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Esperança



























Se quiseres partir amanhã
eu paro o mundo
com facilidade assim
com esta mão
e então descobriremos
o mais profundo fundo que há no mundo
que é no irmos fundo às coisas
que há razão
de verdades consumadas me consomem
de falácias bem montadas me alimentam
mas meu filho mora o reino do futuro
que é mais duro
e não vai ser com palavras
que o contentam

Se a morte lenta te rebenta sob a pele
a cada dia
e se no teu braço apenas sentes a força
de um cansaço organizado
mas manténs na tua fronte a dúvida
e o gosto pelo longe e a maresia
e se sentes no teu peito de criança
a alma de um sonho amordaçado
se quiseres partir amanhã
eu paro o mundo
com facilidade assim
com esta mão
e então descobriremos o mais profundo
fundo que há no mundo
que é no irmos fundo às coisas que há razão


(iste mundus furibundus falsa prestat gaudia
quia fluunt et decurrunt ceu campi lilia
Laus mundana vita vana vera tillit premia
nam impellit et submergit animas in tartara)



Pedro Barroso


Cantar Brejeiro

Rancho Folclórico da Ribeira de Celavisa (1981)
Cacusso está...por aí! ;-)


Passei de largo para ver se não te via
se me esquecia do teu doce bamboleio
mas por má sorte caminhaste para mim
olhos gulosos e assim
c'o vento a colar teu seio

olha a perninha, a perninha da menina
olha a perninha, a perninha a dar a dar
cabeça não tem juízo
e a perna é que vai pagar

amor de verão que foi no tempo das colheitas
e o teu perfume tinha a naturalidade
de quem descansa dos trabalhos e maleitas
nos derriços mais gostosos
de uma breve mocidade

olha a perninha, a perninha da menina
olha a perninha, a perninha a dar a dar
cabeça não tem juízo
e a perna é que vai pagar

mas da seara cortada fez-se farinha
dessa farinha com fermento fiz o pão
ficou-me ao peito essa trigueira rainha
que me roubou a alegria
ao meu canto e coração

Pedro Barroso









Menina dos Olhos de Água



























Menina em teu peito sinto o Tejo
e vontades marinheiras de aproar
Menina em teus lábios sinto fontes
de água doce que corre sem parar
Menina em teus olhos vejo espelhos
e em teus cabelos nuvens de encantar
E em teu corpo inteiro sinto feno
rijo e tenro que nem sei explicar
Se houver alguém que não goste
não gaste, deixe ficar
que eu só por mim quero te tanto
que não vai haver menina para sobrar
Aprendi nos 'esteiros' com Soeiro
e aprendi na 'fanga' com Redol
Tenho no rio grande o mundo inteiro
e sinto o mundo inteiro no teu colo
Aprendi a amar a madrugada
que desponta em mim quando sorris
És um rio cheio de água lavada
e dás rumo à fragata que escolhi
Se houver alguém que não goste
não gaste, deixe ficar
que eu só por mim quero te tanto
que não vai haver menina para sobrar


Pedro Barroso