Sofrimentos














A dor que em mim mora
não é o mal no meu corpo
carne destinada à terra húmida
última guardiã do sofrimento

pois esse já fiz oferenda
ao mais Homem de todos os Homens
mumificado pela injustiça humana
que estrangula o nosso ser

a dor que em mim mora
é a que vi em Bissau
é a que viveram na travessia para Dakar
é a que viveram na travessia para Cabo Verde
é a que vejo no corpo dos outros



Carlos-Edmilson M. Vieira
in "Um cabaz de amores"

A Cimeira de Rostok e o Planeta da Fome

Em 2005, o fotógrafo Peter Menzel e a escritora Faith D'Aluisio lançaram, Hungry Planet: What the World Eats.




Cada capítulo retrata uma famíla e o que ela consome durante uma semana.

















Acima a família Aboubakar, em Darfur, no Sudão.
Abaixo a família Melander, em Bargteheide, Alemanha.


















As listas detalhadas bem como os valores gastos estão aqui.
De que modo a situação se terá alterado?

Da Cimeira de Rostok saiu mais um bocado de nada para os africanos.
Não quero ser maldoso mas a semelhança com os chás de caridade vem-me sempre á memória... Fico sempre com a sensação de que a ajuda nada mais é que o pagamento para que África fique com os seus problemas e não os exporte.

Será?

Mãe-Terra

















Terra vermelha do Lépi és minha mãe
Mãe-Terra que aos filhos dá
mais do que a vida uma razão

Razão de águia
águia transformada
no soba dos espaços
e das espinheiras cruas.

Terra vermelha do Lépi
calma sombra das mangueiras
sobre o chão vermelho
rocha negra do saber de ferro
a água sabe à voz materna

Águia de pedra
embala onde sentaram
régios Mussindas de vento
em gerações de luar
gritando ao vale profundo
aos muxitos
e ás mulembas velhas
a superfície larga do barro
do corpo negro dos filhos



Costa Andrade

Quando a hora chegar...
















A hora
que anda na angústia forte da esperança
e na alegria trágica e cansada
de não esperar.

Quando a hora chegar...

Essa hora
com bandeiras, bandeiras e bandeiras
e multidões vibrantes a passar
para dizer aos homens do passado,
para dizer aos homens do futuro,
para dizer presente
e continuar.

Quando a hora chegar...

Há crianças sem pai,
há crianças sem mãe,
que hão-de por risos novos sobre a boca
que ainda não tem pão;
que hão-de pôr brilhos novos sobre os olhos
que ainda vão chorar;
que hão-de pôr forças novas no combate
que vai recomeçar.

Quando a hora chegar...

Cimentada com lágrimas e sangue
e dor
e ansiedade
e medo de a perder...

Ah!, levem-me também,
eu vou também!
( Eu quero ter esta certeza
se não sobreviver!)...




Cochat Osório
1966

Yamore




Salif Keita & Cesária Évora

Tonga

















Banana. Palmar. Dendém.
Café robusta de Angola.

Preto na tonga
voluntário
contratado
preto-prato-colher
manta-sandália:
seus pertences nas estradas de Angola.

Monangamba de vinte angolares por dia
fuba-peixe seco-óleo de palma
esteira na cama de tábua nua.
Monandengues de dez angolares:
meninos sem escola
no café robusta de Angola
que brincam de gente adulta
com a experiência do mundo nos olhos
e barriga grande na infância da vida.

Banana. Palmar. Dendém.
Café robusta de Angola

E os meninos sem mãe
as mães sem marido
e os homens sem mulher
pelas estradas de Angola.



Cândido da Velha

Confissão de amor



















Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.

Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Às vezes se assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la – como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes a galope.

Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo nas minhas mãos. E este desejo todos os que escrevem têm. Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança da língua já feita. Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.

Essas dificuldades, nós as temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.

Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.



Clarice Lispector
In "A Descoberta do Mundo"

Regressei

















Regressei de outros mares
Trazendo em cada mão uma lembrança.
Antiga ou nova.
Minha ou alheia.
Regressei docemente de
outros mares
Trazendo gravado em cada mão muitas lembranças
Muitas canções.
Muitas esperanças.




Garcia Bires

In “Olheando”

Tema para um possível poema



















Com os desengraxados
meus autopés de luxo número 40 tipo escuro
de biqueira estilo metatarsos de nascença
directamente autopisando os alcatrões no verão
percorro este universo emigrando
diariamente no interior africano
deste território minha pátria
escondido no meu País.

Mas não interessa
aprofundar os trinta dias seguidos por mês
sem uma única folga sequer aos domingos.
Que os meus olhos no tabu das montras
das sapatarias consomem mil modelos
de sapatos subjectivos
incompráveis por mim.

E no limiar dos restaurantes exóticos
ao meu nariz agredido pelo cheiro da comida
chegam bifes totalmente abstractos
e Pavlov põe-me a mastigar
saborosos menus de nada.

Amigos.
Naturalmente se eu fosse poeta em vez de gente
isto seria com certeza o tema de uma poesia africana
com meias solas de asfalto nos pés descalços
sapatos por comprar
comida por comer
e muito povo à mistura.

Mas como sou apenas um homem como toda a gente
a transitar na cidade com autopés de luxo número 40
em vez de uma poesia mais ou menos africana
FICA ASSIM!



José Craveirinha
(1964)

A ler

O post da Phwo que nos remete para mais uma monstruosa obscenidade do poder em Angola.


"O Inferno existe à face da terra e não só no Zimbabué ou na Coreia do Norte", escreve Armando Rocheteau no 2+2=5.
Aung San Suu Kyi sabe-o melhor que ninguém!
Liberdade, já!


Com atrazo... indesculpável (no mínimo) dou as boas vindas a mais um magnífico volume da série Chuinga, da amiga Isabella Oliveira. Já vai no quinto!
Parabéns. Pelo volume e pelo aniversário, mesmo que tenha já encerrado as comemorações.


Fica ainda o solene anúncio que a minha particular e talentosa amiga Célia Silva regressou ás lides, renascida das cinzas para um voo que, esperamos todos, seja grandioso.
Força, amiga!
Mostra aí todo o teu talento.

Luanda


















Fico malaíko com as cenas que constato
Queres ver Luanda, vê primeiro Ecos e Factos
Se água tem, energia não tem.
Se energia tem, água não tem,
nem tudo tá sebem.
A maioria não se importa é só tchillar
Sexta farrar,
sábado no bar,
segunda a kubar.
E Luanda vai morrendo lentamente.
Sem jovens para erguer uma capital diferente.
Se não formos nós, quem fará por nós?
O estrangeiro explora e foge
nunca querer saber de nós.
Não há estrilho, para tudo existe um prazo.
Nossa existência não é obra do acaso.
Digam de que forma a gente vai criticar,
vai relatar, não só Luanda,
Angola vai mudar.

Só a mudança para sarar minha ferida,
ua ué Luanda, amor da minha vida.

Essa é a minha, a tua, a nossa, vossa banda.
Essa é a minha, a tua, a nossa, vossa Luanda.

A preto e branco, como vês, nua e crua,
crua e nua,
conclusões efectua
O kimbundo? nana.
O português? Fala-se mal!
Não é normal,
em termos de linguagem, tá-se mal.
Luz, niente, água, niente.
É melhor eu me calar para não ser inconveniente.
O tempo da TPA, quase todo já foi-se.
Porque quase todos têm em casa, a Multichoice.
Channel O, MTV, KTV, CBC, SIC, Globo, RTPI.
Sim, a globalização tem força,
vemos outras culturas e esquecemo-nos da nossa.
Tu vês que eu não falo a toa.
Roulottes em Luanda é tipo cafés em Lisboa.
Reparem só, analisem com atenção:
sobre o preço da gasolina, sobre o preço do pão.
Sobe quase tudo, só o salário que não.
Bwé de makas, bwé de estrilhos, bwé de kilingas mayuya.

Mas mesmo assim, minha Luanda kuia.
Mas 'inda assim, minha Luanda kuia.
Mas mesmo assim, minha Luanda kuia.
Mas 'inda assim, minha Luanda kuia.

Bem-vindo a Luanda, a cidade que acontece,
onde todos são pausados, todos são kaenches,
onde há bwé de problemas, mas ninguém tá preocupado.
Muitos passam fome, mas tão sempre bem grifados.
Não há retalhos, problemas é a grosso.
Tá na moda formar grupo e dar com catana nos outros.
Tem dicas para rir, tem dicas pra chorar.
E o Luandense até nos óbitos, gosta de se mostrar.
Isso é Luanda, ninguém respeita nada.
Com conversa, não se entendem,
só se entendem com porrada.
Fico malaíko com o clima da cidade,
na porta da discoteca, todos são celebridade
Ninguém pode esperar, todo mundo quer ser visto.
"Hey brother, sou VIP". Comé, brother, evita isso!
Esse mambo tá empestado de ilusão,
Luanda é uma selva onde todos querem ser o leão.



Kalibrados








O que nós não vimos






















O que nós não vimos
donde escorria
o suor da surucucu
que caía
gota a gota
sobre aquela terra.

Um colar de platina
ou
as mãos cheias de missangas
deste modo me prendeste
às flores de laranjeira
que não tive.

Busco o teu corpo
como a sombra das tamareiras.
Dás-me de beber
e eu deslizo pela corrente
dessa água.

Tu és o meu oásis
e dispo os meus véus
em cada palmeira.
Fomos peregrinos de tantos lugares
e de gentes de outras línguas
bebemos água de muitas fontes.

Mas àquela cachoeira
que nos pertencia
não podíamos chegar.
Prenderam-nos no exílio
e na tortura de a sonhar.

Não somos mais peregrinos,
estamos em outro lugar.
Mas viaja a alma
para nessa cachoeira mergulhar.
Calar essa voz
que no caos do mundo,
dulcíssima e magoada,
não é senão um sopro
fora dos caminhos.

Recolher ao útero
quente e macio
não pelo cordão,
perdido para sempre,
mas por essa voz
silenciada



Maria Alexandre Dáskalos

N'gola - Flor de bronze























Filha de branco que morreu na guerra
e de uma preta linda do Libolo,
o teu olhar até de noite encerra
todo o luar das lendas do Catolo!

Ó flor estranha! já não tem consolo
a tua magoa, a tua dor na terra!
Ó flor estranha do febril Capolo
neta dum soba que perdeu a guerra!

Estátua ardente em bronzeadas chamas
que tentação e perdição derramas
por sobre a história negra, quase finda!

Neta dum soba que acabou chorando,
filha de branco que morreu lutando
e duma preta tristemente linda!




Thomaz Vieira da Cruz

Quem pode impedir a Primavera


















Quem pode impedir a Primavera
Se as árvores se vão cobrir de flores
E o homem se sentiu sorrir à Vida?

Quem pode impedir a surda guerra
Que vai nos campos deslocando as pedras
- Mudas comparsas no ritmo das estações -
E da terra inerte ergueu milhares de lanças
Que a tremer avançam, cintilantes, para o limite
Em que a luz aquosa se derrama
Como um mar infinito onde o arado
Abre caminho misterioso à seiva inquieta!

Quem pode impedir a Primavera
Se estamos em Maio e uma ternura
Nos faz abrir a porta aos viandantes
E o amor se abriga em cada um dos nossos gestos.

Quem?...
Se os sonhos maus do Inverno dão lugar à Primavera!



Ruy Cinatti
In “Nós não somos deste mundo”

Em teus dentes

















Em teus dentes
o sol
é diamante de fantasia
a lua
caco-de-garrafa
e
a mentira
verdade vagabunda
errando de cágado
em torno da lagoa dos olhos da noite
na treva aveludada
de tua pele
os dedos curiosos
são estrelas de marfim
à busca
de um dia caprichoso
despontando de miragem
por detrás das corcundas
de elefantes adormecidos



Arlindo Barbeitos

Xirico





























domesticadas asas estrebucham
o ancestral sonho sitiado que
a exiguidade geométrica da gaiola calca
enquanto ouvimos rádio na sala de estar

dura um instante infinitesimal a pausa do locutor
e nesse vazio
breve
oportuno
subversivo o pássaro entoa as cores do arco-íris
os sons fluem em cascata através dos arames
e estacam na sala
- vá tu saber se o bicho está triste ou alegre"



Simeão Cachamba




Xirico: pássaro e marca de transístor muito popular

Fruta


















Quitanda de fruta verde,
dá-me um gomo de laranja
para matar a sede.

Ou, então, será melhor
dar-me um veneno qualquer
porque eu ando perturbado
e o meu sonho anda queimado
por uns olhos de mulher!

- Minha senhora, laranja,
limão, fresquinho, caju,
ananás ou abacate!...

E a quitandeira passou,
saudável, viva, graciosa,
com uma flor desfolhada
no seu sorriso escarlate.

E no ar um som de musica ficou
e um perfume de fruta
que não matou minha sede

Oh agridoce quitanda
da fruta verde!...



Tomás Vieira da Cruz

Se o Amor voltasse















Eu sei que o amor
nos visitou
mas nós não estávamos
atentos


Tínhamos dezoito anos
e éramos velozes
como os corcéis na pradaria
e efémeros como as flores
que morrem
na estação das chuvas


Hoje se o amor voltasse
eu sei que o reconheceríamos
pela ansiedade
que provoca
e pelo brilho que nos deixa
no olhar


Mas maduros
talvez não o aceitássemos
porque lavrado
o seu incêndio
sobre os meridianos
do coração
pouca certeza teríamos
de sobreviver.



Rui Augusto

1 de Junho




Gostaria de hoje (e sempre) ter a convicção absoluta que estamos a construir um mundo melhor para as nossas crianças.
Receio, porém, que a reputação da nossa geração não venha a ser, justamente, muito favorável no futuro.
Temos tudo para lhes legar um mundo melhor! Porque não o fazemos?


Ilha de Moçambique

Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket



Imagens daqui


Ilha de oiro e angustia
Feita de sol e de prata
Marfim talhado em relíquias
Cobre batido do vento
Num moinho de saudades.

Fortaleza escancarada
A memórias esquecidas...

Senhora do Baluarte velando
As brancas velas do Canal.

Sermões de S. Francisco Xavier
Guardados nas rochas de coral.

Riquexós vagueando ao sol
Brancas praias sonolentas
Enfeitadas de saris e cofios
Brancos, pretos, encarnados

E rostos cor da verdade
De viver num monumento
De prata, de oiro e de cobre
Cobre batido do vento...

Pórtico dos sonhos, momento
de índias descobertas e vencidas
Monumento, monumento,
De memórias esquecidas...

Além-portas de marfim
Paredes meias com a História
Dentro da fama e memória
Para que nela sempre fique
A Ilha de Moçambique.



Neves e Sousa

Fair Play






Ajax vs Den Haag


O visionamento do clip dispensa quaisquer palavras.
Não dispensa uma pergunta:
- Em Portugal, algum dos 3 grandes teria a mesma atitude da equipa do Ajax Amsterdham??

Vergonha















(Imagem online da Caracas TV)




Que ninguém se cale - é intolerável!

Hugo Chavez, ditador, golpista e populista sem escrupulos está a lançar o povo venezuelano em mais uma tenebrosa versão de obscurantismo.

O mundo ocidental encolhe os ombros.

A esquerda sente-se, aparentemente, confortável perante este ataque ás «mais amplas liberdades democráticas». Nem uma palavra!






Participação de acidente de trabalho






















(clique na imagem para poder ler)
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Momento























Uma espécie de céu,
Um pedaço de mar,
Uma mão que doeu,
Um dia devagar.
Um Domingo perfeito,
Uma toalha no chão,
Um caminho cansado,
Um traço de avião.



Uma sombra sozinha,
Uma luz inquieta,
Um desvio na rua,
Uma voz de poeta.



Uma garrafa vazia,
Um cinzeiro apagado,
Um Hotel numa esquina,
Um sono acordado.
Um secreto adeus,
Um café a fechar,
Um aviso na porta,
Um bilhete no ar.



Uma praça aberta,
Uma rua perdida,
Uma noite encantada
Para o resto da vida.



Pedes-me um momento,
Agarras as palavras,
Escondes-te no tempo
Porque o tempo tem asas.
Levas a cidade
Solta no cabelo,
Perdes-te comigo
Porque o mundo é um momento.



Uma estrada infinita,
Um anúncio discreto,
Uma curva fechada,
Um poema deserto.
Uma cidade distante,
Um vestido molhado,
Uma chuva divina,
Um desejo apertado.



Uma noite esquecida,
Uma praia qualquer,
Um suspiro escondido
Numa pele de mulher.



Um encontro em segredo,
Uma duna ancorada,
Dois corpos despidos,
Abraçados no nada.
Uma estrela cadente,
Um olhar que se afasta,
Um choro escondido
Quando um beijo não basta.



Um semáforo aberto,
Um adeus para sempre,
Uma ferida que dói,
Não por fora, por dentro.



Pedes-me um momento,
Agarras as palavras,
Escondes-te no tempo
Porque o tempo tem asas.
Levas a cidade
Solta no cabelo,
Perdes-te comigo
Porque o mundo é um momento.



Pedro Abrunhosa


África



















Tambor está velho de gritar
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
corpo e alma só tambor
só tambor gritando na noite quente dos trópicos.

Nem flor nascida no mato do desespero
Nem rio correndo para o mar do desespero
Nem zagaia temperada no lume vivo do desespero
Nem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero.

Nem nada!

Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terra
Só tambor de pele curtida ao sol da minha terra
Só tambor cavado nos troncos duros da minha terra.

Eu
Só tambor rebentando o silêncio amargo da Mafalala
Só tambor velho de sentar no batuque da minha terra
Só tambor perdido na escuridão da noite perdida.

Oh velho Deus dos homens
eu quero ser tambor
e nem rio
e nem flor
e nem zagaia por enquanto
e nem mesmo poesia. Só tambor ecoando como a canção da força e da vida
Só tambor noite e dia
dia e noite só tambor
até à consumação da grande festa do batuque!
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
só tambor!



José Craveirinha

Se me perguntares























Se me perguntares
Quem sou eu
Cavada de bexiga de maldade
Com um sorriso sinistro
Nada te direi
Nada te direi

Mostrarte-ei as cicatrizes de séculos
Que sulcam as minhas costas negras
Olhar-te-ei com olhos de ódio
Vermelhos de sangue vertido durante séculos
Mostrar-te-ei minha palhota de capim
A cair sem reparação
Levar-te-ei às plantações
Onde sol a sol
Me encontro dobrado sobre o solo
Enquanto trabalho árduo
Mastiga meu tempo
Levar-te-ei aos campos cheios de gente
Onde gente respira miséria em toda a hora
Nada te direi

Mostrar-te-ei somente isto
E depois
Mostrar-te-ei os corpos do meu Povo
Tombados por metralhadoras traiçoeiras,
Palhotas queimadas por gente tua
Nada te direi

E saberá porque luto.




Armando Guebuza
Moçambique, 1977

Consciencialização





















Medo no ar!

Em cada esquina
sentinelas vigilantes incendeiam olhares
em cada casa
se substituem apressadamente os fechos velhos
das portas
e em cada consciência
fervilha o temor de se ouvir a si mesma

A historia está a ser contada
de novo

Medo no ar!

Acontece que eu
homem humilde
ainda mais humilde na pele negra
me regresso África
para mim
com os olhos secos.




Agostinho Neto
In “Sagrada esperança”

Eu sou tudo e sou nada
























Eu sou tudo e sou nada
Mas busco-me incessantemente
Não me encontro !
Oh farrapos de nuvens, passarões não alados
levai-me convosco !
Jà nâo quero esta vida
Quero ir nos espaços
para onde nâo sei



Amílcar Cabral
In "Emergência da poesia em Amilcar Cabral" de Oswaldo Osorio

Raízes


















"Maianga Maianga
Bairro antigo e popular
Da velha Luanda
Com palmeiras ao luar ..."

''A Praia do Bispo
Cheiinha de graça
De manha á noite
sorri a quem passa ..."

(das Marchas Populares em Luanda)



Longo era o bairro ao longo da marginal
Longo era o bairro do morro de S. Miguel ao morro da Samba
Grande era o bairro e grandes as casas
No meio o bairro operário e a igreja de S.Joaquim,
estreitas as ruas, pequenas as casas.

Nas traseiras, o morro,
no alto o Palácio,
Na frente a larga avenida,
o paredão, as palmeiras e os coqueiros
a praia que já não era do Bispo
mas das pedras, dos limos e dos detritos.

Mais além a ilha que era península
com a sanzala dos pescadores
casas de colmo no areal
da extensa e boa praia
o mar sem fim.

Em Luanda nasci
Em Luanda vivi
Em Luanda estudei

Não Angola mas Portugal
Todos os rios e afluentes
Todas as linhas férreas e apeadeiros
Todas as cidades e vilas
Todos os reis e algumas batalhas
as plantas e animais
que não eram do meu país.

De Angola
pouco sabíamos
até ao 4 de Fevereiro, até ao 15 de Março
Veio a guerra e
a mentira
que alimenta
a Guerra,
Veio a guerra e a violência
veio a guerra e a liberdade.

Em Évora a 11 de Novembro
Em Luanda a bandeira do meu país
no mastro subiu.
Era o tempo da liberdade e da esperança.

No Porto
Em Lisboa
Em Évora estudei
Em Évora casei
Em Évora vivi e nasceram o Rui e a Susana.

Em Setúbal moro e no Barreiro trabalho

Perdidos os amigos,
perdida a infância
Estrangeiro sem raízes sou em Portugal.





Victor Nogueira
1989

I ask























I lay down my knife
beside your gun,
And ask . . .
Is it good, that we not fight?


I give you my blanket,
In return for your coat
And ask . . .
Is it good, that we exchange?


I give you my land
In return for your progress
And ask . . .
Is it good, that we advance?


I share with you my beliefs,
In return for your beliefs,
And ask . . .
Why . . .
Is it good that we lose our identity?




Pam Taylor
Cherokee