terça-feira, abril 15, 2008
Cacusso

Nesta noite luarenta, lenta
de silêncio é a minha alma
a luz que é imensa, cansa
o silêncio é a minha alma!
Nesta noite luarenta, lenta
peço uma trégua: uma légua
sem raciocínios, ígneos
a chapinhar o silêncio d’água!
Nesta noite luarenta, lenta
peço uma pausa: uma causa
para os resquícios da poesia
nos interstícios da minha alma!
Cristóvão Luís Neto
quinta-feira, novembro 15, 2007
Cacusso

Observo as trevas.
As ervas
que apalpo na polpa da escuridão
são apenas tretas da poesia
e orvalho de lágrimas
ouço as trevas num luto
só e só quando me escruto!
Não sei
se sou eu a noite
- a noite o que é senão noite? -
mas sei que mordo as trevas
quando perscruto o frufru das sombras!
Sombras que me contam
as histórias dos seres que fui
antes de ser um querer que era:
um sacrifício oferecido à quimera!
Marcha na penumbra a poesia
eu fornico as sombras do dia
a noite é minha concubina
- sou eu o eremita das trevas!
Cristóvão Luís Neto
sábado, março 31, 2007
Cacusso

Eu não vivo
vivo disperso no mar cósmico
a minha existência é uma nuvem
eu não vivo
porque vivo a inconstância do ser.
Eu não vivo
vivo o grande conflito
entre as estrelas e os deuses
então me esqueço
dissipo-me nas trevas do Universo
então me vendo ao existencialismo de Sartre
e afogo-me no álcool da teodiceia.
Desisto: a vida viveu-me
aspirando os meus parcos desejos.
Não existo:
dei à Vida a minha vida!
Cristóvão Luís Neto
sábado, setembro 23, 2006
Cacusso

Seja a noite
A desconstrução da idade.
Mármore. Putas. Dedos infiéis.
(Estou só a brincar com os dedos!)
Desde há algum tempo
Eu próprio sumi em mim:
Os dedos bebem aços de fel
E o mármore veste-me os sonhos de frio!
Cristóvão Luís Neto
segunda-feira, agosto 07, 2006
Cacusso

Se da poesia nascessem
Rios caudalosos
E colinas verdes
Se fosse ao menos a poesia
Uma madrugada
Na minha terra enublada
Ou mandiocais
Ou letras no cais
Do meu sonho
Ou letras no colóquio
Das sombras que me habitam...
Se poesia ontem cantei
Hoje das minhas mãos nascem pedras
Das minhas mãos trémulas nascem pétalas
E não há rios caudalosos
Nem florestas frondosas
Apenas poesia que desconheço
No cristal húmido dos dias...
Apenas poesia que desconheço
Sem mandiocais
Ou letras no cais
Do meu sonho e cansaço...
Cristóvão Luís Neto