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(A Estáline)


























Vivemos num país ora irreal e estranho;
Não há quem nos ouça a dez passos de distância.
Mas quando cochichando temos conversado,
o montanhês do Kremlin sempre é nomeado.

O dedo grosso, verme gordo, gesticula.
Suas palavras chegam como um forte murro.
Bigodes de barata são de riso amável,
O cano das suas botas brilha de impecável.

Seu bando de senhores está sempre a postos,
Brutais semi-humanos á sua ordem tortos.
Decretos incessantes, como pontapés
Acertam-nos nos olhos, baixo-ventre, testas.

Tem busto atlético, da Geórgia uma beleza.
E cada nova morte é sua sobremesa.





Recordar, nas palavras de Osip Emilievitch Mandelstamm, traduzidas por Jorge de Sena, 128 anos depois do seu nascimento, esse monstro que foi Joseph Vissarionovich Dzhugashvili (Estalin)





A Canção do Albatroz




Sobre a superfície cinzenta do mar
O vento reúne pesadas nuvens
Semelhante a um raio negro

Entre as nuvens e o mar
Paira orgulhoso o albatroz
Mensageiro da tempestade

E ora são as asas tocando as ondas
Ora é uma flecha rasgando as nuvens

Ele grita
E as nuvens escutam a alegria
No ousado grito do pássaro

Nesse grito
Sede de tempestade

Nesse grito
As nuvens escutam a fúria

A chama da paixão
A confiança na vitória

As gaivotas gemem
Diante da tempestade
Gemem e lançam-se ao mar

Para lá no fundo esconder
O pavor da tempestade

E os mergulhões também gemem

A eles, mergulhões
É inacessível a delícia
Da luta pela vida:
O barulho do trovão amedronta-os

O tolo pinguim
Timidamente esconde
Seu corpo obeso entre as rochas

Apenas o orgulhoso albatroz voa
Ousado e livre
Sobre a espuma cinzenta do mar

Tonitroa o trovão
As ondas gemem na espuma da fúria
E discutem com o vento

Eis que o vento abraça
Uma porção de ondas com força
E lança-as com maldade selvagem
Nas rochas

Espalhando-as como a poeira
Respingando uma noite
De esmeraldas

O albatroz paira a gritar
Como um raio negro
Rompendo as nuvens
Como uma flecha
Levantando espuma com suas asas

Ei-lo voando rápido
Como um demónio

Orgulhoso e negro
Demónio da tempestade

Ri das nuvens, soluça de alegria
Ele - sensível demónio
Há muito vem escutando
Cansaço na fúria do trovão

Tem certeza de que as nuvens
Não escondem
Não, não escondem

Uiva o vento
Ribomba o trovão

Sobre o abismo do mar
Um monte de nuvens pesadas
Brilham como centelhas

O mar pega as flechas de relâmpagos
E apaga-as em sua voragem
Parecem cobras de fogo

Os reflexos desses raios
Rastejando sobre o mar
E desaparecendo

Tempestade!
Breve rebentará a tempestade!

Esse corajoso albatroz
Paira altivo entre os raios

E sobre o mar furiosamente urrando
Então grita o profeta da Vitória


QUE MAIS FORTE
ARREBENTE A TEMPESTADE!


Máximo Gorki


Máximo Gorki escreveu este belo
poema em 1901 sentindo o tempo que vivia.

A palavra albatroz (burieviestnik) em russo pode ser traduzida como mensageiro
(viéstnik) da tempestade (buria), por ser ele o único animal que sai
alegremente a voar e sente-se perfeitamente à vontade
no meio de qualquer tormenta.

A mensagem é clara: no meio do caos, não devemos temer as tempestades,
mas voar com elas e contribuir para que elas transformem efectivamente o mundo!

A Confissão de um Vagabundo


.. Posted by Hello


Nem todos sabem cantar
Não é dado a todos ser maçã
Para cair aos pés dos outros.

Esta é a maior confissão
Que jamais fez um vagabundo.

Não é à toa que eu ando despenteado,
Cabeça como lâmpada de querosene sobre os ombros.
Me agrada iluminar na escuridão
O outono sem folhas de vossas almas,
Me agrada, quando as pedras dos insultos
Voam sobre mim, granizo vomitado pelo vento.
Então limito-me a apertar mais com as mãos
A bolha oscilante dos cabelos.

Como eu me lembro bem então
Do lago cheio de erva e do som rouco do amieiro
E que nalgum lugar vivem meu pai e minha mãe,
Que pouco se importam com meus versos,
Que me amam como a um campo, como a um corpo,
Como à chuva que na primavera amolece o capim.
Eles, com seus forcados, viriam aferrar-vos
A cada injúria lançada contra mim.

Pobres, pobres camponeses,
Por certo, estão velhos e feios,
E ainda temem a Deus e aos espíritos do pântano.
Ah, se pudessem compreender
Que o seu filho é, em toda a Rússia,
O seu melhor poeta!
Seus corações não temiam por ele
Quando molhava os pés nos charcos outonais?
Agora ele anda de cartola
E sapatos de verniz.

Mas sobrevive nele o antigo fogo
De aldeão travesso.
A cada vaca, no letreiro dos açougues,
Ele saúda à distância.
E quando cruza com um coche numa praça,
Lembrando o odor de esterco dos campos nativos,
Lhe dá vontade de suster o rabo dos cavalos
Como a cauda de um vestido de noiva.

Amo a terra.
Amo demais a minha terra!
Embora a entristeça o mofo dos salgueiros,
Me agradam os focinhos sujos dos porcos
E, no silêncio das noites, a voz alta dos sapos.
Fico doente de ternura com as recordações da infância.
Sonho com a névoa e a humidade das tardes de abril,
Quando o nosso bordo se acocorava
Para aquecer os ossos no ocaso.
Ah, quantos ovos nos ninhos das gralhas,
Trepando nos seus galhos, não roubei!
Será ainda o mesmo, com a copa verde?
Sua casca será rija como antes?

E tu, meu caro
E fiel cachorro malhado?!
A velhice te fez cego e resmungão.
Cauda caída, vagueias no quintal,
Teu faro não distingue o estábulo da casa.
Como recordo as nossas travessuras,
Quando eu furtava o pão de minha mãe
E mordíamos, um de cada vez,
Sem nojo um do outro.

Sou sempre o mesmo.
Meu coração é sempre o mesmo.
Como as centáureas no trigo, florem no rosto os olhos.
Estendendo as esteiras douradas de meus versos
Quero falar-vos com ternura.

Boa noite!
Boa noite a todos!
Terminou de soar na relva a foice do crepúsculo...
Eu sinto hoje uma vontade louca
De mijar, da janela, para a lua.

Luz azul, luz tão azul!
Com tanto azul, até morrer é zero.
Que importa que eu tenha o ar de um cínico
Que pendurou uma lanterna no traseiro!
Velho, bravo
Págaso exausto,
De que me serve o teu trote delicado?
Eu vim, um mestre rigoroso,
Para cantar e celebrar os ratos,
Minha cabeça, como Agosto,
Verte o vinho espumante dos cabelos.

Eu quero ser a vela amarela
Rumo ao país para o qual navegamos.


Siérguei Iessiênin
(tradução de Augusto de Campos)