xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx (Para Glória, xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxUma desconhecida xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxQue viajou comigo xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxEm um dia qualquer)
Paragem do candongueiro:
Sol escaldante A fustigar gente Gente aborrecida De pé, cansada de esperar Gente entristecida Com raiva no olhar!
Ao entrar no candongueiro:
Correrias Gente aos empurrões Gente aos safanões Mãos leves puxam carteiras Mãos malandras nas mbundas das senhoras É assim todos os dias
Dentro do candongueiro...
Gritarias Barulheiras Gente aos desentendimentos E a protestar Gente com vincos nos rostos E com raiva no falar!
Barulho Carro velho Sujo e desconfortante, Musica alta e ruidosa a incomodar E a perturbar gente Gente com raiva no escutar!
Carro abarrotado De gente Gente descontente A reclamar E mais gente a entrar Carro de gente empanturrado
Gente apertada A suar Gente mal cheirosa encostada A transpirar Gente misturada com mercadorias É assim todos os dias
... E durante a viagem:
Só eu, no meu canto Não protesto E até gosto Do desconforto da viagem, Um encanto Viajar ao teu lado jovem (Glória, sussurraste no meu ouvido Em cima do muito ruído)
Só eu, aprecio as curvas apertadas Que o motorista faz Pois muito me apraz Sentir tuas pernas encostadas Às minhas Olhando de soslaio tuas maminhas
Só eu sinto teu calor Tua respiração ofegante E teu agradável odor Só eu viajo contente Meu corpo colado ao teu Teu olhar cravado no meu!
Que a viagem dure eternamente E que entre mais gente!
A minha casa É fácil de localizar É fácil de encontrar Basta ires sempre em frente Para além da linha do horizonte É fácil concerteza
Primeiro encontras lixo
Lixo e pessoas em convivência E em harmonia, Lixo na parte de baixo E na parte de cima Lixo e pessoas em convivência íntima
Mais adiante E com o mau cheiro crescente Encontras uma lagoa E nela, crianças a banharem Crianças a brincarem Na maior, numa boa
Mais a frente Entras em becos estreitos Becos pequenos e apertaditos É fácil, é só teres isto em mente Becos e suas enxurradas Becos e suas águas estagnadas
Sempre em frente Para além da linha do horizonte Lá onde a água corrente Lá onde a água potável Passa muito distante E da cor do invisível!
Sempre em frente Para além da linha do horizonte Lá onde a luz eléctrica Connosco brinca Qual nuvem passageira Que ora vai, ora vem zombateira!
Sempre em frente Para além da linha do horizonte Cheiro de kaporroto no ar Cheiro de kimbombo a vibrar Nossas bebidas do dia-a-dia Nossas bebidas nossa companhia
E no quintal da minha casa Há jovens a falar alto, bêbados Jovens cansados, frustrados e arrebentados São os meus kambas Kambas das bebedeiras e das minhas malambas É fácil de localizar concerteza, Sempre em frente Para além do horizonte!
Oh meu país de areias brancas, meu país de mar meu país de povo eu quero ser espuma menino de sonho alado na roda das casuarinas
meu país de nuvens brancas no azul meu país de sol meu país de povo eu quero ser de pedra firme no gesto aberto da conquista de horizontes
meu país tão novo areias novas na praia nuvem clara no azul meu país de povo algodoais que sangravam povo antigo e sempre novo
menino a vogar que sou vida que à vida se dá só não consigo entender porquê que só as areias porquê que só as nuvens porquê que os algodoais sendo brancos são tão nossos?
Porquê, oh meu país, que um qualquer lugar comum recusa ao meu irmão filho da minha mãe que seja do meu país a sua brancura pequena?
"Vamos fazer a diferença! Isto tem que começar por algum lado! Vamos passar a palavra e não ser indiferentes, temos que fazer com que as coisas mudem! A subida vertiginosa dos preços dos combustíveis tem que parar e temos que fazer com que baixem! Para tal vamos combinar três dias nacionais seguidos de NÃO ABASTECIMENTO NA BP, GALP, REPSOL!
Esses dias serão o 1 -2 -3 de Junho que vem!
VAMOS FAZER A DIFERENÇA!
Nesses dias abasteçam em outros postos de combustíveis tais como a Esso, Total, Continente (antigo Carrefour), Intermarché, Jumbo e Eleclerc! Juntos teremos força para baixar os lucros destes gigantes! Agora é só passar a palavra com urgência! Estou farto de ser levado na hora de pagar!
CHEGA!
SEJAMOS UNIDOS PORTUGUESES E TODOS OS QUE TENTAM SOBREVIVER EM PORTUGAL!
NÃO ESQUEÇAM 1 - 2 - 3 de JUNHO que vem Não Abasteçam na BP, GALP e REPSOL! FORÇA PORTUGAL!"
Contudo, como bem explica o Jumento há que efectuar este boicote de forma selectiva e por tempo indeterminado. N'A Barbearia do Senhor Luis segue a ideia que devemos muito sériamente considerar. Estou naturalmente na onda. Chega!
Apenas porque não tenho a certeza que ao entrar num estádio de futebol, o espectáculo a que assisto é ou não real… pode ser perfeitamente uma encenação como o são as lutas de Wrestling…deixei de ir ao futebol, ao estádio, em meados da década de 70.
Porque não é seguro em face de todo o vandalismo associado ao futebol ir ao estádio mais me convenci que não devia pôr lá os pés.
Porque me recuso a aceitar que a imprensa desportiva tenha como objectivo vender papel e pactuar com estas situações… deixei de adquirir jornais desportivos no inicio dos anos 80.
E no entanto a bola, pela sua honestidade, não deve ser (mal) pontapeada como vimos todos os fins de semana.
- Se O FC Porto tivesse apenas 4 pontos de avanço sobre o Sporting CP a decisão seria de punir com 6 pontos??? Ou seria menos??? - Mesmo que fosse punido com os 6 pontos, perante a perda do título, levaria o FCP a manter a decisão de não recorrer – com a inevitável assumpção de culpa?? Ou nestas circunstâncias recorreria??? - Há alguma “alma penada” neste país que acredite na “forma tentada” de coacção??? O que é isso??? É preciso o quê??? Depois de correrem atrás de José Pratas pelo campo todo, darem um “enxerto” de porrada frente a todos os espectadores??? - A “invenção” da forma eufemistica da “tentiva” serviu apenas para regulamentarmente se evitar a descida de divisão do FC Porto??? - Então porque não se concedeu ao Boavista a mesma benesse??? Alguém teria que pagar as favas… - Qual a razão por que os pontos são convenientemente descontados esta época e não na próxima época… com início da prova com pontos negativos??? O regulamento não prevê… - Sendo a FIFA um “estado” multinacional, com vários estados-dentro-do-estado… porque permite que em questões tão sensíveis para o desenvolvimento e nome da modalidade cada federação ou liga tenha a sua própria forma “original” de interpretar e regulamentar?? E não é apenas este caso, a aplicação da pena disciplinar dos cartões exibidos pelos árbitros…é escandalosa em Portugal. Nas provas internacionais, os jogadores que nas provas nacionais são penalizados com uma suspensão de 1 jogo pela amostragem de 5 cartões amarelos, teriam cumprido 2 jogos de suspensão e estariam a caminho do terceiro… Mas, além disso, há a atitude… nas provas nacionais os jogadores permitem-se discutir e envolver os árbitros… nas provas internacionais há respeitinho porque sabem o que custa. E se o respeito falta…é porque, como se viu já em várias ocasiões de tensão, a nível sobretudo da selecção, vem á superfície a indisciplina recalcada mas que lá se encontra latente. - Porque decidir agora sobre este processo??? Qual a razão?? Qual a pressa??? - Se o processo “Apito Dourado” que corre nos tribunais comuns… der em nada, o que irá acontecer ás decisões tomadas no âmbito deste processo??? Já adivinhei…mais um alargamento e chorudas compensações! - E se o mesmo processo provar que além das nomeações tipo “quando-o-telefone-toca” houve efectivamente da parte de todos os protagonistas coacção efectiva??? A CD da LPFP efectuará a revisão do processo?? Em que época é que o FC Porto descerá de divisão??? - Ou será que a disciplina desportiva pretende condicionar o curso do outro processo??? - Que razão existe para que a imprensa com ligações ao Porto, em particular, e toda a imprensa desportiva de uma forma geral tenha emudecido tão repentinamente???
São demasiadas perguntas! Há com certeza respostas para muitas… mas para outras não há.
Desportivamente não vejo qualquer diferença entre o FC Porto, a Juventus, o Milão, O Swarovski Tirol, o Benfica, o Sporting, o Dínamo de Kiev… as questões de justiça desportiva a este nível devem ser universais e definidas de forma clara e precisa pelo organismo máximo que tutela o futebol.
O acórdão da CD da LPFP sobre os factos indiciados no processo “Apito Final” é, salvo melhor opinião uma indecência… e mais uma mancha indelével no futebol português, daquelas que nem o Vanish OxyAction, passe a publicidade, conseguirá tirar..
As questões ali levantadas de ameaças e coação a equipas de arbitragem… não são de agora e só para a LPFP envolverão apenas o Porto e o Boavista. Os intervenientes destes clubes são apenas os mais visíveis por se terem convencido do seu poder ilimitado, da sua impunidade… e que o nacional-porreirismo, a que outros chamam brandos costumes, jamais levaria a que a justiça os beliscasse. Na verdade as mais caras e mediáticas coações passar-se-ão ao nível da liga principal, com todos, ou quase todos, os intervenientes, mas envolvem todas as competições… nacionais e internacionais. Os ideais de desporto pertencem já a conceitos de romantismo absolutamente ultrapassados e ridicularizados. Se recordarmos as palavras de Carlos Queirós a propósito da falta de “organização” da FPF no fim de um jogo de apuramento com a Itália, onde o conjunto das quinas perdeu 1-0, percebemos o que se quer dizer… e fica por dizer… Se nos lembrarmos que o agora comentador da SportTV, Carlos Manuel, antigo jogador do Benfica, disse em entrevista a um jornal (cito de memória) que “…no campo de futebol a única coisa séria é a bola…”
Evitou-se, á boa maneira portuguesa, ir ao fundo da questão analisando aquilo que era conveniente… com as punições a aguardar o tempo adequado para aplicação.
Os primeiros anos do século passado de Ligas e campeonatos de Portugal terão sido, provavelmente, no amadorismo então reinante os únicos em que, competitivamente, o desfecho deverá ter sido mais transparente. Era ainda prevalecente, no comum dos mortais, a ideia de que “ganhar ou perder era desporto”… e boa parte do pagamento aos intervenientes era feito por bebidas e sanduíches. Este saudável e incipiente amadorismo deu origem ás conversas irónicas e brejeiras que alimentavam épocas inteiras pelos cafés deste país, autênticas extensões dos precários estádios de futebol. As provas eram, por falta de competitividade e organização, discutidos a três competidores e meio e decididos basicamente por dois dos contendores. Este clima foi alimentado pelo poder político de modo a evitar que usássemos a cabeça para pensar no que não devíamos.
Desta fase passou-se ao chico-espertismo nacional que conduziu, desde os anos 40 a ciclos bem definidos de dominação do sistema… Primeiro o Sporting, em seguida o Benfica a quem através de sucessivos «chitos» dos 4 Pintos, como bem se recordarão, tomaram de assalto o poder na Praça da Alegria, entregando-o ao Porto. Repare-se que a deriva foi (é) tão grande que, para contrapor ao poder discricionário obtido, os maiores clubes de Lisboa tiveram presidentes que se destacaram pela capacidade de cometer iguais ou maiores trafulhices… Jorge Gonçalves exilou-se em Luanda e Vale e Azevedo no EPL. Uma alegria…
A gozação e o brejeirismo cedeu o lugar ao mais puro fanatismo, ao facciosismo, á profissionalização da arruaça, ás intimidações, ao poder dos gangues a quem eufemisticamente se chamam claques…e que na pátria do futebol, sem papas na língua, não passam de, sem apelo nem agravo, hooligans - um conjunto de arruaceiros organizados que são reprimidos, controlados e condenados quer judicialmente quer socialmente. Os corredores passaram a estar povoados de “bobbies, tarecos e abéis” de todas as cores e em todos os locais…
Organizativamente, nos clubes, conforme se desenvolveu o mercado e profissionalizou a prospecção de jogadores, com base em parâmetros de produtividade, de personalidade e de talento… verifica-se igual desenvolvimento na identificação e catalogação dos intervenientes de modo a aferir fraquezas e forças que poderão ser exploradas em beneficio de uns, prejuízo de outros e… vergonha de todos.
Mas, verdade se diga… ladrão não é o que rouba, mas sim o que é apanhado.
Não é hábito deter-me sobre questões de actualidade neste espaço mas a questão é suficientemente importante para lhe dedicar umas poucas linhas de perplexidade… O respeito pelo fenómeno desportivo e pela verdade do que se passa dentro dos vários recintos, qualquer que seja a modalidade aí praticada, leva-me a tecer alguns comentários.
Não posso deixar de recordar o frenesim com que, há muitas décadas atrás, aguardava a chegada a casa do jornaleiro que ia entregar ás segundas, quintas e domingos “A Bola”, ás terças e sábados “o Record” e ás quartas “O Mundo Desportivo” aquele que, francamente, menos gostava. Quase aprendi a ler com estes jornais… mas se não aprendi de todo a ler nestes jornais ajudaram muito e acima de tudo ajudaram a mostrar-me um mundo muito diferente do cinzento canto lusitano. Foi por aqui que comecei a perceber a existência, nas entrelinhas, da multiplicidade de opções por esse mundo que obstinadamente nos escondiam. Acima de tudo “A Bola” era, na época, leitura obrigatória.
Mais, ao futebol era dada tanta importância que até a “gesta heróica” do Coreia do Norte – Portugal do Mundial de 66 se tornou lição de português. Lia aquilo e parecia estar a ler “Os Lusíadas”.
Muito do que recordarei nos próximos posts e das conclusões que retiro derivam do espírito critico com que me habituei a olhar para tudo na vida, sabendo que quanto mais me aproximar dos objectos… menos vejo.
É um compêndio o amor. Caminho de muitas coisas. Tem coisas novas e outras tão velhas como são os ventres de raparigas aos estertores; como o amor de Neto e os suspiros de Eugénia.
Rimas perdidas - não mais a casa da rima onde escolhesse uma embriaguez e matutasse às cores do divumu. Esta pedra que não para de pensar porque estou sentado nela e ela me tem como a um esposo, sobre esta pedra concluo a noite.
O amor é a nocturnidade é um compêndio solto. Qualquer que seja a página que rasgue da noite, o amor sangrará. Este é o longo caminho e metade de mim mesmo. - Sabes o que é o amor? - Quem responderá quem fortalece sua própria insónia? Todo este tempo que amei é uma insónia.
derrubadas no grito do meu silêncio sugerem lágrimas a rima do batom marrom sugere prata suor e ouro que fenómeno matará a distância?
no deserto eros mãos e sol anunciam o cântico do arco-íris ao mesmo tempo que a ave o hino pleno da ave plena anuncia de cristal o fim do canto do pranto que habita em mim em cada gesto
de riso em riso tece o convexo sacro-belo da génese da nova poesia em cada gesto humano da ave há expresso ensejo universal de nação
Minha mãe: trago a resina das velhas árvores da floresta nas minha veias. E a sina de nascença No meio das baladas à volta da fogueira tu sabes como é sempre uma dor nova sabes ou não sabes, minha Mãe?
Sabes ou não sabes o mistério de olhos inflamados de macho que um dia encontraste no teu caminho de tombasana* de pés descalços?
Sabes ou não sabes, Mãe a resina das velhas árvores plantadas pelos espíritos as blasfémias dos mortos salgando as raízes virgens e as grandes luas de ansiedade esticando ... as peles dos tambores enraivecidos e dando às folhas das palmeiras o brilho incandescente das catanas nuas?
E no sabor do encantamento, Mãe dos nossos desenfeitiçados feitiços ancestrais o exorcismo ingénuo das tuas missangas o maravilhoso mecheu das tuas canções e o segredo do teu corpo possuído mas de materno sangue inviolável donde a minha sina nasceu.
No espaço da tua sepultura de negra sabes ou não sabes a verdade agora sabes ou não sabes minha Mãe?
Tão de súbito, por sobre o perfil noturno da casaria, tão de súbito surgiu, como um choque, um impacto, um milagre, que o coração, aterrado, nem lhe sabia o nome: a lua! - a lua ensangüentada e irreconhecível de Babilônia e Cartago, dos campos malditos de após-batalha, a lua dos parricídios, das populações em retirada, dos estupros, a lua dos primeiros e dos últimos tempos.
Manhãzinha cedo, senti acordar-me o sopro da voz ciciada de minha mulher: - 0 Fafe telefonou de Cascais,… Lisboa está cercada por tropas… Refilo, rabugento: - Hã? E enrolo-me mais nos lençóis: - É algum golpe militar reaccionário dos «ultras»… Deixa-me dormir. Mas qualquer coisa começou a magoar-me a pele com dentes frios, para me dissuadir de adormecer. E daí a instantes a minha mulher insistiu, baixinho, muito baixinho, com medo de não haver realidade: -Só funciona o Rádio Clube que pede às pessoas que se conservem em casa.
Golpe militar? Reaccionário, evidentemente. Como se poderia conceber outra coisa? Levanto-me preparado para o pesadelo de ouvir tombar pedras sobre cadáveres. Espreito através da janela. Pouca gente na rua. Apressada. Tento sintonizar a estação da Emissora Nacional. Nem, um som. Em compensação o telefone vinga-se desesperadamente. Um polvo de pânico desdobra-se pelos fios. A campainha toca cada vez mais forte. Agora é o Carlos de Oliveira. -Está lá? Está lá? É você, Carlos? Que se passa? Responde-me com uma pergunta qualquer do avesso. Ás oito da manhã o Rádio Clube emite um comunicado ainda pouco claro: - Aqui, Posto de Comando das forças Armadas. Não queremos derramar a mínima gota de sangue. De novo o silêncio. Opressivo. De bocejo. Inútil. O olhar para o aparelho. Custa-me a compreender que se trate de revolução. Falta-lhe o ruído, (onde acontecerá o espectáculo?), o drama, o grito. Que chatice! A Rosália chama-me, nervosa: - Outro comunicado na Rádio. Vem, depressa. Corro e ouço: -Aqui o Movimento das Forças Armadas que resolveu libertar a Nação das forças que há muito a dominavam. Viva Portugal! Também pede à policia que não resista. Mas Senhor dos Abismos! Trata-se de um golpe contra o fascismo (isto é: salazismo-caetanismo).
São dez e meia e não acredito que os «ultras» não se mexam, não contra-ataquem! Ou tudo ruÍrá de podre, sem o brandir de uma bandeira qualquer de, heroísmo, um berro, um suicídio, um brado? Nas ruas (avisto da janela da sala de jantar) as mulheres, correm com sacos de alimentos. A poetisa Maria Amélia Neto telefona-me: «Não resisti e vim para o escritório». Os revoltosos estão a conferenciar com o ministro do Exército. Na Rádio a canção do Zeca Afonso: Grândola, vila morena… Terra da fraternidade… 0 povo é quem mais ordena… Sinto os olhos a desfazerem-se em lágrimas. Ainda assisti, ainda assisti à morte deste maldito meio século de opressão imbecil. Ao mesmo tempo nunca vivi horas mais aborrecidas de espera, de frigorífico, ao som de baladas, medíocres, sem lances dramáticos. E não serão assim sempre as verdadeiras revoluções?… Interrogo-me. Em silêncio. Sem teatro por fora. Em segredo. Com pantufas. De súbito, aliás, a Rádio abre-se em notícias. 0 Marcelo está preso no Quartel do Carmo. A polícia e a Guarda Republicana renderam-se. 0 Tomás está cercado noutro quartel qualquer. E, pela primeira vez, aparece o nomeado General Spínola. Novo comunicado das Forças Armadas. 0 Marcelo ter-se-á rendido ao ex-governador da Guiné. (Lembro-me do Salazar: «o poder não pode cair na rua»). Abro a janela e apetece-me berrar: acabou-se! Acabou-se finalmente este tenebroso e ridículo regime de sinistros Conselheiros Acácios de fumo que nos sufocou durante anos e anos de mordaças. Acabou-se. Vai recomeçar tudo.
A Maria Keil teIefonou. 0 Chico, está doente e sozinho em casa. Chora. (Nesta revolução as lágrimas são as nossas balas. Mas eu vi, eu vi, eu vi! … ) Antes de morrer, a televisão mostrou-me um dos mais belos momentos humanos da História deste povo, onde os militares fazem revoluções para lhes restituir a liberdade: a saída dos prisioneiros políticos de Caxias. Espectáculo de viril doçura cívica em que os presos… alguns torturados durante dias e noites sem fim…. não pronunciaram uma palavra de ódio ou de paixões de vingança. E o telefone toca, toca, toca… Juntámos as vozes na mesma alegria. (Só é pena que os mortos não nos possam também telefonar da Morte: o Bento de Jesus Caraça, o Manuel Mendes, o Casais Monteiro, o Redol, o Edmundo de Bettencourt, o Zé Bacelar, a Ofélia e o Bernardo Marques, o Pavia, o Soeiro Pereira Gomes e outros, muitos, tantos… Tenho de me contentar com os vivos. Porque felizmente dos vivos poucos traíram ou desanimaram. Resistimos quase todos de unhas, cravadas, nas palmas das mãos… De repente, estremeço, aterrado. Mas isto de transformar o mundo só com vivos não será difícil? Saio de casa. E uma rapariga que não conheço, que nunca vi na vida, agarra-se a mim aos beijos. Revolução.
Há homens que rezam na penumbra das catedrais dolentes e há outros que do alto das pontes olham a escuridão rumorejante das águas. Há homens que esperam na orla marítima e outros arrastando-se no viscoso esterco dos subterrâneos. Há homens debruçados em pleno azul e outros que deslizam sobre densos verdes; há os desatentos na atenção e os que espreitam atentamente a ocasião. Há homens por fora e por dentro do cimento armado, suspensos das mil ciladas do quotidiano voraz; de encontro aos muros, às paredes, ao sol do meio-dia, ao visco da noite, às sediças solicitações de cada instante. Há a impotência poderosa da oração e a obsessão amarga dos suicidas e, de permeio, os que, porque hesitam, porque ignoram, porque não crêem, não oram, nem se suicidam e se quedam ante a impossibilidade de destrinça entre o fio da vida e a vida por um fio.
essa mulher que chora cavalga os saltos altos alheia nua à dimensão que tem quando atravessa a sala e impõe o aprumo da carne e a força do porte que ostenta.
Quando lhe vi assim de madrugada nua e sentada bebendo o leite e a chorar à toa disse para mim, já dado:
Estava linda e purpurina Saciando a fome e sede à solidão, Quando de entre as mãos sujas, Do Carteiro amarfanhado, Estremeci ao tocar na mensagem Vinda dos roseirais.
Mandaram-me os delírios da discórdia, Os insultos de paixões sovinas egoístas. Mandaram-me o corpo e A mulher negra tão amada. Mandaram-me o filho, Por mim mal parido.
Lágrimas correram ao ter nas mãos A mensagem que não tinha, O cheiro doce dos roseirais, Nem a cor mimosa das flores sensuais.
Continha, sim, finalmente a verdade; Das epopeias de um amor repudiado.
Faltava pouco amor, Para te encontrar então nas esquinas Mais queridas das cidades, Que em múltiplos orgasmos imorais, Naufragávamos juntos para além, Além dos roseirais!
Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor; Onde houver ofensa, que eu leve o perdão; Onde houver discórdia, que eu leve a união; Onde houver dúvida, que eu leve a fé; Onde houver erro, que eu leve a verdade; Onde houver desespero, que eu leve a esperança; Onde houver tristeza, que eu leve a alegria; Onde houver trevas, que eu leve a luz. Ó Mestre, Fazei que eu procure mais Consolar, que ser consolado; compreender, que ser compreendido; amar, que ser amado. Pois, é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado, e é morrendo que se vive para a vida eterna.
Acreditava naquela história do homem que nunca chora. Eu julgava-me um homem. Na adolescência meus filmes de aventuras punham-me muito longe de ser cobarde na arrogante criancice do herói de ferro. Agora tremo. E agora choro. Como um homem treme. Como chora um homem!
num bairro pertinho do meu numa rua estreita e sem nome mora o homem dos meus sonhos com quem hei-de um dia casar
a rua, que não tem nome, morre no largo junto à fonte onde também existe um banco onde com ele me hei-de sentar a casa onde mora é pequenina como a dos contos de encantar e tem uma janela amarela para podermos namorar
quando passo na sua rua o meu peito bate bem forte os meus ouvidos ficam alerta para o seu coração escutar
ele não sabe quem sou nem sequer como me chamo olha-me sem me ver e nem consegue imaginar que comigo se há-de casar por via de algum milagre ou tão somente e apenas sonho feito realidade
Dá-me a tua luz A verdade do olhar Não é mal nenhum escrever meu nome Não é mal nenhum escrever poesia Não é mal nenhum escrever teu nome Não é mal nenhum escrever liberdade A paz O amor A bondade A mansidão A temperança Dá-me a tua luz A verdade do teu olhar Onde vai a poesia? Onde pára a poesia? Se a sinceridade e a poesia dói, isto é Escrever um poema.
Na vida as coisas são assim: Fala-se e ouve o que não quer; Bate de um lado e apanha do outro; Sofre pela infâmia cometida no passado; Perde o que nunca se ganhou, por alguma atitude brusca; Lamenta-se pelo não dito; Arrepende-se pelo que não fez; Sente remorsos pela covardia; Alia-se a si mesmo e aí reclama.. lamenta.. chora em vão, sabendo que tudo na vida é reflexo do que fazemos.
Que fez você? Desfez? refez? perdoou? perdeu? encontrou? herdou? sorriu? amou? odiou? carregou? se culpou? cruxificou? doeu? foi bom? ruim??? desata. Ata! Quem? falou? você? eu? o outro? pra quem? pra mim? pra que? aja! Seja! Ria chore sinta! Desfeito? feito? amarre perdido? na estrada? vazia cheia de amor? foi? se foi? é? passou? está? será? responda não esconda não cale fale o que? te espero? encontro? marcado? traçado? quem disse? que quero? espero... saber?