Os verdes longos da minha ilha são agora a sombra do ocâ, névoa da vida, nos dorsos dobrados sob a carga (copra, café ou cacau - tanto faz). Ouço os passos no ritmo calculado do socopé, os pés-raizes-da-terra enquanto a voz do coro insiste na sua queixa (queixa ou protesto - tanto faz). Monótona se arrasta até explodir na alta ânsia de liberdade.
Coqueiros e palmares da Terra Natal Mar azul das ilhas perdidas na conjuntura dos séculos Vegetação densa no horizonte imenso dos nossos sonhos. Verdura, oceano, calor tropical Gritando a sede imensa do salgado mar No deserto paradoxal das praias humanas Sedentas de espaço e de vida Nos cantos amargos do ossobô Anunciando o cair das chuvas Varrendo de rijo a terra calcinada saturada do calor ardente Mas faminta de irradiação humana Ilhas paradoxais do Sul do Sará Os desertos humanos clamam Na floresta virgem Dos teus destinos sem planuras
"Juste quelques photos de Sao Tome, petite ile indépendante africaine au large du Gabon sur l'équateur. Très peu de visiteurs, de paysages luxuriant et une population très accueillante qui ne demande qu'à faire découvrir ces iles..."
Nasci do negro e do branco e quem olhar para mim é como se olhasse para um tabuleiro de xadrez: a vista passando depressa fica baralhando cor no olho alumbrado de quem me vê.
Mestiço!
E tenho no peito uma alma grande uma alma feita de adição como l e l são 2.
Foi por isso que um dia o branco cheio de raiva contou os dedos das mãos fez uma tabuada e falou grosso: — mestiço! a tua conta está errada. Teu lugar é ao pé do negro.
Ah! Mas eu não me danei ... E muito calminho arrepanhei o meu cabelo para trás fiz saltar fumo do meu cigarro cantei do alto a minha gargalhada livre que encheu o branco de calor! ...
Mestiço!
Quando amo a branca sou branco... Quando amo a negra sou negro. Pois é...
Acabemos com este maelstrom de chá morno! Mandem descascar batatas simbólicas a quem disser que não há tempo para a criação! Transformem em bonecos de palha todos os pessimistas e desiludidos! Despejem caixotes de lixo à porta dos que sofrem da impotência de criar! Rejeitem o sentimento de insuficiência da nossa época! Cultivem o amor do perigo, o hábito da energia e da ousadia! Virem contra a parede todos os alcoviteiros e invejosos do dinamismo! Declarem guerra aos rotineiros e aos cultores do hipnotismo! Livrem-se da choldra provinciana e da safardanagem intelectual! Defendam a fé da profissão contra atmosferas de tédio ou qualquer resignação! Façam com que educar não signifique burocratizar! Sujeitem a operação cirúrgica todos os reumatismos espirituais! Mandem para a sucata todas as ideias e opiniões fixas! Mostrem que a geração portuguesa do século XXI dispõe de toda a força criadora e construtiva! Atirem-se independentes prá sublime brutalidade da vida! Dispensem todas as teorias passadistas! Criem o espírito de aventura e matem todos os sentimentos passivos! Desencadeiem uma guerra sem tréguas contra todos os "botas de elástico"! Coloquem as vossas vidas sob a influência de astros divertidos! Desafiem e desrespeitem todos os astros sérios deste mundo! Incendeiem os vossos cérebros com um projecto futurista! Criem a vossa experiência e sereis os maiores! Morram todos os derrotismos! Morram! PIM!
Pudesse eu um dia voltar à minha terra ver os coqueiros e os cafezais em flor ver as sanzalas transformadas em casas dignas de homens que trabalham noite e dia
pudesse eu tornar a ver-te mãe e abraçar-te e beijar-te até não mais e ver finalmente os meus irmãos de cor respeitados como eu sempre sonhei
pudesse eu ver as palmeiras da avenida gingando ao vento e ao grande calor e pisar essa terra agora nossa
pudesse eu daqui dizer-vos tudo que sinto e que quero transmitir pois mesmo longe estarei sempre ao vosso lado
Após o ardor da reconquista não caíram manás sobre os nossos campos. E na dura travessia do deserto aprendemos que a terra prometida era aqui Ainda aqui e sempre aqui, Duas ilhas indómitas a desbravar O padrão a ser erguido pela nudez insepulta dos nossos punhos. Emergiremos do canto como do chão emerge o milho jovem e nús, inteiros recuperaremos a transparência do tempo inicial Puros reabilitaremos o poema e a claridade para que a palavra amanheça e o sonho não se perca.
Mãe Nós somos os teus filhos Que sem vergonha Quebraram as fronteiras do silêncio. Os filhos sem manhãs Que rasgaram as noites que cobriam As carnes das tuas carnes.
Nós somos, Mãezinha, Os teus filhos, Os pés descalços, Esfomeados, Os meninos das roças, Do cais, Os capitães d’areia, Os meninos negros à margem da vida Que despedaçaram o destino do teu ventre, Que endireitaram os instantes Que marcaram socalcos na terra firme, Na profundidade das trevas da tua vida.
Nós somos, Mãezinha, os teus filhos, Sexos que germinaram vida, Forças que desfloraram a virgindade dos dogmas Fecundaram minérios de esperança, Olhos, dinamite de amor, Mãos que esfacelaram a espessura dos obós.
Tenho saudades da chuva do meu Largo da Carvalha. Uma chuva cinzenta e mole que abria longos riachos no meu peito de ansiedade Tenho saudades do vento do meu Largo da Carvalha. Um vento agreste e serrano que agitava os plátanos fazendo estremecer as folhas amarelecidas no meu quintal de ternuras. Tenho saudades das noites do meu Largo da Carvalha. Noites passadas á mingua de um abraço amigo e forte noites de antigas vizinhas que me diziam menina toma cuidado com os outros porque tu és diferente e eles não gostam dos diferentes histórias de lobisomem cantigas do São João rezas no adro da Sé. Tenho saudades dos dias do outro lado do mar dias de areia e de espuma a salpicarem-me o rosto dias de barco sem cais nos escaleres da vida dias de longe e de perto a cruzarem o meu destino mestiço entre as tílias do Rossio e a ilha do chocolate.
Eu vinha de comprar fósforos e uns olhos de mulher feita olhos de menos idade que a sua não deixavam acender-me o cigarro. Eu era eureka para aqueles olhos. Entre mim e ela passava gente como se não passasse e ela não podia ficar parada nem eu vê-la sumir-se. Retive a sua silhueta para não perder-me daqueles olhos que me levavam espetado E eu tenho visto olhos ! Mas nenhuns que me vissem nenhuns para quem eu fosse um achado existir para quem eu lhes acertasse lá na sua ideia olhos como agulhas de despertar como íman de atrair-me vivo olhos para mim! Quando havia mais luz a luz tornava-me quase real o seu corpo e apagavam-se-me os seus olhos o mistério suspenso por um cabelo pelo hábito deste real injusto tinha de pôr mais distância entre ela e mim para acender outra vez aqueles olhos que talvez não fossem como eu os vi e ainda que o não fossem, que importa? Vi o mistério! Obrigado a ti mulher que não conheço.
Que rios reverberam em nosso leito? Quantas tribos injectadas em teu peito? Nhá Maria de onde é? Nhô Ambrósio nasceu em Água Izé? E Katona, Aiúpa, Makolé? Silva, Danquá, Cassandra, Camblé... Padiçê, Mé Pó, Filingwé... Quantos nomes fundam transmutam minha fronte?
Deixaram nas ilhas um legado de híbridas palavras e tétricas plantações
engenhos enferrujados proas sem alento nomes sonoros aristocráticos e a lenda de um naufrágio nas Sete Pedras
Aqui aportaram vindos do Norte por mandato ou acaso ao serviço do seu rei: navegadores e piratas negreiros ladrões contrabandistas simples homens rebeldes proscritos também e infantes judeus tão tenros que feneceram como espigas queimadas
Nas naus trouxeram bússolas quinquilharias sementes plantas experimentais amarguras atrozes um padrão de pedra pálido como o trigo e outras cargas sem sonhos nem raízes porque toda a ilha era um porto e uma estrada sem regresso todas as mãos eram negras forquilhas e enxadas
E nas roças ficaram pegadas vivas como cicatrizes - cada cafeeiro respira agora um escravo morto.
E nas ilhas ficaram incisivas arrogantes estátuas nas esquinas cento e tal igrejas e capelas para mil quilómetros quadrados e o insurrecto sincretismo dos paços natalícios. E ficou a cadência palaciana da ússua o aroma do alho e do zêtê d' óchi no tempi e na ubaga téla e no calulu o louro misturado ao óleo de palma e o perfume do alecrim e do mlajincon nos quintais dos luchans
E aos relógios insulares se fundiram os espectros - ferramentas do império numa estrutura de ambíguas claridades e seculares condimentos santos padroeiros e fortalezas derrubadas vinhos baratos e auroras partilhadas
Às vezes penso em suas lívidas ossadas seus cabelos podres na orla do mar Aqui, neste fragmento de África onde, virado para o Sul, um verbo amanhece alto como uma dolorosa bandeira.
Caminhos trilhados na Europa de coração em África Saudades longas de palmeiras vermelhas verdes amarelas tons fortes da paleta cubista que o Sol sensual pintou na paisagem; saudade sentida de coração em África ao atravessar estes campos de trigo sem bocas das ruas sem alegrias com casas cariadas pela metralha míope da Europa e da América da Europa trilhada por mim Negro de coração em África. De coração em África na simples leitura dominical dos periódicos cantando na voz ainda escaldante da tinta e com as dedadas de miséria dos ardinas das cities boulevards e baixas da Europa trilhada por mim Negro e por ti ardina cantando dizia eu em sua voz de letras as melancolias do orçamento que não equilibra do Benfica venceu o Sporting ou não. Ou antes ou talvez seja que desta vez vai haver guerra para que nasçam flores roxas de paz com fitas de veludo e caixões de pinho: Oh as longas páginas do jornal do mundo são folhas enegrecidas de macabro blue com mourarias de facas e guernicas de toureiros.