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Imprecisão























Foto de Pedro Norton de Matos, em "Caminhadas e Descoberta em STP"





Teu olhar é corsário destemido de aventura
Nómada de oceanos
Ternura em traço leve
Leve traço de ternura

Teu rosto é concha de caranguejo
Abrigo de procelas
Beijo em terra longe
Terra longe num beijo

Tuas mãos são gomil de mestiçagem
Telas de delírio
Paisagens de horizonte
Horizontes de paisagem



Olinda Beja

Socopé


















Os verdes longos da minha ilha
são agora a sombra do ocâ,
névoa da vida,
nos dorsos dobrados sob a carga
(copra, café ou cacau - tanto faz).
Ouço os passos no ritmo
calculado do socopé,
os pés-raizes-da-terra
enquanto a voz do coro
insiste na sua queixa
(queixa ou protesto - tanto faz).
Monótona se arrasta
até explodir
na alta ânsia de liberdade.



Maria Mauela Margarido

Coqueiros e palmares da Terra Natal



















Foto de António Ferreira de Sousa em Caminhadas e Descoberta em STP




Coqueiros e palmares da Terra Natal
Mar azul das ilhas perdidas na conjuntura dos séculos
Vegetação densa no horizonte imenso dos nossos sonhos.
Verdura, oceano, calor tropical
Gritando a sede imensa do salgado mar
No deserto paradoxal das praias humanas
Sedentas de espaço e de vida
Nos cantos amargos do ossobô
Anunciando o cair das chuvas
Varrendo de rijo a terra calcinada
saturada do calor ardente
Mas faminta de irradiação humana
Ilhas paradoxais do Sul do Sará
Os desertos humanos clamam
Na floresta virgem
Dos teus destinos sem planuras



Alda Espírito Santo

São Tomé


























"Juste quelques photos de Sao Tome, petite ile indépendante africaine au large du Gabon sur l'équateur.
Très peu de visiteurs, de paysages luxuriant et une population très accueillante qui ne demande qu'à faire découvrir ces iles..."

Fotos e texto daqui, a merecer uma visita.

Epopeia


















Não mais a África
da vida livre
e dos gritos agudos de azagaia!
Não mais a África
de rios tumultuosos
- veias entumecidas dum corpo de sangue!

Os brancos abriram clareiras
a tiros de carabina.
Nas clareiras fogos
roxeando a noite tropical

Fogos!
Milhões de fogos
num terreno em brasa!

Noite de grande lua
e um cântico subindo
do porão do navio.
O som das grilhetas
marcando o compasso!

Noite de grande lua
e destino ignorado!...
Foste o homem perdido
Em terras estranhas!...

No Brasil
ganhaste calo nas costas
nas vastas plantações do café!
No norte
foste o homem enrodilhado
nas vastas plantações de fumo!

Na calma do descanso nocturno
só saudade da terra
que ficou do outro lado...
- só canções bem soluçadas -
dum ritmo estranho!

Os homens do norte
ficaram rasgando
ventres e cavalos
aos homens do sul!

Os homens do norte
estavam cheios
dos ideais maiores
tão grandes
que tudo foi despropósito!...

Os homens do norte
os mais lúcidos e cheios de ideais
deram-te do que era teu
um pedaço para viveres...
Libéria! Libéria!

Ah!
Os homens nas ruas da Libéria
são dollars americanos
ritmicamente deslizando...

Quando cartas nos cabarés
Fazendo brilhar o marfim da tua boca
É a África que está chegando!

Quando nas Olimpíadas
Corres veloz
É a África que está chegando!

Segue em frente
irmão!
Que a tua música
seja o de uma conquista!

E que o teu ritmo
seja a cadência de uma via nova!

para que a tua gargalhada
de novo venha estralhaçar os ares
como gritos agudos e azagaia!



Francisco José Tenreiro

1975























E quando te perguntarem
responderás que aqui nada aconteceu
senão na euforia do poema.

Diz que éramos jovens éramos sábios
E que em nós as palavras ressoavam
como barcos desmedidos

Diz que éramos inocentes, invencíveis
e adormecíamos sem remorsos sem presságios

Diz que engendramos coisas simples perigosas:
caroceiros em flor
uma mesa de pedra a cor azul
um cavalo alado de crinas furiosas

Oh, sim! Éramos jovens, terríveis
mas aqui - nunca o esqueças - tudo aconteceu
nos mastros do poema.



Conceição Lima
in "O Útero da Casa"

Epopeia
























Não mais a África
da vida livre
e dos gritos agudos de azagaia!
Não mais a África
de rios tumultuosos
- veias entumecidas dum corpo de sangue!

Os brancos abriram clareiras
a tiros de carabina.
Nas clareiras fogos
roxeando a noite tropical

Fogos!
Milhões de fogos
num terreno em brasa!

Noite de grande lua
e um cântico subindo
do porão do navio.
O som das grilhetas
marcando o compasso!

Noite de grande lua
e destino ignorado!...
Foste o homem perdido
Em terras estranhas!...

No Brasil
ganhaste calo nas costas
nas vastas plantações do café!
No norte
foste o homem enrodilhado
nas vastas plantações de fumo!

Na calma do descanso nocturno
só saudade da terra
que ficou do outro lado...
- só canções bem soluçadas -
dum ritmo estranho!

Os homens do norte
ficaram rasgando
ventres e cavalos
aos homens do sul!

Os homens do norte
estavam cheios
dos ideais maiores
tão grandes
que tudo foi despropósito!...

Os homens do norte
os mais lúcidos e cheios de ideais
deram-te do que era teu
um pedaço para viveres...
Libéria! Libéria!

Ah!
Os homens nas ruas da Libéria
são dollars americanos
ritmicamente deslizando...

Quando cartas nos cabarés
Fazendo brilhar o marfim da tua boca
É a África que está chegando!

Quando nas Olimpíadas
Corres veloz
É a África que está chegando!

Segue em frente
irmão!
Que a tua música
seja o de uma conquista!

E que o teu ritmo
seja a cadência de uma via nova!

para que a tua gargalhada
de novo venha estralhaçar os ares
como gritos agudos e azagaia!



Francisco José Tenreiro

Canção do Mestiço























"Mestiço", quadro de Cândido Portinari







Mestiço!



Nasci do negro e do branco
e quem olhar para mim
é como se olhasse
para um tabuleiro de xadrez:
a vista passando depressa
fica baralhando cor
no olho alumbrado de quem me vê.


Mestiço!


E tenho no peito uma alma grande
uma alma feita de adição
como l e l são 2.



Foi por isso que um dia
o branco cheio de raiva
contou os dedos das mãos
fez uma tabuada e falou grosso:
— mestiço!
a tua conta está errada.
Teu lugar é ao pé do negro.


Ah!
Mas eu não me danei ...
E muito calminho
arrepanhei o meu cabelo para trás
fiz saltar fumo do meu cigarro
cantei do alto
a minha gargalhada livre
que encheu o branco de calor! ...



Mestiço!



Quando amo a branca
sou branco...
Quando amo a negra
sou negro.
Pois é...




Francisco José Tenreiro

Ultimatum futurista
























Às gerações portuguesas do séc.XXI



Acabemos com este maelstrom de chá morno!
Mandem descascar batatas simbólicas a quem disser que não há tempo para a criação!
Transformem em bonecos de palha todos os pessimistas e desiludidos!
Despejem caixotes de lixo à porta dos que sofrem da impotência de criar!
Rejeitem o sentimento de insuficiência da nossa época!
Cultivem o amor do perigo, o hábito da energia e da ousadia!
Virem contra a parede todos os alcoviteiros e invejosos do dinamismo!
Declarem guerra aos rotineiros e aos cultores do hipnotismo!
Livrem-se da choldra provinciana e da safardanagem intelectual!
Defendam a fé da profissão contra atmosferas de tédio ou qualquer resignação!
Façam com que educar não signifique burocratizar!
Sujeitem a operação cirúrgica todos os reumatismos espirituais!
Mandem para a sucata todas as ideias e opiniões fixas!
Mostrem que a geração portuguesa do século XXI dispõe de toda a força criadora e construtiva!
Atirem-se independentes prá sublime brutalidade da vida!
Dispensem todas as teorias passadistas!
Criem o espírito de aventura e matem todos os sentimentos passivos!
Desencadeiem uma guerra sem tréguas contra todos os "botas de elástico"!
Coloquem as vossas vidas sob a influência de astros divertidos!
Desafiem e desrespeitem todos os astros sérios deste mundo!
Incendeiem os vossos cérebros com um projecto futurista!
Criem a vossa experiência e sereis os maiores!
Morram todos os derrotismos! Morram! PIM!




José de Almada Negreiros

Sonho
















Foto de Nuno Mendes em Caminhadas e descoberta em STP





Pudesse eu um dia voltar à minha terra
ver os coqueiros e os cafezais em flor
ver as sanzalas transformadas em casas dignas
de homens que trabalham noite e dia


pudesse eu tornar a ver-te mãe
e abraçar-te e beijar-te até não mais
e ver finalmente os meus irmãos de cor
respeitados como eu sempre sonhei


pudesse eu ver as palmeiras da avenida
gingando ao vento e ao grande calor
e pisar essa terra agora nossa


pudesse eu daqui dizer-vos tudo
que sinto e que quero transmitir
pois mesmo longe estarei sempre ao vosso lado




Olinda Beja
in "Bô Tendê?"

Fragmento poético






















Foto de Brigida Rocha Brito em Caminhadas e Descoberta em STP





Após o ardor da reconquista
não caíram manás sobre os nossos campos.
E na dura travessia do deserto
aprendemos que a terra prometida era aqui
Ainda aqui e sempre aqui,
Duas ilhas indómitas a desbravar
O padrão a ser erguido
pela nudez insepulta dos nossos punhos.
Emergiremos do canto
como do chão emerge o milho jovem
e nús, inteiros recuperaremos
a transparência do tempo inicial
Puros reabilitaremos o poema e a claridade
para que a palavra amanheça e o sonho não se perca.



Conceição Lima

Paisagem




















Foto de António Ferreira de Sousa em Caminhadas e Descoberta em STP







Ai meu país de tchilóli e mar

país de riso azul a percorrer memórias

debaixo do sol do Equador e do Cruzeiro do Sul.


ai meu país de tchilóli e mar

de nuvens brancas e negras a percorrer teu rosto

de cânticos-poetas de Tenreiro e Costa Alegre...


Que idílio sublime nestas paisagens tropicais!



E quando a noite se esconde sob a ramada

do teu corpo de ébano e seda

de espuma e coral

então escorre de África inteira

a infinda seiva

lasciva e branda

como da abelha se desprende

o doce mel!




Olinda Beja

O novo canto da mãe

















Foto de Pedro Norton de Matos em Caminhadas e Descoberta em STP





Mãe
Nós somos os teus filhos
Que sem vergonha
Quebraram as fronteiras do silêncio.
Os filhos sem manhãs
Que rasgaram as noites que cobriam
As carnes das tuas carnes.

Nós somos, Mãezinha,
Os teus filhos,
Os pés descalços,
Esfomeados,
Os meninos das roças,
Do cais,
Os capitães d’areia,
Os meninos negros à margem da vida
Que despedaçaram o destino do teu ventre,
Que endireitaram os instantes
Que marcaram socalcos na terra firme,
Na profundidade das trevas da tua vida.

Nós somos, Mãezinha, os teus filhos,
Sexos que germinaram vida,
Forças que desfloraram a virgindade dos dogmas
Fecundaram minérios de esperança,
Olhos, dinamite de amor,
Mãos que esfacelaram a espessura dos obós.




Tomás Medeiros

Meu Canto Europa






















Agora,

agora que todos os contactos estão feitos,

as linhas dos telefones sintonizadas,

os espaços de morses ensurdecidos,

os mares de barcos violados,

os lábios de risos esfrangalhados,

os filhos incógnitos germinados,

os frutos do solo encarcerados,

os músculos definhados

e o símbolo da escravidão determinado,





Agora,

agora que todos os contactos estão feitos,

com a coreografia do meu sangue coagulada,

o ritmo do meu tambor silencioso,

os fios do meu cabelo embranquecidos,

meu coito denunciado e o esperma esterilizado,

meus filhos de fome engravidados,

minha ânsia e meu querer amordaçados,

minhas estátuas de heróis dinamitadas,

meu grito de paz com chicotes abafado,

meus passos guiados como passos de besta,

e o raciocínio embotado e manietado,





Agora,

agora que me estampaste no

rosto

os primores da tua civilização,

eu te pergunto, Europa,

eu te pergunto:

AGORA?




Tomás Medeiros

Cruzamentos

























Foto de Dirk S. Grossman, aqui





Tenho saudades da chuva
do meu Largo da Carvalha. Uma chuva
cinzenta e mole que abria longos riachos no meu peito de ansiedade
Tenho saudades do vento
do meu Largo da Carvalha. Um vento
agreste e serrano que agitava os plátanos
fazendo estremecer as folhas amarelecidas
no meu quintal de ternuras.
Tenho saudades das noites
do meu Largo da Carvalha. Noites passadas á mingua
de um abraço amigo e forte
noites de antigas vizinhas que me diziam
menina toma cuidado com os outros porque
tu és diferente e eles não gostam dos diferentes
histórias de lobisomem
cantigas do São João
rezas no adro da Sé.
Tenho saudades dos dias do outro lado do mar
dias de areia e de espuma a salpicarem-me o rosto
dias de barco sem cais nos escaleres da vida
dias de longe e de perto
a cruzarem o meu destino mestiço
entre as tílias do Rossio
e a ilha do chocolate.



Olinda Beja

Aconteceu-me

















Eu vinha de comprar fósforos
e uns olhos de mulher feita
olhos de menos idade que a sua
não deixavam acender-me o cigarro.
Eu era eureka para aqueles olhos.
Entre mim e ela passava gente como se não passasse
e ela não podia ficar parada
nem eu vê-la sumir-se.
Retive a sua silhueta
para não perder-me daqueles olhos que me levavam espetado
E eu tenho visto olhos !
Mas nenhuns que me vissem
nenhuns para quem eu fosse um achado existir
para quem eu lhes acertasse lá na sua ideia
olhos como agulhas de despertar
como íman de atrair-me vivo
olhos para mim!
Quando havia mais luz
a luz tornava-me quase real o seu corpo
e apagavam-se-me os seus olhos
o mistério suspenso por um cabelo
pelo hábito deste real injusto
tinha de pôr mais distância entre ela e mim
para acender outra vez aqueles olhos
que talvez não fossem como eu os vi
e ainda que o não fossem, que importa?
Vi o mistério!
Obrigado a ti mulher que não conheço.




Almada Negreiros

Os rios da tribo




















Roça de Água Izé, foto de Brígida Rocha Brito em África de Todos os Sonhos



Que rios reverberam em nosso leito?
Quantas tribos injectadas em teu peito?
Nhá Maria de onde é?
Nhô Ambrósio nasceu em Água Izé?
E Katona, Aiúpa, Makolé?
Silva, Danquá, Cassandra, Camblé...
Padiçê, Mé Pó, Filingwé...
Quantos nomes fundam transmutam minha fronte?




Conceição Lima
in O Útero da Casa

Afroinsularidade





























Foto de Décio Lopes em Caminhadas e Descaberta em STP




Deixaram nas ilhas um legado
de híbridas palavras e tétricas plantações

engenhos enferrujados proas sem alento
nomes sonoros aristocráticos
e a lenda de um naufrágio nas Sete Pedras

Aqui aportaram vindos do Norte
por mandato ou acaso ao serviço do seu rei:
navegadores e piratas
negreiros ladrões contrabandistas
simples homens
rebeldes proscritos também
e infantes judeus
tão tenros que feneceram
como espigas queimadas

Nas naus trouxeram
bússolas quinquilharias sementes
plantas experimentais amarguras atrozes
um padrão de pedra pálido como o trigo
e outras cargas sem sonhos nem raízes
porque toda a ilha era um porto e uma estrada sem regresso
todas as mãos eram negras forquilhas e enxadas

E nas roças ficaram pegadas vivas
como cicatrizes - cada cafeeiro respira agora um
escravo morto.

E nas ilhas ficaram
incisivas arrogantes estátuas nas esquinas
cento e tal igrejas e capelas
para mil quilómetros quadrados
e o insurrecto sincretismo dos paços natalícios.
E ficou a cadência palaciana da ússua
o aroma do alho e do zêtê d' óchi
no tempi e na ubaga téla
e no calulu o louro misturado ao óleo de palma
e o perfume do alecrim
e do mlajincon nos quintais dos luchans

E aos relógios insulares se fundiram
os espectros - ferramentas do império
numa estrutura de ambíguas claridades
e seculares condimentos
santos padroeiros e fortalezas derrubadas
vinhos baratos e auroras partilhadas

Às vezes penso em suas lívidas ossadas
seus cabelos podres na orla do mar
Aqui, neste fragmento de África
onde, virado para o Sul,
um verbo amanhece alto
como uma dolorosa bandeira.



Conceição Lima
in "O Útero da Casa"







Rui Mingas
Muimbo Ua Sabalu

Canção em África




















Quadro de Osvaldo Reis, em Espaço Cultural STP




Caminhos trilhados na Europa
de coração em África
Saudades longas de palmeiras vermelhas verdes amarelas
tons fortes da paleta cubista
que o Sol sensual pintou na paisagem;
saudade sentida de coração em África
ao atravessar estes campos de trigo sem bocas
das ruas sem alegrias com casas cariadas
pela metralha míope da Europa e da América
da Europa trilhada por mim Negro de coração em África.
De coração em África na simples leitura dominical
dos periódicos cantando na voz ainda escaldante da tinta
e com as dedadas de miséria dos ardinas das cities boulevards e baixas da Europa
trilhada por mim Negro e por ti ardina
cantando dizia eu em sua voz de letras as melancolias do orçamento que não equilibra
do Benfica venceu o Sporting ou não.
Ou antes ou talvez seja que desta vez vai haver guerra
para que nasçam flores roxas de paz
com fitas de veludo e caixões de pinho:
Oh as longas páginas do jornal do mundo
são folhas enegrecidas de macabro blue
com mourarias de facas e guernicas de toureiros.



Francisco José Tenreiro

Santomensidão



















Foto de António Ferreira de Sousa em Caminhadas e Descoberta em STP


O poema está no ritmo
do nosso sangue cruzado. Na idade
da nossa santomensidão

cheiros de terra quente
palmares de avó Sipinge
distância em distância entre
o leste e o oeste
o norte e o sul

o poema
é a única rota que deixa sulcos no cais
imensurável dos nossos atropelos



Olinda Beja
in "Água Crioula"