la muerte es la muerte,
y la inmensidad es muerte,
y el grito es muerte,
y el llanto es muerte,
y el fruto en la lluvia es muerte,
y la vida bajo de un plástico es muerte,
y la soledad en el anuncio es muerte,
y el equilibrio en un fósforo es muerte,
y la rabia es muerte,
y la ternura sobre un vidrio es muerte,
y la felicidad en un segundo es muerte,
y la indignación en un músculo es muerte,
y la palabra en los ojos es muerte,
y el tocadiscos es muerte,
y la comadrona en su ley es muerte,
y la mirada de una canción es muerte,
y el verano es muerte,
y el ladrido de los perros es muerte,
y la hoja en el cemento es muerte,
y el gusano en el avión es muerte,
y la muerte es cambio,
y el cambio es vida.
Y la vida es vida al cuadrado.




Alan Ybrahim Luna Rodríguez
























A morte da música pode ser lisa entre o início de um verão
e a direção que faz o silêncio. A surdez levanta a imagem
que a sombra distraidamente enterrara a cinco
palmos do chão. Para o coração se salvam as gaivotas
que levaram os mares para bem perto do sol que se despe
com o jeito das mulheres. A cicatriz é delicada
como se tivéssemos que olhar para a memória
com uma outra escolha astúcia. Hesita-se mas sabemos
que no ombro se fazem as glórias muito breves
e à deriva do coração. Cada erro persegue o espírito
que faz o teatro dourar mais que uma lágrima, um longo
cenário acaba por disfarçar-nos perante
o que nunca fomos. Faz-se um corte no dedo indicador
quando se perde a aurora para que a terra
fique mais perto da insónia. Vemos o abandono da juventude
vindo agora de nós uma interpretação
sem chamas. Por isso as palavras vão compondo
numa só estrofe o que a vida mesmo atenta não pode
consagrar.



Adriano Botelho de Vasconcellos

Solidão
























Minhas mãos rugosas
Dormindo as insónias
Da tua ausência
Descrevem o Inverno
Catalisando o tempo
Na esperança do teu regresso

Este dia
Será mais um
E amanhã o outro

Todos são dias de solidão



Cecília Ndanhakukua

Poema setenta e seis






















Hoje
acordado,
às tantas da madrugada
vi-te chegar.
Eram lentos teus passos
mas segredavas-me como sempre
tua calma
teu sorriso bonito
teu olhar sereno
(às vezes de um brilho triste).

Pouco depois
contornada a estante
explicavas-me então
toda a imensa verdade da doçura
perdida
esquecida
esganada
no justo momento do adeus.

Tenho comigo
a lupa
a fotografia em versalhes
os livros do carlos de oliveira
os discos proibidos
(mandados pelo eniuka de paris)
as cartas do joão purgante
o busto de tolstói
a prova quádrupla do rotary.

Mas não tenho mais
o teu rosto tranquilo
a infinita compreensão do mundo
os passeios à ilha
(com a mãe mais a manuela)
as histórias do socorro vermelho
as cartas da maria lamas
a canção do roberto
só eu mais a solidão.

Tu em mim
eu sem ti
só eu mais a solidão.



Carlos Ferreira

Fim de semana de esperança... ou talvez não










Não seja esquecida a fome em África.
Não se vire as costas ao atropelo dos direitos humanos.
Não se ignore o flagelo da SIDA e da malária.
Não se hesite na ajuda á educação e alfabetização.

Que seja aberta uma janela de esperança que evite que outras crianças vejam o seu quotidiano da mesma forma que as do Darfur.

















Desenho de criança do Darfur. Veja outros aqui.

...silêncio...


















Desliguem o mundo por momentos, tirem os carros das ruas.
Apaguem a Lua e as estrelas e façam todas as pessoas dormir.
Estagnem as ondas do mar e o vento não soprará jamais.
Façam a terra parar e os barcos ficarem no cais.
E não haverá chuva pois as nuvens não irão aparecer.
E não existirão pesadelos pois não há nada a temer.
Desliguem toda a loucura neste universo meu
para que possa acreditar que a escuridão venceu
e deixem-me dormir sossegada nas doces mãos que o silêncio tem
até encontrar a paz que procuro, no coração de outro alguém.


Ivone Neves de Almeida
In "Imaginatorium"

A terra que te ofereço




















1
Quando,
ansiosa,
pela primeira vez
pisares
a terra que te ofereço,
estarei presente
para auscultar,
no ar,
a viração suave do encontro
da lua que transportas
com a sólida
a materna nudez do horizonte.

Quando,
ansioso,
te vir a caminhar
no chão de minha oferta,
coloco,
brandamente,
em tuas mãos,
uma quinda de mel
colhido em tardes quentes
de irreversível
votação ao Sul.


2
Trago
para ti
em cada mão
aberta,
os frutos mais recentes
desse Outono
que te ofereço verde:
o mês mais farto de óleos
e ternura avulsa.
E dou-te a mão
para que possas
ver,
mais confiante,
a vastidão
sonora
de uma aurora
elaborada em espera
e reflectida
na rápida torrente
que se mede em cor.


3
Num mapa
desdobrado para ti,
eu marcarei
as rotas
que sei já
e quero dar-te:
o deslizar de um gesto,
a esteira fumegante
de um archote
aceso,
um tracejar
vermelho
de pés nus,
um corredor aberto
na savana,
um navegável
mar de plasma
quente.



Ruy Duarte de Carvalho
In “A decisão da idade”

Canto do nosso amor sem fronteira

















Estamos juntos.
E moçambicanas mãos nossas
dão-se
e olhamos a paisagem e sorrimos.

Não sabemos de áreas de esterlino
de câmbios
vistos de fronteira
zonas de marco e dólar
portagem do Limpopo
canais de Suez e do Panamá.

Amamo-nos hoje numa praia das Honduras
estamos amanhã sob o céu azul da Birmânia
e na madrugada do dia dos teus anos
despertamos nos braços um do outro
baloiçando na rede da nossa casa na Nicarágua.

Ou
com os olhos incendiados
nos poentes do Mediterrâneo
recordamos as noites mornas da praia da Polana
e a beijos sorvo a tua boca no Senegal
e depois tingimos mutuamente
os lábios com as negras amoras de Jerusalém
ambos entristecidos ao galope dos pés humanos
sem ferraduras mas puxando riquexós.



José Craveirinha
in “Karingana ua Karingana”