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Coisa amar


















Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.

Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.

Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como doi

desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.


Manuel Alegre

Tarde de primavera... quem diria!!






Requiem...



















A propósito da entrevista a Jorge Miranda, hoje, na TSF, de Cavaco e da questão do seu discurso encriptado:


"Os ilustres confrades que aqui postaram a sua opinião quase seguramente não ouviram nem metade da entrevista!
Reagem salivando ao estímulo do título que a TSF colocou a encimar e que reputa como o mais importante ou, mais provavelmente, pretende seja a mensagem a rejeitar e objecto das óbvias críticas!
Tudo o que disse merece reflexão... foi esclarecedor, incisivo e não deixou de dizer o que pensa relativamente á actual situação política.
Curiosamente coincidente, com argumentação tecnica, constitucional e política, áquela que é a opinião mais veiculada neste momento.
Uma vez que ninguém ouviu... todos desataram a desancar o homem!!
Só mesmo em Portugal!!

Sobre o discurso... tem toda a razão. Aumentou a instabilidade mas, que diabo, alguém esperaria outra coisa??
O PM podia até nem ser Sócrates, mas é o PS que governa, logo...
Isto não é teoria da conspiração!!

Fevereiro de 2002, site da TSF (http://www.tsf.pt/PaginaInicial/portugal/Interior.aspx?content_id=760007), palavras de Cavaco (penso que não estão no site da presidência):

"Depois de ter elogiado as capacidades governativas de Durão Barroso, Cavaco Silva pediu ajuda de de Deus para que o PSD ganhe as próximas eleições, já que «não há mais margem de manobra para falhanços».
O antigo primeiro-ministro Cavaco Silva, considerou hoje (domingo) que «o PSD é novamente a esperança dos portugueses», porque o próximo Governo «não pode voltar a falhar».
Cavaco Silva acentuou que «não há mais margem de manobra para falhanços. Por isso, é preciso a mudança e a mudança é chamar o PSD à governação».
«Felizmente para a nossa democracia que temos um partido, o PSD, preparado para assumir responsabilidades de governação de Portugal. O PS, como grande partido que é da nossa democracia, deve ser remetido para a tarefa nobre da oposição», defendeu o social democrata.
Depois de ter feito rasgados elogios a José Manuel Durão Barroso, Cavaco Silva terminou com um pedido a Deus.
«Que Deus o ajude para que possamos dizer: Viva Portugal!», frisou o antigo chefe de Governo, conseguindo um forte aplauso dos militantes e simpatizantes presentes no Coliseu dos Recreios, em Lisboa."

Nem Deus, nem Durão Barroso... fizeram milagres! E, afinal, apesar de não haver margem de manobra para falhanços... falhou!!

Mas, para se perceber de quem se fala, a justificação para tantos lideres queimados... leiam com atenção. Uma vez mais site da TSF (http://www.tsf.pt/PaginaInicial/portugal/Interior.aspx?content_id=770852), Fevereiro de 2005:

"Leonor Beleza definiu, esta sexta-feira, o que seria para ela o cenário ideal: Cavaco Silva na presidência da República e Manuela Ferreira Leite na liderança do PSD.

Leonor Belez defende Ferreira Leite para liderança do PSD e Cavaco Silva para a presidência da República

Na primeira intervenção depois dos resultados eleitorais de domingo, Leonor Beleza definiu o que seria para ela o cenário ideal: Cavaco Silva na presidência da República e Manuela Ferreira Leite na presidência do PSD.
As declarações da ainda vice-presidente da Assembleia da República foram feitas, esta noite, na SIC Notícias.
«Há uma pessoa que eu gostava de ver na liderança do partido, e que eu gostava muito que se candidatasse a líder do partido, porque acho que ela corresponde a este perfil: (tem a) capacidade de condicionar que não se cometam erros em matérias fulcrais e, simultaneamente, fazer tudo para que o partido coloque o professor Cavaco Silva em Belém. Essa pessoa é a doutora Manuela Ferreira Leite», disse.
Leonor Beleza admitiu porém estar «convencida» que Ferreira Leite «não tem muita vontade nem interesse» em se candidatar à liderança do PSD."

Yo no credo en brujas, pero que las hay, hay!!!

Estamos, acreditem, entregues á bicharada!!
Cavaco conspira porque tem que vingar o que Soares lhe fez (a vida negra a demonstração de todos os erros), o que Sampaio "fez" a Santana Lopes.
A procissão ainda nem ao adro chegou!
Contrariamente ao que diz, o seu interesse está no poder, no partido e muito pouco em Portugal!
Para o conseguir não tem o mais pequeno prurido em, encapotadamente, ter o apoio do PCP e do BE, sobretudo do primeiro.
O que não é espantoso! A paz social que considera imprescindível (mas não o diz) só é possível com o apoio do PCP e do "empenhamento patriótico" das suas estruturas sindicais.
Para esse objectivo o PS... é negligenciável... não interessa e até é "conveniente" o afastamento!
Veremos, no próximo governo de iniciativa presidencial - porque não vai haver eleições!! - estas coisas espantosas!

Tem a sua visão, que rejeitou na famosa declaração á PIDE, e não vai parar!
Mas ninguém, minimamente atento, esperaria outra coisa!

O aventureirismo paga-se... e vamos voltar a pagar!
Ninguém se queixe... o bom senso e a memória são coisa que não abunda por aí...

Pela minha parte vou remeter-me ao silêncio... e á observação divertida do que vai acontecer!
A minha ficha já deve estar bastante completa... e, como tantos interesseiros neste país, também tenho a minha vidinha para tratar.
A participação tem limites e riscos... que não vou correr!

Há muito que perdemos a consciência, vagueamos alcoolizados por lugar nenhum, contentes com o facto de nos termos permitido deixar de pensar pela nossa cabeça!!"

"(...) Quando morreu a consciência do povo, falou-se em autoridade do governo e lealdade dos cidadãos."
(Lao-tsé)

Amigo
















A vida tem destas coisas!!
Surpreendente.
Vale a pena, nas palavras mais simples contar esta pequena história.

1972, M'banza Congo, na altura São Salvador do Congo.

Frequento o 3º. ano dos Liceus no Liceu Salvador Correia de Sá.
Somos 13.
Eu, o Afonso Belarmino, o Quim, o Quim', a Francisca, a Ilda, a Bertina, o Jinho, a Catarina... e mais 4 colegas que não esqueci mas que o tempo apagou os seus nomes da minha memória.
No 4º. ano éramos apenas 9.
Bons colegas, bons amigos, bons alunos.
Estudei com muitos deles, jogámos, entreajudámo-nos... vivemos aventuras.
Entre todos, tornámo-nos grandes amigos eu e o Afonso!

1974, o 25 de Abril.

A debandada, a separação, a amargura de amigos perdidos e a dúvida permanente se terão ou não sido bafejados pela sorte no turbilhão de acontecimentos que se seguiram...
O receio pela eventual interrupção de vidas de amigos com grande valor, que seriam, não fosse a guerra, importantes para o seu país.

Tempo passa inexoravelmente, anos sobre anos...
Nunca perdi a esperança de saber por onde andava, o que tinha acontecido ao Afonso.
As guerras sucederam-se.
1996, voltei a Angola... e voltei a procurar pelo Afonso.
Nada!
Parecia ter sido engolido pelo tempo!

1997, tenho o meu primeiro computador... e, de tempos a tempos faço buscas.
Nada. Do Afonso, nem o rasto parece ter ficado!
Mas não desisto.
2009, o Quim'... por artes de magia encontra-me!
2010, uma busca no Facebook, pela enésima vez...
Aparece-me um Afonso Belarmino, não alimento muita esperança... nem fotografia tem.
Pode ser um qualquer.
Mas reparo numa outra pessoa com o mesmo apelido...e investigo.
Era filha de Afonso Bernardino...e a mãe dela tinha também facebook...
Por um "milagre" (podia estar bloqueado o acesso ás fotos) a ilustre senhora apresenta uma fotografia do seu jeitoso, como lhe chama...
Olho a foto... e dou um salto!
O jeitoso é, nada mais, nada menos que o Afonso Belarmino.
A foto "diz-me" ter sido tirada no metro de Lisboa (!!???) á aproximação da estação de Alameda!
Surpreendente!

Consigo com alguma rapidez estabelecer os contactos necessários para poder, finalmente, saber algo do meu amigo!
E consigo.
Está em Luanda, nesta altura... mas viveu quase três décadas em Lisboa!!
Já falámos, recordámos velhos tempos, grandes amigos... e aguardamos o momento do abraço!

Kandandu, amigo!

Celebremos a amizade, neste poema de O'Neill.


Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».

«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!

«Amigo» é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.

«Amigo» é a solidão derrotada!

«Amigo» é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!



Alexandre O'Neill




Aldeia da Coelha
















Screenshot do filme em Visão



«Na Aldeia da Coelha, Cavaco Silva tem por vizinhos Oliveira Costa e Fernando Fantasia, homens-fortes da SLN. Um loteamento que nasceu à sombra de muitas empresas e off-shores. A escritura do lote do Presidente da República não se encontra no Registo Predial de Albufeira. O próprio não se recorda em que cartório a assinou. Um dos promotores da urbanização, velho amigo e colaborador de Cavaco, diz que a propriedade foi adquirida "através de um permuta com um construtor civil".» [Visão]

Convém visitar a Visão
Convém ler este texto em "O Jumento"

Convém averiguar a origem de tantos lapsos de memória de Cavaco Silva.
Convém tirar conclusões.

Todos tratam da sua vidinha... deixando para os outros os sacrifícios.
Mesmo que se fale dos mais desprotegidos, dos idosos, das crianças em risco ou da repartição equitativa de sacrifícios.

Desabafos...


















Quanto mais acompanho a campanha eleitoral para a Presidência da República (e já agora a postura, motivação e obra dos candidatos)... mais vontade tenho de ver uma Monarquia Constitucional em Portugal.

Apenas esta figura (rei) poderá unir de novo o país em volta de um ideal e acabar de vez com as ameaças institucionais.
Os segundos mandatos dos Presidentes da República têm sido, sem excepção, de um golpismo, partidarismo e sectarismo sem limites.

Todos os poderes facticos convergem no sentido de criar condições para nova sessão de golpes.

Avalie-se!!

A manhosa explicação do... mísero professor!




Se anda por aí um certo senhor a quem teimosamente pretendiam que o nariz crescesse, quer abrisse a boca ou estivesse calado... o que dizer desta pérola??

Cartoons... apropriados











"Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que outros"

O artigo que publicarei em seguida, respigado de "O Jumento", obrigou-me a recuar largos anos até ao momento em que Francisco Louçã e seus "compagnons de route" chamavam a atenção dos media pela forma "subversiva" como efectuavam campanha eleitoral.
A provocação e algumas verdades incisivas tornaram-se populares porque os media disso fizeram eco considerando o cinzentismo de todos os outros intervenientes.
Era necessário dar um toque colorido á campanha e nada como o PSR para o fazer.

No entanto este toque colorido é válido apenas se o objectivo fôr coincidente.
Quando o alvo não é o mesmo ou é inconveniente... naturalmente, como todos os jornalistas bem sabem fazer, ridicularizam, mesmo que de forma subliminar.
Óbvio!

A liberdade de expressão, a igualdade de tratamento e, acima de tudo, a ausência de comentários "jornalisticos" antes, durante ou após os clips noticiosos devem constituir uma obrigação e um dever deontológico a seguir.

Marcelo Rebelo de Sousa é comentador, pode por isso dizer o que lhe aprouver.
José Alberto Carvalho, Clara de Sousa ou outros... devem abster-se de comentários.
Compete-lhes dar a notícia e esperar que o telespectador use a sua própria inteligência para formar uma opinião.

Honra a José Manuel Coelho, pela sua coragem e trajecto pessoal e político e a Catarina Carvalho que soube, exemplarmente, separar o trigo do joio.


«Venho falar-vos do candidato presidencial que devia estar a ser o centro das atenções: José Manuel Coelho. Por mais nenhuma razão - nem política, nem ideológica, nem pelas próprias regras da campanha - do que por critérios meramente jornalísticos, José Manuel Coelho é o candidato perfeito, pelo menos para jornalistas que ainda não se esqueceram que uma das sua principais funções é satisfazer a curiosidade do público. Um desconhecido, um homem do povo, estucador de profissão, ardina nas horas vagas, que se candidata a presidente, um deputado madeirense de um partido ultraperiférico que resolve saltar para o panorama nacional (coisa que o próprio Jardim nunca teve coragem de fazer), um ex-comunista que se 'aggiornou' e não tem medo de dizer que o regime que defendeu matou muitos milhões (coisa que o Partido Comunista Português nunca concedeu), um homem que fala sem as habituais papas que a concorrência coloca nas línguas dos candidatos que pretendem, ainda, fazer carreira na política nacional.
José Manuel Coelho seria sempre um candidato de estouro. Mas é-o ainda mais nestas eleições já decididas. Aposto que, desta vez, o povo português perdoaria aos meios de Comunicação Social alguns devaneios não enquadráveis nas regras de uma cobertura eleitoral equitativa, mas que lhes levaria ao conhecimento algo para pensar. E, até, sorrir. E estamos todos tão necessitados disso.
Papagueamos sobre a ausência de interesse da política e dos políticos, culpamo-nos pela falta de relação entre o povo e a classe dirigente, e quando irrompe um homem que não podia ser mais autêntico, até na sua honestidade de dizer que não está aqui para ganhar, o que lhe fazemos? Ignoramo-lo? Não. Pior que isso. Tratamo-lo como se fosse um candidato sério, igual aos outros.
Jornalistas com créditos firmados como entrevistadores, como Judite de Sousa ou Henrique Garcia, fazem-lhe perguntas tão sérias como as dos outros candidatos, como se José Manuel Coelho precisasse do escrutínio democrático de qualquer candidato que tenha possibilidades de chegar a presidente. Nas duas entrevistas que deu, à RTP e TVI, pretenderam fazê-lo cair em contradições ou em soudbytes políticos. Quem precisa de soudbytes quando tem aquele slogan de campanha? Reportagens sobre reportagens descrevem as suas acções de campanha sem a mínima ironia...
José Manuel Coelho é o único fenómeno interessante destas eleições e a mim, que conjugo a dupla condição de jornalista e público, o que me interessa é a sua história, a história de um homem do povo que foi do PCP numa pequena ilha (antes e depois do 25 de Abril), que era o maior vendedor do "Avante" em Portugal, foi à União Soviética em 1981 a convite do "Pravda" e não gostou do que viu, um estucador com consciência política, com espírito crítico suficiente para ser anti-Jardim na hegemónica ilha da Madeira, e que, sabendo que será sempre minoritário, opta pela loucura como forma de oposição, uma loucura tão grande que o leva até à candidatura nacional à Presidência da República. Deste homem, não quero mais opiniões. Os factos chegam-me. Ou terá o sistema político e o seu espelho, o jornalístico, já esquecido de que matéria é feita a vida real? »


Por Catarina Carvalho in [JN]

Aspiração




















Quero chegar no raiar da manhã.
No afago fresco da madrugada.
No canto do galo e no pregão da quitandeira.
Na buzina do candongueiro
E no sotaque: madrinha quê manga?
Compra só então mãe, dou uma pra esquebra...

Quero chegar na aurora do dia.
Percorrer as ruas d'acácias em flor.
Ai as acácias da Vila Alice e do Maculusso, sorrindo coradas...à minha chegada!

Quero o aroma branco, doce, de frangipani sentir
Lá para as bandas de Sambizanga
Comprar miconde n'avozinha da igreja,
que me espera de promessa, juro por sangue de cristo.

Quero sorrir
Sempre a sorrir nesta chegada
Como se não soubesse fazer mais nada...

Quero subir a avenida, degrau a degrau no sonho
No de dormir ou naquele acordado
Exibindo meu orgulho de filha da rua, do asfalto e da terra, batida
Onde passou o carro da tifa
E os amantes cantaram prá lua
Olhar as mangas que o avó não colheu
E as goiabas que também não comeu

Quero pisar aquele chão e olhar o meu mar
E o horizonte estar dentro de mim
feito onda a me inundar de segredos que não guardei
Um deles, ser feliz, porque cheguei...



Maria Clara Santos

Agora Mesmo




















Está gente a morrer agora mesmo em qualquer lado
Está gente a morrer e nós também

Está gente a despedir-se sem saber que para
Sempre
Este som já passou Este gesto também
Ninguém se banha duas vezes no mesmo instante
Tu próprio te despedes de ti próprio
Não és o mesmo que escreveu o verso atrás
Já estás diferente neste verso e vais com ele

Os amantes agarram-se desesperadamente
Eis como se beijam e mordem e por vezes choram
Mais do que ninguém eles sabem que estão a
[despedir-se

A Terra gira e nós também A Terra morre e nós
Também
Não é possível parar o turbilhão
Há um ciclone invisível em cada instante
Os pássaros voam sobre a própria despedida
As folhas vão-se e nós
Também
Não é vento É movimento fluir do tempo amor e morte
Agora mesmo e para todo o sempre
Amen


Manuel Alegre

Lisboa perto e longe














Foto (espectacular) de Agostinho Dias



Lisboa chora dentro de Lisboa
Lisboa tem palácios sentinelas.
E fecham-se janelas quando voa
nas praças de Lisboa - branca e rota
a blusa de seu povo - essa gaivota.

Lisboa tem casernas catedrais
museus cadeias donos muito velhos
palavras de joelhos tribunais.
Parada sobre o cais olhando as águas
Lisboa é triste assim cheia de mágoas.

Lisboa tem o sol crucificado
nas armas que em Lisboa estão voltadas
contra as mãos desarmadas - povo armado
de vento revoltado violas astros
- meu povo que ninguém verá de rastos.

Lisboa tem o Tejo tem veleiros
e dentro das prisões tem velas rios
dentro das mãos navios prisioneiros
ai olhos marinheiros - mar aberto
- com Lisboa tão longe em Lisboa tão perto.

Lisba é uma palavra dolorosa
Lisboa são seis letras proibidas
seis gaivotas feridas rosa a rosa
Lisboa a desditosa desfolhada
palavra por palavra espada a espada.

Lisboa tem um cravo em cada mão
tem camisas que abril desabotoa
mas em maio Lisboa é uma canção
onde há versos que são cravos vermelhos
Lisboa que ninguem verá de joelhos.

Lisboa a desditosa a violada
a exilada dentro de Lisboa.
E há um braço que voa há uma espada.
E há uma madrugada azul e triste
Lisboa que não morre e que resiste.



Manuel Alegre

Não é um fado normal






Olhas p’ra mim com esse ar reservado
A estoirar pelas costuras
Nem sei se estou em Lisboa
Será que é Tóquio ou Berlim?
Tu não me olhes assim!
Porque o teu olhar tem ópio
Tem quebras nos equinócios
Pitadas de gergelim

Mas se isto é fado
Ponho o gergelim de lado
Vou buscar o alecrim
E tu sempre a olhar p’ra mim;
Como se alecrim aos molhos
Atraíssem os meus olhos
Não tenho nada com isso
Alguém que quebre este enguiço
Que eu não respondo por mim

E já estou, quase a trocar o mal pelo bem e o bem pelo mal
Se isto é fado, não é um fado normal
A trocar, o mal pelo bem e o bem pelo mal
Não é um fado normal

Vou por lugares nunca dantes visitados
E há que ter alguns cuidados
Porque bússola não há
E baralham-se os sentidos
Se andamos ao Deus-dará
Sem sentinelas nos olhos
Vou confiar no ouvido
E nada vai estar perdido

Mas se isto é fado
Vou entristecer o quadro
P’ra tom de cinza acordado
Que eu não quero exagerar;
No meio do nevoeiro
Teimo em ver o teu olhar
Que sei não ser derradeiro
Alguma coisa se solta
Que talvez não tenha volta



Amélia Muge

Soneto





Por que me descobriste no abandono
Com que tortura me arrancaste um beijo
Por que me incendiaste de desejo
Quando eu estava bem, morta de sono

Com que mentira abriste meu segredo
De que romance antigo me roubaste
Com que raio de luz me iluminaste
Quando eu estava bem, morta de medo

Por que não me deixaste adormecida
E me indicaste o mar, com que navio
E me deixaste só, com que saída

Por que desceste ao meu porão sombrio
Com que direito me ensinaste a vida
Quando eu estava bem, morta de frio



Florbela Espanca

Queixa das almas jovens censuradas...





Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade


Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte



Natália Correia
in "O Nosso Amargo Cancioneiro"

Questões...














É próprio de um estado de direito que sejam o sistema judicial e a imprensa a utilizar actos criminosos??

A minha perplexidade, o meu espanto...

Terei sido dos poucos que que não comprou o pasquim.

Até consigo perceber que alguns escribas façam fretes (vimo-lo nas escutas de Pinto da Costa - outro crime!).
Até consigo perceber que os patrões dos media façam coro, exerçam pressão com todo o seu poder económico, político e mediático sobre a sociedade em geral...
Até consigo perceber que a maior parte dos jornalistas tenham uma vida para viver, uma família para governar e filhos para educar...
Mas não consigo perceber onde é que raio andam as virgem impolutas, os grandes senadores dos media, os tais que serão capazes de sacrificar a vida pela verdade, pela notícia, pela liberdade de imprensa...

Por onde andam??

Conseguirão meter as mãos entre as pernas, encontrar algo e erguer a voz??
Ou serão como os machões que em casa, perante a indignação das esposas apenas sabem dizer - Sim, querida!!

Parece ser este último, o caso...

Ninguém está acima da lei, nem o primeiro-ministro, nem o presidente da república.
Ninguém.
Mas ninguém pode, de forma incólume e impune, tratar a democracia e o estado de direito desta forma.

Não é espantoso que um sindicato - Sindicato dos Magistrados do Ministério Público - tão representativo na nossa democracia (excepto talvez para Cavaco Silva) como a Associação dos Adeptos de Futebol peça a demissão de toda a gente...

Espantoso é que deveriam começar por exigir a si próprios e a todos os que diz representar o fim do regabofe.
Espantoso que todos se calem...
Espantoso que as únicas palavras de Cavaco Silva tenham sido de "defesa da liberdade de imprensa"... como se tudo o que se vê e ouve seja questão de somenos importância, como se o liberalismo fosse capaz, por si próprio, de auto-regular a questão.

Cavaco fez, aqui e noutros passos da sua actuação, tendo jurado defender a constituição e todo o edifício que esta sustenta, o papel de Pilatos.
Cínicamente lavou as mãos como se o assunto o transcendesse, como se não lhe dissesse respeito ou não se passasse no país de que é presidente da república.

A propósito da liberdade de imprensa, da posse dos meios de comunicação, da sua utilização para os fins mais inacreditáveis e inconfessáveis, faz-me ferver o sangue nas veias e gritar:

"- Mas esta merda já chegou á Venezuela, é??"

Espero ansiosamente a ressurreição, dos estúdios de Belém, de algum "reality-show" ao estilo das "Conversas em Família".

Contra os profetas da desgraça




















"Portugal está á beira do abismo" expressão tantas vezes ouvida e vista impressa tem sido, felizmente, desmentida o mesmo número de vezes.
De cada vez que enfrentámos o desafio fomos capazes de mostrar que a visão do abismo outra coisa não era que alucinação.
Se tivessemos baqueado na nossa caminhada colectiva enquanto povo ou acredita piamente em tudo quanto nos quiseram vender, há muito que não seriamos outra coisa que essa "famosa" jangada de pedra.

O caracter de um povo não se constrói, felizmente, em opiniões negativas ou em atitudes desmobilizadoras.
Sempre soubemos, nos momentos de crise, discernir e escolher o que é positivo e audaz como designio colectivo.
Nem sempre escolhemos o caminho mais fácil, o mais organizado, aquele que melhores alicerces criou e melhor futuro criou para gerações sucessivas de portugueses...
Ouvimos espíritos críticos que, nos momentos em que a euforia colectiva não permite ver mais que a evidência, nos chamaram á realidade e nos obrigaram a reflectir.
Muitas vezes, porém, avaliámos mal esses personagens e, onde pensavamos haver crítica e chamada á razão... houve medo, provincianismo, imobilismo e desistência.
É verdade que os danos causados por estes foram sempre muito superiores áqueles que os optimistas, entusiastas e sonhadores causaram.
Habituamo-nos a ouvir personagens como a que Camões imortalizou como o "Velho do Restelo" mas, demasiadas vezes, fomos enganados por palavras que julgávamos avisadas... e não o eram.
Ulisses colocou cera nos ouvidos dos seus marinheiros para não ouvirem as sereias.

Estamos, de novo, colocados na encruzilhada dos caminhos da história.
Um daqueles momentos em que temos que reflectir e decidir.
Não podemos continuar a adiar o futuro.
Muito se joga nestes dias que, por certo, irão determinar muito do percurso que viermos a fazer.
Todos somos responsáveis pelo que existe, de mau ou de bom.
Ninguém pode afirmar que não pisou o chão desta caravela.
Ninguém pode dizer que nunca enjoou a viagem.

Estamos a navegar á vista da costa porque o(s) homem(ns) do leme não tem sabedoria e arrojo para mais.
Não tem sabedoria, arrojo e, em vez de se rodear por homens integros, com voz, capazes de dizer não... e justificar, entende ser o melhor rodear-se de cortesãos, arautos e profetas da desgraça.

Creio ter chegado o momento de colocar tudo em questão.
Deixarmos de olhar para os sapatos, levantar a cabeça e olharmos o horizonte.
Temos, através de todos os poderes constituídos, formais e informais, sido condicionados a pensar de forma politicamente correcta e cordata.
Dessa forma os lobos, que bebem antes de nós no curso do rio, continuarão a afirmar que a água suja se não provém de nós, foram os nossos pais a sujá-la.
Cordeirinhos, continuaremos a temer e a ser o seu repasto...tomando sempre como verdades eternas as suas manipuladoras palavras.

Creio que é chegado o momento de repensar Portugal.

Estranho povo este, que não se governa, nem se deixa governar…


















Postulados

1 – O poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente (Lord Acton);
2 – Quem parte e reparte e fica com a pior parte, ou é tolo ou não tem arte (provérbio popular);
3 – Quem domina o passado domina o futuro; quem domina o presente domina o passado (George Orwell, 1984);
4 – É tarde para a economia, quando a bolsa está vazia (provérbio popular);
5 – Não há guerra de mais aparato do que muitas mãos no mesmo prato (provérbio popular);


Ingenuidades

1 – A imprensa, em democracia, é completamente livre;
2 – Em democracia, todas as teorias conspirativas não são outra coisa que imaginação e delírio;
3 – Não há qualquer influência de organizações secretas no exercício do poder;
4 – O poder político determina o poder económico;
5 - Todos os agentes políticos, sem excepção, actuam sempre como parte da solução e não do problema e promovem, sem margem para dúvida, o interesse nacional;


Promessas nunca cumpridas

1 – O rico ceder voluntariamente parte do seu pecúlio ao pobre;
2 – O Estado ser o regulador e o garante eficaz do bem-estar dos seus cidadãos;
3 – O poder ser cedido sem recurso á lei;
4 – Não haver qualquer controlo, económico ou político, sobre a informação;
5 – Os agentes políticos serem apenas planeadores, executores e fiscalizadores do poder cedido pelo povo em acto eleitoral;


Arautos

1 – “Conspiração ataca presidente” (Correio da Manhã)
2 – “PGR recusa abrir escutas de Sócrates apesar de especialistas admitirem essa possibilidade” (Publico)
3 – “Parlamento vai investigar controlo de grupos de media” (Diário de Noticias)
4 – “Alerta em Belém: Cavaco quer saber mais sobre o caso TVI”(Jornal i)
5 – “Moniz e Manuela exigem demissão imediata de Sócrates” (24 horas)


A verdade

1 – Sócrates terá dito, enquanto era escutado, alguns mimos se comparado com o que Cavaco pode ter dito em privado sobre Soares (e outras forças de bloqueio). Todos metem o nariz no buraco da fechadura mas ninguém fala, em estado de direito, do primado da lei. De factos tão simples como o conhecimento real que actores, fora do sistema judicial, têm de pormenores processuais que, ou lhes são levados em bandeja… ou ávida e sofregamente procurados. Todos parecem olvidar (ou não olvidam porque definitivamente terão o tão almejado controlo) que os ventos que semeiam poderão redundar em enormes tempestades;
2 – Sócrates, que foi criado pelos media e levado ao colo por estes em face da alternativa Santana Lopes, será por eles destruído. Aconteceu antes e voltará a suceder. Os media apenas admitem o sistema de tráfico – tu dizes e eu transmito e em troca quero isto ou aquilo. Não há, não houve nunca, almoços á borla. A relação é biunívoca mas quando alimentar permanentemente o monstro se torna impossível, aquele torna-se repasto deste. Apenas Pinto da Costa, ao que se sabe, domina o monstro…porque lhe conhece os vícios e podres. Será??;
3 – Portugal não reformou o corporativismo, possui um sistema partidário com unidades que apenas pretendem assegurar os benefícios das respectivas unidades orgânicas e legalizou, há tempos atrás, os lobbies. Mais, de acordo com notícias recentes, qualquer conversa privada tida em público é susceptível de ser utilizada, quem sabe se judicialmente contra o seu autor. Trata-se aqui da ressurreição e potencial institucionalização da Legião Portuguesa, os famosos bufos;
4 – Qualquer (em absoluto) governo português ver-se-á sempre confrontado não apenas por todas as campanhas sujas mas pelas dificuldades (não estou a iludir… são mesmo dificuldades), populismo, irresponsabilidade, irracionalidade, falta de sentido de estado e desinteresse pelos superiores valores do país que a(s) oposição(ões) assumem com o maior descaramento e que são encaradas pelo povo com a bonomia, o marialvismo e a superficialidade que nos caracteriza;
5 - Nunca votamos de forma consciente e assertiva porque o nosso voto é dado apenas em função de impedir que este ou aquele ocupem o poder. Ninguém vota de forma positiva porque somos manipulados de forma bovina, é a inveja que é o motor de desenvolvimento nacional e somos permanentemente aldrabados de forma soez. Mas, verdade seja dita, ás 20:00 horas, conhecido o vencedor, já ninguém votou nele. “Estranho povo este, que não se governa, nem se deixa governar…” (Gaius Julius Caesar);


O que está a acontecer

1 – Muito mais que um ajuste de contas e vingança de estórias como as escutas a Belém ou o Estatuto dos Açores. Sendo a vingança um prato que se serve frio é dada pública evidência do facto e da conhecida falta de ética na política, mas demonstra, acima de tudo, o cinismo da bem-aventurada solidariedade institucional. Vai ser dado o passo mais ousado no controlo da situação – transformação do semi-presidencialismo em presidencialismo, puro e duro;
2 – Preparação de clima e de “factos” que criem na opinião pública a necessidade urgente de demitir Sócrates. Ficará, deste modo, também vingada a afronta feita á “má moeda” por Jorge Sampaio e que foi recentemente medalhado pelo ditador (palavras de Belmiro de Azevedo);
3 – “Golpe de estado” dentro do PSD dado que se a demissão ocorrer antes das directas, Ferreira Leite (com muita probabilidade) ou, seguramente, a facção cavaquista poderá ser reeleita com facilidade, na crença (que será veiculada como emergência, sendo absolutamente imprescindível para o futuro da Nação) que apenas ela (ou Marcelo Rebelo de Sousa, p.e.) podem salvar o país;
4 – Em nome dos “superiores interesses do país”, de repente ocorreu um blackout colectivo nos media que obrigou a que se suavizasse ou quase omitisse estes sórdido assunto das escutas de Sócrates… Quem atentou contra a liberdade de imprensa?? Utilize-se os princípios do jornalismo e responda-se sinteticamente ás perguntas sacramentais – quando, onde, como, por quem e porquê.
O OGE não pode ser o responsável único pelo assumir desse repentino eufemismo que dá pelo nome de… responsabilidade! Não pode! “Este não é o momento adequado para a estocada final, mas o cadáver está pronto a ser encomendado. Aguardem o meu sinal”. Ficam as mesmas perguntas a que nenhum jornalista ousará responder. Claro!;
5 – A direita mais retrógrada nunca perdoou a si própria a falta de controlo da situação que permitiu o 25 de Abril e muito menos a perda do poder, embora o sistema que sucedeu ao 24 de Abril tenha sido, na verdade, muito mais benevolente e economicamente rentável que o Estado Novo. Há anos que estão em curso manobras revanchistas que permitam retroceder no tempo de modo a que seja uma… inevitabilidade nacional. Entretanto, procedeu-se ao arranque da campanha eleitoral para as presidenciais, de modo implacável e de forma que a derrota do candidato que Sócrates apoiar seja tão grande, tão unânime, que a demissão seja um caso de misericórdia. Sócrates será, então, imunizado, alvo de condecoração, elogiado nos seus deveres para com o estado português… e jogado no contentor do lixo mais próximo. Há outros desígnios que realmente contam, muito mais importante que o PSD ou o país.

Algum dia
















Algum dia um novo Papa
anunciará altivo
que Deus é raiz quadrada
de um quantum negativo

e o Deus que tanto procuro
em que atingido me afundo
é aquele ser-não-ser
do que acontece no mundo

da matéria mais que densa
é que é divertido ser
ali se nada acontece
tudo pode acontecer



Agostinho da Silva

Tão grande dor















"Tão grande dor para tão pequeno povo"


Timor fragilíssimo e distante
«Sândalo flor búfalo montanha
Cantos danças ritos
E a pureza dos gestos ancestrais»

Em frente ao pasmo atento das crianças
Assim contava o poeta Ruy Cinatti
Sentado no chão
Naquela noite em que voltara da viagem


Timor
Dever que não foi cumprido e que por isso dói
Depois vieram notícias desgarradas
Raras e confusas
Violência mortes crueldade
E ano após ano
Ia crescendo sempre a atrocidade
E dia a dia - espanto prodígio assombro -
Cresceu a valentia
Do povo e da guerrilha
Evanescente nas brumas da montanha


Timor cercado por um muro de silêncio
Mais pesado e mais espesso do que o muro
De Berlim que foi sempre tão falado
Porque não era um muro mas um cerco
Que por segundo cerco era cercado
O cerco da surdez dos consumistas
Tão cheios de jornais e de notícias


Mas como se fosse o milagre pedido
Pelo rio da prece ao som das balas
As imagens do massacre foram salvas
As imagens romperam os cercos do silêncio
Irromperam nos écrans e os surdos viram
A evidência nua das imagens



Sofia de Mello Braeyner Adresen