Benguela











Foto de Frederico Sá Pinto, aqui





"obrigado por me teres dado a "Mena", a Irmã que
nunca tive"



Numa das longas conversas,
Que tive com minha Avó
Perguntei-lhe se conhecia Benguela.
A minha Avó respondeu-me:
Conhecer eu não conheço,
Mas já ouvi falar dela.
Perguntei-lhe, se conseguia,
Num mapa localizar.
Ou por seus olhos cansados
Ou porque o mapa era velho.
Precorreu-o de alto a baixo
Não conseguiu encontrar.
Para eu não ficar triste,
Pediu-me lápis de cor,
E em seu estilo Naiff,
Sobre uma folha branca,
Com o castanho fez vários riscos,
Com o vemelho fez bolinhas
Chamou-lhe Acácias em flor.
Dum lado e de outro de um morro,
Desenhou duas baías.
Que mais pareciam contorno,
De dois seios de mulata.
Com o azul pintou o mar,
Com o amarelo fez um sol,
A uma chamou-lhe Azul.
A outra chamou-lhe Farta.
Três praias mais desenhou,
A uma chamou Caota...
E Caotinha à mais pequena.
Mais ao lado, para mim,
A mais bonita...
Chamou-lhe praia Morena
Com o mesmo azul da praia,
Fez um rio.
A preto pintou um barco...
Com o amarelo bananas,
De resto tudo era verde...
Chamou-lhe rio Cavaco.


Segurou naquele desenho,
Como não sabia ao certo,
Em que lugar no mapa,
Deveria colocar!
Disse-me escuta meu neto.
Quando para o sul viajares
E chegares a uma cidade
Com praias maravilhosas,
Com acácias floridas,
E muitas mulheres bonitas,
Nas ruas ou à janela.
Pára...
Porque ou já é, ou estás perto
Dessa Cidade tão linda,
A que chamam de Benguela.




Olimpio C. Neves

(Gentilmente enviado pelo amigo Aires Bustorff)

Soneto





















Maputo, foto daqui




Eu tenho a pagar 10 e na carteira
Apenas tenho 8. Eis a arrelia.

Eis-me buscando em mente uma maneira
De pagar o que devo em demasia.

E fico às vezes nisto todo o dia,
Um dia inteirinho em estúpida canseira.
Se busco distrair-me, de vigia,
Olha-me a rir a dívida grosseira.

E entretanto na rua vão passando
Carros de luxo, altivos salpicando
O lodaçal dos trilhos sobre mim...

E sinto, na revolta, o algarismo,
Do trono do brutal capitalismo,
A rir de nós, os bobos do festim!



Rui de Noronha

Timor-Leste: paixão do poeta



























(...)
«I weep for Adonais
because he is dead».

Eu choro por Adonais
porque morreu.

Não está mal... a tradução,
mas tens razão!
Eu sou português e não
falo com a boca cheia.
Esta mania lusíada
de cuspir no chão é feia.
Nós não vivemos na selva.

E ela, tola-lograda:
- Don't be silly. Há o fado!
I like Fado. Não gostas!
Tu tens a melena cheia
de brilhantina. You look
almost like a fadista!

Passei a mão pela testa
e desgrenhei a madeixa,
dizendo: - Queres morangos,
figos amoras ou beijos...
(...)



Ruy Cinatti
in “Manhã Imensa”

Contrastes



















Na dor contida
as mãos atadas
Na vida ferida
a fé abalada
Na corda bamba
o medo presente
Na cor da esperança
a fuga latente
No sorriso do rosto
discreto desgosto
Na tristeza da face
eternos contrastes



Zena Maciel

What a wonderful world



















Em manobra para aterragem em Mbanza Congo





I see trees of green, red roses too
I see them bloom for me and you
And I think to myself, what a wonderful world

I see skies of blue and clouds of white
The bright blessed day, the dark sacred night
And I think to myself, what a wonderful world

The colours of the rainbow, so pretty in the sky
Are also on the faces of people going by
I see friends shakin' hands, sayin' "How do you do?"
They're really saying "I love you"

I hear babies cryin', I watch them grow
They'll learn much more than I'll ever know
And I think to myself, what a wonderful world
Yes, I think to myself, what a wonderful world

Oh yeah



Louis Armstrong

Ode solitária





















Misturam-se as ideias num concerto atonal,
esvoaçam palavras com a brisa que vem da chana.
Palavras de mensagem que perderam o Norte
como grãos de uma areia leviana
varrendo a paisagem matinal
dum Namibe que cheira ainda a morte.

A solidão do poeta
na sua casa assombrada,
tem a dimensão abissal
dum Kombaditókua no deserto.
Murmúrio de uma vida asceta
com factos cheios de nada,
regressos e batalhas adiadas,
vitórias apenas vislumbradas,
ladainhas de aprendiz de profeta
com uma voz de modelar incerto!
Na casa assombrada do poeta
a maravilhosa criança morreu no feto.

Lá fora ribomba o temporal.
Trovões, aguaceiros, vento em rabanadas
que ameaçam cada vez mais perto
empapando os caminhos da História!
Tempo imoral de fantasmas de gesta
que correm do passado para o futuro.

E a solidão do poeta no ermo da sua casa,
no beiral da tempestade em festa,
entre quatro paredes que não têm tecto,
sobrevive como a estátua equestre
duma velha fraternidade
desprovida de objecto.
Nem mesmo a multidão que manifesta
os formidáveis ideias que já perdeu,
que recita as palavras de ordem
de uma ordem senil e diluída
como a prece do moribundo ateu
que pergunta por deus no fim da vida,
vence o medo e ultrapassa a musa
que pouco a pouco se entranhou de desgraça.

A solidão verdadeira do poeta,
no abraço da multidão confusa
é a solidão de toda a massa
de um povo heróico que perdeu a meta.



Henrique Abranches

Mangas verdes com sal





















Mangas verdes com sal
sabor longínquo, sabor acre
da infância a canivete repartida
no largo semicírculo da amizade.

Sabor lento, alegria reconstituída
no instante desprevenido,
na maré-baixa,
no minuto da suprema humilhação.

Sabor insinuante que retorna devagar
ao palato amargo,
à boca ardida,
à crista do tempo,
ao meio da vida.



Rui Knopfli

Romance de Luanda





















Coqueiros esguios - leques ao vento
abanando a Ilha.

Um dongo flutua
na baia.

E ela, a negra maravilha
condecorada com reflexos de prata
com que o céu a está beijando,
com que o céu a está vestindo,
- adormeceu sonhando
placidamente sorrindo.

Nas águas verdes da baia calma,
caem pétalas vermelhas
de uma linda flor de ónix!

E o timoneiro, um preto atleta,
jovem pescador
é um brutal Cupido,
- é o Deus do Amor
em bronze reproduzido!

Nas águas verdes da baia calma,
caem pétalas de sangue,
duma flor já desfolhada...

Um dongo flutua
na baia.

Vai rompendo a madrugada!



Tomaz Vieira da Cruz
In “Tatuagem - poesia d'África”

Nada mal..

























Se se considerar que foram Doutores e Engenheiros, todos com certificados de habilitações sem mácula e com curriculum vitae cuja dimensão daria para chegar a Alfa Centauri, que lançaram o país á beira do precipicio;

Se se considerar que foram Doutores e Engenheiros, todos impolutos e que nunca meteram uma cunha para si ou para qualquer Engº. Técnico amigalhaço ou do aparelho, que cobriram a política portuguesa de ridículo;

Se se considerar que são Doutores e Engenheiros, todos de «papel passado», primos e familiares dos Purezas, por parte da tia, que têm gerido a coisa pública até ao descalabro e sem qualquer tipo de responsabilidade;

Se se considerar que são exactamente os mesmíssimos Doutores e Engenheiros, carregados de canudos pesadíssimos, que pensam que ao pretenderem ridicularizar esse facto os torna imediatamente competentes;

Considerando o facto de o 1º. ministro, afinal, não passar de um ex-PPD e de estar a fazer o que pelas bandas da S. Caetano sempre apregoaram e nunca fizeram;

Se se pensar que apenas o «melhor português» de todos os tempos fez, pelas finanças públicas, aquilo que Sócrates está a fazer;

Considerando os considerandos há que concluir que a sociedade portuguesa é hipócrita e que por viver de aparências (e assim querer continuar) tenderá a abrir a tumba onde alguns (poucos) lutam pela sobrevivência colectiva;

Considerando que imensos Doutores e Engenheiros, todos eles com quantidade de volumes de MBA's superiores aos do Processo Casa Pia, competentíssimos portanto, para dar uma simples ordem ao porteiro, reunem-se de um séquito imenso de assessores;

Finalmente, porque para se ser líder, basta ter carisma, saber o que quer, como quer e saber coordenar... a escolaridade obrigatória é, para vergonha dos Tios Engenheiros e Doutores, o estritamente necessário.

É óbvio que o Rei vai nú e hoje em dia, felizmente, apenas se deixa enganar, voluntáriamente, quem parte para qualquer liça com «missal» nas mãos...

Acreditem que tenho todas as razões para não gostar de Sócrates, nem um pouco, mas a verdade é que o homem tem valor, tem trabalho feito e não é, naturalmente, a imprensa ao serviço de interesses económicos (sobretudo) e políticos (difícil de engolir, porque o «descrédito» de Sócrates não credibiliza nem a liderança de ninguém nem lhe confere competência) que farão alterar o rumo das medidas tomadas.

Muito duras, injustas umas, cegas outras, mal geridas e aparentemente caóticas, quase todas, mas absolutamente imprescindíveis.

Convenhamos que para um Engº. Técnico (ou estudante de Engenharia) ou mesmo que fosse iletrado... apresentar resultados onde, por si só, os verdadeiros canudos deveriam ser suficientes mas falharam rotundamente... é obra!

Nada mal, senhor 1º. Ministro, continue a estudar.

Quando tiver o verdadeiro canudo imagino o que será capaz de fazer!!

Afixação obrigatória

Vão entender...



























"Quando a última árvore tiver caído,
quando o último rio tiver secado,
quando o último peixe for pescado,
vocês vão entender que dinheiro não se come".



Mahatma Ghandi

Medite-se...
























"Aqui estou eu, descendente dos que povoaram a América há 40 mil anos, para encontrar os que a encontraram só há 500 anos. O irmão europeu da fronteira pediu-me um papel escrito, um visto, para poder descobrir os que me descobriram. O irmão financeiro europeu pede-me o pagamento, com juros, de uma dívida contraída por um Judas, a quem nunca autorizei que me vendesse. Outro irmão europeu explica-me que toda divida é paga com juros, mesmo que para isso sejam vendidos seres humanos e países inteiros sem pedir-lhes consentimento.

Eu também posso reclamar pagamento e juros.
Consta no Arquivo das Índias que somente entre os anos 1503 e 1660 chegaram a São Lucas de Barrameda 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata provenientes da América.
Terá sido isso um saque?
Não acredito porque seria pensar que os irmãos cristãos faltaram ao Sétimo Mandamento!
Teria sido espoliação?
Guarda-me Tanatzin de me convencer que os europeus, como Caim, matam e negam o sangue do irmão.
Teria sido genocídio?
Isso seria dar crédito aos caluniadores, como Bartolomeu de Las Casas ou Arturo Uslar Pietri, que afirma que a arrancada do capitalismo e a actual civilização europeia se devem à inundação de metais preciosos retirados das Américas!

Não, esses 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata foram o primeiro de outros empréstimo amigáveis da América destinados ao desenvolvimento da Europa. O contrário disso seria presumir a existência de crimes de guerra, o que daria direito a exigir não apenas a devolução, mas indemnização por perdas e danos.

Prefiro pensar na hipótese menos ofensiva.
Tão fabulosa exportação de capitais não foi mais do que o início de um plano "MARSHALLTESUMA", para garantir a reconstrução da Europa arruinada por suas deploráveis guerras contra os muçulmanos, criadores da álgebra, da poligamia, do banho diário e outras conquistas da civilização.

Para celebrar o quinto centenário desse empréstimo, poderemos perguntar:
Os irmãos europeus fizeram uso racional, responsável ou pelo menos produtivo desses fundos?
Não.
No aspecto estratégico, delapidaram-no nas batalhas de Lepanto, em navios invencíveis, em terceiros reichs e outras formas de extermínio mútuo, sem outro destino a não ser terminarem ocupados pelas tropas estrangeira da NATO, como no Panamá, mas sem Canal.
No aspecto financeiro foram incapazes, depois de uma moratória de 500 anos, tanto de amortizar o capital e seus juros, quanto independerem das rendas liquidas, as matérias primas e a energia barata que lhes exporta e prove todo o Terceiro Mundo. Este quadro corrobora a afirmação de Milton Friedman, segundo a qual uma economia subsidiada jamais pode funcionar, e nos obriga a reclamar-lhes, para o seu próprio bem, o pagamento do capital e dos juros que, tão generosamente temos demorado todos estes séculos a cobrar.

Ao dizer isto, esclarecemos que não nos rebaixaremos a cobrar de nossos irmãos europeus, as mesmas vis e sanguinárias taxas de 20% e até 30% de juros que os irmãos europeus cobram aos povos do Terceiro Mundo.
Limitar-nos-emos a exigir a devolução dos metais preciosos, acrescida de um módico juro fixo de 10%, acumulado apenas durante os últimos 300 anos, com perdão de 200 anos. Sobre esta base, e aplicando a fórmula europeia de juros compostos, informamos os descobridores que nos são devidos 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata, ambas as quantidades elevadas potência de 300, que supera amplamente o peso total do planeta Terra.

Muito peso em ouro e prata...quanto pesariam calculadas em sangue?

Admitir que a Europa, em meio milénio, não conseguiu gerar riquezas suficientes para pagar esses módicos juros, seria como admitir o mais absoluto fracasso financeiro e a demência irracionalidade dos conceitos capitalistas.

Tais questões metafísicas, desde já, não nos inquietam, índios americanos. Porém exigimos a assinatura de uma carta de intenções que discipline aos povos devedores do Velho Continentes e que os obrigue a cumpri-la, sob pena de uma privatização ou conversão da Europa, de forma que lhes permita entregar suas terras, como primeira prestação da divida histórica... ".




Guaicaípuro Cuatemoc


Discurso irónico, cáustico e de exactidão histórica, proferido por Cuatemoc, cacique de uma nação indígena da América Central, na Conferência dos Chefes de Estado da União Européia, Mercosul e Caribe, em 2002, em Madrid.

Páscoa Feliz




















A todos os amigos e visitantes.
Abraço.

Olhemos os olhos das crianças


















Olhemos os olhos das crianças que eles encerram mistérios;

dentro de suas pupilas moram selvagens bons,
pairam neles as lendas das terras desconhecidas.
Olhemos os olhos das crianças;
quando com eles cruzamos nossos olhos,
há reconhecimentos súbitos
e reminiscências que revivem.
Que ausência de ouro e prata existe neles!
Que verdes potros relincham em suas colinas!
Que indiferença pelas arcas ricas!
Como se parecem com os olhos dos poetas!
Olhemos os olhos da crianças,
desprevenidos de crimes e borrascas,
inconscientes entre o Bem e o Mal
sempre transparentes como a água e o mel.
Olhemos os olhos das crianças,
com seus horizontes claros, claros,
capazes de deixar transparecer
o avô curvado e trêmulo,
o pai de sobrecasaca e a menina mãe.
Fitemos os olhos das crianças
como quem fita um écran
e vê desenrolar-se lá dentro
uma história familiar.
Olhemos os olhos das crianças
para repousar nestes céus sem pensamento
a angústia de procurar pátrias distantes
e as constelações que já morreram.




Jorge de Lima

Soneto ao mar




















amanhã vou acordar cedinho
para ver o sol raiar
e iluminar o caminho
que ao mar me há-de levar

de branco me vou vestir
e minhas tranças soltar
minhas tristezas despir
pra com lágrimas me lavar

vou andar pelo caminho
ao som de hinos e cantos
que eu mesma irei entoar

irei muito de mansinho
e, enfim, afagarei meus prantos
no mar que os há-de levar



Anny Pereira

Sinos d’alma




















Eu não vivo
vivo disperso no mar cósmico
a minha existência é uma nuvem
eu não vivo
porque vivo a inconstância do ser.

Eu não vivo
vivo o grande conflito
entre as estrelas e os deuses
então me esqueço
dissipo-me nas trevas do Universo
então me vendo ao existencialismo de Sartre
e afogo-me no álcool da teodiceia.

Desisto: a vida viveu-me
aspirando os meus parcos desejos.
Não existo:
dei à Vida a minha vida!



Cristóvão Luís Neto

Posteridade



















Um dia eu, que passei metade
da vida voando como passageiro,
tomarei lugar na carlinga
de um monomotor ligeiro
e subirei alto, bem alto,
até desaparecer para além
da última nuvem. Os jornais dirão:
Cansado da terra poeta
fugiu para o céu. E não
voltarei de facto. Serei lembrado
instantes por minha família,
meus amigos, alguma mulher
que amei verdadeiramente
e meus trinta leitores. Então
meu nome começará aparecendo
nas selectas e, para tédio
de mestres e meninos, far-se-ão
edições escolares de meus livros.
Nessa altura estarei esquecido.




Rui Knopfli

A doçura dos teus lábios















hoje vou enviar-te
um poema pela brisa

hás-de recebê-lo
na porta número 69
da rua jota

o poema cantará
o sol dos teus olhos
e falará aos pássaros
a doçura do bairro operário

e mais nos teus lábios a
candura da tua voz será o poema

hoje vou enviar-te
um poema pela brisa



Fernando Kafukeno

Alzheimer...é o que é!












A Procuradoria-Geral da República (PGR) analisou esta quinta-feira o cartaz do Partido Nacional Renovador contra a imigração e concluiu que, «por si só», o cartaz não constitui um crime de «discriminação racial ou religiosa».


Pois não, todos nós é que somos estúpidos!!
Tristeza.
Isto na mesma semana em que estes xenófobos elegeram Salazar como o «melhor» português de sempre.
Semana para riscar da história contemporânea de Portugal. Lamentável!

Mutilações




















a mão
o pé
um braço
o sorriso
a tua meninez

só não
te mutilaram

o espanto





José Mena Abrantes
In “Meninos”

Tudo é fugaz




























6
Tudo é fugaz
entre o desenho do teu pé na areia
e a onda que desfaz
a marca

Entre a guerra e a paz
retorno fisicamente o poema a onda
constante meditação primeira.

Nós e as coisas.

Nada permanece que não seja
para a necessária mudança.
Que o diga o mar.




Manuel Rui Monteiro
in "Mar Novo"

Poema de amor























Os segredos de amor têm profundezas difíceis de alcançar,
tal como a chuva que hoje cai e nos molha na calçada a face,
nós olhando triste uma saudade imensa
num corpo de mulher metamorfoseada.

Sou demasiado são para me esquecer
do tempo apaixonado que vivi nos teus braços
e bebo no teu um coração meu
adormecido no mar do meu cansaço
ou no rio das minhas secas lágrimas.

Tardará muito, se é que as horas contam,
ver-te, de novo, perto de mim, longe,
mas eu espero, sou paciente e, no meu canhenho, aponto,
um dia a menos, o da tua chegada.
E assim me fico, rente ao horizonte,
abrigado da chuva numa cabine telefónica,
e ligo para ti - que número? - ninguém responde
do oceano que avança e retrai colinas,
o vulto de um navio, tu na amurada
acenando um lenço, ó minha pomba branca!...

Como se tempestade houvesse e um naufrágio de chuva
- as vidraças escorrem, as árvores liquefazem-se...-
escurecendo os teus cabelos,
ou, se preferes, a minha boca neles
carregadas de ilhas, de nocturnos perfumes
que ateiam lumes, ó minha idolatrada,
na minh'alma inquieta um outro bater d'asas
ou num jardim um leito de flores!...




Ruy Cinatti

Junho de 1977
in «56 Poemas»

Teo Torriatte (Let Us Cling Together)






When I'm gone
No need to wonder if I ever think of you
The same moon shines
The same wind blows
For both of us, and time is but a paper moon...
Be not gone

Though I'm gone
It's just as though I hold the flower that touches you
A new life grows
The blossom knows
There's no one else could warm my heart as much as you...
Be not gone

Let us cling together as the years go by
Oh my love, my love
In the quiet of the night
Let our candle always burn
Let us never lose the lessons we have learned

Teo torriatte konomama iko
Aisuruhito yo
Shizukana yoi ni
Hikario tomoshi
Itoshiki oshieo idaki

Hear my song
Still think of me the way you've come to think of me
The nights grow long
But dreams live on
Just close your pretty eyes and you can be with me...
Dream on

Teo torriatte konomama iko
Aisuruhito yo
Shizukana yoi ni
Hikario tomoshi
Itoshiki oshieo idaki

When I'm gone
They'll say we're all fools and we don't understand
Oh be strong
Don't turn your heart
We're all
You're all
For all
For always

Let us cling together as the years go by
Oh my love, my love
In the quiet of the night
Let our candle always burn
Let us never lose the lessons we have learned



Queen
In "A Day at the Races"

Oh flor da noite














Oh flor da noite
onde todo o orvalho se perde

teus olhos
não são estrelas
não são colibris

teus olhos
são abismos imensos
onde na escuridão
todo um passado se esconde

teus olhos
são abismos imensos
onde na escuridão
todo um futuro se forma

oh flor da noite
onde todo o orvalho se perde

teus olhos
não são estrelas
não são colibris



Arlindo Barbeitos
In “Angola Angolê Angolema”

Um dendém maduro

















Um dendém maduro
com cana doce
é bom
muitos não comem
porque não têm cana-de-açúcar

Passam à frente da luz
não olham
porque nem todos sabem sentir o perfume

Eu gosto por exemplo
perguntar aos mais velhos
como era noutro tempo

Mas o que eu mesmo gosto mais
é passar as mãos no teu cabelo
quando a nossa boca é só uma




Costa Andrade

Confecção de um poema esfarrapado























confessou: «sou uma aranha preguiçosa.» na época eu representava, p’ra mim mesmo, o papel de andarilho-pedinte. gostei da única teia daquela aranha - ia de encontro à minha ideia de desobjecto. era uma teia muito rota, tinha mais buraco que fio: «é p’ra poupar baba», explicou a aranha, enquanto arrastava um pouco mais a posição. «você gosta de fazer poemas?, leve essa teia consigo. ela apanha mais pessoas que moscas. e responde bem a desejos idiotas.» quis agradecer à aranha, mas ela: «agora desvie-se do caminho do sol.»
hoje em noite imito a aranha preguiçosa: por vezes deixo essa teia aberta no meio de nenhuma tarde. por vezes estendo a teia numa madrugada brilhante. de manhã encontro na teia fiapos inexplicáveis da natureza e da natureza das pessoas. guardo sempre no bolso um pouco da baba que essa aranha me ofertou. com fios dessa baba faço remendos nesses fiapos, tal igual a tia maria fazia aquelas almofadas bonitas na sala da nossa infância. a confecção de poemas a partir de fiapos inconcretos é uma arte diferente da feitura de almofadas, até porque as almofadas podem ainda ter utilidade apalpável.
tenho pena que a tia maria não tenha cruzado a berma da estrada desta aranha. incríveis almofadas teriam ornamentado a nossa infância...




Ndalu de Almeida

Grande ardósia


























um homem triste sabe guiar-se nos labirintos da grande ardósia. um poeta ilumina as suas lágrimas com a escuridão do universo. na baba mais suja de uma lesma aparecem reflexos leves de estrelas ascendentes. havia um velho muito velho que falava assim: «a grande ardósia é o verdadeiro telhado do mundo.» as lágrimas das pessoas tristes, inundadas de coisas profundas, são por vezes chamadas de estrelas. [esse velho lhes chama «acesas janelas».]
é preciso ter calos nas mãos para afagar a grande ardósia. ou muita doçura campestre. alguns humanos teimam em chamar «universo» à grande ardósia. [ela nunca se ofendeu.]




Ndalu de Almeida

A terra que te ofereço























1
Quando,
ansiosa,
pela primeira vez
pisares
a terra que te ofereço,
estarei presente
para auscultar,
no ar,
a viração suave do encontro
da lua que transportas
com a sólida
a materna nudez do horizonte.

Quando,
ansioso,
te vir a caminhar
no chão de minha oferta,
coloco,
brandamente,
em tuas mãos,
uma quinda de mel
colhido em tardes quentes
de irreversível
votação ao Sul.


2
Trago
para ti
em cada mão
aberta,
os frutos mais recentes
desse Outono
que te ofereço verde:
o mês mais farto de óleos
e ternura avulsa.
E dou-te a mão
para que possas
ver,
mais confiante,
a vastidão
sonora
de uma aurora
elaborada em espera
e reflectida
na rápida torrente
que se mede em cor.


3
Num mapa
desdobrado para ti,
eu marcarei
as rotas
que sei já
e quero dar-te:
o deslizar de um gesto,
a esteira fumegante
de um archote
aceso,
um tracejar
vermelho
de pés nus,
um corredor aberto
na savana,
um navegável
mar de plasma
quente.



Ruy Duarte de Carvalho
In “A decisão da idade”

São Tomé na equador


























Hoje o Sol passou a pique por aqui.
Foto de Décio Lopes em Caminhadas e Descoberta em STP





São Tomé bô tem uns tonte di nos
Bô é parte d'nos storia e nos dor
Na bô seiva bô tem Bantu, Crioulo e Angolan

São Tomé bô tem uns tonte di nôs
Bô é parte d'nôs estoria e nôs dor
São Tomé na bô veia ta corrê um so sangue

Bô fui lugar di sofrimento, ma ligria bô podê da
S'tud bôs fidje bô contempla
São Tomé bô tem riqueza

Ma fortuna maior é valor e amor
Di tude bôs fidje
E sês vontade na vivê djunt'
Num terrinha ondé verde é mas verde

São Tomé, São Tomé
Ka esquecê quem pa bô luta
São Tomé, São Tomé
Na equador di nos dor

São Tomé, São Tomé
Caminho longe ja vra mas perto
Bem mas perto di bô futuro
Passode é so peso

Ressentimento ka ta construi
Realidade é perdâo
E perdâo podê ser uniâo
Di tud bôs fidje, São Tomé


Cesária Évora









Meu amor, eu te falo de um amor


























Meu amor, eu te falo de um amor
que toma a forma de todos os poderes do tempo
que tenha os compassos na duração da vida
e que se reconheça em um só ser
e um sem o outro sintam-se como que decantados.
Eu te falo de um amor de reconhecimentos antigos
e de encontros perpétuos
de um feixe de luz pousado sobre tua fronte
em direção aos pontos cardeais do seu corpo.
Eu te falo do fundo dos desesperos
e das horas de lentidão extrema.

Meu amor
dos olhos secos
da alma negra
dos cabelos ruivos

Teus filetes alongados escoam-se pelas minhas pernas de Cigana Vesperal!
Nossos suspiros marcam no Espaço uma confusão de estrelas entrelaçadas
de Mercúrio
e o nosso signo fala da mesma fórmula que extende os limites do
Sobrenatural ao Humano
Nossos poderes vinculam-se aos mistérios no Universo das coisas
e transformam a vida num bater eterno,
como da asa das borboletas.
O movimento volitivo que alimenta o homem encontrou em nós
sua bola de cristal de propriedades encantatórias
os pecados incestuosos de nossas noites
marcam,
mais uma vez,
a despedida dos olhares mascarados em retornos e monumentos de
prazeres imensos.

Meu amor
eu te falo pela língua da víbora
pelos dons dos castelos em ruínas
e pelas fogueiras armadas em meu coração
Eu te falo pelo delicado prisma que escolheste para amar
Meu amor
a vida faz parte do mistério do encontro das pessoas
que habitam as terras estranhas.

Meu amor
as circunstâncias do desespero são sempre apaixonadas...




Leila Ferraz Lima
In A PHALA – Revista do Movimento Surrealista