Amar-te no mar






















sou coral, calor

apareço nos mares em avermelhado e luz
e tua aura, em verde e azul,
turquesa

cor de pedra sagrada,
és a água limpa e calma onde me banho,
coral, gata,

que quer tua luz serena
para ser sorte e pedra d’água

em espontânea coragem e comunicação etérea
de palavras, sons, imagens,

respirar-te



Cristiane Grando

Casulo





















Viver em silêncio. Doce silêncio.
Ruído nenhum. Nem luz, nem sombra.
Só a brisa do tempo.
Olhos fechados, assim como o corpo.
Silêncio sem movimento.
Sem fome, sem sede. Sem ninguém que abale meu terno silêncio.
Doce silêncio, doce sono, só sonhos...
Sonhos de um sono só.
Sozinha em minha cama, eu: pós lagarta, pré borboleta



Pam Orbacam

Quando eu não te tinha

























Quando eu não te tinha
Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo.
Agora amo a Natureza
Como um monge calmo à Virgem Maria,
Religiosamente, a meu modo, como dantes,
Mas de outra maneira mais comovida e próxima ...
Vejo melhor os rios quando vou contigo
Pelos campos até à beira dos rios;
Sentado a teu lado reparando nas nuvens
Reparo nelas melhor —
Tu não me tiraste a Natureza ...
Tu mudaste a Natureza ...
Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim,
Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma,
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,
Por tu me escolheres para te ter e te amar,
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente
Sobre todas as cousas.
Não me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou.



Alberto Caeiro
Escrito em 6-7-1914

Canção do exílio

























Se eu tenho de morrer na flor dos anos,
Meu Deus! não seja já;
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
Cantar o sabiá!

Meu Deus, eu sinto e tu bem vês que eu morro
Respirando este ar;
Faz que eu viva, Senhor! dá-me de novo
Os gozos do meu lar!

O país estrangeiro mais belezas
Do que a pátria, não tem;
E este mundo não vale um só dos beijos
Tão doces duma mãe!

Dá-me os sítios gentis onde eu brincava
Lá na quadra infantil;
Dá que eu veja uma vez o céu da pátria,
O céu do meu Brasil!

Se eu tenho de morrer na flor dos anos,
Meu Deus! não seja já!
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
Cantar o sabiá!

Quero ver esse céu da minha terra
Tão lindo e tão azul!
E a nuvem cor de rosa que passava
Correndo lá do sul!

Quero dormir à sombra dos coqueiros,
As folhas por dossel;
E ver se apanho a borboleta branca,
Que voa no vergel!

Quero sentar-me à beira do riacho
Das tardes ao cair,
E sozinho cismando no crepúsculo
Os sonhos do porvir!

Se eu tenho de morrer na flor dos anos,
Meu Deus! não seja já;
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
A voz do sabiá!

Quero morrer cercado dos perfumes
Dum clima tropical,
E sentir, expirando, as harmonias
Do meu berço natal!

Minha campa será entre as mangueiras
Banhada do luar,
E eu contente dormirei tranqüilo
À sombra do meu lar!

As cachoeiras chorarão sentidas
Porque cedo morri,
E eu sonho no sepulcro os meus amores
Na terra onde nasci!

Se eu tenho de morrer na flor dos anos,
Meu Deus! não seja já
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
Cantar o sabiá!



Casimiro de Abreu
Lisboa — 1857

Aceita o universo

























Aceita o universo
Como to deram os deuses.
Se os deuses te quisessem dar outro
Ter-to-iam dado.

Se há outras matérias e outros mundos
Haja.



Alberto Caeiro

O génio de... Salvador Dali


São Tomé


























"Juste quelques photos de Sao Tome, petite ile indépendante africaine au large du Gabon sur l'équateur.
Très peu de visiteurs, de paysages luxuriant et une population très accueillante qui ne demande qu'à faire découvrir ces iles..."

Fotos e texto daqui, a merecer uma visita.

Dia Internacional da Mulher























Elas brigam por aquilo em que acreditam
Elas levantam-se para a injustiça
Elas não levam não como resposta
Quando acreditam que existe melhor solução


Pablo Neruda

Para uma jovem negra de calcanhar róseo


























No céu primitivo erguem-se imaculados os cantos dos pássaros
e o fresco cheiro da erva ágil com eles se ergue, Abril.
Ouço o respirar profundo da madrugada movendo as nuvens
brancas dos cortinados
e escuto a canção do sol nos taipais das janelas
melodiosas.
Sinto como que um hálito ou uma recordação de Naett
na minha nuca apaixonada e nua
E o meu sangue cúmplice, a despeito de mim, chocalha-me
nas veias.
És tu, minha amiga – ô! Escuta os suspiros escuta
os quentes suspiros neste Abril dum continente novo
Oh escuta, enquanto deslizam, no gelado azul, as asas
das andorinhas migratória
se não te esqueça ouvir o murmúrio negro e branco das aves
de arribação
horizontais no extremo das suas velas desdobradas.

Escuta a mensagem da Primavera duma outra idade, dum outro
mundo
Escuta a mensagem da África longínqua e velha e a canção do
teu sangue
Pois eu estou ouvindo a seiva de Abril que nas tuas veias

cantando me desafia.



Leopold Sédar Senghor

Conheci-te


























Conheci-te
Longe de Moji
Porque te espero
não me separo de Moji
nem pelo mar
não deixarei Moji
nem pelo sono
não esquecerei Moji
nem pelo tempo
sem ter estado em Moji
em tempo algum
Encontro Moji
em cada espuma
vejo Moji
em cada grão de areia
porque te vejo Moji
o tempo todo

Se o tempo o sonho o mar
te confundem com Moji
como pode o coração
a distância e a saudade
deixar de ver Moji
na tua ausência?

Se te recordo nome de Moji
Moji de pele veludo
Moji boca de luar
Moji do breve encontro
Moji tão distante de Moji?

Não. Não quero mais
já não preciso
viajar até Moji
conhecer Moji!

Moji és tu e o teu beijo.



Costa Andrade

Clandestino



30 de Febrero

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Foto de Jorge Casais



Mañana será 30 de Febrero
y tú vendrás a hacerme compañía
y ya te quedarás aquí conmigo
mi querido amigo arsénico.

Después de un corto viaje por la noche
descansaremos junto al abrigo
del sitio donde nace verde el trigo
mi querido amigo arsénico.

Corre, corre por favor
o no tendré valor
para morir amándola
voy al este del Edén
amigio mio ven, para esperarla allí,
mañana será 30 de Febrero
para mi.

Por una simple flor de invernadero
que no quiere creer lo que le digo
mi querido amigo arsénico,
y solo te diré que aún la quiero
que siempre estará aqui conmigo
y tú serás único testigo
mi querido amigo arsénico.

Corre, corre por favor
o no tendré valor
para morir amándola
voy al este del Edén
amigio mio ven, para esperarla allí,
mañana será 30 de Febrero
para mi.


Pablo Abraira

Canto do nosso amor





















Estamos juntos.
E moçambicanas mãos nossas
dão-se
e olhamos a paisagem e sorrimos.

Não sabemos de áreas de esterlino
de câmbios
vistos de fronteira
zonas de marco e dólar
portagem do Limpopo
canais de Suez e do Panamá.

Amamo-nos hoje numa praia das Honduras
estamos amanhã sob o céu azul da Birmânia
e na madrugada do dia dos teus anos
despertamos nos braços um do outro
baloiçando na rede da nossa casa na Nicarágua.

Ou
com os olhos incendiados
nos poentes do Mediterrâneo
recordamos as noites mornas da praia da Polana
e a beijos sorvo a tua boca no Senegal
e depois tingimos mutuamente
os lábios com as negras amoras de Jerusalém
ambos entristecidos ao galope dos pés humanos
sem ferraduras mas puxando riquexós.



José Craveirinha
in “Karingana ua Karingana"

Me Llaman Calle


























me llaman calle, pisando baldosa
la revoltosa y tan perdida
me llaman calle, calle de noche, calle de día
me llaman calle, hoy tan cansada, hoy tan vacía
como maquinita por la gran ciudad

me llaman calle, me subo a tu coche
me llaman calle de malegría, calle dolida
calle cansada de tanto amar

voy calle abajo, voy calle arriba
no me rebajo ni por la vida
me llaman calle y ése es mi orgullo
yo sé que un día llegará, yo sé que un día vendrá mi
suerte
un día me vendrá a buscar, a la salida un hombre bueno
pa toa la vida y sin pagar, mi corazón no es de
alquilar

me llaman calle, me llaman calle
calle sufrida, calle tristeza de tanto amar

me llaman calle, calle más calle

me llaman calle, siempre atrevida

me llaman calle, de esquina a esquina
me llaman calle bala perdida, así me disparó la vida
me llaman calle del desengaño, calle fracaso, calle
perdida
me llaman calle la sin futuro
me llaman calle la sin salida

me llaman calle, calle más calle
la de mujeres de la vida
suben pa bajo, bajan para arriba
como maquinita por la gran ciudad

me llaman calle, me llaman calle
calle sufrida, calle tristeza de tanto amar
me llaman calle, calle más calle

me llaman siempre, y a cualquier hora
me llaman guapa siempre a deshora

me llaman puta, también princesa
me llaman calle, es mi nobleza
me llaman calle, calle sufrida, calle perdida de tanto
amar

me llaman calle, me llaman calle
calle sufrida, calle tristeza de tanto amar

a la puri, a la carmen, carolina, bibiana, nereida,
magda, marga,
heidi, marcela, jenny, tatiana, rudy, mónica, maría,
maría

me llaman calle, me llaman calle
calle sufrida, calle tristeza de tanto amar
me llaman calle, me llaman calle
calle sufrida, calle tristeza de tanto amar
me llaman calle, me llaman calle
calle sufrida, calle tristeza de tanto amar
me llaman calle, me llaman calle
calle sufrida, calle tristeza de tanto amar



Manu Chao


Amizade


















Todo sentimento
Precisa de um passado pra existir
a amizade não
Ela cria como por encanto
Um passado que nos cerca
Ela nos dá a consciência
De havermos vivido anos a fios
Com alguém que a pouco era quase um estranho
Ela supre a falta de lembrança
Como espécie de mágica
Tenha uma boa noite ....



Luiza Castelo

Canção do crepúsculo




















morrem
na paleta do sol no ocaso
os derradeiros tons
ao raiar da aurora
floresce a luta
e o amor renasce



Jofre Rocha

Mãos



















Mãos desenham raízes dos cânticos da terra
Geram vida na identidade da flor entre o espírito da letra
Engendram salmos na inserção da cruz às preces das dores
Mãos são séculos de páginas aos joelhos de Fátima
São lágrimas ao altar do desespero


Amélia Dalomba

Serenata




















Caem à noite pedras
sobre o templo
do silêncio
de espaço
um ruído de automóvel
um toque de sinos de uma igreja
monotonia diurna que não quebra
a queda das pedras
no silêncio

De dia o templo é
noite
e à noite há o silêncio
o esgaravatar de uma gaivota em fogo
o estalar de folhas novas
numa árvore
sabendo a vício este cigarro
de cheira a seiva dos pinheiros

E as pedras caem
como chuva ou neve
todas as noites que noites
já são poucas

E a seiva pedra sobre o templo
e a gaivota
o vício
a folha
quebrando este silêncio

Onde as guitarras?
Os quissanges acontecem longe



Manuel Rui
In “No reino de Caliban II
- antologia panorâmica de poesia africana
de expressão portuguesa

Albano Neves e Sousa

Fabuloso



Esta é a Cidade





















Esta é a cidade. Quem caminha
sorvendo seus odores coloridos?

Caleidóscopicos sons
inebriam os músculos
como doces agulhas

Quem sente o calor do chão
luz de vidro e água
intensa e rumorosa como
um afago?

As crianças percorrema cidade

atrás do tiroteiro
como aves barulhentas. A rota
desta guerra
elas sempre a conheceram

Há uma farra em cada esquina
onde tambores renovados
fazem explodir toda alegria antiga

A liberdade é uma visível linha
de fogo nos olhos dos homens




João Melo

Os Mandamentos Cherokee...




















Treat The Earth And All That Dwells thereon With Respect

Remain Close To The Great Spirit

Show Great Respect For all Beings

Work Together For The Benefit Of All Mankind

Do What You Know Is Right

Look After The Well-being Of Mind And Body

Dedicate A Share Of Your Efforts To The Greater Good

Be Truthful And Honest At All Times

Take Full Responsibility For Your Actions

I Ask




















I lay down my knife
beside your gun,
And ask . . .
Is it good, that we not fight?


I give you my blanket,
In return for your coat
And ask . . .
Is it good, that we exchange?


I give you my land
In return for your progress
And ask . . .
Is it good, that we advance?


I share with you my beliefs,
In return for your beliefs,
And ask . . .
Why . . .
Is it good that we lose our identity?




Pam Taylor
Cherokee

O ritmo do tantã


















Foto de Namibiano Ferreira, aqui




O ritmo do tantã não o tenho no sangue
nem na pele
nem na pele
tenho o ritmo do tantã no coração
no coração
no coração
o ritmo do tantã não tenho no sangue
nem na pele
nem na pele
tenho o ritmo do tantã sobretudo
mais no que pensa
mais no que pensa
Penso África, sinto África, digo África
Odeio em África
Amo em África
Estou em África
Eu também sou África
tenho o ritmo do tantã sobretudo
no que pensa
no que pensa
penso África, sinto África, digo África
E emudeço
dentro de ti, para ti África
dentro de ti, para ti África
Á fri ca
xxxxxxÁ fri ca
xxxxxxxxxxxxÁ fri ca




António Jacinto

Cultura africana



De apresentação enviada pelo amigo Aires Bustorff

Mussunda amigo





















Para aqui estou eu
Mussunda amigo
Para aqui estou eu

Contigo
Com a firme vitória da tua alegria
e da tua consciência

O ió kalunga ua mu bangele!
O ió kalunga ua mu bangele-lé-leleé...

Lembras-te?

Da tristeza daqueles tempos
em que íamos
comprar mangas
e lastimar o destino
das mulheres da Funda
dos nossos cantos de lamento
dos nossos desesperos
e das nuvens dos nossos olhos
Lembras-te?

Para aqui estou eu
Mussunda amigo

A vida a ti a devo
à mesma dedicação ao mesmo amor
com que me salvaste do abraço
da jibóia

à tua força
que transforma os destinos dos homens

A ti Mussunda amigo
a ti devo a vida

E escrevo versos que não entendes
compreendes a minha angústia?

Para aqui estou eu
Mussunda amigo
escrevendo versos que tu não entendes

Não era isto
o que nós queríamos, bem sei

Mas no espírito e na inteligência
nós somos!

Nós somos
Mussunda amigo
Nós somos

Inseparáveis
e caminhando ainda para o nosso sonho

No meu caminho
e no teu caminho
os corações batem ritmos
de noites fogueirentas
os pés dançam sobre palcos
de místicas tropicais
Os sons não se apagam dos ouvidos

O ió kalunga ua mu bangele...

Nós somos!



Agostinho Neto
In “Sagrada esperança”

O Acaso da Vida


















Quem sou?... onde estou?...
Não serei, por acaso, mais um dos acidentes
da vida que por desatenção às
coisas lhe foi retirada a alma?
Ou não serei aquela tocha que por falta
de combustível apagou-se?
Não serei ainda, uma lágrima caída
do rosto de alguém que procura
recanto em braços de outrem?
Não serei... não serei, aquela
a quem, teu coração procura,
a quem tua alma almeja,
teus braços desejam e
cujo nome tua boca pronuncia?

Então quem sou...?
Se na calada da noite meu grito não ouço,
Na penumbra minha sombra não vejo
Nem na clareza do dia meu corpo não sinto.

Procuro, procuro, não ouço nem o bater
Do meu coração. Meu Deus...!
Que faço eu aqui, onde nada faz sentido?




Leila dos Anjos

Aforismo





















Havia uma formiga
compartilhando comigo o isolamento
e comendo juntos.
Estávamos iguais
com duas diferenças:
Não era interrogada
e por descuido podiam pisa-la.
Mas aos dois intencionalmente
podiam pôr-nos de rastos
mas não podiam
ajoelhar-nos.



José Craveirinha

Paisagem do nordeste


















rio estátua
braço sem carne

chuva no mar
em terra seca

sol na paisagem
terra em desgraça

fome nos lábios
fome nos olhos

ossadas brancas
urubus em volta

terra em brasa
ar calcinado

plantas com fome
homens com fome

fome nos olhos
no ar morte




Jofre Rocha

Sonho, de amor























Foto de Dominique Lefort




O meu sonho
e uma madeixa dos teus cabelos
sufocada ao luar de uma noite
cansada de amor

O meu sonho
somos nós, tu e eu
no corcel da vida
à procura do sol

Falo do sonho, amor
do nosso sonho
em que brincamos com crianças não paridas
com esperanças sangrando desesperanças

O meu sonho
és tu, Minda-a-Mulata
sonhando com a vida e morrendo
em tempo de fome farta
e a guerra a acabar
(ou a reatar?)

O meu sonho
é sonho de mar
as ondas indo e vindo
do fim do Mundo
as aves a voar



Domingos Florentino