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Sinestesia

















À página «cento e vinte e sete» de Gedeão


A ti,
que eu não conheço e amo
com a intensidade das marés
em dia de calema na restinga do Lobito

A ti,
que eu não conheço e amo
com as cores das queimadas
que iluminam os planaltos do Huambo e do Bié
A ti,
que eu não conheço e amo
com o cheiro a mangas e maresia do Mussulo
A ti,
que eu não conheço e amo
no café torrado do Kwanza Sul e Kwanza Norte

A ti,
que eu não conheço e amo
com a doçura de itebe e saka-foya de Cabinda

A ti,
que eu não conheço e amo
e ainda degusto no veado e na pacaça da Quiçama

A ti, meu amor
eu ofereço toda a sinestesia
desta terra onde nasci
e onde espero um dia conhecer-te.



Anny Pereira

Poema de Alforria

























Eu deixarei
que o dia amanheça o teu sorriso
por entre os espaços marfíneos
das tuas colinas desalinhadas.

Eu deixarei
que o sol penetre os poros adormecidos
das fronteiras escondidas
nas lezírias do teu sentir.

Eu deixarei
que o vento arraste areais desérticas
e sobre ti as faça cair
como nuvens de pérolas,
que brilharão nos olhos da criança
que continuarás a ser
Eu deixarei



Anny Pereira

Posse




















Foto de aoluar, aqui




Deitei-me sobre o teu cansaço,
na esperança de trazer-te o descanso
que há tanto tempo em vão procuras.

Cobri teu corpo
e tive-te, e perdi-te ao alvorecer,
quando tudo se confunde
e a noite é dia, e o dia é noite,
e as estrelas são o instrumento
dos nossos sonhos e dos nossos êxtases.

Encontrei-te depois,
quando te perdeste e me encontraste também,
e já o dia amanhecia outra vez…



Anny Pereira

Posse























Foto de Quark, aqui




Deitei-me sobre o teu cansaço,
na esperança de trazer-te o descanso
que há tanto tempo em vão procuras.

Cobri teu corpo
e tive-te, e perdi-te ao alvorecer,
quando tudo se confunde
e a noite é dia, e o dia é noite,
e as estrelas são o instrumento
dos nossos sonhos e dos nossos êxtases.

Encontrei-te depois,
quando te perdeste e me encontraste também,
e já o dia amanhecia outra vez…



Anny Pereira

O meu amor

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By Cacusso









num bairro pertinho do meu
numa rua estreita e sem nome
mora o homem dos meus sonhos
com quem hei-de um dia casar

a rua, que não tem nome,
morre no largo junto à fonte
onde também existe um banco
onde com ele me hei-de sentar
a casa onde mora é pequenina
como a dos contos de encantar
e tem uma janela amarela
para podermos namorar

quando passo na sua rua
o meu peito bate bem forte
os meus ouvidos ficam alerta
para o seu coração escutar

ele não sabe quem sou
nem sequer como me chamo
olha-me sem me ver
e nem consegue imaginar
que comigo se há-de casar
por via de algum milagre
ou tão somente e apenas
sonho feito realidade




Anny Pereira

Identidade











Costumo definir-me a mim própria como a página cem de Gedeão,
à procura da cento e vinte e sete.
Cresci e brinquei com Clarissa, sob um pé de laranja lima; fugia à
escola para passear no rio Mazungue, numa canoa chamada Rosinha.
Tive um cão que se chamava Corto Maltese e com ele percorri os
Jardins Suspensos da Babilónia, à procura da árvore dos direitos
humanos.
Aprendi a amar com Florbela Espanca e Alda Lara. Namorei com
Viriato, fui mulher com Vinícius e descobri que o amor só é eterno
enquanto dura; sofri amor e saudade com António Jacinto, em todas
as cartas que não enviei.
Tornei-me “gente” com Manuel Bandeira, “Che”, Neruda e muitos
mais. Com eles andei em busca da identidade perdida na infância,
esquecida no casamento e mais tarde reencontrada na solidão do
quotidiano.
E quando um dia tiver de ser pó, cinza e nada e não mais com Jorge
Amado poder pastorear as noites e a vida, quero fazê-lo à Mário de
Sá Carneiro e tal como ele ir de burro: a um morto nada se nega;
assim que não me falte champagne e Albinoni, com muito violino
à mistura (de Pagannini, ou até mesmo só aquele do telhado…).




Anny Pereira

Soneto ao mar




















amanhã vou acordar cedinho
para ver o sol raiar
e iluminar o caminho
que ao mar me há-de levar

de branco me vou vestir
e minhas tranças soltar
minhas tristezas despir
pra com lágrimas me lavar

vou andar pelo caminho
ao som de hinos e cantos
que eu mesma irei entoar

irei muito de mansinho
e, enfim, afagarei meus prantos
no mar que os há-de levar



Anny Pereira