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Quem pode impedir a Primavera


















Quem pode impedir a Primavera
Se as árvores se vão cobrir de flores
E o homem se sentiu sorrir à Vida?

Quem pode impedir a surda guerra
Que vai nos campos deslocando as pedras
- Mudas comparsas no ritmo das estações -
E da terra inerte ergueu milhares de lanças
Que a tremer avançam, cintilantes, para o limite
Em que a luz aquosa se derrama
Como um mar infinito onde o arado
Abre caminho misterioso à seiva inquieta!

Quem pode impedir a Primavera
Se estamos em Maio e uma ternura
Nos faz abrir a porta aos viandantes
E o amor se abriga em cada um dos nossos gestos.

Quem?...
Se os sonhos maus do Inverno dão lugar à Primavera!



Ruy Cinatti
In “Nós não somos deste mundo”

Timor-Leste: paixão do poeta



























(...)
«I weep for Adonais
because he is dead».

Eu choro por Adonais
porque morreu.

Não está mal... a tradução,
mas tens razão!
Eu sou português e não
falo com a boca cheia.
Esta mania lusíada
de cuspir no chão é feia.
Nós não vivemos na selva.

E ela, tola-lograda:
- Don't be silly. Há o fado!
I like Fado. Não gostas!
Tu tens a melena cheia
de brilhantina. You look
almost like a fadista!

Passei a mão pela testa
e desgrenhei a madeixa,
dizendo: - Queres morangos,
figos amoras ou beijos...
(...)



Ruy Cinatti
in “Manhã Imensa”

Poema de amor























Os segredos de amor têm profundezas difíceis de alcançar,
tal como a chuva que hoje cai e nos molha na calçada a face,
nós olhando triste uma saudade imensa
num corpo de mulher metamorfoseada.

Sou demasiado são para me esquecer
do tempo apaixonado que vivi nos teus braços
e bebo no teu um coração meu
adormecido no mar do meu cansaço
ou no rio das minhas secas lágrimas.

Tardará muito, se é que as horas contam,
ver-te, de novo, perto de mim, longe,
mas eu espero, sou paciente e, no meu canhenho, aponto,
um dia a menos, o da tua chegada.
E assim me fico, rente ao horizonte,
abrigado da chuva numa cabine telefónica,
e ligo para ti - que número? - ninguém responde
do oceano que avança e retrai colinas,
o vulto de um navio, tu na amurada
acenando um lenço, ó minha pomba branca!...

Como se tempestade houvesse e um naufrágio de chuva
- as vidraças escorrem, as árvores liquefazem-se...-
escurecendo os teus cabelos,
ou, se preferes, a minha boca neles
carregadas de ilhas, de nocturnos perfumes
que ateiam lumes, ó minha idolatrada,
na minh'alma inquieta um outro bater d'asas
ou num jardim um leito de flores!...




Ruy Cinatti

Junho de 1977
in «56 Poemas»

Sete horas húmidas
























Ao Alferes Mário Beja dos Santos, na Guiné


Sete horas húmidas, algures.
Progressão, fardas ensopadas.
Silêncio nos corpos, silêncio na terra de combate.
Estacas calcinadas.

O piar das aves, o olhar súplice.
Dois tiros quase num só eco.
O desabar de folhas ramos rápidos.
Um grito incerto.

Missão cumprida, meta adivinhada.
Febre sem alma ou acordo.
O peso súbito de um morto
caindo nos meus ombros estreitos
ou
nos ombros estreitos da minha miséria.



Ruy Cinatti (1970)

in "Guerra de África" - Angola 1961-1974
de Rui de Azevedo Teixeira

Linha de Rumo


Montanhas de Timor, vistas de ErmeraPosted by Picasa



Quem não me deu Amor, não me deu nada.
Encontro-me parado...
Olho em meu redor e vejo inacabado
O meu mundo melhor.

Tanto tempo perdido...
Com que saudade o lembro e o bendigo:
Campo de flôres
E silvas...

Fonte da vida fui. Medito. Ordeno.
Penso o futuro a haver
E sigo deslumbrado o pensamento
Que se descobre.

Quem não me deu Amor, não me deu nada.
Desterrado,
Desterrado prossigo,
E sonho-me sem Pátria e sem Amigos,
Adrede...


Ruy Cinatti

Quando Eu Partir


Navio, Salvador Dali Posted by Hello


Quando eu partir, quando eu partir de novo
A alma e o corpo unidos,
Num último e derradeiro esforço de criação;
Quando eu partir...
Como se um outro ser nascesse
De uma crisália prestes a morrer sobre um muro estéril,
E sem que o milagre se abrisse
As janelas da vida. . .
Então pertencer-me-ei.
Na minha solidão, as minhas lágrimas
Hão de ter o gosto dos horizontes sonhados na adolescência,
E eu serei o senhor da minha própria liberdade.
Nada ficará no lugar que eu ocupei.
O último adeus virá daquelas mãos abertas
Que hão de abençoar um mundo renegado
No silêncio de uma noite em que um navio
Me levará para sempre.
Mas ali
Hei de habitar no coração de certos que me amaram;
Ali hei de ser eu como eles próprios me sonharam;
Irremediavelmente...
Para sempre.


Ruy Cinatti

Abri minha janela ao vento norte


.. Posted by Hello


Abri minha janela ao vento norte
A ver se o frio me acordava
De um sonho em que eu próprio duvidava.
- No céu brilhavam estrelas mais que nunca.
Em vão, desde então, eu procurei
Lembrar o seu olhar, a sua imagem
Tão bela, tão perfeita, mais miragem.
- No céu brilhavam estrelas mais que nunca.


Ruy Cinatti

Regresso eterno


.. Posted by Hello



Altos silêncios da noite e os olhos perdidos,
Submersos na escuridão das árvores
Como na alma o rumor de um regato,
Insistente e melódico,
Serpeando entre pedras o fulgor de uma ideia,
Quase emoção;
E folhas que caem e distraem
O sentido interior
Na natureza calma e definida
Pela vivência dum corpo em cuja essência
A terra inteira vibra
E a noite de estrelas premedita. A noite! Se fosse noite. . .
Mas os meus passos soam e não param,
Mesmo parados pelo pensamento,
Pelo terror que não acaba e perverte os sentidos
A esquina do acaso;
Outros mundos se somem,
Outros no ar luzes refletem sem origem.
É por eles que os meus passos não param.
E é por eles que o mistério se incendeia.
Tudo é tangível, luminoso e vago
Na orla que se afasta e a ilha dobra
Em balas de precário sonho...
Tudo é possível porque à vida dura
E a noite se desfaz
Em altos silêncios puros.
Mas nada impede o renascer da imagem,
A infância perdida, reavida,
Nuns olhos vagabundos debruçados,
Junto a um regato que sem cessar murmura.

Ruy Cinatti

Conclusão


Luanda Posted by Hello


Para Maluda


E, no entanto, Luanda comove,
Luanda sobressalta
— Mulher que acorda extremunhada
quando menos espera
e desleixada penteia no espelho
maravilhado da baía
restos de sonho
entremeados pelo quotidiano
de longínquos páramos lembrados
pelo capricho de quem não tem dono.

Ruy Cinatti

("Os poemas do itinerário angolano", Cadernos Capricórnio, 1974, Angola/África)

Imagens


Marginal de Luanda Posted by Hello


Onde estou eu — pergunto. Sei lá
se aqui foi Almeirim, Aljubarrota,
uma rua do Porto ou de Linhó,
do Arieeiro, da nova Porcalhota.

Da minha janela avisto o mar
aberto na ilha de Tahiti.
Cruzo uma praça e estou em Lisboa,
lembrando o além-mar longe da Austrália
ou a Martim Moniz na Madragoa.
Luanda é como eu, nunca lá está.
É uma cidade ao deus-dará,
uma aventura, uma idiotia.
Daí, minha ternura consentida.
Minha? — Só Deus sabe o que será
Luanda vivida
à tôa...


Ruy Cinatti
Do livro: "Os poemas do itinerário angolano", Cadernos Capricórnio, 1974, Angola/África