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Oração
sexta-feira, janeiro 16, 2009
Cacusso

Senhor,
dá-nos o prometido no princípio
quanto os homens errantes no deserto
receberam de ti a obrigação;
dá-nos a terra fértil dos eleitos;
a pátria para o povo de escolhidos
que ainda não tem pão.
É a hora,
Senhor!
É a hora da estrela refulgir
guiando os passos do teu povo esparso
nas trevas desta noite de ganância
e dor
e confusão.
É a hora,
Senhor!
Dá-nos o prometido no princípio:
a terra da promissão.
Cochat Osório
Último poema
quarta-feira, novembro 19, 2008
Cacusso

Sair do temporal
é ganhar tempo pra coser as velas
é ganhar tempo pra fazer aguada
e aparelhar.
O meu destino certo e tão inquieto
é o destino trémulo e concreto
duma agulha de marear.
Ah, não esperem que eu não espere,
nem acreditem que eu tema
ou que eu possa naufragar…
Numa vela renovada
há insistência pra conter o vento,
há arrogância pra conter o mundo,
há energia pra domar o tempo
e força pra singrar.
Sair do temporal
é ter a nostalgia do combate
que vai recomeçar.
Tomei o gosto às horas de calema
e sou irmão do mar.
Cochat Osório
Quando a hora chegar...
sexta-feira, junho 08, 2007
Cacusso

A hora
que anda na angústia forte da esperança
e na alegria trágica e cansada
de não esperar.
Quando a hora chegar...
Essa hora
com bandeiras, bandeiras e bandeiras
e multidões vibrantes a passar
para dizer aos homens do passado,
para dizer aos homens do futuro,
para dizer presente
e continuar.
Quando a hora chegar...
Há crianças sem pai,
há crianças sem mãe,
que hão-de por risos novos sobre a boca
que ainda não tem pão;
que hão-de pôr brilhos novos sobre os olhos
que ainda vão chorar;
que hão-de pôr forças novas no combate
que vai recomeçar.
Quando a hora chegar...
Cimentada com lágrimas e sangue
e dor
e ansiedade
e medo de a perder...
Ah!, levem-me também,
eu vou também!
( Eu quero ter esta certeza
se não sobreviver!)...
Cochat Osório
1966
Paisagem
quinta-feira, setembro 29, 2005
Cacusso
No fundo
além da fortaleza sonhadora,
das acácias em flor,
da cidade espalhada em colinas,
da cascata de vidros nas encostas,
do vôo disparado daquele patos
e do calor de tua mão,
no fundo,
feito paisagem indiferente,
o ruído do mar.
Monótono, constante, distraído,
marcando-me o compasso ao pensamento.
E o pôr-de-sol, as nuvens cor de fogo,
a cinza abrasada, um dongo na baía,
a fortaleza debruçada, além,
como quem espreita para além do mar...
Toda a beleza cálida me fere,
só porque o mar,
monótono, indiferente,
repete aquelas frases, cáusticas, brutais,
que eu trouxe no meu peito com vinte anos
os versos de combate,
o meu olhar altivo,
as horas de visão
e os passos muito incertos e tão fortes
que eu sentia no rumo do futuro.
Há uma sombra no céu
e uma névoa nos meus olhos.
As janelas apagam-se em penumbra,
o dongo atravessou a água mansa
e a tua mão aquece a minha mão.
E a tua mão aquece a minha mão.
Crispas os dedos, sentes esta angústia:
a beleza completa-se com dor.
Ao fundo, o mar,
o mar que nos embala e nos conforta,
o mar...
Ó meu amor, e diz,
eu ouço, ele diz,
que a alma não está gasta,
a ânsia não está morta,
se os olhos são capazes de chorar!
Cochat Osório
(No reino de Caliban II - antologia
panorâmica de poesia africana de expressão portuguesa)
