De longe





Não chores Mãe... Faz como eu, sorri!
Transforma as elegias de um momento
em cânticos de esperança e incitamento.
Tem fé nos dias que te prometi.

E podes crer, estou sempre ao pé de ti,
quando por noites de luar, o vento,
segreda aos coqueirais o seu lamento,
compondo versos que eu nunce escrevi...

Estou junto a ti nos dias de braseiro,
no mar...na velha ponte,... no Sombreiro,
em tudo quanto amei e quis p'ra mim...

Não chores, mãe!... A hora é de avançadas!...
Nós caminhamos certos, de mãos dadas,
e havemos de atingir um dia, o fim...


Alda Lara

Cantos do meu país





Canto as mãos que foram escravas
nas galés
corpos acorrentados a chicote
nas américas

Canto cantos tristes
do meu País
cansado de esperar
a chuva que tarde a chegar

Canto a Pátria moribunda
que abandonou a luta
calou seus gritos
mas não domou suas esperanças

Canto as horas amargas
de silêncio profundo
cantos que vêm da raiz
de outro mundo
estes grilhões que ainda detêm
a marcha do meu País


Julião Soares Sousa
(Um novo amanhecer, 1996)

Canções de Luanda




Ali no Bairro do Café
Junto ao cinema Tropical
morava a Maria Xica
de voz macia e sensual
cantava em Kimbundo
para o seu parceito Tomé
Canções de Ninar
Canções da vida passada
canções da vida futura
Lindas canções para amar.
Eu quando passava
lá no Bairro do Café
Ouvia a sua linda voz
Tinha inveja do Tomé.


Karina
(in Poesia de Maglotei)

Dia Mundial da Alimentação



Imagem da Maria Papoila

Banana Split





Aos que devoram o mundo
tranquilos, como se comessem
uma banana split;
aos que usam as assembléias
como balcão de negócios,
na esperança de vender
seu estoque de bombas;
aos banqueiros internacionais,
pressurosos em atender
os mendigos de Estado,
em troca de pequenas concessões;
aos que plantam suas máquinas
em terras estrangeiras,
para espremer os frutos,
o solo e as gentes;
àqueles que falam doce
e mandam seus missionários
catequizar os gentios
com hinos de dúbia letra;
aos amantes da ciência,
magos e feiticeiros,
hábeis em curar moléstias
geradas por eles mesmos;
aos que levam nosso ferro
e areias monazíticas
e nos devolvem em troca
o saldo de suas festas;
aos que matam nossa fome
com sacas de feijão podre
e nos afogam a sede
num mar de refrigerantes;
aos que abrem suas asas
sobre nossas cabeças ocas
e nos fazem aliados
contra o inimigo deles;
enfim, a todos aqueles
que usando de artimanhas
suas artes nos ensinam,
nossa gratidão eterna.
E a promessa de que um dia,
tão logo estejamos prontos,
restituiremos em dobro.


Eduardo Alves da Costa

As mamanas...


Foto de Madalas de Moçambique


As mamanas...



As mamanas

da minha terra

vivem da liberdade

habitam

o subúrbio

que dorme

todo o dia



estas são as mamanas

da minha

terra

igual as tuas

com rugas

do sonho



e de memórias.


Jorge Matine

Pátria...





Pátria tenho só uma

O lugar de morte

A nenhuma cidadania pertenço

Conheço três lugares de exílio

O amor

A loucura

A memória



Memória percorrida

Loucura visitada

E quantos amores



Vou para norte

Sempre para morte

— minha pátria –



caminho

sozinho

caminho

urino

passo a passo

incerto

o caminho

não despeço

peço lume

charro aceso

prossigo

caminho sempre

até que a idade

me empreste o medo


Celso Manguana

Caras...




A fantástica e oportuna imagem do Jumento, que aqui reproduzo com a devida vénia, recordou-me o poema de Tomé Varela da Silva que partilho convosco.



Ter uma. Ter várias



Ter uma só cara

é estar-se nu

em casa

ou no jardim.



Ter várias caras

é mais fácil

que estar-se nu

em qualquer lado.



Ter várias caras

é doença social

de bom tom.



Ter uma só cara

é saúde

ou doença mental.



Tomé Varela da Silva

Lua nha testemunha

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Bô ca ta pensa nha cretcheu
Nem bô ca ta imaginà
C'ma longe di bô 'm tem sofrido
Perguntà lua na ceu
Lua nha companhera di solidâo

Lua vagabunda di espaço
Qui conchê tudo nha vida
Nha desventura
El qui ta contà-bo nha cretcheu
Tudo o qu'm tem sofrido
Na ausencia e na distancia

Mundo bô tem rolado cu mim
Num jogo di cabra cega
Sempre ta persegui'me
Pa cada volta qui mundo da
El ta trazê me um dor
Pa'me tchigà mas pa Deus



B. Léza


lol

Imagine-se que o Cocas, protagonista da campanha publicitária da BMW, era condutor português...




Apreciem!!


Por email

Dava Tudo




sim, é por amor
que eu me dou sempre mais
quando me olhas nos olhos
como quem chama por mim

sim, é por amor
que eu me dou sem pensar
na tua doce loucura de procurar a paixão

ah, quero sempre mais
ah, quero sempre mais

mas tu nem sempre vens
outra paixão talvez
eu sei esperar e entender
mas dói demais

eu dava tudo para te ter aqui
ao pé de mim outra vez
eu dava tudo para te ter aqui
ao pé de mim outra vez

sim, é por amor
que eu não sei dizer que não
quando me olhas nos olhos
como quem chama por mim

ah, quero sempre mais
ah, quero sempre mais

nem um sinal de ti
à noite perco-me por aí
finjo amar pensando em ti
mas dói demais

eu dava tudo para te ter aqui
ao pé de mim outra vez
eu dava tudo para te ter aqui
ao pé de mim outra vez



Adelaide Ferreira



Oração da Criança ao Homem

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Dizes que sou o futuro.
Não me desampares no presente.

Dizes que sou a esperança da paz.
Não me induzas à guerra.

Dizes que sou a promessa do bem.
Não me confies ao mal.

Dizes que sou a luz dos teus olhos.
Não me abandones às trevas.

Não espero somente o teu pão.
Dá-me luz e entendimento.

Não desejo tão só a festa de teu carinho.
Suplico-te amor com que me eduques.

Não te rogo apenas brinquedos.
Peço-te bons exemplos e boas palavras.

Não sou simples ornamento de teu caminho.
Sou alguém que te bate à porta em nome de Deus.

Ensina-me o trabalho e a humildade, o devotamento e o perdão.
Compadece-te de mim e orienta-me para o que seja bom e justo...

Corrige-me enquanto é tempo, ainda que eu sofra...

Ajuda-me hoje para que amanhã eu não te faça chorar.


Recebido por email
Desconheço o autor

Autópsia de uma «derrota»




- O PS com os seus 1 931 564 votos, em 2005, apesar de todos os nacionais-protestantes que dizem ter-se manifestado nas urnas, ainda foi buscar 40 849 eleitores a mais relativamente a 2001!
- Estes 40 849 «infelizes» representam 30,14 % do total de votantes (135 499) que de 2001 para 2005 sairam da abstenção (- 0,85 %) ou entretanto se recensearam!
- O PS em 2001 fez 3 coligações, não tendo vencido em nenhum dos casos. Repetiu o mesmo resultado em 2005 não tendo efectuado qualquer coligação.
- O PSD que em 2001 havia efectuado 44 coligações que sairam vencedoras em 17 casos (38,63 %), necessitou de fazer 61 coligações em 2005 para vencer em 20, com a «superior» eficácia de (32,78 %)!
- Lisboa e Porto não constituiram derrotas porque não se pode perder o que não se tem.
- A conta de débitos e créditos é curiosa:
PS - Perde 4 Câmaras

PSD - Perde 4 câmaras. Necessita de «muleta(s)» para passar de 16 para 20 nas
coligações.

Digamos que, contas feitas, PSD está rigorosamente na mesma e o PS perde para a
sua esquerda.


Não encontro matéria para depressões.
Não vejo qualquer razão para triunfalismos.

Se isto é a tal derrota absoluta, calcule-se, para a direita, o que teria acontecido se não fossem os nacionais-protestantes!!

Já agora uma questão pertinente... Será que, uma vez que Rui Sá deixou de «contar» no Porto, a CDU irá suportar na Assembleia Municipal de Lisboa o «governo» de Carmona Rodrigues?? Será que para isso irá negociar alguma pasta para o director do Avante??

Abandonicidade





meninos sem destinos
entre a terra e o céu
nos faróis, nas calçadas
cheiram cola, lambem o papel
usam, abusam e se lambuzam
vítimas de uma realidade cruel

aos restos
sem rostos
sem nomes
vagam defronte as vitrines
entre os sonhos e as fomes

meninos sem destinos
que a pátria mãe pariu
em berços nada esplêndidos
no ventre que se feriu
entre propostas e promessas
de uma política não gentil

aos montes
sem dotes
sem donos
vivem a espera da sorte
de serem acolhidos em seus abandonos


Zhô Bertholini

Cromos

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Bom, um ficou pelo caminho...
Outra, não representada, chegou a apanhar um susto...
Três pulverizaram por completo a concorrência, chegando nos casos de Felgueira e Gondomar á mais completa humilhação!
Não obstante o facto de ser reconhecida a presunção da inocência, as vitórias em causa senti-as como se tivesse, como democrata, levado um imenso escarro na face.
Não apenas pela vitória mas sobretudo pela «ameaça» de que os tribunais fariam (a sua) justiça. Sabe-se que vírgulas constituem artigo muito procurado e que a justiça serve melhor quem mais possibilidades tem de se defender...
Daí á impunidade é apenas um pequeno passo...

As candidaturas são legais, penso, e penso que chegaram 48 anos de limitação absoluta de direitos cívicos e políticos, mas terá que haver limites éticos para este populismo sem escrúpulos, galopante e desenfreado na sua caminhada para o abismo.
O passo que se seguirá será o de eleger, como na Guiné-Bissau, um escroque e assassino ou então endeusar, cultivando estalinisticamente a imagem até ao paradoxo e, permitir-se, sem pudor, eternizar-se no poder, como em Angola.

Esperemos por melhores dias...

Vamos a votos, amigos...



O Pululu foi citado no The Bobs para melhor blog jornalístico em português.
Inteiramente merecido e merecedor dos nossos melhores votos e citações...
Há que ir até lá!

Em dia de reflexão...




Génesis

De mim não falo mais :não quero nada.
De Deus não falo:não tem outro abrigo.
Não falarei também do mundo antigo,
pois nasce e morre em cada madrugada.

Nem de existir,que é a vida atraiçoada,
para sentir o tempo andar comigo;
nem de viver,que é liberdade errada,
e foge todo o Amor quando o persigo.

Por mais justiça ...-Ai quantos que eram novos
em vâo a esperaram porque nunca a viram!
E a eternidade...Ó transfusâo dos povos!

Não há verdade:O mundo não a esconde.
Tudo se vê: só se não sabe aonde.
Mortais ou imortais,todos mentiram.


Jorge de Sena

Rwanda 0 - Angola 1

Amanheceu assim em Kigali... e anoitecerá envolta em festa angolana!!





Akwá, um grande golo para a história!

PARABÉNS!!

ALEMANHA. aí vamos nós!!


Canção dos Rapazes da Ilha


Pontão em Santa Maria, Ilha do Sal, no excelente Akoka



Eu sei que fico.
Mas o meu sonho irá
Levado pelo vento, pelas nuvens, pelas asas.

Eu sei que fico
Mas o meu sonho irá ...

Eu sei que fico
Mas o meu sonho irá
Nos frutos, nos colares
E nas fotografias da terra,
Comprados por turistas estrangeiros
Felizes e sorridentes.
Eu sei que fico mas o meu sonho irá ...

Eu sei que fico
Mas o meu sonho irá
Metido na garrafa bem rolhada
Que um dia hei de atirar ao mar.

Eu sei que fico
Mas o meu sonho irá ...

Eu sei que fico
Mas o meu sonho irá
Nos veleiros que desenho na parede.


Aguinaldo Fonseca

Líneas de Nazca




«y el insalvable
terror al vacío
de mi lúdica desnudez
hace
que te cubra
por entero
de demonios»


Leo Zelada

Prometeu




Esta
a morada. A fronteira,
o horizonte destruído.
A raiz do cardo
nas fragas. Insubmissa
como a cólera,
o fogo ou o vento.

Este
o dorso massacrado,
alimento
de abutres insaciáveis
como a esperança,
o amor e a morte.

Este
o destino, o preço
e a glória.

O desespero de quem
sobre os ombros
só sabe colar
efémeras asas.


Papiniano Carlos
(in «Jornal de Notícias, 1960)


Papiniano Carlos nasceu em Lourenço Marques, Moçambique em 1918. Estudou na Faculdade de Engenharia do Porto e tornou-se administrador duma propriedade agrícola. Opositor ao regime do Estado Novo, foi um dos directores do «Notícias do Bloqueio», tendo colaboração dispersa na «Seara Nova», «Vértice» e no «Jornal de Notícias». Está incluído em várias antologias e colectâneas poéticas, com realce para a coligida por Jorge de Sena, «Líricas Portuguesas», (volume I, Edições 70, 1984). Publicou, entre outros, os livros «Esboço» (1942), «Estrada Nova» (1946), «Terra Com Sede» (1946), «Mãe Terra» (1952) e «Caminhemos Serenos» (1957). Como escritor para crianças lançou «Uma estrela Viaja na Cidade» (1958) e «A Menina Gotinha de Água» (1962).

Poetas malditos




Malditos poetas, que disseram tudo
e tudo tão bem dito!

Malditos poetas, que me deixam mudo,
sem um ai, uma súplica ou um grito!

Raios os partam, cada qual maldito!

Malditos, que roçaram no seu voo,
com asas de veludo
o infinito!

Malditos poetas: Eu os abençoo...


Adolfo Simões Müller

Encontramo-nos na Alemanha!!


Aveiro e Kigali, pontos de passagem decisivos para Portugal e Angola na sua caminhada para a fase final do Mundial da Alemanha 2006.

Portugal - Liechtenstein (RTP1, 21:10 horas)

Rwanda - Angola (RTP África, 15 horas)

Valeu a pena a luta, Pululu!!

Kandandu!

Wonderful Tonight




It's late in the evening
She's wonderin' what clothes to wear
She puts on her make-up
And brushes her long blond hair

And then she asks me, "Do I look all right?"
And I say yes, you look wonderful tonight

We go to a party
And everyone turns to see
This beautiful lady
walkin around with me

And then she asks me, "Do you feel all right?"
And I say yes, I feel wonderful tonight

I feel wonderful because I see the love light in your eyes
And the wonder of it all is that you just don't realize how much
I love you

It's time to go home now
And I've got an achin' head
So I give her the car keys
And she helps me to bed

And then I tell her
As I turn out the light
I say my darlin', you were wonderful tonight
Oh, my darlin, you were wonderful tonight


Eric Clapton

Quando surges na noite





Quando surges na noite, quando avanças
porque o som do batuque por ti chama,
teu corpo negro é chama que me inflama,
quando surges na noite, quando danças...

Quando danças, cantando as esperanças
e os desesperos todos de quem ama,
teu corpo negro é fogo que derrama
febre nas almas que repousam mansas.

Tu vens dançando (tudo em mim se agita)
e vens cantando (tudo em mim já grita),
quando surges em noite de queimada...

Depois, somos os dois, no mesmo abraço,
num batuque só nosso, num compasso
mais febril do que toda a batucada!


Geraldo Bessa Victor

Ah! Se pudésseis aqui ver poesia que não há!

Portão de entrada para as celas, já no interior da prisão do Tarrafal, para que não se esqueça, estes momentos passados pelos militantes antifacistas que lutaram contra o anterior e tenebroso regime. Foto de Jorge Jacinto, aqui.



Um rectângulo oco na parede caiada Mãe
Três barras de ferro horizontais Mãe
Na vertical oito varões Mãe
Ao todo
vinte e quatro quadrados Mãe
No aro exterior
Dois caixilhos Mãe
somam
doze rectângulos de vidro Mãe
As barras e os varões nos vidros
projectam sombras nos vidros
feitos espelhos Mãe
Lá fora é noite Mãe
O Campo
a povoação
a ilha
o arquipélago
o mundo que não se vê Mãe
Dum lado e doutro, a Morte, Mãe
A morte como a sombra que passa pela vidraça Mãe
A morte sem boca sem rosto sem gritos Mãe
E lá fora é o lá fora que se não vê Mãe
Cale-se o que não se vê Mãe
e veja-se o que se sente Mãe
que o poema está no que
e como se vê, Mãe
Ah! Se pudésseis aqui ver poesia que não há!
Mãe
aqui não há poesia
É triste, Mãe
Já não haver poesia
Mãe, não há poesia, não há
Mãe
Num cavalo de nuvens brancas
o luar incendeia carícias
e vem, por sobre meu rosto magro
deixar teus beijos Mãe, teus beijos Mãe
Ah! Se pudésseis aqui ver poesia que não há!


António Jacinto

Ser Poeta





Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!
Tantas almas a rir dentro da minha!


Florbela Espanca


Ode ao gato

Sir Miau, um verdadeiro gentleman. Inteligente, observador. Dotado de uma bonomia e paciência imensas. Não fôra o seu porte aristocrático teria que ser... Reverendo Miau.


Os animais foram imperfeitos,
Os animais foram imperfeitos,
compridos de rabo, tristes de cabeça.
Pouco a pouco se foram compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas, graça, vôo.
O gato,
só o gato
apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.

O homem quer ser peixe e pássaro
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato
quer ser só gato
e todo gato é gato
do bigode ao rabo,
do pressentimento à ratazana
viva,
da noite até os seus olhos de ouro.
Não há unidade como ele,
não tem a lua nem a flor
tal contextura:
é uma coisa só
como o sol ou o topázio,
e a elástica linha em seu contorno
firme e subtil é como
a linha da proa de uma nave.
Os seus olhos amarelos
deixaram uma só ranhura
para jogara as moedas da noite
Oh pequeno imperador sem orbe,
conquistador sem pátria
mínimo tigre de salão, nupcial
sultão do céu
das telhas eróticas,
o vento do amor
na intempérie
reclamas
quando passas
e pousas
quatro pés delicados
no solo,
cheirando,
desconfiando
de todo o terrestre,
porque tudo
é imundo
para o imaculado pé do gato.
Oh fera independente
da casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, ginástico
e alheio,
profundíssimo gato,
polícia secreta
dos quartos,
insígnia
de um
desaparecido veludo,
certamente não há
enigma
na tua maneira,
talvez não sejas mistério,
todo o mundo sabe de ti e
pertence
ao habitante menos misterioso,
talvez todos acreditem,
todos se acreditem donos,
proprietários, tios
de gatos, companheiros,
colegas,
discípulos ou amigos
do seu gato.
Eu não.
Eu não subscrevo.
Eu não conheço o gato.
Tudo sei, a vida e seu arquipélago,
o mar e a cidade incalculável,
a botânica,
o gineceu com os seus extravios,
o pôr e o menos da matemática,

os funis vulcânicos do mundo,
a casaca irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do bombeiro,
o atavismo azul do sacerdote,
mas não posso decifrar um gato.
Minha razão resvalou na sua indiferença,
os seus olhos tem números de ouro.


Pablo Neruda

Romaria




É de sonho e de pó

O destino de um só

Feito eu perdido em pensamentos

sobre o meu cavalo

É de laço e de nó

de gibeira o jiló

dessa vida cumprida a sol


Sou caipira, Pirapora Nossa Senhora de Aparecida

Ilumina a mina escura e funda

o trem da minha vida

Sou caipira, Pirapora Nossa Senhora de Aparecida

Ilumina a mina escura e funda

o trem da minha vida

O meu pai foi peão

Minha mãe solidão

Meus irmãos perderam-se na vida

A custa de aventuras

Descasei, joguei, investi, desisti

se há sorte, não sei, nunca vi


Sou caipira, Pirapora Nossa Senhora de Aparecida

Ilumina a mina escura e funda

o trem da minha vida

Sou caipira, Pirapora Nossa Senhora de Aparecida

Ilumina a mina escura e funda

o trem da minha vida

Me disseram porém

se eu viesse aqui

prá pedir de romaria e prece

paz nos desaventos

como eu não sei rezar

só queria mostrar

meu olhar, meu olhar, meu olhar

Sou caipira, Pirapora Nossa Senhora de Aparecida

Ilumina a mina escura e funda

o trem da minha vida

Sou caipira, Pirapora Nossa Senhora de Aparecida

Ilumina a mina escura e funda

o trem da minha vida


Renato Teixeira



Letra para um hino




É possível falar sem um nó na garganta.
É possível amar sem que venham proibir.
É possível correr sem que seja a fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.

É possível andar sem olhar para o chão.
É possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros.
Se te apetece dizer não, grita comigo: não!

É possível viver de outro modo.
É possível transformar em arma a tua mão.
É possível viver o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.Não te deixes murchar.

Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre, livre, livre.


Manuel Alegre