A dor que em mim mora não é o mal no meu corpo carne destinada à terra húmida última guardiã do sofrimento
pois esse já fiz oferenda ao mais Homem de todos os Homens mumificado pela injustiça humana que estrangula o nosso ser
a dor que em mim mora é a que vi em Bissau é a que viveram na travessia para Dakar é a que viveram na travessia para Cabo Verde é a que vejo no corpo dos outros
Em 2005, o fotógrafo Peter Menzel e a escritora Faith D'Aluisio lançaram, Hungry Planet: What the World Eats.
Cada capítulo retrata uma famíla e o que ela consome durante uma semana.
Acima a família Aboubakar, em Darfur, no Sudão. Abaixo a família Melander, em Bargteheide, Alemanha.
As listas detalhadas bem como os valores gastos estão aqui. De que modo a situação se terá alterado?
Da Cimeira de Rostok saiu mais um bocado de nada para os africanos. Não quero ser maldoso mas a semelhança com os chás de caridade vem-me sempre á memória... Fico sempre com a sensação de que a ajuda nada mais é que o pagamento para que África fique com os seus problemas e não os exporte.
Terra vermelha do Lépi és minha mãe Mãe-Terra que aos filhos dá mais do que a vida uma razão
Razão de águia águia transformada no soba dos espaços e das espinheiras cruas.
Terra vermelha do Lépi calma sombra das mangueiras sobre o chão vermelho rocha negra do saber de ferro a água sabe à voz materna
Águia de pedra embala onde sentaram régios Mussindas de vento em gerações de luar gritando ao vale profundo aos muxitos e ás mulembas velhas a superfície larga do barro do corpo negro dos filhos
A hora que anda na angústia forte da esperança e na alegria trágica e cansada de não esperar.
Quando a hora chegar...
Essa hora com bandeiras, bandeiras e bandeiras e multidões vibrantes a passar para dizer aos homens do passado, para dizer aos homens do futuro, para dizer presente e continuar.
Quando a hora chegar...
Há crianças sem pai, há crianças sem mãe, que hão-de por risos novos sobre a boca que ainda não tem pão; que hão-de pôr brilhos novos sobre os olhos que ainda vão chorar; que hão-de pôr forças novas no combate que vai recomeçar.
Quando a hora chegar...
Cimentada com lágrimas e sangue e dor e ansiedade e medo de a perder...
Ah!, levem-me também, eu vou também! ( Eu quero ter esta certeza se não sobreviver!)...
Preto na tonga voluntário contratado preto-prato-colher manta-sandália: seus pertences nas estradas de Angola.
Monangamba de vinte angolares por dia fuba-peixe seco-óleo de palma esteira na cama de tábua nua. Monandengues de dez angolares: meninos sem escola no café robusta de Angola que brincam de gente adulta com a experiência do mundo nos olhos e barriga grande na infância da vida.
Banana. Palmar. Dendém. Café robusta de Angola
E os meninos sem mãe as mães sem marido e os homens sem mulher pelas estradas de Angola.
Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.
Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Às vezes se assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la – como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes a galope.
Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo nas minhas mãos. E este desejo todos os que escrevem têm. Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança da língua já feita. Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.
Essas dificuldades, nós as temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.
Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.
Regressei de outros mares Trazendo em cada mão uma lembrança. Antiga ou nova. Minha ou alheia. Regressei docemente de outros mares Trazendo gravado em cada mão muitas lembranças Muitas canções. Muitas esperanças.
Com os desengraxados meus autopés de luxo número 40 tipo escuro de biqueira estilo metatarsos de nascença directamente autopisando os alcatrões no verão percorro este universo emigrando diariamente no interior africano deste território minha pátria escondido no meu País.
Mas não interessa aprofundar os trinta dias seguidos por mês sem uma única folga sequer aos domingos. Que os meus olhos no tabu das montras das sapatarias consomem mil modelos de sapatos subjectivos incompráveis por mim.
E no limiar dos restaurantes exóticos ao meu nariz agredido pelo cheiro da comida chegam bifes totalmente abstractos e Pavlov põe-me a mastigar saborosos menus de nada.
Amigos. Naturalmente se eu fosse poeta em vez de gente isto seria com certeza o tema de uma poesia africana com meias solas de asfalto nos pés descalços sapatos por comprar comida por comer e muito povo à mistura.
Mas como sou apenas um homem como toda a gente a transitar na cidade com autopés de luxo número 40 em vez de uma poesia mais ou menos africana FICA ASSIM!
O post da Phwo que nos remete para mais uma monstruosa obscenidade do poder em Angola.
"O Inferno existe à face da terra e não só no Zimbabué ou na Coreia do Norte", escreve Armando Rocheteau no 2+2=5. Aung San Suu Kyi sabe-o melhor que ninguém! Liberdade, já!
Com atrazo... indesculpável (no mínimo) dou as boas vindas a mais um magnífico volume da série Chuinga, da amiga Isabella Oliveira. Já vai no quinto! Parabéns. Pelo volume e pelo aniversário, mesmo que tenha já encerrado as comemorações.
Fica ainda o solene anúncio que a minha particular e talentosa amiga Célia Silva regressou ás lides, renascida das cinzas para um voo que, esperamos todos, seja grandioso. Força, amiga! Mostra aí todo o teu talento.
Fico malaíko com as cenas que constato Queres ver Luanda, vê primeiro Ecos e Factos Se água tem, energia não tem. Se energia tem, água não tem, nem tudo tá sebem. A maioria não se importa é só tchillar Sexta farrar, sábado no bar, segunda a kubar. E Luanda vai morrendo lentamente. Sem jovens para erguer uma capital diferente. Se não formos nós, quem fará por nós? O estrangeiro explora e foge nunca querer saber de nós. Não há estrilho, para tudo existe um prazo. Nossa existência não é obra do acaso. Digam de que forma a gente vai criticar, vai relatar, não só Luanda, Angola vai mudar.
Só a mudança para sarar minha ferida, ua ué Luanda, amor da minha vida.
Essa é a minha, a tua, a nossa, vossa banda. Essa é a minha, a tua, a nossa, vossa Luanda.
A preto e branco, como vês, nua e crua, crua e nua, conclusões efectua O kimbundo? nana. O português? Fala-se mal! Não é normal, em termos de linguagem, tá-se mal. Luz, niente, água, niente. É melhor eu me calar para não ser inconveniente. O tempo da TPA, quase todo já foi-se. Porque quase todos têm em casa, a Multichoice. Channel O, MTV, KTV, CBC, SIC, Globo, RTPI. Sim, a globalização tem força, vemos outras culturas e esquecemo-nos da nossa. Tu vês que eu não falo a toa. Roulottes em Luanda é tipo cafés em Lisboa. Reparem só, analisem com atenção: sobre o preço da gasolina, sobre o preço do pão. Sobe quase tudo, só o salário que não. Bwé de makas, bwé de estrilhos, bwé de kilingas mayuya.
Mas mesmo assim, minha Luanda kuia. Mas 'inda assim, minha Luanda kuia. Mas mesmo assim, minha Luanda kuia. Mas 'inda assim, minha Luanda kuia.
Bem-vindo a Luanda, a cidade que acontece, onde todos são pausados, todos são kaenches, onde há bwé de problemas, mas ninguém tá preocupado. Muitos passam fome, mas tão sempre bem grifados. Não há retalhos, problemas é a grosso. Tá na moda formar grupo e dar com catana nos outros. Tem dicas para rir, tem dicas pra chorar. E o Luandense até nos óbitos, gosta de se mostrar. Isso é Luanda, ninguém respeita nada. Com conversa, não se entendem, só se entendem com porrada. Fico malaíko com o clima da cidade, na porta da discoteca, todos são celebridade Ninguém pode esperar, todo mundo quer ser visto. "Hey brother, sou VIP". Comé, brother, evita isso! Esse mambo tá empestado de ilusão, Luanda é uma selva onde todos querem ser o leão.
O que nós não vimos donde escorria o suor da surucucu que caía gota a gota sobre aquela terra.
Um colar de platina ou as mãos cheias de missangas deste modo me prendeste às flores de laranjeira que não tive.
Busco o teu corpo como a sombra das tamareiras. Dás-me de beber e eu deslizo pela corrente dessa água.
Tu és o meu oásis e dispo os meus véus em cada palmeira. Fomos peregrinos de tantos lugares e de gentes de outras línguas bebemos água de muitas fontes.
Mas àquela cachoeira que nos pertencia não podíamos chegar. Prenderam-nos no exílio e na tortura de a sonhar.
Não somos mais peregrinos, estamos em outro lugar. Mas viaja a alma para nessa cachoeira mergulhar. Calar essa voz que no caos do mundo, dulcíssima e magoada, não é senão um sopro fora dos caminhos.
Recolher ao útero quente e macio não pelo cordão, perdido para sempre, mas por essa voz silenciada
Quem pode impedir a Primavera Se as árvores se vão cobrir de flores E o homem se sentiu sorrir à Vida?
Quem pode impedir a surda guerra Que vai nos campos deslocando as pedras - Mudas comparsas no ritmo das estações - E da terra inerte ergueu milhares de lanças Que a tremer avançam, cintilantes, para o limite Em que a luz aquosa se derrama Como um mar infinito onde o arado Abre caminho misterioso à seiva inquieta!
Quem pode impedir a Primavera Se estamos em Maio e uma ternura Nos faz abrir a porta aos viandantes E o amor se abriga em cada um dos nossos gestos.
Quem?... Se os sonhos maus do Inverno dão lugar à Primavera!
Em teus dentes o sol é diamante de fantasia a lua caco-de-garrafa e a mentira verdade vagabunda errando de cágado em torno da lagoa dos olhos da noite na treva aveludada de tua pele os dedos curiosos são estrelas de marfim à busca de um dia caprichoso despontando de miragem por detrás das corcundas de elefantes adormecidos
domesticadas asas estrebucham o ancestral sonho sitiado que a exiguidade geométrica da gaiola calca enquanto ouvimos rádio na sala de estar
dura um instante infinitesimal a pausa do locutor e nesse vazio breve oportuno subversivo o pássaro entoa as cores do arco-íris os sons fluem em cascata através dos arames e estacam na sala - vá tu saber se o bicho está triste ou alegre"
Simeão Cachamba
Xirico: pássaro e marca de transístor muito popular
Gostaria de hoje (e sempre) ter a convicção absoluta que estamos a construir um mundo melhor para as nossas crianças. Receio, porém, que a reputação da nossa geração não venha a ser, justamente, muito favorável no futuro. Temos tudo para lhes legar um mundo melhor! Porque não o fazemos?
O visionamento do clip dispensa quaisquer palavras. Não dispensa uma pergunta: - Em Portugal, algum dos 3 grandes teria a mesma atitude da equipa do Ajax Amsterdham??
Uma espécie de céu, Um pedaço de mar, Uma mão que doeu, Um dia devagar. Um Domingo perfeito, Uma toalha no chão, Um caminho cansado, Um traço de avião.
Uma sombra sozinha, Uma luz inquieta, Um desvio na rua, Uma voz de poeta.
Uma garrafa vazia, Um cinzeiro apagado, Um Hotel numa esquina, Um sono acordado. Um secreto adeus, Um café a fechar, Um aviso na porta, Um bilhete no ar.
Uma praça aberta, Uma rua perdida, Uma noite encantada Para o resto da vida.
Pedes-me um momento, Agarras as palavras, Escondes-te no tempo Porque o tempo tem asas. Levas a cidade Solta no cabelo, Perdes-te comigo Porque o mundo é um momento.
Uma estrada infinita, Um anúncio discreto, Uma curva fechada, Um poema deserto. Uma cidade distante, Um vestido molhado, Uma chuva divina, Um desejo apertado.
Uma noite esquecida, Uma praia qualquer, Um suspiro escondido Numa pele de mulher.
Um encontro em segredo, Uma duna ancorada, Dois corpos despidos, Abraçados no nada. Uma estrela cadente, Um olhar que se afasta, Um choro escondido Quando um beijo não basta.
Um semáforo aberto, Um adeus para sempre, Uma ferida que dói, Não por fora, por dentro.
Pedes-me um momento, Agarras as palavras, Escondes-te no tempo Porque o tempo tem asas. Levas a cidade Solta no cabelo, Perdes-te comigo Porque o mundo é um momento.
Tambor está velho de gritar Oh velho Deus dos homens deixa-me ser tambor corpo e alma só tambor só tambor gritando na noite quente dos trópicos.
Nem flor nascida no mato do desespero Nem rio correndo para o mar do desespero Nem zagaia temperada no lume vivo do desespero Nem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero.
Nem nada!
Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terra Só tambor de pele curtida ao sol da minha terra Só tambor cavado nos troncos duros da minha terra.
Eu Só tambor rebentando o silêncio amargo da Mafalala Só tambor velho de sentar no batuque da minha terra Só tambor perdido na escuridão da noite perdida.
Oh velho Deus dos homens eu quero ser tambor e nem rio e nem flor e nem zagaia por enquanto e nem mesmo poesia. Só tambor ecoando como a canção da força e da vida Só tambor noite e dia dia e noite só tambor até à consumação da grande festa do batuque! Oh velho Deus dos homens deixa-me ser tambor só tambor!
Se me perguntares Quem sou eu Cavada de bexiga de maldade Com um sorriso sinistro Nada te direi Nada te direi
Mostrarte-ei as cicatrizes de séculos Que sulcam as minhas costas negras Olhar-te-ei com olhos de ódio Vermelhos de sangue vertido durante séculos Mostrar-te-ei minha palhota de capim A cair sem reparação Levar-te-ei às plantações Onde sol a sol Me encontro dobrado sobre o solo Enquanto trabalho árduo Mastiga meu tempo Levar-te-ei aos campos cheios de gente Onde gente respira miséria em toda a hora Nada te direi
Mostrar-te-ei somente isto E depois Mostrar-te-ei os corpos do meu Povo Tombados por metralhadoras traiçoeiras, Palhotas queimadas por gente tua Nada te direi
Em cada esquina sentinelas vigilantes incendeiam olhares em cada casa se substituem apressadamente os fechos velhos das portas e em cada consciência fervilha o temor de se ouvir a si mesma
A historia está a ser contada de novo
Medo no ar!
Acontece que eu homem humilde ainda mais humilde na pele negra me regresso África para mim com os olhos secos.
Eu sou tudo e sou nada Mas busco-me incessantemente Não me encontro ! Oh farrapos de nuvens, passarões não alados levai-me convosco ! Jà nâo quero esta vida Quero ir nos espaços para onde nâo sei
Amílcar Cabral In "Emergência da poesia em Amilcar Cabral" de Oswaldo Osorio
"Maianga Maianga Bairro antigo e popular Da velha Luanda Com palmeiras ao luar ..."
''A Praia do Bispo Cheiinha de graça De manha á noite sorri a quem passa ..."
(das Marchas Populares em Luanda)
Longo era o bairro ao longo da marginal Longo era o bairro do morro de S. Miguel ao morro da Samba Grande era o bairro e grandes as casas No meio o bairro operário e a igreja de S.Joaquim, estreitas as ruas, pequenas as casas.
Nas traseiras, o morro, no alto o Palácio, Na frente a larga avenida, o paredão, as palmeiras e os coqueiros a praia que já não era do Bispo mas das pedras, dos limos e dos detritos.
Mais além a ilha que era península com a sanzala dos pescadores casas de colmo no areal da extensa e boa praia o mar sem fim.
Em Luanda nasci Em Luanda vivi Em Luanda estudei
Não Angola mas Portugal Todos os rios e afluentes Todas as linhas férreas e apeadeiros Todas as cidades e vilas Todos os reis e algumas batalhas as plantas e animais que não eram do meu país.
De Angola pouco sabíamos até ao 4 de Fevereiro, até ao 15 de Março Veio a guerra e a mentira que alimenta a Guerra, Veio a guerra e a violência veio a guerra e a liberdade.
Em Évora a 11 de Novembro Em Luanda a bandeira do meu país no mastro subiu. Era o tempo da liberdade e da esperança.
No Porto Em Lisboa Em Évora estudei Em Évora casei Em Évora vivi e nasceram o Rui e a Susana.
Em Setúbal moro e no Barreiro trabalho
Perdidos os amigos, perdida a infância Estrangeiro sem raízes sou em Portugal.