Ao meu país




















Rancho Folclórico da Ribeira de Celavisa





Se é nesta dor que adormeço
sempre numa ternura sem tempo,
nos desenhos te revelo as palavras
soltas e marítimas
abraços prometidos algures
cantares, assim esmoreço

Se é neste sonho que te conheço
sempre num desvario louco
nos desenhos te encanto
soltas e brandas linhas
abraços em traços fortes
cantares, assim permaneço

Se é neste querer que te estremeço
sempre num prazer alucinado
nos desenhos me dou
soltos tristes e alegres
abraços de oceanos
cantares, assim entristeço

Se é neste viver que te enalteço
sempre num inventar de águas
nos desenhos danço os ventos
soltos e uivantes
abraços de amores
cantares, assim esqueço



Constança Lucas

Elogio da Dialéctica





















Morgan Tsvangirai, á saída do hospital após "tratamento profiláctico" aplicado pela polícia ás mãos de Robert Mugabe





A injustiça avança hoje a passo firme
Os tiranos fazem planos para dez mil anos
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são
Nenhuma voz além da dos que mandam
E em todos os mercados proclama a exploração;
isto é apenas o meu começo

Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem
Aquilo que nòs queremos nunca mais o alcançaremos

Quem ainda está vivo não diga: nunca
O que é seguro não é seguro
As coisas não continuarão a ser como são
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados
Quem pois ousa dizer: nunca
De quem depende que a opressão prossiga? De nòs
De quem depende que ela acabe? Também de nòs
O que é esmagado que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aì que o retenha
E nunca será: ainda hoje
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã



Bertold Brecht

A questão não pode ser "quem foi" mas sim "a quem aproveita"

















Que a política de contenção do défice tem sido particularmente difícil e penosa para a imensa maioria dos portugueses, não é novidade...
Que o governo para atingir esse objectivo tem lançado mão a quase tudo tornando a vida dos portugueses muitas vezes num inferno, é público...
Que o autismo e a cegueira inerente a esse combate, em muitas frentes, se tem mostrado particularmente injusto para vastas camadas da população, é notório...
Que o governo para obter o silêncio das camadas mais favorecidas não ataque os seus interesses e lucros, é por demais evidente...

Mesmo assim, os portugueses, de uma forma absolutamente estóica, tem entendido os sacrifícios, ainda que injustos... e aguentado com um ou outro queixume...
´
Porém algo se está a passar... começam a haver demasiados disparates bem explicados e situações inacreditáveis, habilmente escondidas ou disfarçadas. E isso é preocupante.

O governo através do Decreto-Lei 55/2007, de 12 deste mês determina que poderão ocorrer excepções à restrição de construção em povoamentos florestais, permitindo projectos de “interesse público” ou “empreendimentos com relevante interesse geral”.

Mais, o reconhecimento pode ser pedido, e concedido, a qualquer momento através de um despacho conjunto dos governantes do Ambiente, da Agricultura e eventualmente do membro do Governo envolvido no projecto.

Se isto não fosse o bastante, o pedido de reconhecimento é entregue no Ministério do Ambiente e implica um documento comprovativo de que os interessados são alheios ao incêndio “emitido pelo responsável máximo do posto da GNR da área territorialmente competente”.

Leio mas nem quero acreditar...

A lei que impedia a construção em área ardida por determinadao período de tempo foi, assim, co-incinerada na fornalha do que parecem ser estranhos interesses...
Caricato é o facto de que nem sequer se postula ou previne o princípio de - quem beneficia com o crime???... Penso que é intolerável.

Intolerável porque os fogos florestais voltam a ser armas úteis nas mãos de grandes interesses.
Intoleráveis porque voltaremos a ver crescer betão por tudo quanto é lado, sabendo-se dos imensos interesses e corrupção envolvida nestes processos... Será necessário dizer o nome de alguns envolvidos em processos???
Intolerável porque num momento em que grandes alterações climáticas ocorrem, o sinal dado á sociedade é que é benéfico para a economia a prosecussão de crimes ambientais que, sabemo-lo, vão ajudar a hipotecar as possibilidades das gerações futuras de disporem de um país melhor.

Estando tudo entretido com «fait-divers» como a Ota, não custa admitir que isto passe despercebido... e só em Agosto, quando o país estiver de novo a arder alguém se lembre disto.
Não é sequer necessário esperar por Agosto... basta consultar o blog Verão Verde para nos apercebermos que o verão, em face das alterações climáticas, já chegou.

"Operação Lusa"

















Imagem daqui


A escravatura, que apenas legalmente foi abolida, é a todos os títulos abominável.
A "descoberta" de escravos portugueses, escravizados por portugueses num país estrangeiro... é, além disso, intolerável e execrável!

Questões razoáveis, outras nem tanto, agitam-me...



- Porque têm os portugueses que ser tão desprezíveis uns com os outros, sobretudo quando em inferioridade?

- Que razão haverá para que aquando no estrangeiro os portugueses serem ainda menos solidários uns com os outros?

- Que país queremos construir quando persistem entre nós, sem qualquer reprovação social, intocáveis e impunes escroques como estes mercadores de escravos??

- Que país estamos a construir que produz a mais absoluta indigência ao ponto de preferirem, como parece ser o caso, manterem-se como escravos a regressarem ao seu país??

- Que povo somos ao ponto assistirmos impávidos e serenos sem nos indignarmos???



Finalmente, pergunto-me...



- Como irei encarar, na próxima visita ao hipermercado, o preço mais barato de produtos espanhóis á custa da escravatura de compatriotas??

- Será esta a União Europeia que os europeus desejam construir??



Quando aparecer neste sítio algum post, sem texto e apenas com o título Hipócritas significará que algum governante espanhol terá enchido a boca de proteccionismo e/ou terá desancado os chineses por política idêntica...

A galinha dos ovos de ouro

























A SIC, hoje, no seu Jornal da Noite, trouxe a público duas notícias que são efectivamente importantes... e espero que venham a ter consequências no futuro:



- Tribunal de Coimbra, em 2005, absolveu condutor porque o comportamento da autoridade, por inflingir o mesmo preceito legal foi julgado como... insidioso. O condutor circulava a 153 Km/h em autoestrada.



- Em Burgos, aqui ao lado, na vizinha Espanha, um outro condutor foi absolvido, apesar de circular muito acima de 200 Km/h, dado que havia boa visibilidade, pouca circulação e o condutor era experiente.



O presidente da Associação das Escolas de Condução aplaudiu qualquer uma das decisões dado que não está demonstrada relação de causa-efeito entre a velocidade e a sinistralidade.



Além disso sabe-se, é dos livros, que quanto maiores forem as multas e a repressão (na maior parte das vezes cega e obstinada) maior será a corrupção. Escuso-me de indicar datas e corporações envolvidas.



Sou de opinião que o condutor, se bem formado, consciente que dirige um veículo que proporciona inúmeras vantagens, tem que saber que leva nas mãos, se tomar atitudes de negligência, uma arma letal.

Sabendo que a velocidade a que pode circular depende, conforme se aprendeu, da sua perícia, do estado de conservação da viatura, das condições físicas do pavimento, das condições do tráfego e das condições meteorológicas, nomeadamente, o condutor deverá perante um acidente, qualquer que seja a velocidade a que circule ser responsabilizado criminalmente pelos seus actos.

Mais que qualquer multa este é um caminho a percorrer porque incita á responsabilidade e á cidadania.



Quantas vezes tantos de nós, perante barbaridades que se passam á nossa frente, questiona onde andará a polícia?? É infinitamente mais fácil multar um condutor porque, sem perigo, vai a conduzir acima de determinado limite do que verificar e punir as transgressões, algumas verdadeiramente assassinas que todos os dias se presenciam, em locais que as autoridades muito bem conhecem. O problema é que a sua acção nestes locais não gera receitas. Isto porque a vida, em si, nestes casos não é um activo a defender.

O que não é mensurável não pode ser provado - a velocidade é-o! Por isso se tornou a galinha dos ovos de ouro para os cofres do Estado e um verdadeiro El Dorado para muitos.



É bom não esquecer que:



- É perigosíssimo conduzir um Fiat 600 a 120 Km/h, o veículo pode desfazer-se;

- É perigosíssimo conduzir um Mercedes Kompressor a 120 Km/h, a viatura é tão segura que o condutor corre o risco de adormecer.

Eu tinha fome

























Eu tinha fome
e vós fundastes um clube humanitário
para discutir sobre a minha fome
Agradeço-vos!

Eu estava na prisão
e vós correstes à igreja
a rezar pela minha libertação
Agradeço-vos!

Eu estava nú
e vós examinastes sériamente
as consequências morais da minha nudez

Estava doente
e vós ajoelhastes a agradecer ao Senhor
o dom da saúde

Não tinha casa
e vós pregastes o amor de Deus
Parecíeis tão piedosos, tão perto de Deus...

Mas eu ainda tenho fome, continuo só,
nú, doente, prisioneiro e sem casa.
Tenho frio!



Poesia anónima do Malawi
in Além Mar - Dezembro 1984

Barco aberto

























Como um pão aberto
assim te ofereço
este rio em prata
sorrindo

para que te embebedes
da certeza de que
os caminhos se fazem,

como este barco
perseguido por pássaros
enfeitiçados
de todas as latitudes

salpicam da espuma
as luzes da cidade
mostrando-me como
se rompem os contornos.




Ana de Santana

(falta-me um gato)






















falta-me um gato
para fazer festas às palavras.
algumas chegam entre mãos
na carícia breve da madrugada.

enquanto não parto para ítaca,
viajo, aguardo circe
que me transforme em felino agudo.

depois é só encostar-me às pernas
e fitar-me
eu, nariz aquilino, olhos rasgados em mim
na verticalidade da íris;
lamber os pelos, a pele,
arquear o corpo na languidez do gesto.

ficar à espera que a palavra cresça.


abril 2002


José Félix
in “Geografia da Árvore (a reinvenção da memória)”

Fragmento poético






















Foto de Brigida Rocha Brito em Caminhadas e Descoberta em STP





Após o ardor da reconquista
não caíram manás sobre os nossos campos.
E na dura travessia do deserto
aprendemos que a terra prometida era aqui
Ainda aqui e sempre aqui,
Duas ilhas indómitas a desbravar
O padrão a ser erguido
pela nudez insepulta dos nossos punhos.
Emergiremos do canto
como do chão emerge o milho jovem
e nús, inteiros recuperaremos
a transparência do tempo inicial
Puros reabilitaremos o poema e a claridade
para que a palavra amanheça e o sonho não se perca.



Conceição Lima

A guerra do patacom



















Foto de Brigida Rocha Brito em "Africa de todos os sonhos"




Ouvir diáriamente na TSF Carlos Vaz Marques no seu "Pessoal e transmissível"... e ímprescindível.

Sexta-feira e hoje foi transmitida a grande reportagem "A guerra de patacom", gravada na Guiné-Bissau.

A ouvir.

Março mulher




























No encanto do canto
Está Março, mês mulher
Está você vibrando
Adocicando teu perfume
Que canta o querer
Do nosso ser

Está você mulher
Que luta incansavelmente
E sorri na distância do tempo
Como machanana!
E deixa fervilhar,
Na laringe dos teus olhos,
Gotas de kitaba que se
Confundem com kibeba da terra



Kudijimbe

Changara
























Engoliram luas as crianças de Changara
Os olhos delas são pássaros tristes sem voo
que no desespero da fome acumulada
comem estrelas como se fossem grãos de milho.
Quando as sementes secaram nos campos
e o sangue secou nas veias dos rios
e a seiva secou nas veias das plantas
e o sol secou os celeiros da aldeia,
serpentes famintas silvam em volta
do peito cindido. Uma toupeira chora
ao frémito dos imbondeiros. Grave,
arde sobre a erva amarga a dor:
Das luas engolidas pelas crianças
quantas tardará a ecoar nos jornais?




Julius Kazembe
in "Vozes poéticas da lusofonia", Sintra, 1999

Matinés do Scala


























Obrigatoriamente aos sábados à tarde.
O episódio da série, os desenhos animados
e a coboiada. Ao intervalo, a surtida
ao Hazis para comprar scones e laranjada.
Devolvida a senha de entrada, recomeçava

o espectáculo. Na fila Z, rente
à pantalha, gesticulante, o Piricas
regia a partitura. Hopalong Cassidy
jogava à porrada, sem que o sacana
do chapéu de aba larga lhe caísse,

alguma vez, da pinha. Empinando,
enfunadas as crinas ondulantes, palominos
amestrados completavam o circo. Mas,
neste embuste, o único herói autêntico
era, no comando das operações, o Piricas.




Rui Knopfli

Os sobreviventes depõem




























Assim foi:
A terra calou-se
Um enorme clarão de fumo
Evadiu para as nuvens
Não era terramoto.
Nós vimos

O solo alastrou-se de sangue
Os homens desapareceram
As árvores quebraram-se
Não era terramoto
Nós vimos

As nuvens cobriram-se de água
Os pântanos secaram
As vozes sucumbiram
Para além do Oceano Atlântico
Não era terramoto
Nós vimos

E neste solo arável
Amável como a massambala
Vive nada para sobreviver
Mas com certeza de valer
E tudo isso nós vimos
E sabemos quem foi

E se alguém duvidar
Mostrar-lhe-ei as costas esquartejadas
Os olhos cobertos de sangue
O coração respirando balas
As pernas com muletas
As ruínas da Cahama
Os vestígios de Xangongo

E tudo... E tudo
Que venham só
Aqui estamos nós
Os sobreviventes


Kudijimbe

Brilhante!

























"Ter vivido a infância e a juventude em África não significa, necessariamente, conhecer África e os africanos mas ajuda, quando se conviveu com africanos da mesma idade, se comeu o funge da mesma lata leite Nido negra do fumo da fogueira, se bebeu da mesma água da chuva, se dormiu na mesma cubata, se tenha ouvido a transmissão oral da vida da família, se tenha queimado os pés na areia encarnada a ferver de sol. Ajuda, mas não basta. Não basta dizer-se que se tem coração negro enrolado em pele branca. A inversa também vale. Nenhum branco tem o direito de vestir a pele negra simplesmente porque nunca chegou a sentir a humilhação, a exploração desumana, a ignorância atrevida, o abuso interesseiro, numa sucessão de centenas de anos, não foram escravizados e enviados para o Brasil, para os Estados Unidos ou para a Jamaica, não tiveram necessidade de mostrar um cartão assinado todos os dias pelo patrão empregador, não conheceram o chicote do diligente cipaio seu patrício, não carregaram sacos de café, não escavaram a terra em busca de diamantes."


Helder de Sousa em Mais, sempre mais!!...
Vale a pena acompanhar o blog e, particularmente, ler aí Juventude eterna. Com a devida vénia respiguei um pequeno trecho para, digamos assim, abrir o apetite.
Fantástico.

Meditemos

























O senhor não daria banho a um leproso nem por um milhão de dólares? Eu também não. Só por amor se pode dar banho a um leproso".

Madre Teresa de Calcutá

Com alma


























dos cantos da vida
parte um véu
cobrindo corpos
e almas

um braço se estende
tentando romper
o véu

conseguirá
porque o véu
é frágil,

talvez não consiga
talvez não tenha
força para romper

talvez o véu
não se rompa
porque o braço demora
demora

a esperança
é depositada apenas
na alma,

se a alma existir
pode-se esperar
que o braço
rompa o véu
com a alma.



Ana de Santana

Inocência



























Já venerei dias de miséria
nos ponteiros trilhados
de um relógio sem tempo
onde cresce o meu tormento


o mesmo flash se repete
com miúdos sem nome
a abraçar desgraças


nas ruas...


andam aos milhares
soltando as malícias do ventre
as vozes de fome


no e mesmo instante
em cada flash
brilham as barrigas
destes miúdos que esperam
(sem tempo) a abraçar desgraças
contrastam com as barrigas eminentes
da gente que passa e
se escapa a escarrar luxúria
regresso odiosamente à minha infância
com impulsos incontrolados do coração
onde se encontra a muda revolta da minha aflição


vejo-me
revejo-me
nestes retratos na rua
onde o flash se repete em cada esquina
como um pedaço de mim
escondendo-me dos bocejos da noite
mas essa graça da inocência...eu já perdi.



Chô du Gury

Batam palmas


















Batam palmas
Sou indigente vagabundo
Quero brindar-vos com verdades d'alma
Expulsar as serpentes que me atormentam


Reunir-me com os dementes
Pulular nas lixeiras da mente
Declamar poemas
Com palavras minhas


Ainda que ridicularizadas
Não quero que as abortem
São minhas e as defendo
Confesso


Batam palmas!
Batam palmas por favor

Vou declamar
Apalpar-vos a alma
Ver-vos no meu microfilme
A exorcizar a vossa poesia
Que sairá aos soluços


Batam palmas!
Batam palmas ...palmas


Preciso e quero arrotar
Toda a poesia vadia
Impregnada de todo o meu eu


Batam palmas! Batam palmas! Batam



Chô du Gury

África escultural



























áfrica
da nudez plangente
dos braços nus dos embondeiros, silhuetando na noite
áfrica
a contemplar embevecida a imensidão dos oceanos
na lembrança trágica dos filhos deportados
áfrica
dos homens bêbados
arrastando os pés descalços
na terra sequiosa de vida
da mulher nua que se entrega para se achar
das barrigas dos meninos
barrigudos de fome
áfrica
do ritmo quente
do batuque e da farra
perdidos na noite
do canto triste dos poetas
dos seus poemas
escritos com sangue e suor de gente

acredito em ti
como a áfrica escultural dos homens
esculpindo a vida
na pedra da vida




Domingos Florentino
In “Raízes do porvir”

A prometida



























Dóli só
Djena sem ninguém
do romance inocente
a tragédia bacilenta

papá homem grande
se meteu
uma vaca
um saco de farinha
um tambor de cana
umas folhas de tabaco

a permuta
a prometida

três
dias
depois
da lua

com fome de amor
boca acre não come
com sede de ternura
garganta seca rejeita água
as lágrimas engrossam
e rolam
no rosto macilento

Djena dezassete chuvas
Djena uma vida por viver
Djena a prometida
Djena mulher de hoje
tem fome
não come
tem sede
não bebe

corpo de mulher
inerte como o silêncio
firme como a recusa
repousa intacta
num sono inviolável




Tony Tcheca
in "Vozes poéticas da lusofonia"

Uma mão relampeja

























Uma mão relampeja na casa da escrita.
Faísca Troveja.
Procura um claro instante para a aparição.

Pode-se vê-la correr pelo dorso do papel,
deitada do seu lado ou do seu modo rastejante,
pode-se vê-la provando o ruminante delírio das palavras,
a sua rasante arrumação,
e leva vozes aquela mão em cada delicada passagem,
rítmica, latejante
ou um nervo animal que faz lembrar
a textura pedestre do papel.
Mas a mão voa, explosiva,
e não cai nem agoniza no espaço vibrante onde se comunica.

Voar é um fervoroso recolhimento.
E no que é quase a medida elementar do esquecimento
a escrita navega
num estuário de silêncio.
Escrever é uma droga antiga,
uma bebedeira que queima com lentidão
a cabeça,
traz as luzes desde as vísceras,
o sangue a ferver nas vias tubulantes,
traz a natureza estimulante das paisagens
que temos dentro.



Eduardo White
In “Poemas da Ciência de Voar e da Engenharia de Ser Ave”.
Edição da Caminho, Lisboa, 1992.

In the arms of the angel





Spend all your time waiting
for that second chance
for a break that would make it okay
there's always some reason
to feel not good enough
and it's hard at the end of the day
I need some distraction
oh beautiful release
memories seep from my veins
let me be empty
oh and weightless and maybe
I'll find some peace tonight

In the arms of the angel
fly away from here
from this dark cold hotel room
and the endlessness that you fear
you are pulled from the wreckage
of your silent reverie
you're in the arms of the angel
may you find some comfort here

So tired of the straight line
and everywhere you turn
there's vultures and thieves at your back
and the storm keeps on twisting
you keep on building the lines
that you make up for all that you lack
it doesn't make no difference
escaping one last time
it's easier to believe in this sweet madness oh
this glorious sadness that brings me to my knees

In the arms of the angel
fly away from here
from this dark cold hotel room
and the endlessness that you fear
you are pulled from the wreckage
of your silent reverie
you're in the arms of the angel
may you find some comfort here
you're in the arms of the angel
may you find some comfort here



Sarah Mclachlan

Cai... ou não cai??






















Fabuloso (e oportuno) cartoon de Raim, no seu blog que completou 2 anos há alguns dias.
Rendo a minha homenagem ao seu talento e deixo os parabéns!

Ofício



























Começo o Poema:
O coração é uma seta apontada ao centro do poema.
Não, não está bem;
risco ou rasgo o papel.

Recomeço o Poema:
O Homem é uma espada a fender em dois o Amor.
Não, não gosto;
apago de novo.

Ou então:
o Amor é uma chama árdua a arder em breve pira.
Pior prosa;
quebre-se a lira.

Recomeçarei:
No primeiro Apollo vou à Lua
e cantarei.


C. T. Chão Bom, 22.7.69



António Jacinto
(in «Sobreviver em Tarrafal de Santiago»,
Edições Chá de Caxinde, 2000)

Carta






















Jesus Cristo Jesus Cristo
Jesus Cristo, meu irmão
Sou fio dos pais da terra
Tenho corpo p'ra sofrer
Boca Para gritar
E comer o que comer
Os meus pés que vão
No chão
Minhas mãos são de trabalho
Em coisas que eu não sei
E não tenho nem apalpo
Trabalho que fica jeito
Para o branco me dizer
“Obra de preto sem jeito”
E minha cubata ficou
Aberta à chuva e ao vento
Vivo ali tão nu e pobre
Magrinho como o pirão
Meus fios saltam na rua
Joga o rapa sai ladrão
Preto ladrão sem imposto
Leva porrada nas mãos
Vai na rusga trabalhar
Se é da terra vai para o mar
Larga a lavra deixa os bois
Morre os bois ... e depois?
Se é caçador de palanca
Se é caçador de leão
Isso não faz mal nenhum
Lança as redes no mar
Não sai leão sai atum ...
Jesus Cristo Jesus Cristo
Jesus Cristo meu irmão
Sou fio dos pai da terra
Um pouco de coração
De coração e perdão
Jesus Cristo meu irmão.



Alexandre Dáskalos

Um dia



















ao António Jacinto



Um dia eu vou fazer um romance
com as histórias da minha rua
antes de se chamar Silva Porto
e os pretos irem embora.
Vai entrar a lua e meninos sem cor
a Domingas quitata, o sô Floriano do talho
com muita mistura de amor
e muito suor de trabalho.
Vou meter as cabras e os cães vadios da velha Espanhola
os batuques da Cidrália e dos Invejados,
os batalhões do "Treze" e do "Setenta e Quatro",
o bêbado Rebocho, o velho Salambio',
a Joana Maluca da garotada,
cajueiros, cubatas, lixeiras,
capim e piteiras,
e mesmo no fim da história,
quando os homens estão desesperados
e as fardas passam em fila,
acendo um sol de Fevereiro,
semeio algumas esperanças
e parto com o meu veleiro
a dar uma volta ao Mundo!





António Cardoso
In “Poemas de circunstância”, 1961

Presença africana




























E apesar de tudo,
ainda sou a mesma!
Livre e esguia,
filha eterna de quanta rebeldia
me sagrou.
Mãe-África!
Mãe forte da floresta e do deserto,
ainda sou,
a irmã-mulher
de tudo o que em ti vibra
puro e incerto!...

- A dos coqueiros,
de cabeleiras verdes
e corpos arrojados
sobre o azul...
A do dendém
nascendo dos abraços
das palmeiras...
A do sol bom,
mordendo
o chão das Ingombotas...
A das acácias rubras,
salpicando de sangue as avenidas,
longas e floridas...

Sim!, ainda sou a mesma.
- A do amor transbordando
pelos carregadores do cais
suados e confusos,
pelos bairros imundos e dormentes
(Rua 11...Rua 11...)
pelos negros meninos
de barriga inchada
e olhos fundos...

Sem dores nem alegrias,
de tronco nu e musculoso,
a raça escreve a prumo,
a força destes dias...

E eu revendo ainda
e sempre, nela,
aquela
longa historia inconsequente...

Terra!
Minha, eternamente...
Terra das acácias,
dos dongos,
dos cólios baloiçando,
mansamente... mansamente!...
Terra!
Ainda sou a mesma!
Ainda sou
a que num canto novo,
pura e livre,
me levanto,
ao aceno do teu Povo!...



Alda Lara
In “Poemas”

Poeminho do contra



























Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!



Mário Quintana

A mulher é a pátria do homem





























Tomei dessa mulher os braços,
a medida das pernas, o
pensamento;

um rosto africano
um busto de rapariga
corpo de líricas
coisa alguma entre
as mãos

ela é húmida e gratuita
faz-me encher o sermão

habita entre as minhas palavras
como a memória que anoitece

e, dos meninos que lhe nascem na língua
das grandes colheitas na nudez espiritual
marca-me a idade do sonho: cresço

e me abismo da história.

sonho a íris a estrela nas suas órbitas
e vivo desse sonho que habita a profundidade

como d’águas que se debruçam
na profundidade
dessa incriação masculina

onde rescrevi os pés.




João Tala