Trova do Vento Que Passa

Image Hosted by ImageShack.us



Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.



Manuel Alegre


Anúncio

Image Hosted by ImageShack.us

Pôr do Sol. Luanda


Trago os olhos naufragados
em poentes cor de sangue...

Trago os braços embrulhados
numa palma bela e dura
e nos lábios a secura
dos anseios retalhados...

Enrolada nos quadris
cobras mansas que não mordem
tecem serenos abraços...
E nas mãos, presas com fitasa
zagaias de brinquedo
vão-se fazendo em pedaços...

Só nos olhos naufragados
estes poentes de sangue...

Só na carne rija e quente,
este desejo de vida!...

Donde venho, ninguém sabe
e nem eu sei...

Para onde vou
diz a lei
tatuada no meu corpo...

E quando os pés abram sendas
e os braços se risquem cruzes,
quando nos olhos parados
que trazem naufragados
se entornarem novas luzes...

Ah! Quem souber,
há-de ver
que eu trago a lei
no meu corpo...


Alda Lara

Lá no Água Grande

Image Hosted by ImageShack.us

Foto de Ana Bela Dias em Caminhadas e Descobertas em STP


Lá no "Água Grande" a caminho da roça
negritas batem que batem co'a roupa na pedra.
Batem e cantam modinhas da terra.

Cantam e riem em riso de mofa
histórias contadas, arrastadas pelo vento.

Riem alto de rijo, com a roupa na pedra
e põem de branco a roupa lavada.

As crianças brincam e a água canta.
Brincam na água felizes...
Velam no capim um negrito pequenino.

E os gemidos cantados das negritas lá do rio
ficam mudos lá na hora do regresso...
Jazem quedos no regresso para a roça.


Alda do Espírito Santo

Nunca é tarde


Foto de Gregory Mancuso Posted by Hello


Quando no cais só fica ancorada
A indiferença e já não resta nada
Senão as ilusões a que te agarras.

Ouve a voz inefável das guitarras
Tingindo de paixão a madrugada
No fim duma viagem povoada
Do canto indecifrável das cigarras.

Saberás então que há sempre um começo
No profano rio em que a vida arde,
E é nessa maré viva que estremeço.

Mas, ainda que saibas que nunca é tarde,
Não tardes, que sem ti eu anoiteço,
E não peças jamais ao rio que aguarde.


António Tomé

Carta De Um Contratado


Black Magic Woman, Sandra Amicucci Posted by Hello


Eu queria escrever-te uma carta
amor,
uma carta que dissesse
deste anseio
de te ver
deste receio
de te perder
deste mais bem querer que sinto
deste mal indefinido que me persegue
desta saudade a que vivo todo entregue...

Eu queria escrever-te uma carta
amor,
uma carta de confidências íntimas,
uma carta de lembranças de ti,
de ti
dos teus lábios vermelhos como tacula
dos teus cabelos negros como dilôa
dos teus olhos doces como maboque
do teu andar de onça
e dos teus carinhos
que maiores não encontrei por aí...

Eu queria escrever-te uma carta
amor,
que recordasse nossos tempos na capopa
nossas noites perdidas no capim
que recordasse a sombra que nos caía dos jambos
o luar que se coava das palmeiras sem fim
que recordasse a loucura
da nossa paixão
e a amargura da nossa separação...

Eu queria escrever-te uma carta
amor,
que a não lesses sem suspirar
que a escoindesses de papai Bombo
que a sonegasses a mamãe Kieza
que a relesses sem a frieza
do esquecimento
uma carta que em todo o Kilombo
outra a ela não tivesse merecimento...

Eu queria escrever-te uma carta
amor,
uma carta que ta levasse o vento que passa
uma carta que os cajús e cafeeiros
que as hienas e palancas
que os jacarés e bagres
pudessem entender
para que o vento a perdesse no caminho
os bichos e plantas
compadecidos de nosso pungente sofrer
de canto em canto
de lamento em lamento
de farfalhar em farfalhar
te levassem puras e quentes
as palavras ardentes
as palavras magoadas da minha carta
que eu queria escrever-te amor....

Eu queria escrever-te uma carta...

Mas ah meu amor, eu não sei compreender
por que é, por que é, por que é, meu bem
que tu não sabes ler
e eu - Oh! Desespero! - não sei escrever também.


António Jacinto

Quando a manhã vier


.. Posted by Hello


Quando a manhã vier
com um sol maduro
ofertando beijos
aos órfaos da ternura
quando a manhã vier
em apoteose de luz
a semear no vento
risos de alegria

quando a manhã vier
definitivamente
em alvorecer roseo
de paz e tranquilidade

de mãos nas mãos
saberemos chegado o nosso dia.


Jofre Rocha
(1961)

Livro de amar


.. Posted by Hello


Há um tempo lá fora
que me interpela a pulso
e me reclama os gestos.
Mas se reacendo a chama
da indiscreta lembrança
das flores que pensei ofertar,
me restituo aos livros
e simulo esquecimento.
-Refém da retórica das histórias,
o amor aprisiona-me em páginas...


Francisco José Lins do Rego Santos

Sorrisos mutilados

Image Hosted by ImageShack.us
Imagem daqui


"No meu país
a (in)competência doentia
mutila-nos o sorriso
e nós teimosamente
arranjamos muletas e sorrimos
deitados à sombra da esperança
esculpida pela nossa paciência
Coragem, gente
pois galopa celere o instante
em que sorriremos sem muletas!"


Carlos Zimba

Ocorre-me agora

Image Hosted by ImageShack.us


"Ocorre-me agora
a pupila minúscula de uma criança.
A sua engenharia
desde o corpo na guerreira pequenez
ao dedo provador da boca.
Ocorre-me esta criança
este monge da franqueza em seu templo de inocência.
Amo-a. Vivo-a.

Voar é poder amar uma criança.
Sonhar-lhe o peso no colo, as mãos acariciantes
sobre a palma da alma.

Voar é tardar a boca
na rosa do rosto de uma criança.
Pronunciar-lhe a ternura,
a seda fresca e pura
da sua infância.

Voar é adormecer o homem
na mão sonhadora
de uma criança."


Eduardo White

Imagens e palavras de Abril

De Abril, imagens mil.
Amigos, resolvi hoje partilhar convosco as que mais me marcaram... porque são elas que povoam o imaginário, alimentam o sonho e dão força e coragem.

Image Hosted by ImageShack.us
Salgueiro Maia

O homem que ajudou a sonhar o ideal, que o ajudou a planificar, que o construiu a golpes de coragem, coerência e audácia...
Aquele que na voragem da demagogia sempre se manteve sereno e coerente, recusando todas as honrarias que outros procuraram e conseguiram, esforçada e imerecidamente.
Simbolo maior do que todos sonhamos naquela madrugada.

Image Hosted by ImageShack.us
Francisco Sousa Tavares

Coragem e coerência na luta pela Liberdade. Não receou nunca dizer o que pensava, mesmo quando o passaram, muitas vezes a apelidar de reaccionário. Foi exemplo de coragem no dia 25 de Abril, na direcção de «A Capital» e em tantos outros momentos. Aprendi a respeitar mesmo não concordando. Um vulto incontornável e um exemplo.

Image Hosted by ImageShack.us
Nós, o povo

Que cedo largamos o torpor de um sono de 48 anos para vivermos e sonharmos, mesmo que fugazmente fosse, o inebriante sabor da Liberdade.
Que vimos Salgueiro Maia arriscar-se em nosso nome, que vimos Sousa Tavares incitar-nos... não ficámos em casa...
Fomos os grandes vencedores!
Quem sabe se não tivessemos saído á rua, os pretores da «Brigada do Reumático» que assumiu o poder das mãos dos Capitães, não teriam alterado o rumo dos acontecimentos!
Fomos nós que impedimos a confrontação por demonstrarmos de forma cabal a adesão.
Saímos, lutámos e vencemos.
Unidos.



A Rapariga do País de Abril

Habito o sol dentro de ti
descubro a terra aprendo o mar
rio acima rio abaixo vou remando
por esse Tejo aberto no teu corpo.

E sou metade camponês metade marinheiro
apascento meus sonhos iço as velas
sobre o teu corpo que de certo modo
é um país marítimo com árvores no meio.

Tu és meu vinho. Tu és meu pão.
Guitarra e fruta. Melodia.
A mesma melodia destas noites
enlouquecidas pela brisa no País de Abril.

E eu procurava-te nas pontes da tristeza
cantava adivinhando-te cantava
quando o País de Abril se vestia de ti
e eu perguntava atónito quem eras.

Por ti cheguei ao longe aqui tão perto
e vi um chão puro: algarves de ternura.
Quando vieste tudo ficou certo
e achei achando-te o País de Abril.


Manuel Alegre
30 Anos de Poesia
Publicações Dom Quixote


Esta homenagem e partilha dedico-a por inteiro a amigos(as), paladinos e amantes da Liberdade como eu.
Á IO, ao Pululu, ao João Tunes, á Margem, ao António, ao jpt, á Brigida, á Laurindinha, ao Mussele, ... e a tantos, tantos amigos que me têm honrado com a sua visita e que agora, nesta hora, tão injustamente não lembro... mesmo para aqueles que tendo opinião diversa por aqui passam e que deixam o rasto da sua simpatia e opinião só permitida por essa gesta colectiva que iniciámos, com todas as virtudes e erros naquela madrugada.

25 de Abril

Image Hosted by ImageShack.us

25 de Abril de 1974… estava em São Salvador do Congo (hoje Mbanza Congo), dia cinzento que adivinhava já a chegada do cacimbo. Estava a estudar, sozinho, na antiga capital do Reino do Congo, os meus pais e a minha irmã estavam em Ambrizete (hoje Nzeto).
Dia de aulas perfeitamente normal mas, a meio da manhã, começou a sentir-se no ar algum nervosismo.
A maioria dos professores(as) eram ou ex-militares ou esposas de militares e por isso tiveram cedo acesso a algumas notícias «desencontradas» que algo de anormal se passava na metrópole…
Á tarde a notícia corria célere…mas ninguém se arriscava a confirmar nada.
Como à IO, foi da rádio sul africana que foram chegando notícias que confirmavam não apenas o movimento mas a sua vitória.
Intimamente uma imensa alegria…. Uma esperança sem fim que tudo iria melhorar para todos.
Com o golpe de estado iriam embora os receios do antigo senhorio, na longínqua Brandoa, que em surdina vociferava, perante a bonomia do meu pai, contra Salazar… ou acabavam os receios do que pudesse ser dito aquando da visita daquele nosso vizinho, nos Olivais dessa distante Lisboa.
Ficariam longe as noites de Natal em que haveria prevenção rigorosa em vez de haver ceia com bacalhau, como ficariam longe igualmente as recordações de noites que, em vez de passadas a desembrulhar um ou outro livro de presente, as passei «a brincar» com uma G3 na mão, porque de Brazzaville a rádio, em ondas curtas, ameaçava, como sempre, o ataque fulminante a São Salvador, embora ninguém acreditasse nisso.
Assim, em zona de guerra, onde se ouve tudo e mais alguma coisa, não era segredo para ninguém, nem para um puto de 16 anos, que de um modo ou outro algo teria que acontecer.
Há cerca de dois anos que se falava com certo á vontade na possibilidade de Angola se libertar da metrópole, aceder á independência tornando Nova Lisboa (Huambo) sua capital.
Recordo que no dia seguinte, antes da primeira aula, a turma resolveu arranjar um emblema… e desenhá-lo no quadro! Que bela bronca ouviu o Cacusso por isso e sobretudo por ter integrado na sua composição estrelas de 5 pontas…
Recordo, e lamento ter perdido, as primeiras cartas (aerogramas) que troquei com o meu pai, então comandante da Esquadra da PSP em Ambrizete. Eu, eufórico pelos acontecimentos… ele, desconfiado e contundente com os militares afirmando que «nunca fazem nada de jeito, nem a marcar passo…»
Vindo dele e sendo representante de uma estrutura que sempre nutriu, mesmo que em surdina, um ódio de estimação aos militares, por entenderem ser a corporação uma polícia com características cívicas e não militares… não dei importância, mas registei, claro.
Vi, empolgado, emocionado e com «pele de galinha» no ecran do CRESSA (Clube Recreativo de São Salvador) as imagens do primeiro 1º. de Maio que nunca mais ninguém esqueceu.
E tive esperança… por mim, por todos e sobretudo por todos aqueles que me rodeavam, colegas e amigos, porque tornou-se óbvio para todos que a guerra, de um modo ou de outro, teria os dias contados.
Tive esperança. sobretudo por eles… o meu caminho, a curto prazo, já sabia não passar pela continuação em Angola. A comissão do «velhote» estava a terminar e o regresso acabou por acontecer em Setembro de 74.
Todos tínhamos esperança que a emancipação de Angola ocorresse longe de outros exemplos vizinhos.
A madrugada de 25 de Abril serviu para podermos sonhar…
E sonhámos!
E idealizámos!
E construímos!
Por entre sonhos e pesadelos, muito foi realizado…
Houve feridas abertas… incompreensões…
Responsabilidades assumidas e outras alijadas…
Responsabilidades ás consequências e não ás causas…
Houve dores de «crescimento».
Mas... valeu a pena!
Viva o 25 de Abril!

Árvore de frutos


.. Posted by Hello


Cheiras ao caju da minha infância
e tens a cor do barro vermelho molhado
de antigamente;
há sabor a manga a escorrer-te na boca
e dureza de maboque a saltar-te nos seios.

Misturo-te com a terra vermelha
e com as noites
de histórias antigas
ouvidas há muito.

No teu corpo
sons antigos dos batuques à minha porta,
com que me provocas,
enchem-me o cérebro de fogo incontido.

Amor, és o sonho feito carne
do meu bairro antigo do musseque!


António Cardoso

Lembrança


Cão Pequeno, São Tomé - Foto de João Alves em Caminhadas e Descobertas em STP Posted by Hello


Passa um vento morno,
Um vento morno
Na trémula palmeira,
Na neblina prateada.

Envoltos na ténue distância
Morros azuis de mata
Lá ao longe.
Algures um sino suave tange.

No vento ondula como flâmula
Uma saia berrante cor de sangue.

Árvores de fruta pão
Bailando, mãos abertas,
Leques de bananeiras
Oscilando lentamente.

Visão fugidia, retratada
Por inteiro
No livro silencioso da memória.

Lembrança de São Tomé,
Sangué, trémula e prateada...

Saudade de São Tomé...


Neves e Sousa

Espero


.. Posted by Hello


Por ti espero
desde que partiste
e aguardo o teu recado
em cada pessoa que chega;
Olho para os caminhos
todas as manhãs
na esperança de nos encontrarmos.

O cacimbo passou.
Nova folhagem cobrirá
daqui a pouco
a floresta
e tu não vens.
Depois
serão as chuvas...

De tanto te esperar
já sonho que chegaste.
Desperto ao latir dos cães
julgando ter chegado
quem vem bater-me à porta.
Esta esperança vã
é um tormento que em mim cresce
dia a dia.


Raul David
(Cantares do nosso povo)
(origem Ovimbundu)


In Casa de Angola

Morreu escritor angolano Raul David, autor de "Colonizados e Colonizadores"
O escritor angolano Raul David, 87 anos, morreu no passado dia 20 à noite, na cidade do Lobito, província de Benguela, vítima de doença.


"É uma biblioteca que desaparece, perdemos uma enciclopédia viva do passado colonial", afirmou o ministro angolano da Cultura, Boaventura Cardoso, em declarações à Rádio Nacional de Angola, numa referência à tradição africana que considera os idosos como bibliotecas de sabedoria.
O ministro angolano referiu-se ainda à obra mais conhecida de Raul David, intitulada "Colonizados e Colonizadores", considerando tratar-se de "um livro que é uma referência da literatura angolana, que trata de forma muito particular diversos aspectos do passado colonial".

Raul David nasceu em 1918 na Ganda, município do interior da província de Benguela, onde fez os estudos primários e passou grande parte da sua infância, antes de ingressar no seminário católico de Ngalangui.
O escritor iniciou a sua actividade literária aos 45 anos, mas a sua primeira obra só foi publicada quando tinha 57 anos.
"Colonizados e Colonizadores", publicado em 1974, foi a sua primeira obra publicada, a que se seguiram, entre outras, "Escamoteados na Lei" (1987), "Cantares do nosso povo, cantos em língua umbundo" (1987) e "Crónicas de ontem para ouvir e contar" (1989).
Antes de ser internado devido à doença que veio a provocar a sua morte, Raul David estava a preparar a edição de uma nova obra com diversos textos inéditos.

Chuva

Image Hosted by ImageShack.us

Outrora
Quando a chuva vinha
Era a alegria que chegava
Para as árvores
O capim
E para a gente.

Era a hora do banho sob a chuva
Meninos sem chuveiro
A água regateada na cacimba
Muitas horas de pé esperando a vez.

Era a alegria de todos, essa chuva:
Porque então fiz o primeiro poema triste?

Hoje ela veio
Veio sem o encanto de outras eras
E ergueu na minha frente o tempo ido.
Porque estou triste?
Porque estou só?

A canção é sempre a mesma
Mesmos os fantasmas, meu amor:
Inútil o teu sol ante os meus olhos
Inútil teu calor nas minhas mãos.
Essa chuva é minha amante
Velho fantasma meu:
Inútil, meu amor, tua presença.


Mário António
(Obra poética)

Sentido de humor


.. Posted by Hello

Noticiou, creio que a TSF, pela Voz de D. José Saraiva Martins que o novo Papa Bento XVI é uma pessoa cheia de sentido de humor, capaz de contar anedotas.

A Kitanda, esta vossa humilde loja, não está em condições de contar nenhuma... mas tem o exclusivo mundial de noticiar quantas anedotas contou na Capela Sistina...

Exactamente... 114!
Etiquetas: 0 comentários | | edit post

Poema de esperança

Image Hosted by ImageShack.us


... Os pássaros voarão
E o mundo encher-se-á de suas penas

Calados nos ouviremos segredando
Fazendo do horizonte uma linha longa,

Tu tremerás receosa do infinito
Mas eu estarei junto de ti...

E será doce ou triste aquele poente...?
Porém tu me dirás sorrindo:

— Que importa? São tuas as linhas desta mão...


Arnaldo Santos

Maracujá

Image Hosted by ImageShack.us
Flor de Maracujá, foto de Brigida Rocha Brito em Caminhadas e Descobertas em STP


Um dia
o pé de maracujá
que eu plantei no quintal
cresceu
e floriu

Eu nunca tinha visto
a flor do maracujá.

Juro por Deus nunca vi
coisa mais linda do mundo
do que a flor violeta
do pé de maracujá
que eu plantei
Na cerca do meu quintal

Um dia
o maracujá
que eu plantei no meu quintal
cresceu e floriu...

Ernesto Lara Filho

An eagle when she flies

Image Hosted by ImageShack.us

She's been there,
God knows, she's been there
She has seen and done it all
She's a woman, she knows how to
Dish it out or take it all
Her heart's as soft as feathers
Still she weathers stormy skies
And she's a sparrow when she's broken
But she's an eagle when she flies
A kaleidoscope of colors
You can toss her around and round
You can keep her in your vision
But you'll never keep her down
She's a lover, she's a mother
She's a friend and she's a wife
And she's a sparrow when she's broken
But she's an eagle when she flies

Gentle as the sweet magnolia
Strong as steel, her faith and pride
She's an everlasting shoulder
She's the leaning post of life
She hurts deep and when she weeps
She's just as fragile as a child
And she's a sparrow when she's broken
But she's an eagle when she flies

She's a sparrow when she's broken
But she's an eagle when she flies
Oh, bless her, Lord
She's an eagle when she flies


Dolly Parton

Ouvir aqui


O Choro de África

Image Hosted by ImageShack.us


O choro durante séculos
nos seus olhos traidores pela servidão dos homens
no desejo alimentado entre ambições de lufadas românticas
nos batuques choro de África
nos sorrisos choro de África
nos sarcasmos no trabalho choro de África.

Sempre o choro mesmo na vossa alegria imortal
meu irmão Nguxi e amigo Mussunda
no circulo das violências
mesmo na magia poderosa da terra
e da vida jorrante das fontes e de toda a parte e de todas as almas
e das hemorragias dos ritmos das feridas de África

e mesmo na morte do sangue ao contacto com o chão
mesmo no florir aromatizado da floresta
mesmo na folha
no fruto
na agilidade da zebra
na secura do deserto
na harmonia das correntes ou no sossego dos lagos
mesmo na beleza do trabalho construtivo dos homens

o choro de séculos
inventado na servidão
em histórias de dramas negros almas brancas preguiças
e espíritos infantis de África
as mentiras choros verdadeiros nas suas bocas
o choro de séculos
onde a verdade violentada se estiola no circulo de ferro
da desonesta força
sacrificadora dos corpos cadaverizados
inimiga da vida

fechada em estreitos cérebros de máquinas de contar
na violência
na violência
na violência

O choro de África é um sintoma

Nós temos em nossas mãos outras vidas e alegrias
desmentidas nos lamentos falsos de suas bocas - por nós!
E amor
e os olhos secos.


Agostinho Neto

A cor dos teus olhos

Image Hosted by ImageShack.us

Teus olhos eram a cor
da vida que recusára
anos antes.
Aquele momento
foi o sentido certo,
a dimensão exacta
da palavra amor.

Mais que o sexo
cujo odor pairava
ainda no ar.
Mais que as palavras doces
que me ouves agora.

De verdade, esse momento
teve a magia
de se repetir na dor
da saudade
duma qualquer imaginação
efémera.

Teus olhos são a esperança
da vida que já não esperava
acontecer.
É assim que te quero amar.
Mostrar nos olhos a verdade
que vi nos teus.


António Metelo Dias
02/07/97

Poema da alienação

Image Hosted by ImageShack.us

African Summer Night, Jeane Granada Coutts


Não é este ainda o meu poema
o poema da minha alma e do meu sangue
não
Eu ainda não sei nem posso escrever o meu poema
o grande poema que sinto já circular em mim
O meu poema anda por aí vadio
no mato ou na cidade
na voz do vento
no marulhar do mar
no Gesto e no Ser
O meu poema anda por aí fora
envolto em panos garridos
vendendo-se
vendendo
ma limonje ma limonjééé”
O meu poema corre nas ruas
com um quibalo podre à cabeça
oferecendo-se
oferecendo
“carapau sardinha matonaji ferrera ji ferrerééé...”
O meu poema calcorreia ruas
“olha a probíncia” “diááário”
e nenhum jornal traz ainda
o meu poema
O meu poema entra nos cafés
“amanhã anda a roda amanhã anda a roda”
e a roda do meu poema
gira que gira
volta que volta
nunca muda
“amanhã anda a roda
amanhã anda a roda”
O meu poema vem do Musseque
ao sábado traz a roupa
à segunda leva a roupa
ao sábado entrega a roupa e entrega-se
à segunda entrega-se e leva a roupa
O meu poema está na aflição
da filha da lavadeira
esquiva
no quarto fechado
do patrão nuinho a passear
a fazer apetite a querer violar
O meu poema é quitata
no Musseque à porta caída duma cubata
“remexe remexe
paga dinheiro
vem dormir comigo”
O meu poema joga a bola despreocupado
no grupo onde todo o mundo é criado
e grita
“obeçaite golo golo”
O meu poema é contratado
anda nos cafezais a trabalhar
o contrato é um fardo
que custa a carregar
“monangambééé”
O meu poema anda descalço na rua
O meu poema carrega sacos no porto
enche porões
esvazia porões
e arranja força cantando
“tué tué tué trrarrimbuim puim puim”
O meu poema vai nas corda
encontrou sipaio
tinha imposto, o patrão
esqueceu assinar o cartão
vai na estrada
cabelo cortado
“cabeça rapada
galinha assada
ó Zé
”picareta que pesa chicote que canta
O meu poema anda na praça trabalha na cozinha
vai à oficina
enche a taberna e a cadeia
é pobre roto e sujo
vive na noite da ignorância
o meu poema nada sabe de si
nem sabe pedi
O meu poema foi feito para se dar
para se entregar
sem nada exigir
Mas o meu poema não é fatalista
o meu poema é um poema que já quer
e já sabe
o meu poema sou eu-branco
montado em mim-preto
a cavalgar pela vida.


António Jacinto

Luanda 1996

Antes de aterrar no Aeroporto 4 de Fevereiro no dia 10 de Abril, há nove anos atrás, tentei recuperar ao máximo tudo quanto recordava de uma cidade espantosa.
Ia comigo a vontade de poder, mesmo que modestamente, contribuir para melhorar a limpeza urbana da cidade.
A minha frieza analítica e profissional e o africanismo, superavam largamente o ruído de fundo constituído por toda a lengalenga da «chapa 5», que o jpt tão bem descreve na sua Ma-Schamba, bem como a ideia estúpida e racista de que «não há pedra sobre pedra».
Luanda, entre a interrupção da Guerra Civil e o seu recomeço era, em 1996, uma cidade que denotava a grandeza que lhe conheci em meados da década de 70 e mostrava abundantemente todas as chagas derivadas dessa mesma guerra e do facto de as infraestruras da cidade, nomeadamente no saneamento, não suportarem mais que as 500.000 pessoas para as quais estavam dimensionadas.
O transporte do aeroporto para o local de acolhimento deu para fazer um primeiro balanço - infraestruras degradadas mas muito longe do cenário caótico que os «profetas da desgraça» sempre traçam.
Relembro desses momentos de reencontro o calor imediato do povo angolano, que já conhecia mas que, no meio de tanta tragédia, julgava ter sido duramente golpeado.
O povo angolano tem um orgulho e uma coragem inacreditáveis.
Recordo a viagem entre a Aeroporto e o local de alojamento e a música que ouvi - Song for Guy, por Elton John. Curioso, porque foram desta melodia os últimos acordes musicais que ouvi em Luanda quando, quatro mese e meio depois, parti.
Tive a felicidade de ficar instalado num «aldeamento» para cooperantes na Estrada de Catete, município de Kilamba-Kiaxi, muito perto já de Viana.
Poderá ser paradoxal dizer isso de um local em que estavamos guardados por «armários», de óculos espelhados, portadores de AK-47.
Tenho, para mim, que estando em contacto directo com o povo e tendo a percepção, por via organizacional das questões tecnicas e profissionais, podia ter uma visão mais perto da realidade do que teria se acaso ficasse, principescamente, instalado nalguma unidade hoteleira.
Verifiquei, na visita efectuada á cidade, nesse primeiro dia que, a limpeza urbana era bastante má mas havia ainda assim uma diferença - a «cidade de alcatrão» apesar de má, estava melhor que as áreas limítrofes, os musseques e os bairros populares.
Fiquei a saber que a minha missão era colaborar nos aspectos organizativos e operacionais da limpeza, no que diz respeito á «cidade de alcatrão».
Verdadeiramente pouco... mas verdade, também, que não havia nem meios, nem tempo para efectuar tudo o que deveria ser realizado.
Os documentos que ficam são aspectos desse trabalho.


.. Posted by Hello

Image Hosted by ImageShack.us

Image Hosted by ImageShack.us

Image Hosted by ImageShack.us

Sei que muitas alterações ocorreram. A limpeza deixou de estar a cargo da ELISAL. Sei que há muitas melhoria... no centro da cidade. Sei que muito está feito mas há uma imensidão de coisas por fazer. Sei que nos musseques continua quase tudo, invariavelmente, na mesma.

Melhores dias virão.
Sei que Luanda não era uma cidade suja e voltará a ostentar, para o bem dos seus habitantes, um ambiente mais limpo e saudável.

Esta «conversa» toda foi-me «sugerida» pelo post da amiga IO no seu laurentino e espantoso Chuinga pelas diferenças entre Maputo e Luanda.
Tinha que defender aminha «dama»!

Voltarei a Luanda e conhecerei Maputo e igualmente o, dizem, lindíssimo Bilene de quem a minha Maria «morre» de saudades.

Barcos


.. Posted by Hello



"Nha terra é quel piquinino
É São Vicente é que di meu"

Nas praias
Da minha infância
Morrem barcos
Desmantelados.

Fantasmas
De pescadores
Contrabandistas
Desaparecidos
Em qualquer vaga
Nem eu sei onde.

E eu sou a mesma
Tenho dez anos
Brinco na areia
Empunho os remos...
Canto e sorrio...
A embarcação:
Para o mar!
É para o mar!...

E o pobre barco
O barco triste
Cansado e frio
Não se moveu...

Yolanda Morazzo

Novo membro da família... Pôpas

Image Hosted by ImageShack.us
Pôpas.

A juntar ao Pantufa, ao Misha, ao Miau, ao Marradinhas e ao Maria.
Ainda está com a mãe mas prevejo já reboliço em casa.
Prometo dar notícias e juntar foto melhor (argghh...)

Melhor só mesmo no template do Paquecas, da Maria Papoila.

Virtual

Image Hosted by ImageShack.us


Você faz nascer poemas de mim
Como filhos de mulher.
Sou sua terra fértil
E você é meu grão.
Oh, meu Deus!!!
Que amor doido é esse
Que me tira os pés do chão?!

Sou princesa, sou fada,
Sou mulher,
Sou a estrela e a lua,
Sou tudo o que você quiser.
Sou sonho, verdade,
Sou virtual, sou real.

Oh!... e esse amor que me bole,
Me dá explosões de alegria
E toneladas de ansiedade.
É você que chega,
Não te vejo,
Não te ouço,
Mas te sinto...

Me viro ao avesso,
Padeço
Faço poemas
E você me endoidece.

Oh!... e esse amor que me dói...
Me corrói,
Dor doída
De vontade de te ver...


Leticia Thompson

Convite

Agora que o fim de semana está aí, convido-os a vir até á Ilha, á Praia do Afrodiziakus, a última, antes do Barracuda.

Image Hosted by ImageShack.us

É aproveitar que o cacimbo está á porta e, com isso, acabam os banhos.
Ver este pôr do sol.

Image Hosted by ImageShack.us

Sentados, com isto á frente e, mesmo não devendo, puxar disto, comprado junto num cruzamento da Estrada de Catete, aos miúdos, bem perto da Vila Alice, acendendo-o com isto.

E esquecer, aquecendo a alma e o corpo!

Bom fim de semana a todos!

Encontramo-nos lá.

Divino conteúdo


.. Posted by Hello


fogo fátuo
luz néon
homo-sapiens
eis o que somos

na fatia
de cada dia
cada gomo
um gnomo
se instala
se estala
na festa viva da poesia


Zhô Bertholini
(in Sem Ensaio)

Poesia


.. Posted by Hello

A poesia
é uma família
dispersa
de náufragos
bracejando
no tempo
e no espaço.


Augusto de Campos

Estarrecido!

Image Hosted by ImageShack.us

É crime interromper o sofrimento atroz a um doente terminal.
É crime uma mulher interromper uma gravidez.
Não é crime a condenação á morte de um ser, por impedimento de uma transfusão sanguínea!

Estranha e irracional sociedade esta!
Será possível??