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O Nosso Mar
















Cabo Ledo, Julho de 1996





O nosso mar,
O mar africano,
Não se parece com os outros mares.
Terá o mesmo corpo,
Talvez...
A alma, porém é como os palmares:
Tem a energia, tem o dolência
A vida e a morte na sua essência,
Tocadas do mistério africano.
Sua linguagem é toda nossa:
Não a percebe quem nos ignora,
Não comove a quem não comove

O nosso drama, que é noite e aurora.

Não conhece quem não conhece
O seu murmúrio, que é nosso pranto
Sua revolta, nosso protesto,
- nossas vozes semelham-se tanto!

O seu silêncio tão resignado
Cheio de unção, de paz e perdão,
Lembra o olhar manso do desgraçado
Levado longe dos seus queridos.

A sua espuma, essa branca espuma,
vem-lhe da graça, vem da inocência,
de mil crianças de tez escura,
de olhar de luz, sem concupiscência.

Cheio de graça, cheio de força,
como se agita o mar africano!
Negro e feroz está a lembrar
braços hercúleos, trabalho insano.

Mar africano,
não te conhece quem não conhece
a alma africana,
que o mar e a terra irmana:
Num só abraço fazendo um
o longe e o perto, a dor e a esperança,
tal como o riso e o choro em criança.



Dom Alexandre do Nascimento

O menino e sua mãe



Madona, Raphael



Vi há tempos um quadro feito por mão inspirada:
Os traços eram perfeitos
do Menino Jesus e sua Mãe.
Causava enlevo, fazia ternura,
e o olhar que se desprendia de Nossa Senhora,
Que tinha seguro nos braços o seu Menino.

Este deixava ver bem
Seu grande afecto, Sua divina paixão
por Aquela que tão estreito
o trazia ao peito:
A cabecita de encontro, bem encostada,
entre a face e o ombro de Sua Mãe
e a carita de criança voltada para nós…

Mais que tudo, porém, impressionou-me o ar,
o ar de desafio, cheio de divina meiguice
um ar (Deus me perdoe!) quase gaiato
que parecia dizer a quantos o quisessem entender:
“É minha, só minha a Virgem Maria!”
De tão estreito e apertado que cingia com os bracitos
Nossa Senhora…

Confesso que estranhei,
por me ver quase defraudado por esta divina avareza.
Mas no olhar sorridente da Virgem bondosa
li logo a resposta, a bonança que me vinha:
“Deixa-O, meu filho, são primeiros tempos
que goza a novidade de ter… Mãe:
Eterno que é, só isto Lhe faltava, no céu…

Não tarda que no Calvário te dê a Sua vida
(pouca coisa para Ele!) e o que é mais ainda:
que te dê Sua Mãe, tua Santa Maria”.



D. Alexandre do Nascimento
In “Livro de Ritmos”

Mamá Muxima

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Na Polónia florida e na terra dos Bascos
Na terra dos Teutões e na Tíndari dos Sículos,
Na Suíça polida e na Itália gentil,
Em muita outra parte, é pura verdade
Que é como preta que a Virgem veneram.

Bem sei que Murillo o impossível pintou,
E que Velasquez, o divino, de Rafael é rival.
Quem não viu em Madrid, quem não viu em Florença,
Milagres de pintura, assombros de cor?
Mas vê como passa essa turba fastienta
Diante de um retábulo de tanto requinte!
Parece sonâmbula, pensa noutra coisa,
Tem o sorriso frio de gente sabedora:
É gente erudita que leu Kant, conhece Espinosa...
Do que não suspeita, por certo, é que tem
a alma defunta...

Outra coisa é este meu povo, este povo sofredor
Gente do "mato" e do chimbeco em Luanda,
- A Velha Mutudi, a tia Ximinha;
Gente que ri, porque sabe o que é chorar;
Gente que cumprimenta, porque sabe o que é desprezo,
Gente que reza e finge zanga à Senhora.
Mas é certo e seguro, nem posso duvidar
Que tem amor, muito amor consigo esta gente.
Há nela essa fé que o Senhor diz fazedora de milagres.

Entre a Virgem do céu e este povo que sofre
Há funda amizade, há infinda ternura
Por isso eu não me rio, nem estranho sequer
Quando vejo gritar, simular grande zanga
Se tarda o milagre, ó Virgem Senhora!

Elas sabem como tomar-Te, entendem-Te tão bem!
Como roçam as mãos e os rostos também
No Teu manto bendito, bendita Mãe!
Pois é este povo que não estranha
Que sejas branca e também sua Mãe!
Mas sou eu quem Te faz a pergunta:
Porquê és assim?
Preta bem preta, nas terras dos brancos,
Branca bem branca na terra dos pretos!
- Não vês, meu filho, que vos quero lembrar
Que sois todos meus, meus pequeninos?
Assim vos não esqueçais que brancos ou pretos
Tendes a vossa Mãe que também é Morena:
Branca muito branca, na terra dos Pretos,
Preta bem preta, na terra dos Brancos:
O que conta para mim não é a cor,
Basta-me o coração: "Muxima!".




D. Alexandre do Nascimento

Nasceu em Malanje, Angola, em 1925.
Ordenado presbítero em 1952 e bispo em 1975.
Foi bispo de Malanje e de Lubango e, desde 1986, é Arcebispo de Luanda, sendo emérito desde 2001.
Foi feito Cardeal em 1983, na sequência do rapto a que foi sujeito no ano anterior.