O Candongueiro



















Foto de Phwo, em ás vezes (des)organizo-me em palavras...






xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx (Para Glória,
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxUma desconhecida
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxQue viajou comigo
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxEm um dia qualquer)


Paragem do candongueiro:

Sol escaldante
A fustigar gente
Gente aborrecida
De pé, cansada de esperar
Gente entristecida
Com raiva no olhar!

Ao entrar no candongueiro:

Correrias
Gente aos empurrões
Gente aos safanões
Mãos leves puxam carteiras
Mãos malandras nas mbundas das senhoras
É assim todos os dias

Dentro do candongueiro...

Gritarias
Barulheiras
Gente aos desentendimentos
E a protestar
Gente com vincos nos rostos
E com raiva no falar!

Barulho
Carro velho
Sujo e desconfortante,
Musica alta e ruidosa a incomodar
E a perturbar gente
Gente com raiva no escutar!

Carro abarrotado
De gente
Gente descontente
A reclamar
E mais gente a entrar
Carro de gente empanturrado

Gente apertada
A suar
Gente mal cheirosa encostada
A transpirar
Gente misturada com mercadorias
É assim todos os dias

... E durante a viagem:

Só eu, no meu canto
Não protesto
E até gosto
Do desconforto da viagem,
Um encanto
Viajar ao teu lado jovem
(Glória, sussurraste no meu ouvido
Em cima do muito ruído)

Só eu, aprecio as curvas apertadas
Que o motorista faz
Pois muito me apraz
Sentir tuas pernas encostadas
Às minhas
Olhando de soslaio tuas maminhas

Só eu sinto teu calor
Tua respiração ofegante
E teu agradável odor
Só eu viajo contente
Meu corpo colado ao teu
Teu olhar cravado no meu!

Que a viagem dure eternamente
E que entre mais gente!



Décio Bettencourt Mateus

A Minha Casa






















A minha casa
É fácil de localizar
É fácil de encontrar
Basta ires sempre em frente
Para além da linha do horizonte
É fácil concerteza

Primeiro encontras lixo

Lixo e pessoas em convivência
E em harmonia,
Lixo na parte de baixo
E na parte de cima
Lixo e pessoas em convivência íntima

Mais adiante
E com o mau cheiro crescente
Encontras uma lagoa
E nela, crianças a banharem
Crianças a brincarem
Na maior, numa boa

Mais a frente
Entras em becos estreitos
Becos pequenos e apertaditos
É fácil, é só teres isto em mente
Becos e suas enxurradas
Becos e suas águas estagnadas

Sempre em frente
Para além da linha do horizonte
Lá onde a água corrente
Lá onde a água potável
Passa muito distante
E da cor do invisível!

Sempre em frente
Para além da linha do horizonte
Lá onde a luz eléctrica
Connosco brinca
Qual nuvem passageira
Que ora vai, ora vem zombateira!

Sempre em frente
Para além da linha do horizonte
Cheiro de kaporroto no ar
Cheiro de kimbombo a vibrar
Nossas bebidas do dia-a-dia
Nossas bebidas nossa companhia

E no quintal da minha casa
Há jovens a falar alto, bêbados
Jovens cansados, frustrados e arrebentados
São os meus kambas
Kambas das bebedeiras e das minhas malambas
É fácil de localizar concerteza,
Sempre em frente
Para além do horizonte!



Décio Bettencourt Mateus

Terceira gota



















Oh meu país de areias brancas,
meu país de mar
meu país de povo
eu quero ser espuma
menino de sonho alado
na roda das casuarinas

meu país de nuvens brancas no azul
meu país de sol
meu país de povo
eu quero ser de pedra
firme no gesto aberto
da conquista de horizontes

meu país tão novo
areias novas na praia
nuvem clara no azul
meu país de povo
algodoais que sangravam
povo antigo e sempre novo

menino a vogar que sou
vida que à vida se dá
só não consigo entender
porquê que só as areias
porquê que só as nuvens
porquê que os algodoais
sendo brancos são tão nossos?

Porquê, oh meu país,
que um qualquer lugar comum
recusa ao meu irmão
filho da minha mãe
que seja do meu país
a sua brancura pequena?



Costa Andrade

CHEGA!!... Vamos a isto!

























É este o teor do email que por aí circula:

"Vamos fazer a diferença!
Isto tem que começar por algum lado!
Vamos passar a palavra e não ser indiferentes, temos que fazer com que as coisas mudem!
A subida vertiginosa dos preços dos combustíveis tem que parar e temos que fazer com que baixem!
Para tal vamos combinar três dias nacionais seguidos de NÃO ABASTECIMENTO NA BP, GALP, REPSOL!

Esses dias serão o 1 -2 -3 de Junho que vem!

VAMOS FAZER A DIFERENÇA!

Nesses dias abasteçam em outros postos de combustíveis tais como a Esso, Total, Continente (antigo Carrefour), Intermarché, Jumbo e Eleclerc!
Juntos teremos força para baixar os lucros destes gigantes!
Agora é só passar a palavra com urgência!
Estou farto de ser levado na hora de pagar!

CHEGA!

SEJAMOS UNIDOS PORTUGUESES E TODOS OS QUE TENTAM SOBREVIVER EM PORTUGAL!


NÃO ESQUEÇAM 1 - 2 - 3 de JUNHO que vem Não Abasteçam na BP, GALP e REPSOL!
FORÇA PORTUGAL!"



Contudo, como bem explica o Jumento há que efectuar este boicote de forma selectiva e por tempo indeterminado.
N'A Barbearia do Senhor Luis segue a ideia que devemos muito sériamente considerar.
Estou naturalmente na onda.
Chega!

Só eu sei porque… fico em casa!
























Imagem daqui


Apenas porque não tenho a certeza que ao entrar num estádio de futebol, o espectáculo a que assisto é ou não real… pode ser perfeitamente uma encenação como o são as lutas de Wrestling…deixei de ir ao futebol, ao estádio, em meados da década de 70.

Porque não é seguro em face de todo o vandalismo associado ao futebol ir ao estádio mais me convenci que não devia pôr lá os pés.

Porque me recuso a aceitar que a imprensa desportiva tenha como objectivo vender papel e pactuar com estas situações… deixei de adquirir jornais desportivos no inicio dos anos 80.

E no entanto a bola, pela sua honestidade, não deve ser (mal) pontapeada como vimos todos os fins de semana.

As perguntas e perplexidades…

























- Se O FC Porto tivesse apenas 4 pontos de avanço sobre o Sporting CP a decisão seria de punir com 6 pontos??? Ou seria menos???
- Mesmo que fosse punido com os 6 pontos, perante a perda do título, levaria o FCP a manter a decisão de não recorrer – com a inevitável assumpção de culpa?? Ou nestas circunstâncias recorreria???
- Há alguma “alma penada” neste país que acredite na “forma tentada” de coacção???
O que é isso??? É preciso o quê??? Depois de correrem atrás de José Pratas pelo campo todo, darem um “enxerto” de porrada frente a todos os espectadores???
- A “invenção” da forma eufemistica da “tentiva” serviu apenas para regulamentarmente se evitar a descida de divisão do FC Porto???
- Então porque não se concedeu ao Boavista a mesma benesse??? Alguém teria que pagar as favas…
- Qual a razão por que os pontos são convenientemente descontados esta época e não na próxima época… com início da prova com pontos negativos??? O regulamento não prevê…
- Sendo a FIFA um “estado” multinacional, com vários estados-dentro-do-estado… porque permite que em questões tão sensíveis para o desenvolvimento e nome da modalidade cada federação ou liga tenha a sua própria forma “original” de interpretar e regulamentar?? E não é apenas este caso, a aplicação da pena disciplinar dos cartões exibidos pelos árbitros…é escandalosa em Portugal. Nas provas internacionais, os jogadores que nas provas nacionais são penalizados com uma suspensão de 1 jogo pela amostragem de 5 cartões amarelos, teriam cumprido 2 jogos de suspensão e estariam a caminho do terceiro… Mas, além disso, há a atitude… nas provas nacionais os jogadores permitem-se discutir e envolver os árbitros… nas provas internacionais há respeitinho porque sabem o que custa. E se o respeito falta…é porque, como se viu já em várias ocasiões de tensão, a nível sobretudo da selecção, vem á superfície a indisciplina recalcada mas que lá se encontra latente.
- Porque decidir agora sobre este processo??? Qual a razão?? Qual a pressa???
- Se o processo “Apito Dourado” que corre nos tribunais comuns… der em nada, o que irá acontecer ás decisões tomadas no âmbito deste processo??? Já adivinhei…mais um alargamento e chorudas compensações!
- E se o mesmo processo provar que além das nomeações tipo “quando-o-telefone-toca” houve efectivamente da parte de todos os protagonistas coacção efectiva??? A CD da LPFP efectuará a revisão do processo?? Em que época é que o FC Porto descerá de divisão???
- Ou será que a disciplina desportiva pretende condicionar o curso do outro processo???
- Que razão existe para que a imprensa com ligações ao Porto, em particular, e toda a imprensa desportiva de uma forma geral tenha emudecido tão repentinamente???

São demasiadas perguntas!
Há com certeza respostas para muitas… mas para outras não há.

Desportivamente não vejo qualquer diferença entre o FC Porto, a Juventus, o Milão, O Swarovski Tirol, o Benfica, o Sporting, o Dínamo de Kiev… as questões de justiça desportiva a este nível devem ser universais e definidas de forma clara e precisa pelo organismo máximo que tutela o futebol.

A indecência… e a nódoa


















O acórdão da CD da LPFP sobre os factos indiciados no processo “Apito Final” é, salvo melhor opinião uma indecência… e mais uma mancha indelével no futebol português, daquelas que nem o Vanish OxyAction, passe a publicidade, conseguirá tirar..

As questões ali levantadas de ameaças e coação a equipas de arbitragem… não são de agora e só para a LPFP envolverão apenas o Porto e o Boavista.
Os intervenientes destes clubes são apenas os mais visíveis por se terem convencido do seu poder ilimitado, da sua impunidade… e que o nacional-porreirismo, a que outros chamam brandos costumes, jamais levaria a que a justiça os beliscasse.
Na verdade as mais caras e mediáticas coações passar-se-ão ao nível da liga principal, com todos, ou quase todos, os intervenientes, mas envolvem todas as competições… nacionais e internacionais.
Os ideais de desporto pertencem já a conceitos de romantismo absolutamente ultrapassados e ridicularizados.
Se recordarmos as palavras de Carlos Queirós a propósito da falta de “organização” da FPF no fim de um jogo de apuramento com a Itália, onde o conjunto das quinas perdeu 1-0, percebemos o que se quer dizer… e fica por dizer…
Se nos lembrarmos que o agora comentador da SportTV, Carlos Manuel, antigo jogador do Benfica, disse em entrevista a um jornal (cito de memória) que “…no campo de futebol a única coisa séria é a bola…”

Evitou-se, á boa maneira portuguesa, ir ao fundo da questão analisando aquilo que era conveniente… com as punições a aguardar o tempo adequado para aplicação.

Do romantismo… ao Chico-espertismo













Os primeiros anos do século passado de Ligas e campeonatos de Portugal terão sido, provavelmente, no amadorismo então reinante os únicos em que, competitivamente, o desfecho deverá ter sido mais transparente.
Era ainda prevalecente, no comum dos mortais, a ideia de que “ganhar ou perder era desporto”… e boa parte do pagamento aos intervenientes era feito por bebidas e sanduíches.
Este saudável e incipiente amadorismo deu origem ás conversas irónicas e brejeiras que alimentavam épocas inteiras pelos cafés deste país, autênticas extensões dos precários estádios de futebol.
As provas eram, por falta de competitividade e organização, discutidos a três competidores e meio e decididos basicamente por dois dos contendores.
Este clima foi alimentado pelo poder político de modo a evitar que usássemos a cabeça para pensar no que não devíamos.

Desta fase passou-se ao chico-espertismo nacional que conduziu, desde os anos 40 a ciclos bem definidos de dominação do sistema…
Primeiro o Sporting, em seguida o Benfica a quem através de sucessivos «chitos» dos 4 Pintos, como bem se recordarão, tomaram de assalto o poder na Praça da Alegria, entregando-o ao Porto.
Repare-se que a deriva foi (é) tão grande que, para contrapor ao poder discricionário obtido, os maiores clubes de Lisboa tiveram presidentes que se destacaram pela capacidade de cometer iguais ou maiores trafulhices… Jorge Gonçalves exilou-se em Luanda e Vale e Azevedo no EPL.
Uma alegria…

A gozação e o brejeirismo cedeu o lugar ao mais puro fanatismo, ao facciosismo, á profissionalização da arruaça, ás intimidações, ao poder dos gangues a quem eufemisticamente se chamam claques…e que na pátria do futebol, sem papas na língua, não passam de, sem apelo nem agravo, hooligans - um conjunto de arruaceiros organizados que são reprimidos, controlados e condenados quer judicialmente quer socialmente.
Os corredores passaram a estar povoados de “bobbies, tarecos e abéis” de todas as cores e em todos os locais…

Organizativamente, nos clubes, conforme se desenvolveu o mercado e profissionalizou a prospecção de jogadores, com base em parâmetros de produtividade, de personalidade e de talento… verifica-se igual desenvolvimento na identificação e catalogação dos intervenientes de modo a aferir fraquezas e forças que poderão ser exploradas em beneficio de uns, prejuízo de outros e… vergonha de todos.

Mas, verdade se diga… ladrão não é o que rouba, mas sim o que é apanhado.

Aprender a ler… e a conhecer o mundo





Não é hábito deter-me sobre questões de actualidade neste espaço mas a questão é suficientemente importante para lhe dedicar umas poucas linhas de perplexidade…
O respeito pelo fenómeno desportivo e pela verdade do que se passa dentro dos vários recintos, qualquer que seja a modalidade aí praticada, leva-me a tecer alguns comentários.

Não posso deixar de recordar o frenesim com que, há muitas décadas atrás, aguardava a chegada a casa do jornaleiro que ia entregar ás segundas, quintas e domingos “A Bola”, ás terças e sábados “o Record” e ás quartas “O Mundo Desportivo” aquele que, francamente, menos gostava.
Quase aprendi a ler com estes jornais… mas se não aprendi de todo a ler nestes jornais ajudaram muito e acima de tudo ajudaram a mostrar-me um mundo muito diferente do cinzento canto lusitano. Foi por aqui que comecei a perceber a existência, nas entrelinhas, da multiplicidade de opções por esse mundo que obstinadamente nos escondiam. Acima de tudo “A Bola” era, na época, leitura obrigatória.

Mais, ao futebol era dada tanta importância que até a “gesta heróica” do Coreia do Norte – Portugal do Mundial de 66 se tornou lição de português. Lia aquilo e parecia estar a ler “Os Lusíadas”.

Muito do que recordarei nos próximos posts e das conclusões que retiro derivam do espírito critico com que me habituei a olhar para tudo na vida, sabendo que quanto mais me aproximar dos objectos… menos vejo.

A tradução do amor

























É um compêndio o amor. Caminho de muitas coisas.
Tem coisas novas e outras tão velhas
como são os ventres de raparigas aos estertores;
como o amor de Neto e os suspiros de Eugénia.

Rimas perdidas - não mais a casa da rima
onde escolhesse uma embriaguez e matutasse
às cores do divumu. Esta pedra que
não para de pensar porque estou sentado nela
e ela me tem como a um esposo, sobre esta pedra
concluo a noite.

O amor é a nocturnidade é um compêndio solto.
Qualquer que seja a página que rasgue da noite,
o amor sangrará.
Este é o longo caminho e metade de mim mesmo.
- Sabes o que é o amor? -
Quem responderá quem fortalece sua própria insónia?
Todo este tempo que amei é uma insónia.



João Tala

Universalidade do gesto da ave



















derrubadas no grito do meu silêncio sugerem lágrimas
a rima do batom marrom sugere prata suor e ouro
que fenómeno matará a distância?

no deserto eros mãos e sol anunciam o cântico do arco-íris
ao mesmo tempo que a ave
o hino pleno da ave plena anuncia de cristal
o fim do canto do pranto que habita em mim em cada gesto

de riso em riso
tece o convexo sacro-belo da génese da nova poesia
em cada gesto humano da ave
há expresso ensejo universal de nação



Trajanno Nankhova Trajanno

Pangea Day




Veja mais, aqui

Mãe



















Minha mãe:
trago a resina das velhas árvores
da floresta nas minha veias.
E a sina de nascença
No meio das baladas à volta da fogueira
tu sabes como é sempre uma dor nova
sabes ou não sabes, minha Mãe?

Sabes ou não sabes
o mistério de olhos inflamados de macho
que um dia encontraste no teu caminho
de tombasana* de pés descalços?

Sabes ou não sabes, Mãe
a resina das velhas árvores plantadas pelos espíritos
as blasfémias dos mortos salgando as raízes virgens
e as grandes luas de ansiedade esticando
... as peles dos tambores enraivecidos
e dando às folhas das palmeiras
o brilho incandescente das catanas nuas?

E no sabor do encantamento, Mãe
dos nossos desenfeitiçados feitiços ancestrais
o exorcismo ingénuo das tuas missangas
o maravilhoso mecheu das tuas canções
e o segredo do teu corpo possuído
mas de materno sangue inviolável
donde a minha sina nasceu.

No
espaço da tua sepultura de negra
sabes ou não sabes a verdade
agora sabes ou não sabes
minha Mãe?


*Tombasana - moça, rapariga solteira.



José Craveirinha
In "Karingana ua karingana"

Agora eu era linda outra vez



























Foto de Massimiliano Uccelletti, via "O Jumento"



Agora eu era linda outra vez
e tu existias e merecíamos
noite inteira um tão grande
amor

agora tu eras como o tempo
despido dos dias, por fim
vulnerável e nu, e eu
era por ti adentro eternamente

lentamente
como só lentamente
se deve morrer de amor




Valter Hugo Mãe
in «O Resto Da Minha Vida seguido de A Remoção das Almas»

Aparição


























Tão de súbito, por sobre o perfil noturno da casaria, tão de súbito surgiu, como um choque, um impacto, um milagre, que o coração, aterrado, nem lhe sabia o nome: a lua! - a lua ensangüentada e irreconhecível de Babilônia e Cartago, dos campos malditos de após-batalha, a lua dos parricídios, das populações em retirada, dos estupros, a lua dos primeiros e dos últimos tempos.


Mário Quintana

in "Sapato Florido"

Esqueleto sufocante da alma


















Namorei um aquário
penetrando senti o consolo do fogo
e abraços de peixinhos
na areia senti a ternura
das tuas mãos macias

Subi ao céu e senti no meu peito
o esqueleto sufocante das
estrelas luminantes

Desabafei com a relva
descarreguei a bílis
e senti consolo das nossas falas


Kanguimbo Ananaz

A Espera de Ti



















Foto de Alexander Orlov




Por agora,
deixa os sinos do teu corpo
tocarem todos,
deixa a vaga de vento
te levar para as portas do céu.

Poisa levemente os pés
na lã dos caminhos e
vai segura pela minha mão
que voltarás ao amanhecer

com as águas das montanhas
entre o coaxar das rãs
saindo do teu peito.

Os dias serão maduros
de azul, cânticos de amor e pão.

Haverá mel nos lábios
e em todas as esquinas
estarei
à espera de ti!



E. Bonavena

Era uma vez o 25 de Abril





Manhãzinha cedo, senti acordar-me o sopro da voz ciciada de minha mulher: - 0 Fafe telefonou de Cascais,… Lisboa está cercada por tropas… Refilo, rabugento: - Hã? E enrolo-me mais nos lençóis: - É algum golpe militar reaccionário dos «ultras»… Deixa-me dormir. Mas qualquer coisa começou a magoar-me a pele com dentes frios, para me dissuadir de adormecer. E daí a instantes a minha mulher insistiu, baixinho, muito baixinho, com medo de não haver realidade: -Só funciona o Rádio Clube que pede às pessoas que se conservem em casa.

Golpe militar? Reaccionário, evidentemente. Como se poderia conceber outra coisa? Levanto-me preparado para o pesadelo de ouvir tombar pedras sobre cadáveres. Espreito através da janela. Pouca gente na rua. Apressada. Tento sintonizar a estação da Emissora Nacional. Nem, um som. Em compensação o telefone vinga-se desesperadamente. Um polvo de pânico desdobra-se pelos fios. A campainha toca cada vez mais forte. Agora é o Carlos de Oliveira. -Está lá? Está lá? É você, Carlos? Que se passa? Responde-me com uma pergunta qualquer do avesso. Ás oito da manhã o Rádio Clube emite um comunicado ainda pouco claro: - Aqui, Posto de Comando das forças Armadas. Não queremos derramar a mínima gota de sangue. De novo o silêncio. Opressivo. De bocejo. Inútil. O olhar para o aparelho. Custa-me a compreender que se trate de revolução. Falta-lhe o ruído, (onde acontecerá o espectáculo?), o drama, o grito. Que chatice! A Rosália chama-me, nervosa: - Outro comunicado na Rádio. Vem, depressa. Corro e ouço: -Aqui o Movimento das Forças Armadas que resolveu libertar a Nação das forças que há muito a dominavam. Viva Portugal! Também pede à policia que não resista. Mas Senhor dos Abismos! Trata-se de um golpe contra o fascismo (isto é: salazismo-caetanismo).

São dez e meia e não acredito que os «ultras» não se mexam, não contra-ataquem! Ou tudo ruÍrá de podre, sem o brandir de uma bandeira qualquer de, heroísmo, um berro, um suicídio, um brado? Nas ruas (avisto da janela da sala de jantar) as mulheres, correm com sacos de alimentos. A poetisa Maria Amélia Neto telefona-me: «Não resisti e vim para o escritório». Os revoltosos estão a conferenciar com o ministro do Exército. Na Rádio a canção do Zeca Afonso: Grândola, vila morena… Terra da fraternidade… 0 povo é quem mais ordena… Sinto os olhos a desfazerem-se
em lágrimas. Ainda assisti, ainda assisti à morte deste maldito meio século de opressão imbecil. Ao mesmo tempo nunca vivi horas mais aborrecidas de espera, de frigorífico, ao som de baladas, medíocres, sem lances dramáticos. E não serão assim sempre as verdadeiras revoluções?… Interrogo-me.
Em silêncio. Sem teatro por fora.
Em segredo. Com pantufas. De súbito, aliás, a Rádio abre-se em notícias. 0 Marcelo está preso no Quartel do Carmo. A polícia e a Guarda Republicana renderam-se. 0 Tomás está cercado noutro quartel qualquer. E, pela primeira vez, aparece o nomeado General Spínola. Novo comunicado das Forças Armadas. 0 Marcelo ter-se-á rendido ao ex-governador da Guiné. (Lembro-me do Salazar: «o poder não pode cair na rua»). Abro a janela e apetece-me berrar: acabou-se! Acabou-se finalmente este tenebroso e ridículo regime de sinistros Conselheiros Acácios de fumo que nos sufocou durante anos e anos de mordaças. Acabou-se. Vai recomeçar tudo.

A Maria Keil teIefonou. 0 Chico, está doente e sozinho em casa. Chora. (Nesta revolução as lágrimas são as nossas balas. Mas eu vi, eu vi, eu vi! … ) Antes de morrer, a televisão mostrou-me um dos mais belos momentos humanos da História deste povo, onde os militares fazem revoluções para lhes restituir a liberdade: a saída dos prisioneiros políticos de Caxias. Espectáculo de viril doçura cívica em que os presos… alguns torturados durante dias e noites sem fim…. não pronunciaram uma palavra de ódio ou de paixões de vingança. E o telefone toca, toca, toca… Juntámos as vozes na mesma alegria. (Só é pena que os mortos não nos possam também telefonar da Morte: o Bento de Jesus Caraça, o Manuel Mendes, o Casais Monteiro, o Redol, o Edmundo de Bettencourt, o Zé Bacelar, a Ofélia e o Bernardo Marques, o Pavia, o Soeiro Pereira Gomes e outros, muitos, tantos… Tenho de me contentar com os vivos. Porque felizmente dos vivos poucos traíram ou desanimaram. Resistimos quase todos de unhas, cravadas, nas palmas das mãos… De repente, estremeço, aterrado. Mas isto de transformar o mundo só com vivos não será difícil? Saio de casa. E uma rapariga que não conheço, que nunca vi na vida, agarra-se a mim aos beijos. Revolução.




José Gomes Ferreira

O fio da vida



















Há homens que rezam na penumbra
das catedrais dolentes e há outros
que do alto das pontes olham
a escuridão rumorejante das águas.
Há homens que esperam na orla
marítima e outros arrastando-se
no viscoso esterco dos subterrâneos.
Há homens debruçados em pleno azul
e outros que deslizam sobre densos verdes;
há os desatentos na atenção e os que
espreitam atentamente a ocasião.
Há homens por fora e por dentro
do cimento armado, suspensos
das mil ciladas do quotidiano voraz;
de encontro aos muros, às paredes,
ao sol do meio-dia, ao visco da noite,
às sediças solicitações de cada instante.
Há a impotência poderosa da oração
e a obsessão amarga dos suicidas
e, de permeio, os que, porque hesitam,
porque ignoram, porque não crêem,
não oram, nem se suicidam
e se quedam ante a impossibilidade de destrinça
entre o fio da vida e a vida por um fio.




Rui Knopfli

O peso da vida



















O peso da vida!
Gostava de senti-lo à tua maneira
e ouvi-la crescer dentro de mim,
em carne viva,

não queria somente
rasgar-te a ferida,
não queria apenas esta vocação paciente
do lavrador,
mas, também, a da terra
e que é a tua

Assume o amor como um ofício
onde tens que te esmerar,

repete-o até à perfeição,
repete-o quantas vezes for preciso
até dentro dele tudo durar
e ter sentido

Deixa nele crescer o sol
até tarde,
deixa-o ser a asa da imaginação,
a casa da concórdia,

só nunca deixes que sobre
para não ser memória.



Eduardo White
In "O pais de mim"

Poesia?






















Poema?
drama?
trama?
teia
veia
clama
reclama.
Exagerada?
determinada?
intensa.
Estática?
fanática?
adolescência?
maturescência
insensatez?
impermanência?
raiva?
rima
afina
a alma
harmoniza
fervilha
o corpo
reflete
a mente
aquieta
os hormônios
deixe fluir
sabor
calor
beije
volte
aposte
durma
sonhe
acorde
abrace
olhe
toque
rastreie
escritos
deixados
leia!



Jucimara Gouvêa

Nu sentado



















Foto de Kadart, via "O Jumento"





Trazida à cozinha pela fome da insónia

essa mulher que chora cavalga os saltos altos
alheia nua à dimensão que tem
quando atravessa a sala e impõe o aprumo
da carne e a força do porte que ostenta.

Quando lhe vi assim de madrugada
nua e sentada
bebendo o leite e a chorar à toa
disse para mim, já dado:

- à noite, sempre, é quando mais magoa



Ruy Duarte de Carvalho

Finalmente a verdade



















Óleo de Gerhard Richter, aqui




Estava linda e purpurina
Saciando a fome e sede à solidão,
Quando de entre as mãos sujas,
Do Carteiro amarfanhado,
Estremeci ao tocar na mensagem
Vinda dos roseirais.

Mandaram-me os delírios da discórdia,
Os insultos de paixões sovinas egoístas.
Mandaram-me o corpo e
A mulher negra tão amada.
Mandaram-me o filho,
Por mim mal parido.

Lágrimas correram ao ter nas mãos
A mensagem que não tinha,
O cheiro doce dos roseirais,
Nem a cor mimosa das flores sensuais.

Continha, sim, finalmente a verdade;
Das epopeias de um amor repudiado.

Faltava pouco amor,
Para te encontrar então nas esquinas
Mais queridas das cidades,
Que em múltiplos orgasmos imorais,
Naufragávamos juntos para além,
Além dos roseirais!




Ana Maria Branco

Oração de São Francisco de Assis


























Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor;
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão;
Onde houver discórdia, que eu leve a união;
Onde houver dúvida, que eu leve a fé;
Onde houver erro, que eu leve a verdade;
Onde houver desespero, que eu leve a esperança;
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria;
Onde houver trevas, que eu leve a luz.
Ó Mestre, Fazei que eu procure mais
Consolar, que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois, é dando que se recebe,
é perdoando que se é perdoado,
e é morrendo que se vive para a vida eterna.













Joe John Daniel
Loneliness

Um homem nunca chora



























Acreditava naquela história
do homem que nunca chora.
Eu julgava-me um homem.
Na adolescência
meus filmes de aventuras
punham-me muito longe de ser cobarde
na arrogante criancice do herói de ferro.
Agora tremo.
E agora choro.
Como um homem treme.
Como chora um homem!



José Craveirinha

O meu amor

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num bairro pertinho do meu
numa rua estreita e sem nome
mora o homem dos meus sonhos
com quem hei-de um dia casar

a rua, que não tem nome,
morre no largo junto à fonte
onde também existe um banco
onde com ele me hei-de sentar
a casa onde mora é pequenina
como a dos contos de encantar
e tem uma janela amarela
para podermos namorar

quando passo na sua rua
o meu peito bate bem forte
os meus ouvidos ficam alerta
para o seu coração escutar

ele não sabe quem sou
nem sequer como me chamo
olha-me sem me ver
e nem consegue imaginar
que comigo se há-de casar
por via de algum milagre
ou tão somente e apenas
sonho feito realidade




Anny Pereira

Minha Poesia


















Dá-me a tua luz
A verdade do olhar
Não é mal nenhum escrever meu nome
Não é mal nenhum escrever poesia
Não é mal nenhum escrever teu nome
Não é mal nenhum escrever liberdade
A paz
O amor
A bondade
A mansidão
A temperança
Dá-me a tua luz
A verdade do teu olhar
Onde vai a poesia?
Onde pára a poesia?
Se a sinceridade e a poesia dói, isto é
Escrever um poema.



Alice Palmira

Coisas da vida...





















Na vida as coisas são assim: Fala-se e ouve o que não quer; Bate de um lado e apanha do outro; Sofre pela infâmia cometida no passado; Perde o que nunca se ganhou, por alguma atitude brusca; Lamenta-se pelo não dito; Arrepende-se pelo que não fez; Sente remorsos pela covardia; Alia-se a si mesmo e aí reclama.. lamenta.. chora em vão, sabendo que tudo na vida é reflexo do que fazemos.



Lu Rosário, aqui

What's up?




















Que fez
você?
Desfez?
refez?
perdoou?
perdeu?
encontrou?
herdou?
sorriu?
amou?
odiou?
carregou?
se culpou?
cruxificou?
doeu?
foi bom?
ruim???
desata.
Ata!
Quem?
falou?
você?
eu?
o outro?
pra quem?
pra mim?
pra que?
aja!
Seja!
Ria
chore
sinta!
Desfeito?
feito?
amarre
perdido?
na estrada?
vazia
cheia
de amor?
foi?
se foi?
é?
passou?
está?
será?
responda
não esconda
não cale
fale
o que?
te espero?
encontro?
marcado?
traçado?
quem disse?
que
quero?
espero...
saber?



Jucimara Gouvêa

Pausa

























Nesta noite luarenta, lenta
de silêncio é a minha alma
a luz que é imensa, cansa
o silêncio é a minha alma!

Nesta noite luarenta, lenta
peço uma trégua: uma légua
sem raciocínios, ígneos
a chapinhar o silêncio d’água!

Nesta noite luarenta, lenta
peço uma pausa: uma causa
para os resquícios da poesia
nos interstícios da minha alma!



Cristóvão Luís Neto