A minha casa
















A minha casa
...É fácil de localizar
É fácil de encontrar,
Basta ires sempre em frente
Para além da linha do horizonte
É fácil concerteza

Primeiro encontras lixo
Lixo e pessoas em convivência
E em harmonia,
Lixo na parte de baixo
E na parte de cima
Lixo e pessoas em convivência íntima

Mais adiante
E com o mau cheiro crescente
Encontras uma lagoa
E nela, crianças a banharem
Crianças a brincarem
Na maior, numa boa

Mais a frente
Entras em becos estreitos
Becos pequenos e apertaditos
É fácil, é só teres isto em mente
Becos e suas enxurradas
Becos e suas águas estagnadas

Sempre em frente
Para além da linha do horizonte
Lá onde a água corrente
Lá onde a água potável
Passa muito distante
E da cor do invisível!

Sempre em frente
Para além da linha do horizonte
Lá onde a luz eléctrica
Connosco brinca
Qual nuvem passageira
Que ora vai, ora vem zombateira!

Sempre em frente
Para além da linha do horizonte
Cheiro de kaporroto no ar
Cheiro de kimbombo a vibrar
Nossas bebidas do dia-a-dia
Nossas bebidas nossa companhia

E no quintal da minha casa
Há jovens a falar alto bêbedos
Jovens cansados, frustrados e arrebentados
São os meus kambas
Kambas das bebedeiras e das malambas
É fácil de localizar concerteza,

Sempre em frente
Para além da linha do horizonte!



Décio Bettencourt Mateus
in "A Fúria do Mar"

Pensamento do dia
















Foto daqui


"Algumas coisas morrem com a luz. Se você puxar para fora da terra as raízes de uma árvore, elas morrerão. Elas necessitam da escuridão, elas vivem na escuridão, na escuridão está a vida delas. Assim como as raízes, o sofrimento também vive na escuridão. Exponha os seus sofrimentos e você descobrirá, eles morreram. Se você continuar escondendo-os dentro de si, eles irão permanecer seus companheiros constantes por muitas vidas. A infelicidade tem que ser expressada."





Osho

Lisboa perto e longe














Foto (espectacular) de Agostinho Dias



Lisboa chora dentro de Lisboa
Lisboa tem palácios sentinelas.
E fecham-se janelas quando voa
nas praças de Lisboa - branca e rota
a blusa de seu povo - essa gaivota.

Lisboa tem casernas catedrais
museus cadeias donos muito velhos
palavras de joelhos tribunais.
Parada sobre o cais olhando as águas
Lisboa é triste assim cheia de mágoas.

Lisboa tem o sol crucificado
nas armas que em Lisboa estão voltadas
contra as mãos desarmadas - povo armado
de vento revoltado violas astros
- meu povo que ninguém verá de rastos.

Lisboa tem o Tejo tem veleiros
e dentro das prisões tem velas rios
dentro das mãos navios prisioneiros
ai olhos marinheiros - mar aberto
- com Lisboa tão longe em Lisboa tão perto.

Lisba é uma palavra dolorosa
Lisboa são seis letras proibidas
seis gaivotas feridas rosa a rosa
Lisboa a desditosa desfolhada
palavra por palavra espada a espada.

Lisboa tem um cravo em cada mão
tem camisas que abril desabotoa
mas em maio Lisboa é uma canção
onde há versos que são cravos vermelhos
Lisboa que ninguem verá de joelhos.

Lisboa a desditosa a violada
a exilada dentro de Lisboa.
E há um braço que voa há uma espada.
E há uma madrugada azul e triste
Lisboa que não morre e que resiste.



Manuel Alegre

saudades de um ex-amor















construo sólidos castelos d’areia
que se destroem
no contacto
com a ímpia suavidade da onda.

… aspiração frustrada.

amor na concha de vento
no êxtase poético
na ondulante curva
da nossa união. na areia.

… amor na interrogação da onda.

minha lágrima:
néctar salgado
pérola de esperança
no mar adocicado.

… para quando o reencontro?



Conceição Cristóvão

Há Momentos



















Há momentos na vida de um Homem
Em que sabe que acordou diferente
E que já não é o mesmo para ele,
Mesmo que o seja para toda a gente...

Há momentos na vida de um Homem
Onde só pode entrar uma Mulher
Aquela que lhe trouxer
A flor do sexo
Desenhada a vermelho no ventre
E nada lhe perguntar...

Há momentos na vida de um Homem
Onde só pode entrar uma mulher
Aquela que lhe trouxer,
Num abraço total,
A ilusão da vida inteira...
E, depois, partir
Com a esperança de vida que ele semeou...

Há momentos na vida de um Homem
Onde só pode entrar uma Mulher
Para todo o Mundo se resumir
À flor vermelha
Como um bocado de sol
Que desponta numa telha!


António Cardoso

Medo e cruz



















De medo e diabo trazes o corpo envenenado enquanto a
mente balbucia incoerências
Por trás do véu de instintos espicaças a carne
O desejo sob uma resma de salmos
Em nome de que virtude contra quem levantarás a cruz
Um púlpito
A carne
Uma cruz
Ao mistério da criação a humanidade


Amélia Dalomba

Oh, mamy blue





Início dos anos 70.
Todos os dias António Sala colocava esta música no ar.
Cerca das 07:30.
Não saía de casa, nos Olivais, a pé, para percorrer o caminho até á Afonso Domingues sem a ouvir.

Imaginem aqueles dias de Janeiro, solarengos e extremamente frios...
Capa com os livros, como hoje se não usa, debaixo do braço... e o trautear da música.

Talvez venha desta música e deste tempo o gosto por músicas que "enchem o peito", que puxam pelo lado positivo, que empolgam.

Oh, mamy blue!

Hoje recordo-a e tento ganhar novo alento para enfrentar duríssimas batalhas que se perfilaram há muitos, muitos anos no horizonte.

Tal como São Jorge, também hei-de vencer o dragão.
Não precisarei da sua lança, apenas da sua inteligência, da sua coragem e da sua perseverança... e de um "hino" como... Mamy blue

Meu amor da Rua Onze





Tantas juras nos trocamos,
Tantas promessas fizemos,
Tantos beijos roubamos,
Tantos abraços nos demos.

Meu amor da Rua Onze,
Meu amor da Rua Onze,
Já não quero
Mais mentir.

Meu amor da Rua Onze,
Meu amor da Rua Onze,
Já não quero
Mais fingir.

Era tão grande e tão belo
Nosso romance de amor
Que ainda sinto o calor
Das juras que nos trocamos.

Era tão bela, tão doce
Nossa maneira de amar
Que ainda pairam no ar
As promessas que fizemos.

Nossa maneira de amar
era tão doida, tão louca
Qu'inda me queimam a boca
Os beijos que nos roubamos.

Tanta loucura e doidice
Tinha o nosso amor desfeito
Que ainda sinto no peito
Os abraços que nos demos.

E agora
Tudo acabou.
Terminou
Nosso romance.

Quando te vejo passar
Com o teu andar
Senhoril,
Sinto nascer

E crescer
Uma saudade infinita
Do teu corpo gentil
De escultura
Cor de bronze,
Meu amor da Rua Onze.


Aires de Almeida Santos

Parabéns, Madiba!




















"Ninguém nasce a odiar outra pessoa pela cor da sua pele, pela sua origem, ou ainda pela sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar"


Nelson Mandela

Fool's overture







(Churchill's famous speech)
We shall go on till the end, we shall fight on the seas and oceans.
We shall defend our island, whatever the cost may be.
We shall **never** surrender

History recalls, how great the fall can be
While everybody's sleeping
The boat's put out to sea
Born on the wings of time
It seems the answers were so easy to find

Too late the prophets cry
The island's sinking, let's take to the sky
Called the man a fool
Stripped him off his pride
Everyone was laughing
Up untill the day he died

Ooh though the wound went deep
Still he's calling us out of our sleep
My friends, we're not alone
He waits in silence to lead us all home

So you tell me that you find it hard to grow
Well I know, I know, I know
And you tell me that you've many seeds to sow
Well I know, I know, I know

(distant choir sings 'Jerusalem' almost inaudibly)
And was the Holy Lamb of God
on England's pleasant pastures seen?
And did the Countenance Divine,
Shine forth upon our clouded hills?

Dreamer

Can you hear what I'm saying
Can you see the parts that I'm playing:
Holy Man, Rocker Man, Come on Queenie,
Joker Man, Spider Man, Blue Eyed Meanie
So you found your solution
What would be your last contribution?
Live it up and rip it up and why so lazy?
Give it out and dish it out and let's go crazy, yeah



Supertramp

Eu sei que eu vou te amar





Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida eu vou te amar
A cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente
Eu sei que eu vou te amar

E cada verso meu será pra te dizer
Que eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida

Eu sei que vou chorar
A cada ausência sua eu vou chorar
Mas cada volta sua há de apagar
O que essa ausência sua me causou

Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver
A espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida


Vinicius de Moraes

Marginal do teu corpo (a confissão do outro)



















Foto de Alecu Grigore, via "O Jumento"


No teu corpo adormeço
Horas longas permaneço
No asfalto da noite…
Revejo cenas do dia


Repasso actos alheios
Extasiado!
Vejo-te…virgem… Beijo-te nua
Serena só para mim!

Viro-me todo… Abro tudo…
Cuidados me cercam
Tuas curvas lânguidas… imagino:
– invejo o prazer alheio:
– deixo fluir as mágoas
Beijam-me águas luandinas
Na curva da madrugada…

Sinto a maresia
A farfalhar-me o ouvido
Solto-me…Venho-me…
Esqueço-me de tudo!
Tudo esqueço
Até minha condição precária!



Isabel Ferreira

Luanda















a lua anda
conforme a música


a noite fecha
meus olhos
mas é você
quem dorme e dança


nua anda
na distância
pelo deserto sereno


eu penso numa boca
que ainda não me beija
a fotografia - a mesma -
revela o sonho
de um sorriso bom.



Felipe Rey
In "Subversos"

Sinfonia














A melodia crepitante das palmeiras
lambidas pelo furor duma queimada

Cor
estertor
angústia

E a música dos homens
lambidos pelo fogo das batalhas inglórias

Sorrisos
dor
angústia

E a luta gloriosa do povo

A música
que a minha alma sente



Agostinho Neto

Doçura



















Quando a fitei extasiado,
Suas mãos pálidas, mimosas,
Escolhiam frutas bem cheirosas
Num recanto calmo do mercado.

E por mero acaso, (eu sei!,
Senhora minha desconhecida,
Ai! só por mero acaso...)
Vossos olhos belos,
Plácidos e meigos,
Negros, fulgurantes,
Sobre mim poisaram,
– P’ra logo se afastarem
Indiferentes, distantes...

Ao compor na rede
A gostosa fruta,
Um pouco vos baixastes
E o decote largo
Do vestido azul
Afastou-se lento
Como onda branda
De cansado mar...


Maurício Gomes

Teus olhos de dendém















Imagem de "Angola Minha Terra"





Para a M. J.


Naquela noite eu disse
lá em casa
que ia prò cinema.

Cruzei a Baixa toda
entrei numa boate
– a mais fina de Luanda –
e fui dançar com ela
apaixonadamente.

Ela era uma pequena
de Malange.

Tinha nos olhos
brilhantes como incêndios ao luar
o claro escuro
dos bagos
de um cacho de dendém.

Naquela noite
dançámos loucamente
apaixonadamente.

Tinha a pele clara
como qualquer daquelas
mulheres que eu conheci
nas longas noites invernais
da Europa.

Mas o olhar
ai
o olhar
trazia o sofrimento
das noites Africanas.

Nunca mais pude esquecer
aquela rapariga branca
de Malange
que tinha os olhos lindos
como as cores
dos bagos
de um cacho de dendém.

Nunca mais
ai, nunca mais
dancei assim
e nunca mais a vi
dançar assim
tão loucamente
alucinadamente
a rapariguinha branca de Malange
que tinha o corpo esguio
o ritmo no bailar
esse ritmo de uma qualquer mulata
das minhas longas noites Africanas.

Nunca mais dancei assim
tão desvairadamente
apaixonadamente
os lábios num murmúrio
a boca num perjúrio
seus seios no meu peito
amachucadamente
aqueles cabelos negros
roçando a minha face
os cílios desse olhar
com gotas de luar
que tinha as ambições
o claro escuro
dos bagos
de um cacho de dendém.

Nunca mais
ai, nunca mais
dancei assim
tão loucamente
apaixonadamente...



Ernesto Lara Filho

Condenado por recolher notícias da net e ter um livro



















André Zeferino Puati, natural de Cabinda/Angola, activista de Direitos Humanos, um chefe de Escuteiros católicos e trabalhador da Chevron, foi condenado neste dia 10 de Junho, em Cabinda, a 3 anos de prisão. A acusação divulgada na altura, para a sua detenção, depois de uma busca a sua casa, foi a de ter em sua posse notícias retiradas da Internet sobre a situação em Cabinda e um livro sobre a História de Cabinda, publicado em Portugal em 2008, e intitulado "O Problema de Cabinda Exposto e Assumido à Luz da Verdade e da Justiça", cujo autor é o advogado Francisco Luemba, detido também posteriormente com a mesma acusação.

Qualquer cidadão livre fica estarrecido com uma notícia com este conteúdo.
Fico-me por aqui.
Deixo aos leitores os pensamentos e os comentários que "isto" merece.

Respigado, com a devida vénia, de "Notas Verbais"

Encontro de acaso



















Na tristeza de meus olhos
Pousaram suaves os teus.
Nos meus lábios secos de tabaco
Roçaram suaves os teus.
Mulher!
Nem sabes a força que deste
A este desespero calado
De rebentar as amarras
De um dongo numa praia de pesadelos
Varado.


António Cardoso

Fabuloso

O café nosso de cada dia...

















A Delta Cafés solicitou uma reunião com o Papa no Vaticano.

Após receber a bênção do mesmo, o representante cochichou:
- Vossa Santidade, nós temos uma oferta.

A Delta está disposta a doar 50 milhões de EURs à Igreja, se Vossa Santidade mudar a frase da oração Pai-Nosso, de "o pão-nosso de cada dia nos dai hoje" para "o café nosso de cada dia nos dai hoje".

O Papa responde:
- Isso é impossível. A oração é a palavra do Senhor e não pode ser mudada.

- Bem, diz o homem, nós já prevíamos sua relutância e, por isso, nós aumentamos a oferta para 100 milhões de EURs. Tudo o que pedimos é que se mude a frase de pão para café.

Novamente o Papa responde:
- Isso, meu filho, é impossível. A prece é a palavra de Deus e não pode ser mudada.

Finalmente, o homem da Delta diz:
- Vossa Santidade, nós da Delta respeitamos Vossa fé, mas nós temos uma oferta final: doaremos 500 milhões de EURs para a Igreja Católica, simplesmente se a frase "o pão-nosso de cada dia" for mudada
para "o café nosso de cada dia".
Por favor, pense nisso.

E o homem retirou-se.

No dia seguinte, o Papa convoca o Colégio dos Cardeais e diz:

- Tenho 2 notícias para dar: uma má e a outra boa. A boa notícia é que a Igreja vai receber uma doação de 500 milhões EURs.

- E a má notícia, Santidade? - pergunta um dos cardeais.

Responde o Papa:
-Vamos rescindir o contrato com a Panrico ...

amar é mesmo assim



















ela tem uma ave nos contornos de mulher
e me vê com as escleróticas em fuga.
deixa-se ir ao tempo com um corpo de navio
enche a embala com o seu todo.
ela emergiu da “casa inabalável”
e victoriosa depôs o soba.
rendo-me à vassalagem quero-a solta e rica.
certo ou incerto os sonhos errados
tornam-se vivos: como um compêndio de
mil escrituras no amor que gesticulo.



João Tala

Os teus olhos infinitos












Hoje roubei todas as estrelas do céu
e quando pensei em colá-las nos teus olhos
faltava-me ainda o universo todo...


Eusébio Sanjane

Poema para ti
















Não me perguntes por que te amo
pergunta-me antes, por que não te amaria
e eu te responderei:
— Não te amaria, se não houvesse em ti
este sol por despertar, esta sede por matar,
e esta interminável doçura que te habita.

Eu já te amava e te adorava
antes mesmo da invenção da palavra.

Creio que não sabes,
mas tu és esta chama fria
esperando ser encarnada
na alma...És este sentir
que constrói mundos
e move corações...

Não me perguntes por que te amo
pergunta-me sim, o quanto te amo
e eu te responderei:
— Não existe palavra tão intensa
em que caibas completamente, pois tu és
este vazio ainda por preencher, o qual não se
basta nunca...

Sabes,
por vezes um simples olhar teu
desperta um lento fogo em mim
que sem demora enche-me de atrasos
e logo sei o quanto estás distante...
Mas não te preocupes
que em meu olhar
ainda reluzem as tuas pegadas
denunciando-te sob o horizonte...



Eusébio Sanjane

Recordando

















Ontem me pediste de forma dócil para jamais te falar.
Hoje
Me pedes com riso nos lábios para te olvidar.
Que me pedirás quando o sol estiver a fazer Kassuada?
Amanhã já vazio e só serei eu capaz de falar ao mundo
Que afinal nunca estive presente
Fui a mais singela ficção numa curta história
E a minha existência foi uma descabida imaginação?



Garcia Bires

O Mar














Vi-te
trajada furor das ondas
desfeitas
em meus braços

Vi-te
Preenchida de conchas
do meu ouvir
e no paladar
do meu sentir
foste-te pelo vazar do mar
deixando-me o eco
da eterna solidão
verde-azul



Fragata de Morais

3 Momentos




















1.º

ONTEM:
Se não existisse a poesia
serias tu musa-poesia
de todos os tempos de todos
os poetas mendigos e irmãos do AMOR.


2.º

HOJE:
Voltei do além com marcas
frescas da pureza. O teu sorriso
me acenou. Agora, não sei se o mais
puro é a fonte de pureza que te dá origem
ou o estado de pureza que do além trago.


3.º

AMANHÃ:
Quando se inaugurar a cidade da poesia
teu nome escrito com beijos de alecrim
estará com bandeira ao vento saudando
os casais felizes à entrada da cidade.



António Gonçalves

Blues




















Foto de "Angola em Fotos"



Tua voz desliza como um pássaro aberto na lâmina do dia
ilha que se levanta e voa a partir do Sol
lamento gritado da floresta por sua gazela perdida
choro grande do vento nas montanhas
ao nascimento de um escravo mais na história do vale

Tua voz vem de dentro da cidade
de todas as ruas bairros e leitos da cidade onde houver
um calor de pernas
contar o silêncio das horas guardadas a soco no sarilho
dos ventres
com um jazzman a assobiar na escuridão dos pares
a memória ácida do chicote
nos porões do Mundo




David Mestre
in «Subscrito a Giz - 60 poemas escolhidos»

O valioso tempo dos maduros

















Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.
'As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!



Mário Pinto de Andrade

Vivemos num País onde discordar pode ser fatal !













ALERTA: Vivemos num País onde discordar pode ser fatal


Quero deixar aqui publicamente um gesto de solidariedade de coragem por aquilo que o jornalista António Aly Silva tem feito pelo seu país e por aquilo que considero ser a verdadeira missão de informar.
Mesmo com o risco da própria vida!
Honestamente já esperava que um dia o alerta para o perigo que a sua vida poderia correr soasse...
António Aly Silva nunca deixou de estar nos locais mais perigosos e de exercer a nobre missão de informar.
Ao longo dos anos que levo de acompanhar o seu blog, sem o conhecer, sem um qualquer contacto, habituei-me ao seu verbo duro, á sua coragem intelectual e, seguramente, física.

Abraço de solidariedade e o desejo que a Guiné-Bissau ultrapasse rápidamente e de forma segura mais este momento difícil da sua história.

Continuarei a estar atento e a seguir o Ditadura do Consenso.
Coragem!
Todos quantos amam a liberdade e, por consequência, a lei e a responsabilidade social e política... travarão a sua luta.
Estou consigo!
Bravo!

Peru




Cuzco, Arequipa, Macchu Pichu, Nazca
A música e as ftos e uma viagem por fazer.