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O meu amado chega e enquanto despe as sandálias de couro
marca com o seu perfume as fronteiras do meu quarto.
Solta a mão e cria barcos sem rumo no meu corpo.
Planta árvores de seiva e folhas.
Dorme sobre o cansaço
embalado pelo momento breve da esperança.
Traz-me laranjas. Divide comigo os intervalos da vida.
Depois parte.
Deixa perdidas como um sonho as belas sandálias de couro.




Ana Paula Ribeiro Tavares

Mukai*






















Foto de Ana Filipa, em Mbanza Congo, in Onde a Lua Anda



1

Corpo já lavrado
eqüidistante da semente
é trigo
é joio
milho híbrido
massambala

resiste ao tempo
dobrado
exausto
sob o sol
que lhe espiga
a cabeleira.

2

O ventre semeado
deságua cada ano
os frutos tenros
das mãos
(é feitiço)
nasce
a manteiga
a casa
o penteado
o gesto
acorda a alma
a voz
olha p'ra dentro do silêncio milenar.

3

(Mulher à noite)

Um soluço quieto
desce
a lentíssima garganta
(rói-lhe as entranhas
um novo pedaço de vida)
os cordões do tempo
atravessam-lhe as pernas
e fazem a ligação terra.

Estranha árvore de filhos
uns mortos e tantos por morrer
que de corpo ao alto
navega de tristeza
as horas.

4

O risco na pele
acende a noite
enquanto a lua
(por ironia)
ilumina o esgoto
anuncia o canto dos gatos
De quantos partos se vive
para quantos partos se morre.

Um grito espeta-se faca
na garganta da noite

recortada sobre o tempo
pintada de cicatrizes
olhos secos de lágrimas
Dominga, organiza a cerveja
de sobreviver os dias.




Ana Paula Ribeiro Tavares
in "O Lago da Lua"


* Mukai: - mulher

Trouxe as flores






















Trouxe as flores
Não são todas branças,mãe
Mas são as flores frescas da manhã
Abriram ontem
E toda a noite as guardei
Enquanto coava o mel
E tecia o vestido
Não é branco, mãe
Mas serve à mesa do sacrifício
Trouxe a tacula
Antiga do tempo da avó
Não é espessa, mãe
Mas cobre o corpo
Trouxe as velas
De cera e asas
Não são puras, mãe
Mas podem arder toda a noite
Trouxe o canto
Não é claro, mãe
Mas tem os pássaros certos
Para seguir a queda dos dias
Entre o meu tempo e o teu.



Ana Paula Ribeiro Tavares
in Ex-votos

Rapariga
























Cresce comigo o boi com que me vão trocar
Amarram-me já às costas, a tábua Eylekessa
Filha de Tembo
organizo o milho

Trago nas pernas as pulseiras pesadas
Dos dias que passaram...
Sou do clã do boi -

Dos meus ancestrais ficou-me a paciência
O sono profundo do deserto
a falta de limite...

Da mistura do boi e da árvore
a efervescência
o desejo
a intranquilidade
a proximidade
do mar
Filha de Huco
Com a sua primeira esposa
Uma vaca sagrada
concedeu-me
favor das suas tetas úberes.




Ana Paula Ribeiro Tavares

A Guerra
















A hiena uivou toda a noite
o bicho esfomeado uivou toda a noite
as vozes saíram das casas
como o fogo se levanta das cinzas
altas todas juntas no medo
os dentes dos guerreiros
batiam sem parar
os pés das velhas juntaram-se para aquietar a poeira
um companheiro nosso não regressou
o filho único de nossas mães
não vai voltar de pé
é só o seu cheiro que volta agora
e um corpo separado daquilo que era antes
um filho dos nossos não regressou
a hiena uivou toda a noite
a terra ficou dura sob os nossos pés.



Ana Paula Ribeiro Tavares
In Dizes-me Coisas Amargas como os Frutos

Os antepassados usam o espelho


























Os antepassados usam o espelho
Todas as noites

Eh! Olha a aldeia dos nossos antepassados
A verdadeira aldeia sombreada de palmeiras
Que nos obrigaram a abandonar
Eh! Os antepassados
Eh! Os nossos antepassados
Mais as aldeias que nos obrigaram a abandonar
As aldeias sombreadas de palmeiras
Eh! O conjunto tão bonito das nossas aldeias
Eh! A aldeia tão bonita dos nossos antepassados
Que nos obrigaram a abandonar

Os antepassados usam o espelho todas as noites



Ana Paula Ribeiro Tavares
In Ex-Votos

Circumnavegação



















Foto daqui



Em volta da flor fez
a abelha
a primeira viagem
circumnavegando
a esfera



Achado o perímetro
suicidou-se, LÚCIDA
no rio de pólen
descoberto.





Ana Paula Ribeiro Tavares

Colheitas





De dez em dez anos
cada círculo
completa sobre si mesmo
uma viagem
nasce-se, brota-se do chão
e dez anos depois o primeiro
forma-se espera e cai
por gravidade
ao vigésimo oitavo dia

entre dez em dez anos
prepara-se
para a semente
a terra
aos vinte surge
o arado
a chuva
o sorriso
Alguns dez anos depois
espera-se o fim
de vinte e oito
em
vinte e oito dias


Ana Paula Ribeiro Tavares
In Rito de Passagem

A Manga


Mango Tree Woman, de Jedediah Dougherty Posted by Picasa


Fruta do paraíso
companheira dos deuses
as mãos
tiram-lhe a pele
dúctil
como, se de mantos
se tratasse
surge a carne chegadinha
fio a fio
ao coração
leve
morno
mastigável
o cheiro permanece
para que a encontrem
os meninos
pelo faro


Ana Paula Ribeiro Tavares
(Ritos de Passagem)

O cercado


Entrance to african village, Dan Civa Posted by Hello


De que cor era o meu cinto de missangas, mãe
feito pelas tuas mãos
e fios do teu cabelo
cortado na lua cheia
guardado do cacimbo
no cesto trançado das coisas da avó

Onde está a panela do provérbio, mãe
a das três pernas
e asa partida
que me deste antes das chuvas grandes
no dia do noivado

De que cor era a minha voz, mãe
quando anunciava a manhã junto à cascata
e descia devagarinho pelos dias

Onde está o tempo prometido p'ra viver, mãe
se tudo se guarda e recolhe no tempo da espera
p'ra lá do cercado


Ana Paula Ribeiro Tavares
(Dizes-me coisas amargas como os frutos)

Não conheço nada do país do meu amado

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Não conheço nada do país do meu amado
Não sei se chove, nem sinto o cheiro das
laranjas.
Abri-lhe as portas do meu país sem perguntar nada
Não sei que tempo era
O meu coração é grande e tinha pressa
Não lhe falei do país, das colheitas, nem da seca
Deixei que ele bebesse do meu país o vinho o mel a carícia
Povoei-lhe os sonhos de asas, plantas e desejo
O meu amado não me disse nada do seu país
Deve ser um estranho paíso país do meu amado
pois não conheço ninguém que não saiba
a hora da colheita
o canto dos pássaros
o sabor da sua terra de manhã cedo
Nada me disse o meu amado
Chegou
Mora no meu país não sei por quanto tempo
É estranho que se sinta bem
e parta.
Volta com um cheiro de país diferente
Volta com os passos de quem não conhece a pressa.


Ana Paula Ribeiro Tavares