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O novo canto da mãe

















Foto de Pedro Norton de Matos em Caminhadas e Descoberta em STP





Mãe
Nós somos os teus filhos
Que sem vergonha
Quebraram as fronteiras do silêncio.
Os filhos sem manhãs
Que rasgaram as noites que cobriam
As carnes das tuas carnes.

Nós somos, Mãezinha,
Os teus filhos,
Os pés descalços,
Esfomeados,
Os meninos das roças,
Do cais,
Os capitães d’areia,
Os meninos negros à margem da vida
Que despedaçaram o destino do teu ventre,
Que endireitaram os instantes
Que marcaram socalcos na terra firme,
Na profundidade das trevas da tua vida.

Nós somos, Mãezinha, os teus filhos,
Sexos que germinaram vida,
Forças que desfloraram a virgindade dos dogmas
Fecundaram minérios de esperança,
Olhos, dinamite de amor,
Mãos que esfacelaram a espessura dos obós.




Tomás Medeiros

Meu Canto Europa






















Agora,

agora que todos os contactos estão feitos,

as linhas dos telefones sintonizadas,

os espaços de morses ensurdecidos,

os mares de barcos violados,

os lábios de risos esfrangalhados,

os filhos incógnitos germinados,

os frutos do solo encarcerados,

os músculos definhados

e o símbolo da escravidão determinado,





Agora,

agora que todos os contactos estão feitos,

com a coreografia do meu sangue coagulada,

o ritmo do meu tambor silencioso,

os fios do meu cabelo embranquecidos,

meu coito denunciado e o esperma esterilizado,

meus filhos de fome engravidados,

minha ânsia e meu querer amordaçados,

minhas estátuas de heróis dinamitadas,

meu grito de paz com chicotes abafado,

meus passos guiados como passos de besta,

e o raciocínio embotado e manietado,





Agora,

agora que me estampaste no

rosto

os primores da tua civilização,

eu te pergunto, Europa,

eu te pergunto:

AGORA?




Tomás Medeiros