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Vivo
















Teu amor é como um lago,
límpido e transparente.
De águas calmas e profundas,
que refletem como espelho,
mas que ao mesmo tempo
aceita a luz que o penetra,
como o corpo do amante que penetra a amada
e ali permanece...
pleno em seu regaço,
sendo uno,
enquanto parte do Universo...
pleno, calmo, tranquilo
e, no entanto, vivo...
em plena ebulição.


Carmem L Vilanova

Gosto...






















Gosto de falar de Amor como quem fala das coisas simples da Vida...
Gosto de falar de Amor assim, de forma natural...
Não sei fazer versos bonitos, rebuscados, rimas perfeitas, isso eu não sei...
Mas sei falar de Amor com a simplicidade de quem senta à mesa da cozinha para conversar e tomar uma xícara de chá com torradas ou de quem olha pela varanda agradecendo à Natureza pelo pôr-do-sol...
Simples assim... e tão belo, e tão sincero, como as coisas realmente importantes da vida!
Gosto de falar de Amor e das coisas do cotidiano...
Porque é nelas que eu encontro a grandeza e a felicidade que a Vida me proporciona...
Gestos simples, frases simples...
Um beijo, um olhar, um carinho, uma palavra de afeto, uma atenção em um momento inesperado...
Estes sim, Gestos pequenos e, no entanto, Grandes atitudes...

Gosto...
Simplesmente porque é assim que eu Sei de Falar de Amor...



Carmem L Vilanova

O barco
















Vai barco!
Leva contigo minha solidão.
Sozinha estou.
Abandonaram-me a paz, a harmonia, a vontade de ser.
Deixaram-me aqui a padecer de sonhos e esperanças.
Esperanças que alimentam sonhos...
Sonhos que me ajudam a viver.

Vai barco!
Leva contigo minha tristeza.
A tristeza é feia e eu tenho medo.
Medo de não voltar a ser feliz como um dia fui.
Medo de me acostumar à mesmice do cotidiano.
Medo de não voltar a ver meu sorriso...
Sorriso que já não flui.

Vai barco!
Leva contigo minha amargura.
A amargura dói e faz doer.
Quero de volta minha alegria.
Alegria às vezes sinto por amar e saber-me amada;
Mas com medo de fazer sofrer.

Vem barco!
E traz contigo tudo o que perdi.
Enche-me de esperanças,
Que alimentam meus sonhos,
Que espantam essa tristeza,
Que me devolvem o sorriso,
Que expulsam a amargura,
Que me refazem de alegrias,
Que me permitem amar e querer viver.



Foto e poema de
Carmem L Vilanova

Verdade





















A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.


Carlos Drummond de Andrade

Ganhei coragem




















Lisboa, 1º. de Maio de 1974



"Mesmo o mais corajoso entre nós só raramente
tem coragem para aquilo que ele realmente conhece",
observou Nietzsche.
É o meu caso.
Muitos pensamentos meus, eu guardei em segredo.
Por medo.
Alberto Camus, leitor de Nietzsche, acrescentou um detalhe
acerca da hora em que a coragem chega:
"Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos".
Tardiamente.
Na velhice.
Como estou velho, ganhei coragem.

Vou dizer aquilo sobre o que me calei:
"O povo unido jamais será vencido", é disso que eu tenho medo.

Em tempos passados, invocava-se o nome de Deus
como fundamento da ordem política.
Mas Deus foi exilado e o "povo" tomou o seu lugar:

a democracia é o governo do povo.
Não sei se foi bom negócio;
o fato é que a vontade do povo, além de não ser confiável,
é de uma imensa mediocridade.
Basta ver os programas de TV que o povo prefere.

A Teologia da Libertação sacralizou o povo
como instrumento de libertação histórica.
Nada mais distante dos textos bíblicos.
Na Bíblia, o povo e Deus andam sempre em direções opostas.
Bastou que Moisés, líder, se distraísse na montanha
para que o povo, na planície,
se entregasse à adoração de um bezerro de ouro.
Voltando das alturas, Moisés ficou tão furioso
que quebrou as tábuas com os Dez Mandamentos.

E a história do profeta Oséias, homem apaixonado!
Seu coração se derretia ao contemplar o rosto da mulher que amava!
Mas ela tinha outras ideias.
Amava a prostituição.
Pulava de amante e amante enquanto o amor de Oséias
pulava de perdão a perdão.
Até que ela o abandonou.
Passado muito tempo, Oséias perambulava solitário
pelo mercado de escravos.
E o que foi que viu?
Viu a sua amada sendo vendida como escrava.
Oséias não teve dúvidas.
Comprou-a e disse:
"Agora você será minha para sempre.".
Pois o profeta transformou a sua desdita amorosa
numa parábola do amor de Deus.

Deus era o amante apaixonado.
O povo era a prostituta.
Ele amava a prostituta, mas sabia que ela não era confiável.
O povo preferia os falsos profetas aos verdadeiros,
porque os falsos profetas lhe contavam mentiras.
As mentiras são doces;
a verdade é amarga.

Os políticos romanos sabiam que o povo se enrola
com pão e circo.
No tempo dos romanos, o circo eram os cristãos
sendo devorados pelos leões.
E como o povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos!
As coisas mudaram.
Os cristãos, de comida para os leões,
se transformaram em donos do circo.

O circo cristão era diferente:
judeus, bruxas e hereges sendo queimados em praças públicas.
As praças ficavam apinhadas com o povo em festa,
se alegrando com o cheiro de churrasco e os gritos.
Reinhold Niebuhr, teólogo moral protestante, no seu livro
"O Homem Moral e a Sociedade Imoral"
observa que os indivíduos, isolados, têm consciência.
São seres morais.
Sentem-se "responsáveis" por aquilo que fazem.
Mas quando passam a pertencer a um grupo,
a razão é silenciada pelas emoções coletivas.

Indivíduos que, isoladamente,
são incapazes de fazer mal a uma borboleta,
se incorporados a um grupo tornam-se capazes
dos atos mais cruéis.
Participam de linchamentos,
são capazes de pôr fogo num índio adormecido
e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival.
Indivíduos são seres morais.
Mas o povo não é moral.
O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo.

Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional,
segundo a verdade e segundo os interesses da coletividade.
É sobre esse pressuposto que se constrói a democracia.

Mas uma das características do povo
é a facilidade com que ele é enganado.
O povo é movido pelo poder das imagens
e não pelo poder da razão.
Quem decide as eleições e a democracia são os produtores de imagens.
Os votos, nas eleições, dizem quem é o artista
que produz as imagens mais sedutoras.
O povo não pensa.
Somente os indivíduos pensam.
Mas o povo detesta os indivíduos que se recusam
a ser assimilados à coletividade.
Uma coisa é a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham.

Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo.
Jesus foi crucificado pelo voto popular, que elegeu Barrabás.
Durante a revolução cultural, na China de Mao-Tse-Tung,
o povo queimava violinos em nome da verdade proletária.
Não sei que outras coisas o povo é capaz de queimar.

O nazismo era um movimento popular.
O povo alemão amava o Führer.

O povo, unido, jamais será vencido!

Tenho vários gostos que não são populares.
Alguns já me acusaram de gostos aristocráticos.
Mas, que posso fazer?
Gosto de Bach, de Brahms, de Fernando Pessoa, de Nietzsche,
de Saramago, de silêncio;
não gosto de churrasco, não gosto de rock,
não gosto de música sertaneja,
não gosto de futebol.
Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo,
eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos
e a engolir sapos e a brincar de "boca-de-forno",
à semelhança do que aconteceu na China.

De vez em quando, raramente, o povo fica bonito.
Mas, para que esse acontecimento raro aconteça,
é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo escute:
"Caminhando e cantando e seguindo a canção.",
Isso é tarefa para os artistas e educadores.
O povo que amo não é uma realidade, é uma esperança.


Rubem Alves

Eu sei que eu vou te amar





Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida eu vou te amar
A cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente
Eu sei que eu vou te amar

E cada verso meu será pra te dizer
Que eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida

Eu sei que vou chorar
A cada ausência sua eu vou chorar
Mas cada volta sua há de apagar
O que essa ausência sua me causou

Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver
A espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida


Vinicius de Moraes

Luanda















a lua anda
conforme a música


a noite fecha
meus olhos
mas é você
quem dorme e dança


nua anda
na distância
pelo deserto sereno


eu penso numa boca
que ainda não me beija
a fotografia - a mesma -
revela o sonho
de um sorriso bom.



Felipe Rey
In "Subversos"

Singular
















Como somos pequenos e sozinhos.
Ao acordar não tenho ninguem para quem olhar ,
falar meu sonho ou abraçar.
Mas não me cabe usar metáforas para expressar a solidão.
Quem lê esses pensamentos pensa que sou infeliz,
nem tanto,
sou apenas singular!



Larissa Machado

Viagem
























Não é preciso morar na esquina
nem ser jovem ou belo:
o amor melhor é sempre dentro
e perto.
Chega inesperado,
vem forte vem doce, acalma
e desatina.

Se está na minha rua ou vem de fora,
ele ignora o tempo e a idade:
o amor é sempre
agora.

É vento sutil e mar sem beira:
o amor é destino de quem está aberto,
e dói sem remissão quando negado.

O melhor amor sacia a fome inteira:
mas tem de ser aceito,
tem de ser ousado, tem de ser
navegado.



Lya Luft

Lembro-me de ti


















Lembro-me de ti
Nesse instante absoluto,
A vida conduzida por um fio de música.
Intenso e delicado, ele vai-nos fechando num casulo
Onde tudo será permitido.
Se é só isso que podemos ter,
Que seja forte. Que seja único.
Tão íntimo quanto ouvirmos a mesma melodia,
Tendo o mesmo - esplêndido - pensamento.



Lya Luft

Trem de lata




Almir Sater

Meditemos
























Ante as sandálias furadas
Que entre cascalhos gastei,
Não culpo o chão das estradas,
Culpo os maus passos que dei.



Machado de Assis

Jeito de mato




Almir Sater & Paula Fernandes

Chama quente





Gosto de ti apaixonadamente
De ti, és a vitória, a salvação
De ti que me trouxeste pela mão
Até o brilho desta chama quente

A tua linda voz de água corrente
Ensinou-me a cantar... e essa canção
Foi ritmo nos meus versos de paixão
Foi graça no meu peito de descrente

Bordão a amparar minha cegueira,
Da noite negra o mágico farol,
Cravos rubros a arder numa fogueira!

E eu, que era no mundo uma vencida
Ergo a cabeça ao alto, encaro o sol!
― Águia real, apontas-me a subida!



Florbela Espanca

Adultério Literário



















Alguém me disse que pareço mais velho
Sinceramente acho que sim
Fui envelhecido pelas muitas vidas que vivi
Já fui viajante, religioso,
Revolucionário, músico,
Louco... e até trabalhador.


Hoje sou poeta, faço versos
Uso as palavras
Sou possuído por elas
Tomam-me de assalto
E quando percebo, escrevo
Saem de mim correndo
Para encontrarem seu papel
São como as espumas
Que o mar não consegue esconder,
Brotam, esbravejam, quebram


Tenho um caso de amor com as palavras
Um romance secreto, adultério
São minhas amantes caladas
E me cobram encontros noturnos
Na calada da noite, na praia...
E eu vou, contestando a moral
Ao encontro fugaz dessas doidas
Que me enchem a mente arredia
Fazendo de mim refém
Se não escrevo, maltratam-me
Pois não saem da cabeça


Tenho que escreve-las, me ordenam
Dominam-me, como na cama
Domina a mulher sorrateira
Enlouquecem-me até que de gozo
Chego a explodir muitas delas
Prazer, choro, alívio
Elas já não me aprisionam
Agora me deixam livre...
Livre ???


Daqui a pouco começa tudo de novo...




José Barbosa Júnior

O lado bom

















Foto de Pedro Norton de Matos em "Caminhadas e Descoberta em STP"





Quero ser uma ilha,
um pouco de paisagem,
uma janela aberta,
uma montanha ao longe,
um aceno de mar.
Quando precisares de sonho,
de um canto de beleza,
de um pouco de silêncio,
ou simplesmente
de sol... e de ar...
Quero ser o lado bom
em que pensas,
isto que intimamente
a gente deseja
mas nem sempre diz
- quero ser, naquela hora,
o que sentes falta
para seres feliz...
Que quando pensares
em fugir de todos
ou de ti mesmo, enfim,
penses em mim...



Millôr Fernandes

Admiração é...
























Capa do jornal "Record" de hoje





Brasil, 6 - Portugal, 2
A imprensa portuguesa fala, quase em uníssono, em humilhação...

Humilhação???

Humilhação é ter uma equipa claramente superior, superiormente orientada e com jogadores de superior categoria e, nessas condições, perder clamorosamente 6-2!!!

Foi isso que aconteceu??? Não, com toda a clareza!
Não houve qualquer humilhação.

O Brasil é claramente superior... O Brasil foi claramente superior em todos os capítulos de jogo!
Onde está a admiração??

Admiração é... termos conseguido ganhar em Malta!
Admiração é... caber na cabeça de alguém que uma equipa em claro declínio tenha colocado como hipótese, ainda que meramente académica, estar ao mesmo nível do Brasil!!
Admiração é... alguém acreditar em Queirós quando afirma que a equipa se deslumbrou com um golo aos 4 minutos. Completamente estapafúrdia esta ideia!!
Admiração é... que alguém penssasse que, pelo facto de Scolari ter tido 1 empate e 2 vitórias contra o Brasil, ganhar era um dado adquirido e o Brasil tinha passado ad aeternum á condição de nosso "cliente"... Santa ingenuidade!
Admiração é... que alguém tenha pensado que o jogo serviria apenas para que Káka passasse sem luta a "coroa" a Cristiano Ronaldo e o Brasil se vergasse á superioridade que, para Portugal, isso representaria. Claríssimo engano!!! Se o jogo se resumisse a isso, Ronaldo teria perdido talvez não 6-2 com Káka mas aí uns... 10-0!!!!
Admiração é... ninguém perceber que para Ronaldo brilhar precisa de ter uma equipa com ele. No United é 10+Ronaldo, aqui pretende-se que seja Ronaldo+10!!! Idiotice!
Admiração é... que apenas agora se tenha percebido não ser possível haver um treinador campeão do mundo sem perceber nada do que faz.
Admiração é... que o patrão de Queirós tenha voltado a permitir jogos de bastidores, de influência dos clubes,tenha voltado a optar pelo poder dos empresários ou pelo poder que os media tem em fazer e desfazer equipas...
Admiração é... ninguém entender que faz falta no balneário para defesa dos jogadores, para implementação de um modelo, de modo a conseguirem-se atingir os objectivos, de alguém que mande efectivamente. Mesmo que seja desagradável, casmurro e apelidado de sargentão. Ao que sei a diplomacia tem lugar no Palácio das Necessidades e não em qualquer campo de futebol.

O que custou ver no Brasil/Portugal foi o "baile" - o mesmíssimo tipo de "baile" que o FC Porto dançou no Emirate Stadium.
Num e noutro foi confragedor e chegou a dar pena... e aí estou de acordo com Queirós.
Deu pena!
Não pode é, com todo o peso que isso tem, deixar de assumir as r-e-s-p-o-n-s-a-b-i-l-i-d-a-d-e-s.
Não sou eu que ganho palettes de dinheiro para treinar e orientar a equipa. É ele!

Em qualquer clube, Queirós não chegaria ao Natal.
Aqui vai chegar.
Os media dar-lhe-ão o apoio... porque precisam dele. No dia em que ele, farto de palpites, lhes virar as costas... será crucificado por menos que estes 6-2 e, provavelmente, por qualquer fait-divers sem qualquer importância.

Por este andar voltaremos a estar na fase final do Mundial Ibérico (2018) provavelmente sob a batuta de um velho astuto e vivido de nome... Luiz Felipe Scolari.

Lago
























Foto de Luiz Aguiar, aqui






Quando tua libélula forma
esvoaça sobre meu corpo
um lago vítreo rebenta
em círculos argênteos.
As margens se fazem distantes
e flutuo vitória-régia
na superfície do desejo maduro.
A vida, surpresa aquática,
me arrasta em cheiros
nas ondas negras dos teus cabelos.
Enfim, sem as amarras da razão,
aprendo a nadar
nas profundezas do teu riso
como uma estrela-do-mar.



Jurema Barreto de Souza

Carrossel



















P/ Lídia de Paula



tantas
noites
entre
nós

muitas luas
movendo silêncios
e palavras nuas

em cada gesto
sempre um festa
com gosto de paixão

te quero
te espero
muito além
de toda ilusão



Zhô Bertholini

Surrealismo


















René Magritte - Le double secret (1927)





O que sobrou
do lixo
rio raso
terra vazia
país de metal
e máquina
a ciência
não tem resposta
a medicina
prolonga
o sofrimento
uma realidade
tela de Magritte.



Almandrade