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Barco aberto

























Como um pão aberto
assim te ofereço
este rio em prata
sorrindo

para que te embebedes
da certeza de que
os caminhos se fazem,

como este barco
perseguido por pássaros
enfeitiçados
de todas as latitudes

salpicam da espuma
as luzes da cidade
mostrando-me como
se rompem os contornos.




Ana de Santana

Com alma


























dos cantos da vida
parte um véu
cobrindo corpos
e almas

um braço se estende
tentando romper
o véu

conseguirá
porque o véu
é frágil,

talvez não consiga
talvez não tenha
força para romper

talvez o véu
não se rompa
porque o braço demora
demora

a esperança
é depositada apenas
na alma,

se a alma existir
pode-se esperar
que o braço
rompa o véu
com a alma.



Ana de Santana

Ralhete


























Não me cobres
histórias de adormecer
quando o obus
rebenta no quintal
não me peças luz
se as janelas estão trancadas
não me lembres dos traumas
nem fales de fantasmas
quando eu sonho com
todos os companheiros
que sinto perder na batalha
a cada tempo
não me perguntes sobre o amor
que não tive
nem pelo coração, que esse,
faz tempo, jaz gelado
na granada do meu peito.
Porque procuras os meus olhos
se há muito foram perfurados
pelos estilhaços?
Como te atreves a querer
que te dê a mão se ainda agora
a ofereci em troca de pão?
E, sobretudo, não me perguntes
pelo que não disse
pois a minha boca
há muito se fechou à força
do fuzil do homem
que em mim te semeou.



Ana de Santana

Canção para uma mulher


























Nunca me falaste
da tua música
estuprada à força do falo,
nem me contaste
das partículas que
pacientemente raspaste
ao sol para fecundar a terra.
Apenas dizes dos braços
Cruzados à volta do filho
Ou do milho a colher

Sempre espero, pacientemente,
tua boca liberta,
pelas mãos mostrando o sol
e
pelos teus filhos contando-te
da vida que semeaste.



Ana de Santana

Núpcias



















Penetro
esse colchão de cristal,
e
um lençol de mar
me envolve
tecendo o meu vestido raro,
espuma e sal.


Interrompo estas núpcias com o coral,
vem-me o mavioso murmurar
das palmeiras pela brisa
será que não aprovam?



Ana de Santana