A Espera de Ti

























Foto de "Angola em Fotos" (que recomendo, vivamente!)




Por agora,
deixa os sinos do teu corpo
tocarem todos,
deixa a vaga de vento
te levar para as portas do céu.
Poisa levemente os pés
na lã dos caminhos e
vai segura pela minha mão
que voltarás ao amanhecer
com as águas das montanhas
entre o coaxar das rãs
saindo do teu peito.
Os dias serão maduros
de azul, cânticos de amor e pão.
Haverá mel nos lábios
e em todas as esquinas
estarei
à espera de ti!



E.Bonavena

Havemos de voltar




















Havemos de voltar!
Mais velhos...
Diferentes...
Derrotados...
Cinzas...
Pó...
Sementes
arrastadas pelo vento
num pôr de sol de fogo...
Levados na fúria da maré...
Mas havemos de voltar
numa trovoada tropical,
derrubados
beijaremos a terra
e voltaremos, serenos,
a florescer no capinzal.


Isabel Branco

Elefantíase


























Meu embondeiro
a pingar múcuas
por raízes
dispersas em prece

jeitoso
elegante
sinuoso

Meu embondeiro
de espíritos albergados
na fundura do casco
em espera do viajante

Meu embondeiro
meu embondeiro



Fragata de Morais

Porque me vem este odor forte






















Porque me vem este odor forte
Da terra onde há chovido
Em que cada átomo
Tem força poderosa
Nas células que germinam
Crescem e se dividem?
Porque me vem este perfume
De ervas orvalhadas
De múltiplas flores
E múltiplos odores?
Rosas ou crisântemos
Narcisos ou dálias
Tudo o vento traz
Em suas asas leves
Porque vem a mim
E me penetra assim?...
Será o anseio
O gosto de beber
Em sorvos largos
A seiva à minha volta?



Eugénia Neto

Sonho de amor




















O meu sonho
é uma madeixa dos teus cabelos
sufocada ao luar de uma noite
cansada de amor

O meu sonho
somos nós, tu e eu
no corcel da vida
à procura do sol

Falo do sonho, amor
do nosso sonho
em que brincamos com crianças não paridas
com esperanças sangrando desesperanças

O meu sonho
és tu, Minda-a-Mulata
sonhando com a vida e morrendo
em tempo de fome farta
e a guerra a acabar
(ou a reatar?)

O meu sonho
é sonho de mar
as ondas indo e vindo
do fim do Mundo
as aves a voar.


Domingos Florentino

chamei-lhe amiga

























Aquela rapariga de olhar triste...
Olhei-lhe os olhos
e vi que eram como os meus.
Olhei-lhe as mãos
e vi que eram como as minhas.
Sorriu
e vi que os dentes eram brancos como os meus.
Debrucei-me sobre a sua alma
ansioso
como quem se debruça da amurada de uma navio
para ver o mar.


E vi que era imensa
e livre
como o voo das águias.
Chamei-lhe amiga.


O semblante encheu-se-lhe de súbita alegria
e respondeu-me: "amigo!"
Entre nós só havia duas diferenças:
o sexo e a cor da pele.


Vasco Cabral
in A Luta é a Minha Primavera


A hora é de agir... mas meditemos!

























Dói muito mais arrancar um cabelo a um europeu que amputar uma perna, a frio, a um africano.

Passa mais fome um francês com três refeições por dia que um sudanês com um rato por semana.

muito mais doente um alemão com gripe
que um indiano com lepra.

Sofre muito mais uma americana com caspa
que uma iraquiana sem leite para os filhos.

É mais perverso cancelar o cartão de crédito
a um belga que roubar o pão da boca a um tailandês.

É muito mais grave deitar um papel no chão na Suiça, que queimar uma floresta inteira no Brasil.

É muito mais intolerável o shador de uma muçulmana que o drama de 1000 desempregados em Espanha.

É mais obscena a falta de papel higiénico num lar sueco que a de água potável em 10 aldeias do Sudão.

É mais inconcebivel a escassez de gasolina na Holanda que a insulina nas Honduras.

É mais revoltante um português sem telemóvel
que um moçambicano sem livros para estudar.

É mais triste uma laranjeira seca num colunato hebreu que a demolição de um lar na Palestina.

Traumatiza mais a falta de uma barbie a uma menina inglesa, que a visão do assassínio dos pais a um menino ugandês.


Recebi por email há algum tempo.
Hoje foi-me recordado por uma mensagem no Amigos de Manica e Sofala a quem agradeço.

Duas idades iguais


























Uma criança chora na rua
Andou a brincar com outras crianças

Subiu árvores
Sujou a camisa de caju
Agora não sabe onde deixou
O seu carrinho de papelão

Chora e procura o seu carrinho de papelão

Foi um velhinho já todo curvado
Viu a guita do automóvel
Pegou nele a sorrir
Brincou e levou contente como uma criança

Toda a gente viu
Mas ninguém disse nada

O velhinho reencontrou o seu mundo puro de ingenuidades
As suas mãos tornaram-se pequeninas e saudosas

Uma criança chora na rua
Um velho brinca distante
Com um brinquedo de papelão.




Tomás Vieira da Cruz

Mãe África




















Mãe ÁFRICA
É do teu ventre glorioso que nascemos
É teu o sangue vermelho que corre em nossas veias
Tal como os rios entrelaçados
que deslizam sobre tuas virgens

É de ti
Que sentimos as saudades mais profundas,
Existentes em nosso ser
É por ti
Que lágrimas tristes
Rolam sobre nossos rostos negros acriançados
E são para ti
As palavras melancólicas que juntamos
E transformamos em poesia sólida e serena

Por isso, ÁFRICA
Jamais a distância
Jamais as luzes ludibriadoras
Jamais os castelos encantados
Nos farão esquecer, tuas terras de feitiços e Kijilas1
De florestas tropicais
E de danças eufóricas

É a ti
É a ti que pertencemos…



Juliana Pedro

A Arte de ser poeta


























Sinto-me poeta
Quando bebo o ópio do teu ósculo
E ressuscito na maré-alta da tua kilapanga

Sinto-me poeta
Quando sinto a calefacção da tua nudez
A insuflar este desejo de peregrinar em ti

Sinto-me poeta
Quando desfaço o fracasso dos meus passos
No pulso do teu abraço melado e castiço

Sinto-me poeta
Quando me derreto em ti
E loucamente te contorces zumbindo
– Qual um’abelha cantarolando -

Sinto-me poeta
Quando nos encontramos a sós
Descalços & famintos
À hora da ceia p’ra refrega

Sinto-me poeta
Quando reclinas a cabeça no regalo do meu colo
E m’insinuas a escalar o teu monte-de-vénus

Sinto-me poeta
Quando me deixas brincar
Com a escultura ginecológica do teu atelier

Sinto-me poeta
Quando desfilo est’olhar geodésio
Na arquitectura poética do teu rosto de Kyanda

Sinto-me poeta
Quando oiço a sexta sinfonia
Do teu sorriso de Gioconda.




Sapyruca

Acácia em flor africana - 4º devaneio


















se pudesse ainda colher de teu ventre a fragrância rubra das acácias
teria ainda benevolência para digerir o compêndio das frases
douradas
que cativam a orla do tempo
se pudesse ainda sentir em deitada areia brisa em cada instante de
amor
convocaria o surrealismo de meu âmago e deixar-me-ia
sequestrado
quiçá entorpecido na silhueta de teus lábios quão belos são meus
depositando flores e suores em teu prado por ti por mim por nós
e por vós
para que nossos dias forjassem um novo edifício no sémen da
Pátria


Nok Nogueira

Isto inclui-me!

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Não devemos transformar a pobreza numa fatalidade e muito menos em paisagem.
Esta campanha foi-me dada a conhecer pela Madalena Nunes do Khanimambo!
e teve origem em Isto inclui-me.

Herança de morte

























Lírios em mãos de carrascos
Pombal à porta de ladrões
Filho de mulher à boca do lixo
Feridas gangrenadas sobre pontes quebradas
Assim construímos África nos cursos de herança e morte
Quando a crosta romper os beiços da terra
O vento ditará a sentença aos deserdados
Um feixe de luz constante na paginação da história
Cada ser um dever e um direito
Na voz ferida todos os abismos deglutidos pela esperança


Amélia Dalomba



Outras margens da mesma Língua













Porque a História também se faz ao contrário, o caçador quando pressente o perigo é tarde demais e saiu já caçado, num golpe de futura sorte ou carnaval linguístico; e o oceano, quintal vasto e multiplicador de margens, convida a viagens com direito a retorno melhorado e banquete renovador. Depois dos gestos, a linguagem falada é a boca sincera dos sentimentos e a cultura apanha boleia para ir mais longe, enfeitiçar outros mundos e mascarar-se de novos conteúdos.

”(…) Ela não voltou a falar. Lava as chávenas com espantável lentidão. Suas mãos acariciavam o vidro por onde eu havia bebido. Senti como se ela me tocasse os lábios e me retirei nesse embalo de ilusão.
Me dirigi para casa, sem vontade de caminho. Demorei em coisas nenhumas.
Nisto, uma estrelícia, simples flor, me deflagra os olhos. O vendedor me cativa a atenção agitando a crista laranja da flor. (…) As mãos se ridicularizam com a intransitiva flor. Chego a casa e a flor se extravaganta ainda mais. Nunca eu tinha encenado flor em jarra.
Sentado, frente a uma cerveja deixo entrar em mim a voz: preciso é de mulher. Necessito de um acontecimento de nascência, uma lucinação. Careço de um lugar para esperar, sem tempo, sem mim. Devia haver um feminino para ombro. Porque ombra era o nome único que merecia o encosto daquela mulher.”1

Depois de Língua conquistadora, a Língua conquistada virou raiz reprodutora - arma e fogo artificial; embrião e simultânea gravidez.
E é sabido pelos mais-velhos que uma Língua grávida pode parir culturas, cores novas e contornos imprevistos em pessoas humanas. E todas as grávidas levadas, e todos os séculos extraídos e a terra sangrando em lágrimas de saudade, e todos os navios idos haviam de levar, além de fomes e músculos, sementes de uma flor mestiça com condimentos de diferença e criativa ramagem. Na fogueira do tempo, as chamas cercaram o lacrau, o lacrau picou o próprio corpo, e o veneno circulou feito febre nova, nova temperatura, temperatura de uma nova errância.

“Naquela hora em que os pescadores atravessavam o canal com seus apetrechos tão resumidos para virem fazer a aguada, o mar abria boca-réstia de sono ainda em maré baixa a espreguiçar-se, sonolentamente, sob o sol sem nuvem. Esteira de dormir qualquer liturgia mesmo de difícil, um esse porém afofalhado imenso de se apresentar sem vaga, na areia da beira-praia, em desinteresse de pureza pisada de ilusão. Pois só a linha trémula, tão empoucada de suave movimento, demarcava a aparente separação de diferença entre a terra e o mar. (…) Cheiros retirados à noite. Misturados. Essências de peixe. Néctares de algas, plantas e coisa no ar como aroma de árvore e fruto da beira rio, amadurecido. Rascaldo ou quê.”2

Porque a História também dá golpes num corpo linguístico que, lá longe, é a sombra de uma mesma imagem. As investidas políticas, e as de letras, e as sociais, e as mundanas, e as imprevistas, numa dança alargada - e mesmo que controlada - libertam-se das correntes pré-concebidas e o inesperado vence. O Kinaxixi com as crianças e os pássaros luandinizados, vencem; um santo de pessoa como o Arnaldo Santos vence; o Pepe solta um cão entre os caluandas e o cão morde a realidade; assim o cão do Honwana tomba mas a Isaura segue nos nossos sonhos de criança; as crianças do Manuel Rui, depois da fogueira e das estrelas do povo, só querem ser ondas; as mumuílas fazem transumância num poema da Paula; os olhos do Mia brilham à passagem dos flamingos e o leite de cabra lá do Sul se entorna meio azedo nas palavras do Ruy Duarte de Carvalho. E mesmo assim ficam nomes por celebrar.
A Língua, à velha maneira de Brecht, retira passividade às margens e intimida o rio a ser mais plural; o rio que corria estreito e manso, agora caudaloso faz uso de uma rebeldia saudável. Porque a natureza da água (da cultura) é mover-se, descendo o vale ou trepando a montanha, em luta de vaivém ternurento com a vã pressão dos homens. E se a margem toca o rio, o rio beija a margem numa dúvida aquática sem limite de exactidão.
As Línguas faladas e escritas, e as sonhadas, e as censuradas, nunca foram pertença de ninguém. Afinal, o maleável não pode ser amarrado, e à força de tanto contacto, o original fez da sombra verdade, e o resto também.

“O que ainda que ninguém que falou, ainda não existiu. (…) O homem ainda não descobriu a morte, muadiê. Se nem ainda chegou na lua, coisa-de-ver, quanto mais… Com morte eu dou-me bem, afirmei e não regresso. A senhora tumbandala não me assusta. O meu medo só é o que o senhoro bem sabe - voz, cara e alma de gente não encontrar, o deserto desumano, solidão de sozinho. Eu chego de dormir de luz acesa para fingir sol em meu quarto. As trevas danam a alma.”3

Nesse refluxo musical vindo de outras margens, há uma coloração que no tempo se espalha devolvendo à Língua uma faceta adequada para enfrentar futuros.
À mistura estão as pessoas - que são as margens da cultura, e os destinos da Língua revistos por aqueles que a manejam como utensílio quotidiano. Que esta linguagem seja, pois, ferramenta e prazer, veículo seguro mas maleável; que as gerações vindouras nela vejam molde aberto para memória e labor criativo. Porque bonitas são as Línguas depois de manejadas e celebradas pelas pessoas.


1 Mia Couto, in “Contos do nascer da terra”, Caminho, 1997, p.123.
2 Manuel Rui, in “Rio Seco”, Cotovia, 1997, p.9.
3 Luandino Vieira, in “João Vêncio: os seus amores”, Ed. 70,1987, p.84.






Ondjaki
10/12/2004

* comunicação lida na conferência, “A Língua Portuguesa: Presente e Futuro”, realizada na Fundação Calouste Gulbenkian, dias 6 e 7 de Dezembro de 2004, em Lisboa

Os meninos do Huambo







Com fios feitos de lágrimas passadas
Os meninos do Huambo fazem alegria
Constroem sonhos com os mais velhos de mãos dadas
E no céu descobrem estrelas de magia

Com os lábios de dizer nova poesia
Soletram as estrelas como letras
E vão juntando no céu como pedrinhas
Estrelas letras para fazer novas palavras

Os meninos à volta da fogueira
Vão aprender coisas de sonho e de verdade
Vão aprender como se ganha uma bandeira
Vão saber o que custou a liberdade

Com os sorrisos mais lindos do planalto
Fazem continhas engraçadas de somar
Somam beijos com flores e com suor
E subtraem manhã cedo por luar

Dividem a chuva miudinha pelo milho
Multiplicam o vento pelo mar
Soltam ao céu as estrelas já escritas
Constelações que brilham sempre sem parar

Os meninos à volta da fogueira
Vão aprender coisas de sonho e de verdade
Vão aprender como se ganha uma bandeira
Vão saber o que custou a liberdade

Palavras sempre novas, sempre novas
Palavras deste tempo sempre novo
Porque os meninos inventaram coisas novas
E até já dizem que as estrelas são do povo

Assim contentes à voltinha da fogueira
Juntam palavras deste tempo sempre novo
Porque os meninos inventaram coisas novas
E até já dizem que as estrelas são do povo




Manuel Rui Monteiro

Voltarei África


























Voltarei, África!
Voltarei a ouvir tua voz doce.

Porém, ainda é cedo!
Cedo, p‘ra que regresse
Mãe África.

Meu corpo fraco anseia teu corpo
Mas minha mente ludibriada
Com desejos de vencer
Interrompe abruptamente
Minha ansiedade de te amar.

Já sinto as ondas do mar negro
Ondearem no meu corpo.

Mas ainda é cedo
É cedo p‘ra mostrar ao mundo
Minhas saudades incontroláveis

Por isso,
Espera
Espera, Mãe África

Que um dia voltarei.



Juliana Pedro

Canção para a Minga



















Esta mulher
Retém o mar em seu olhar
Quando quer.

Esta mulher desconhece
Que eu adoro
Os cozinhados que ela me oferece.

Ela simplesmente desaparece
E sozinha

Na cozinha
Trabalha e s‘atrapalha na batalha
De m‘oferecer comida boa:

- Quiabos quentes com gimbôa
ginguinga em artística trança
um trago de walende
e cacussos do Kwanza!

À noite
Lhe ponho conversa
Lúdica
Mas ela reage na inversa
E pudica
Rejeita nudez somente de nós os dois
E se refugia nas dobras dos lençóis.

Acordo com o canto do galo
Vou saindo pró salo
Jejum d‘amor não feito
E raiva
De a deixar assim no leito.
Isto não é vida
E vai acabar em briga…

Mas, os meus poemas, Mingas?
Os meus temas d‘amor e desespero?
Caramba fala deles
Me critica
Me xinga se é coisa reles.

Ah…
Esta mulher
Retém o mar no olhar
Quando quer.



António Azzevas

A quitandeira de Sambizanga


















A Quitandeira, quadro de Clarissa Quadros



Na cabeça
quitanda

nas veias
quitanda

nas ancas
quitanda

nos olhos
quitanda

nos ritos
quitanda.

Tudo o coração é de quitanda.

Quitandeira
boa

quitandeira
doce

quitandeira
linda

quitandeira
grande.

Quitanda
fresca

quitanda
de madrugada.

Nos rostos
quitanda e fogueira.

Frutos crescendo
no ardor da quitandeira.

Longínqua voz para a quitanda:

jindungo

batata

limão

cavaça

mamão

laranja

mandioca

papaia


bebem Sol

bebem Lua

no kimanga da quitandeira.


Ó quitandeira que esperas
na lata
no pau
de Sambizanga

a Lua
há de dar-te teus ritmos

o Sol vai devolver-te teus frutos.

Nos teus olhos cresce banana
em teus frutos vibra quitanda



Xosé Lois García

África


Foto de Jorge Rosmaninho em Africanidades





Trouxe na memória o vermelho da terra,


Os poilões que se abrem como os livros,

A quente humidade que se cola à pele,

O pôr-do-sol abrasador que esmaga a linha do horizonte,

As cores vivas que por todo o lado inundam a vida,

Os enormes formigueiros das termiteiras,

Os coutos dos arbustos em praias de criação recente,

O coaxar sem fim dos batráquios pela noite dentro,

A espuma cremosa de um café bem batido,

O gosto das ostras abertas sobre chapa quente,

Os mangueiros e cajueiros que crescem rebeldes,

O sabor de um bom chabéu à mesa de amigos,

A diversidade cultural que pupula nas ruas,

Os papéis e os balantas, e todas as outras etnias,

O burburinho da entrada e saída dos táxis colectivos,

As boleias cravadas em todas as estradas,

A travessia do tranquilo rio a caminho de Farim,

As quedas de água e a força do rio no Sul,

As grossas gotas de chuva num manto sem fim,

A alegria de um viver diferente.

Trouxe na alma um feitiço, certamente…

Pois cá tão longe ela chama por mim,

Impiedosa, insistente,

Como se pudesse haver um amor assim!




Joana Roque Lino

Poema de amor
























Adoro-te, África semente
amor profundo
nobre fruto do meu eu vivente.
Adoro a calidez das tuas tranças,
manta preta do meu primeiro calafrio.

E o dorso largo em que dormi o sono infantil
e acordei já homem feito.



Jorge Macedo

O Candongueiro



















Foto de Phwo, em ás vezes (des)organizo-me em palavras...






xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx (Para Glória,
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxUma desconhecida
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxQue viajou comigo
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxEm um dia qualquer)


Paragem do candongueiro:

Sol escaldante
A fustigar gente
Gente aborrecida
De pé, cansada de esperar
Gente entristecida
Com raiva no olhar!

Ao entrar no candongueiro:

Correrias
Gente aos empurrões
Gente aos safanões
Mãos leves puxam carteiras
Mãos malandras nas mbundas das senhoras
É assim todos os dias

Dentro do candongueiro...

Gritarias
Barulheiras
Gente aos desentendimentos
E a protestar
Gente com vincos nos rostos
E com raiva no falar!

Barulho
Carro velho
Sujo e desconfortante,
Musica alta e ruidosa a incomodar
E a perturbar gente
Gente com raiva no escutar!

Carro abarrotado
De gente
Gente descontente
A reclamar
E mais gente a entrar
Carro de gente empanturrado

Gente apertada
A suar
Gente mal cheirosa encostada
A transpirar
Gente misturada com mercadorias
É assim todos os dias

... E durante a viagem:

Só eu, no meu canto
Não protesto
E até gosto
Do desconforto da viagem,
Um encanto
Viajar ao teu lado jovem
(Glória, sussurraste no meu ouvido
Em cima do muito ruído)

Só eu, aprecio as curvas apertadas
Que o motorista faz
Pois muito me apraz
Sentir tuas pernas encostadas
Às minhas
Olhando de soslaio tuas maminhas

Só eu sinto teu calor
Tua respiração ofegante
E teu agradável odor
Só eu viajo contente
Meu corpo colado ao teu
Teu olhar cravado no meu!

Que a viagem dure eternamente
E que entre mais gente!



Décio Bettencourt Mateus

A Minha Casa






















A minha casa
É fácil de localizar
É fácil de encontrar
Basta ires sempre em frente
Para além da linha do horizonte
É fácil concerteza

Primeiro encontras lixo

Lixo e pessoas em convivência
E em harmonia,
Lixo na parte de baixo
E na parte de cima
Lixo e pessoas em convivência íntima

Mais adiante
E com o mau cheiro crescente
Encontras uma lagoa
E nela, crianças a banharem
Crianças a brincarem
Na maior, numa boa

Mais a frente
Entras em becos estreitos
Becos pequenos e apertaditos
É fácil, é só teres isto em mente
Becos e suas enxurradas
Becos e suas águas estagnadas

Sempre em frente
Para além da linha do horizonte
Lá onde a água corrente
Lá onde a água potável
Passa muito distante
E da cor do invisível!

Sempre em frente
Para além da linha do horizonte
Lá onde a luz eléctrica
Connosco brinca
Qual nuvem passageira
Que ora vai, ora vem zombateira!

Sempre em frente
Para além da linha do horizonte
Cheiro de kaporroto no ar
Cheiro de kimbombo a vibrar
Nossas bebidas do dia-a-dia
Nossas bebidas nossa companhia

E no quintal da minha casa
Há jovens a falar alto, bêbados
Jovens cansados, frustrados e arrebentados
São os meus kambas
Kambas das bebedeiras e das minhas malambas
É fácil de localizar concerteza,
Sempre em frente
Para além do horizonte!



Décio Bettencourt Mateus

Terceira gota



















Oh meu país de areias brancas,
meu país de mar
meu país de povo
eu quero ser espuma
menino de sonho alado
na roda das casuarinas

meu país de nuvens brancas no azul
meu país de sol
meu país de povo
eu quero ser de pedra
firme no gesto aberto
da conquista de horizontes

meu país tão novo
areias novas na praia
nuvem clara no azul
meu país de povo
algodoais que sangravam
povo antigo e sempre novo

menino a vogar que sou
vida que à vida se dá
só não consigo entender
porquê que só as areias
porquê que só as nuvens
porquê que os algodoais
sendo brancos são tão nossos?

Porquê, oh meu país,
que um qualquer lugar comum
recusa ao meu irmão
filho da minha mãe
que seja do meu país
a sua brancura pequena?



Costa Andrade

CHEGA!!... Vamos a isto!

























É este o teor do email que por aí circula:

"Vamos fazer a diferença!
Isto tem que começar por algum lado!
Vamos passar a palavra e não ser indiferentes, temos que fazer com que as coisas mudem!
A subida vertiginosa dos preços dos combustíveis tem que parar e temos que fazer com que baixem!
Para tal vamos combinar três dias nacionais seguidos de NÃO ABASTECIMENTO NA BP, GALP, REPSOL!

Esses dias serão o 1 -2 -3 de Junho que vem!

VAMOS FAZER A DIFERENÇA!

Nesses dias abasteçam em outros postos de combustíveis tais como a Esso, Total, Continente (antigo Carrefour), Intermarché, Jumbo e Eleclerc!
Juntos teremos força para baixar os lucros destes gigantes!
Agora é só passar a palavra com urgência!
Estou farto de ser levado na hora de pagar!

CHEGA!

SEJAMOS UNIDOS PORTUGUESES E TODOS OS QUE TENTAM SOBREVIVER EM PORTUGAL!


NÃO ESQUEÇAM 1 - 2 - 3 de JUNHO que vem Não Abasteçam na BP, GALP e REPSOL!
FORÇA PORTUGAL!"



Contudo, como bem explica o Jumento há que efectuar este boicote de forma selectiva e por tempo indeterminado.
N'A Barbearia do Senhor Luis segue a ideia que devemos muito sériamente considerar.
Estou naturalmente na onda.
Chega!

Só eu sei porque… fico em casa!
























Imagem daqui


Apenas porque não tenho a certeza que ao entrar num estádio de futebol, o espectáculo a que assisto é ou não real… pode ser perfeitamente uma encenação como o são as lutas de Wrestling…deixei de ir ao futebol, ao estádio, em meados da década de 70.

Porque não é seguro em face de todo o vandalismo associado ao futebol ir ao estádio mais me convenci que não devia pôr lá os pés.

Porque me recuso a aceitar que a imprensa desportiva tenha como objectivo vender papel e pactuar com estas situações… deixei de adquirir jornais desportivos no inicio dos anos 80.

E no entanto a bola, pela sua honestidade, não deve ser (mal) pontapeada como vimos todos os fins de semana.

As perguntas e perplexidades…

























- Se O FC Porto tivesse apenas 4 pontos de avanço sobre o Sporting CP a decisão seria de punir com 6 pontos??? Ou seria menos???
- Mesmo que fosse punido com os 6 pontos, perante a perda do título, levaria o FCP a manter a decisão de não recorrer – com a inevitável assumpção de culpa?? Ou nestas circunstâncias recorreria???
- Há alguma “alma penada” neste país que acredite na “forma tentada” de coacção???
O que é isso??? É preciso o quê??? Depois de correrem atrás de José Pratas pelo campo todo, darem um “enxerto” de porrada frente a todos os espectadores???
- A “invenção” da forma eufemistica da “tentiva” serviu apenas para regulamentarmente se evitar a descida de divisão do FC Porto???
- Então porque não se concedeu ao Boavista a mesma benesse??? Alguém teria que pagar as favas…
- Qual a razão por que os pontos são convenientemente descontados esta época e não na próxima época… com início da prova com pontos negativos??? O regulamento não prevê…
- Sendo a FIFA um “estado” multinacional, com vários estados-dentro-do-estado… porque permite que em questões tão sensíveis para o desenvolvimento e nome da modalidade cada federação ou liga tenha a sua própria forma “original” de interpretar e regulamentar?? E não é apenas este caso, a aplicação da pena disciplinar dos cartões exibidos pelos árbitros…é escandalosa em Portugal. Nas provas internacionais, os jogadores que nas provas nacionais são penalizados com uma suspensão de 1 jogo pela amostragem de 5 cartões amarelos, teriam cumprido 2 jogos de suspensão e estariam a caminho do terceiro… Mas, além disso, há a atitude… nas provas nacionais os jogadores permitem-se discutir e envolver os árbitros… nas provas internacionais há respeitinho porque sabem o que custa. E se o respeito falta…é porque, como se viu já em várias ocasiões de tensão, a nível sobretudo da selecção, vem á superfície a indisciplina recalcada mas que lá se encontra latente.
- Porque decidir agora sobre este processo??? Qual a razão?? Qual a pressa???
- Se o processo “Apito Dourado” que corre nos tribunais comuns… der em nada, o que irá acontecer ás decisões tomadas no âmbito deste processo??? Já adivinhei…mais um alargamento e chorudas compensações!
- E se o mesmo processo provar que além das nomeações tipo “quando-o-telefone-toca” houve efectivamente da parte de todos os protagonistas coacção efectiva??? A CD da LPFP efectuará a revisão do processo?? Em que época é que o FC Porto descerá de divisão???
- Ou será que a disciplina desportiva pretende condicionar o curso do outro processo???
- Que razão existe para que a imprensa com ligações ao Porto, em particular, e toda a imprensa desportiva de uma forma geral tenha emudecido tão repentinamente???

São demasiadas perguntas!
Há com certeza respostas para muitas… mas para outras não há.

Desportivamente não vejo qualquer diferença entre o FC Porto, a Juventus, o Milão, O Swarovski Tirol, o Benfica, o Sporting, o Dínamo de Kiev… as questões de justiça desportiva a este nível devem ser universais e definidas de forma clara e precisa pelo organismo máximo que tutela o futebol.

A indecência… e a nódoa


















O acórdão da CD da LPFP sobre os factos indiciados no processo “Apito Final” é, salvo melhor opinião uma indecência… e mais uma mancha indelével no futebol português, daquelas que nem o Vanish OxyAction, passe a publicidade, conseguirá tirar..

As questões ali levantadas de ameaças e coação a equipas de arbitragem… não são de agora e só para a LPFP envolverão apenas o Porto e o Boavista.
Os intervenientes destes clubes são apenas os mais visíveis por se terem convencido do seu poder ilimitado, da sua impunidade… e que o nacional-porreirismo, a que outros chamam brandos costumes, jamais levaria a que a justiça os beliscasse.
Na verdade as mais caras e mediáticas coações passar-se-ão ao nível da liga principal, com todos, ou quase todos, os intervenientes, mas envolvem todas as competições… nacionais e internacionais.
Os ideais de desporto pertencem já a conceitos de romantismo absolutamente ultrapassados e ridicularizados.
Se recordarmos as palavras de Carlos Queirós a propósito da falta de “organização” da FPF no fim de um jogo de apuramento com a Itália, onde o conjunto das quinas perdeu 1-0, percebemos o que se quer dizer… e fica por dizer…
Se nos lembrarmos que o agora comentador da SportTV, Carlos Manuel, antigo jogador do Benfica, disse em entrevista a um jornal (cito de memória) que “…no campo de futebol a única coisa séria é a bola…”

Evitou-se, á boa maneira portuguesa, ir ao fundo da questão analisando aquilo que era conveniente… com as punições a aguardar o tempo adequado para aplicação.

Do romantismo… ao Chico-espertismo













Os primeiros anos do século passado de Ligas e campeonatos de Portugal terão sido, provavelmente, no amadorismo então reinante os únicos em que, competitivamente, o desfecho deverá ter sido mais transparente.
Era ainda prevalecente, no comum dos mortais, a ideia de que “ganhar ou perder era desporto”… e boa parte do pagamento aos intervenientes era feito por bebidas e sanduíches.
Este saudável e incipiente amadorismo deu origem ás conversas irónicas e brejeiras que alimentavam épocas inteiras pelos cafés deste país, autênticas extensões dos precários estádios de futebol.
As provas eram, por falta de competitividade e organização, discutidos a três competidores e meio e decididos basicamente por dois dos contendores.
Este clima foi alimentado pelo poder político de modo a evitar que usássemos a cabeça para pensar no que não devíamos.

Desta fase passou-se ao chico-espertismo nacional que conduziu, desde os anos 40 a ciclos bem definidos de dominação do sistema…
Primeiro o Sporting, em seguida o Benfica a quem através de sucessivos «chitos» dos 4 Pintos, como bem se recordarão, tomaram de assalto o poder na Praça da Alegria, entregando-o ao Porto.
Repare-se que a deriva foi (é) tão grande que, para contrapor ao poder discricionário obtido, os maiores clubes de Lisboa tiveram presidentes que se destacaram pela capacidade de cometer iguais ou maiores trafulhices… Jorge Gonçalves exilou-se em Luanda e Vale e Azevedo no EPL.
Uma alegria…

A gozação e o brejeirismo cedeu o lugar ao mais puro fanatismo, ao facciosismo, á profissionalização da arruaça, ás intimidações, ao poder dos gangues a quem eufemisticamente se chamam claques…e que na pátria do futebol, sem papas na língua, não passam de, sem apelo nem agravo, hooligans - um conjunto de arruaceiros organizados que são reprimidos, controlados e condenados quer judicialmente quer socialmente.
Os corredores passaram a estar povoados de “bobbies, tarecos e abéis” de todas as cores e em todos os locais…

Organizativamente, nos clubes, conforme se desenvolveu o mercado e profissionalizou a prospecção de jogadores, com base em parâmetros de produtividade, de personalidade e de talento… verifica-se igual desenvolvimento na identificação e catalogação dos intervenientes de modo a aferir fraquezas e forças que poderão ser exploradas em beneficio de uns, prejuízo de outros e… vergonha de todos.

Mas, verdade se diga… ladrão não é o que rouba, mas sim o que é apanhado.

Aprender a ler… e a conhecer o mundo





Não é hábito deter-me sobre questões de actualidade neste espaço mas a questão é suficientemente importante para lhe dedicar umas poucas linhas de perplexidade…
O respeito pelo fenómeno desportivo e pela verdade do que se passa dentro dos vários recintos, qualquer que seja a modalidade aí praticada, leva-me a tecer alguns comentários.

Não posso deixar de recordar o frenesim com que, há muitas décadas atrás, aguardava a chegada a casa do jornaleiro que ia entregar ás segundas, quintas e domingos “A Bola”, ás terças e sábados “o Record” e ás quartas “O Mundo Desportivo” aquele que, francamente, menos gostava.
Quase aprendi a ler com estes jornais… mas se não aprendi de todo a ler nestes jornais ajudaram muito e acima de tudo ajudaram a mostrar-me um mundo muito diferente do cinzento canto lusitano. Foi por aqui que comecei a perceber a existência, nas entrelinhas, da multiplicidade de opções por esse mundo que obstinadamente nos escondiam. Acima de tudo “A Bola” era, na época, leitura obrigatória.

Mais, ao futebol era dada tanta importância que até a “gesta heróica” do Coreia do Norte – Portugal do Mundial de 66 se tornou lição de português. Lia aquilo e parecia estar a ler “Os Lusíadas”.

Muito do que recordarei nos próximos posts e das conclusões que retiro derivam do espírito critico com que me habituei a olhar para tudo na vida, sabendo que quanto mais me aproximar dos objectos… menos vejo.

A tradução do amor

























É um compêndio o amor. Caminho de muitas coisas.
Tem coisas novas e outras tão velhas
como são os ventres de raparigas aos estertores;
como o amor de Neto e os suspiros de Eugénia.

Rimas perdidas - não mais a casa da rima
onde escolhesse uma embriaguez e matutasse
às cores do divumu. Esta pedra que
não para de pensar porque estou sentado nela
e ela me tem como a um esposo, sobre esta pedra
concluo a noite.

O amor é a nocturnidade é um compêndio solto.
Qualquer que seja a página que rasgue da noite,
o amor sangrará.
Este é o longo caminho e metade de mim mesmo.
- Sabes o que é o amor? -
Quem responderá quem fortalece sua própria insónia?
Todo este tempo que amei é uma insónia.



João Tala