Teu amor é como um lago, límpido e transparente. De águas calmas e profundas, que refletem como espelho, mas que ao mesmo tempo aceita a luz que o penetra, como o corpo do amante que penetra a amada e ali permanece... pleno em seu regaço, sendo uno, enquanto parte do Universo... pleno, calmo, tranquilo e, no entanto, vivo... em plena ebulição.
Gosto de falar de Amor como quem fala das coisas simples da Vida... Gosto de falar de Amor assim, de forma natural... Não sei fazer versos bonitos, rebuscados, rimas perfeitas, isso eu não sei... Mas sei falar de Amor com a simplicidade de quem senta à mesa da cozinha para conversar e tomar uma xícara de chá com torradas ou de quem olha pela varanda agradecendo à Natureza pelo pôr-do-sol... Simples assim... e tão belo, e tão sincero, como as coisas realmente importantes da vida! Gosto de falar de Amor e das coisas do cotidiano... Porque é nelas que eu encontro a grandeza e a felicidade que a Vida me proporciona... Gestos simples, frases simples... Um beijo, um olhar, um carinho, uma palavra de afeto, uma atenção em um momento inesperado... Estes sim, Gestos pequenos e, no entanto, Grandes atitudes...
Gosto... Simplesmente porque é assim que eu Sei de Falar de Amor...
Vai barco! Leva contigo minha solidão. Sozinha estou. Abandonaram-me a paz, a harmonia, a vontade de ser. Deixaram-me aqui a padecer de sonhos e esperanças. Esperanças que alimentam sonhos... Sonhos que me ajudam a viver.
Vai barco! Leva contigo minha tristeza. A tristeza é feia e eu tenho medo. Medo de não voltar a ser feliz como um dia fui. Medo de me acostumar à mesmice do cotidiano. Medo de não voltar a ver meu sorriso... Sorriso que já não flui.
Vai barco! Leva contigo minha amargura. A amargura dói e faz doer. Quero de volta minha alegria. Alegria às vezes sinto por amar e saber-me amada; Mas com medo de fazer sofrer.
Vem barco! E traz contigo tudo o que perdi. Enche-me de esperanças, Que alimentam meus sonhos, Que espantam essa tristeza, Que me devolvem o sorriso, Que expulsam a amargura, Que me refazem de alegrias, Que me permitem amar e querer viver.
A porta da verdade estava aberta, mas só deixava passar meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade, porque a meia pessoa que entrava só trazia o perfil de meia verdade. E sua segunda metade voltava igualmente com meio perfil. E os meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta. Chegaram ao lugar luminoso onde a verdade esplendia seus fogos. Era dividida em metades diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela. Nenhuma das duas era totalmente bela. E carecia optar. Cada um optou conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.
Jazigo de uma alma Que não pereceu Nas névoas De uma história que se perdeu Na distância das lendas
...
Timor
Montanha de ossos De uma valentia Que bocas guerreiras Abençoaram seus filhos Para a perenidade dos dias
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Timor
Onde a morte só se consagra no combate Para deter a vida E contar a história às crianças Que nascem para recordar
...
Timor
Onde as flores Também desabrocham Para embelezar as sepulturas desconhecidas ‘em noites frias, infindáveis’
...
Timor
Onde as pessoas nascem para morrer pela esperança em rasgos de dor em rasgos de carne em rasgos de sangue em rasgos de vida em rasgos de alma em rasgos da própria liberdade que se alcança.. com a morte!
A ti, que eu não conheço e amo com a intensidade das marés em dia de calema na restinga do Lobito
A ti, que eu não conheço e amo com as cores das queimadas que iluminam os planaltos do Huambo e do Bié A ti, que eu não conheço e amo com o cheiro a mangas e maresia do Mussulo A ti, que eu não conheço e amo no café torrado do Kwanza Sul e Kwanza Norte
A ti, que eu não conheço e amo com a doçura de itebe e saka-foya de Cabinda
A ti, que eu não conheço e amo e ainda degusto no veado e na pacaça da Quiçama
A ti, meu amor eu ofereço toda a sinestesia desta terra onde nasci e onde espero um dia conhecer-te.
A vida tem destas coisas!! Surpreendente. Vale a pena, nas palavras mais simples contar esta pequena história.
1972, M'banza Congo, na altura São Salvador do Congo.
Frequento o 3º. ano dos Liceus no Liceu Salvador Correia de Sá. Somos 13. Eu, o Afonso Belarmino, o Quim, o Quim', a Francisca, a Ilda, a Bertina, o Jinho, a Catarina... e mais 4 colegas que não esqueci mas que o tempo apagou os seus nomes da minha memória. No 4º. ano éramos apenas 9. Bons colegas, bons amigos, bons alunos. Estudei com muitos deles, jogámos, entreajudámo-nos... vivemos aventuras. Entre todos, tornámo-nos grandes amigos eu e o Afonso!
1974, o 25 de Abril.
A debandada, a separação, a amargura de amigos perdidos e a dúvida permanente se terão ou não sido bafejados pela sorte no turbilhão de acontecimentos que se seguiram... O receio pela eventual interrupção de vidas de amigos com grande valor, que seriam, não fosse a guerra, importantes para o seu país.
Tempo passa inexoravelmente, anos sobre anos... Nunca perdi a esperança de saber por onde andava, o que tinha acontecido ao Afonso. As guerras sucederam-se. 1996, voltei a Angola... e voltei a procurar pelo Afonso. Nada! Parecia ter sido engolido pelo tempo!
1997, tenho o meu primeiro computador... e, de tempos a tempos faço buscas. Nada. Do Afonso, nem o rasto parece ter ficado! Mas não desisto. 2009, o Quim'... por artes de magia encontra-me! 2010, uma busca no Facebook, pela enésima vez... Aparece-me um Afonso Belarmino, não alimento muita esperança... nem fotografia tem. Pode ser um qualquer. Mas reparo numa outra pessoa com o mesmo apelido...e investigo. Era filha de Afonso Bernardino...e a mãe dela tinha também facebook... Por um "milagre" (podia estar bloqueado o acesso ás fotos) a ilustre senhora apresenta uma fotografia do seu jeitoso, como lhe chama... Olho a foto... e dou um salto! O jeitoso é, nada mais, nada menos que o Afonso Belarmino. A foto "diz-me" ter sido tirada no metro de Lisboa (!!???) á aproximação da estação de Alameda! Surpreendente!
Consigo com alguma rapidez estabelecer os contactos necessários para poder, finalmente, saber algo do meu amigo! E consigo. Está em Luanda, nesta altura... mas viveu quase três décadas em Lisboa!! Já falámos, recordámos velhos tempos, grandes amigos... e aguardamos o momento do abraço!
Kandandu, amigo!
Celebremos a amizade, neste poema de O'Neill.
Mal nos conhecemos Inaugurámos a palavra «amigo».
«Amigo» é um sorriso De boca em boca, Um olhar bem limpo, Uma casa, mesmo modesta, que se oferece, Um coração pronto a pulsar Na nossa mão!
«Amigo» (recordam-se, vocês aí, Escrupulosos detritos?) «Amigo» é o contrário de inimigo!
«Amigo» é o erro corrigido, Não o erro perseguido, explorado, É a verdade partilhada, praticada.
«Amigo» é a solidão derrotada!
«Amigo» é uma grande tarefa, Um trabalho sem fim, Um espaço útil, um tempo fértil, «Amigo» vai ser, é já uma grande festa!
Ela carrega com tudo; A criança e o medo da doença. A roupa lavada com lágrimas ...Os restos para o jantar; O que conseguiu encontrar. A crueldade do seu homem, Adormecido pelo maruco, Perdido por outras mulheres. Ela carrega com tudo; A cubata que vai abaixo, Engolida pelos "senhores", As torres que vê ao longe, Feitas de vidro e ganância O futuro em que não acredita, O passado que só cheira a morte. Mas ela carrega com tudo. E vai direita, elegante, no seu andar. E, apesar do tudo que ela carrega, Ainda tem força para sonhar.
Beija-me profundamente com o teu gosto, dá-me o teu gosto, faz-me renascer, para que no meu despertar sinta a fresca melodia dos pássaros e a brisa me traga esse incenso místico... terra... que os rios e os mares quentes, me lavem a consciência e me aqueçam a alma, o meu dia seja uma caça felina... a minha presa... a vida... o mergulhar no entardecer da esperança ardente, e esses tambores ao anoitecer, me embalem em sons embriagantes, o fogo dos corpos mais forte que as chamas das fogueiras, os gestos dos corpos suados, uma dança feiticeira de beijo negro, a minha entrega inteira, beija-me profundamente com esse gosto, porque só tu me beijas assim.
Quero chegar no raiar da manhã. No afago fresco da madrugada. No canto do galo e no pregão da quitandeira. Na buzina do candongueiro E no sotaque: madrinha quê manga? Compra só então mãe, dou uma pra esquebra...
Quero chegar na aurora do dia. Percorrer as ruas d'acácias em flor. Ai as acácias da Vila Alice e do Maculusso, sorrindo coradas...à minha chegada!
Quero o aroma branco, doce, de frangipani sentir Lá para as bandas de Sambizanga Comprar miconde n'avozinha da igreja, que me espera de promessa, juro por sangue de cristo.
Quero sorrir Sempre a sorrir nesta chegada Como se não soubesse fazer mais nada...
Quero subir a avenida, degrau a degrau no sonho No de dormir ou naquele acordado Exibindo meu orgulho de filha da rua, do asfalto e da terra, batida Onde passou o carro da tifa E os amantes cantaram prá lua Olhar as mangas que o avó não colheu E as goiabas que também não comeu
Quero pisar aquele chão e olhar o meu mar E o horizonte estar dentro de mim feito onda a me inundar de segredos que não guardei Um deles, ser feliz, porque cheguei...
Está gente a morrer agora mesmo em qualquer lado Está gente a morrer e nós também
Está gente a despedir-se sem saber que para Sempre Este som já passou Este gesto também Ninguém se banha duas vezes no mesmo instante Tu próprio te despedes de ti próprio Não és o mesmo que escreveu o verso atrás Já estás diferente neste verso e vais com ele
Os amantes agarram-se desesperadamente Eis como se beijam e mordem e por vezes choram Mais do que ninguém eles sabem que estão a [despedir-se
A Terra gira e nós também A Terra morre e nós Também Não é possível parar o turbilhão Há um ciclone invisível em cada instante Os pássaros voam sobre a própria despedida As folhas vão-se e nós Também Não é vento É movimento fluir do tempo amor e morte Agora mesmo e para todo o sempre Amen
Vieram levaram tudo o sonho a esperança a vida até a realidade varreram e na azáfama da fuga o vazio arrancaram com medo que engendrasse os genes da vida a luz e os seus gestos denunciassem
Eles... os mestres do mundo afogaram o sonho enforcaram a esperança apagaram a vida com um sopro um estalar de dedos um sacudir de ombros altivo…
Senhores de todos os destinos intocáveis nas suas torres de cristal roubadas ao suor alheio vieram levaram tudo o riso o pranto o fôlego até os rostos desfigurados pela dor e na azáfama da fuga os olhos arrancaram para que não os vissem e com o olhar os condenassem
Eles… os mestres do mundo prenderam o riso amarraram o pranto asfixiaram o fôlego num gesto louco de um estalar de chicote o olhar altivo...
Deuses do universo senhores de todos os destinos decidindo a vida e a morte vieram levaram tudo a dignidade a modéstia a honestidade até o pensamento esvaziaram e na azáfama da fuga a consciência perderam por não lhe suportarem o peso
Eles… os mestres do mundo violaram a dignidade enterraram a modéstia venderam a honestidade num abrir e fechar de olhos como num truque de magia o semblante altivo…
Senhores absolutos inverteram a escala de valores à luz da própria imagem vieram levaram tudo o pão da boca do faminto o tecto do desabrigado até a História apagaram deixando apenas no seu rasto humilhação impotência revolta que o povo na dor afoga por iguais armas não possuir para combater tal violência que de igual só tem o ódio fruto mudo da fúria destrutiva !
Eles os mestres do mundo criminosos impunes de consciência tranquila barriga farta de ganância o peito inchado de razão da legitimidade usurpada inconscientes da própria ignorância ! ! !
Trago no corpo as marcas da vida No coração Os sonhos abortados Na pele as chagas do sofrimento
Meus olhos cegaram De tanta dor enxergarem Meus ouvidos ensurdeceram Com o choro da criança faminta Minha boca se calou Para não mais clamar minha dor
Mas no âmago do meu ser Na minha essência mais profunda Guardei a força do querer E nem ventos nem marões Nem botas nem canhões Nem sórdidas tentações Minha marcha travarão
Sigo em busca da verdade Novos sonhos brotarão Novos mundos se abrirão Em cada riso de criança acalentada Colherei um pedaço de vitória E de riso em riso De vitória em vitória Se vai edificando um mundo melhor!
Muxi, coracão ao meu berço M´Banza, M´Banza Congo, à nossa rebita, a Bela vista, a Ilha dos Amores, o nosso Carnaval, o lombi, a kibeba, a kifufutila, o rio Zaire, o Kwanza, safú, cabita, catatu, muxiluxilu, ai tambarino, o nosso mea cura, as nossas farras de quintal, a palanca negra, jilojo, mengueleca, reco reco, o kissonde, a Vila Flor, ao Bagre, ao nosso bagre fumado, os nossos mirangolos, a nossa Kissama, Ah! Muxima, a perfumada nocha, a kissangua, o marufu, o mona xibata o peixe espada, a nossa chiquanga o nosso feijão, kandange, olha imbondeiro, olha múkua, a saca folha, nosso cachuchu, a ilha do Luanda,a welwitchia, a ginguba e o bombó, o nosso pirão, atenção, a rebita, cavalheiros a gauche, damas a droite, primeira forma, vamos embora,- está quase bom, atenção, a rosa de porcelana, a nossa marimba, o nosso funge, o nosso batuque, a nossa batucada, o kissange, a nossa moamba, as missangas coloridas, a canjica,as águas milagrosas do Huamba, as quedas do Kalandula, Chinguar, ai a puíta, o maboque, a nossa moamba,vila flor, o reco reco, loengos, o ungo, o sape sape
A minha casa ...É fácil de localizar É fácil de encontrar, Basta ires sempre em frente Para além da linha do horizonte É fácil concerteza
Primeiro encontras lixo Lixo e pessoas em convivência E em harmonia, Lixo na parte de baixo E na parte de cima Lixo e pessoas em convivência íntima
Mais adiante E com o mau cheiro crescente Encontras uma lagoa E nela, crianças a banharem Crianças a brincarem Na maior, numa boa
Mais a frente Entras em becos estreitos Becos pequenos e apertaditos É fácil, é só teres isto em mente Becos e suas enxurradas Becos e suas águas estagnadas
Sempre em frente Para além da linha do horizonte Lá onde a água corrente Lá onde a água potável Passa muito distante E da cor do invisível!
Sempre em frente Para além da linha do horizonte Lá onde a luz eléctrica Connosco brinca Qual nuvem passageira Que ora vai, ora vem zombateira!
Sempre em frente Para além da linha do horizonte Cheiro de kaporroto no ar Cheiro de kimbombo a vibrar Nossas bebidas do dia-a-dia Nossas bebidas nossa companhia
E no quintal da minha casa Há jovens a falar alto bêbedos Jovens cansados, frustrados e arrebentados São os meus kambas Kambas das bebedeiras e das malambas É fácil de localizar concerteza,