O céu é aquela clareira



















o céu é aquela clareira
onde deito os olhos com ténues
cambiantes de cor que quase
gasto nas mãos, e como. como
o céu e aguardo uma
digestão convulsa. enquanto
o aguaceiro seca na terra antes que o
possa beber e deus se
vinga de mim ditando
os versos que escondem
a água ao mundo. já as
fogueiras florindo em volta,
murchando o dia que me
persegue. uma intervenção
divina para me resistir



Valter Hugo Mãe
In “estou escondido na cor amarga do fim da tarde”

Meditemos
















"O homem sensato adapta-se ao mundo. O homem insensato insiste em tentar adaptar o mundo a si. Sendo assim, qualquer progresso depende do homem insensato"



Bernard Shaw

Louca Simbiose





















Quando as palavras em cúpula morfológica
Lacrimejam e ferem o papel
Ganha corpo a poesia

quando as palavras nuas nas andanças
em louca simbiose choram e cantam

a poesia banha o espiríto de conforto.



Flas Ndombe

Les feuilles mortes





















Oh! Je voudrais tant que tu te souviennes
des jours heureux où nour étions amis
En ce temps-là la vie était plus belle
et le soleil plus brûlant qu'aujourd'hui
Les feuilles mortes se ramassent à la pelle...
Tu vois je n'ai pas oublié
Les feuilles mortes se ramassent à la pelle
les souvenirs et les regrets aussi
et le vent du nord les emporte
dans la nuit froide de l'oubli
Tu vois je n'ai pas oublié
la chanson que tu me chantais

C'est une chanson qui nous ressemble
Toi tu m'aimais
et je t'aimais
Et nous vivions tous deux ensemble
toi qui m'aimais
et que j'aimais
Mais la vie sépare ceux qui s'aiment
tout doucement
sans faire de bruit
et la mer efface sur le sable
les pas des amants désunis...

Mais mon amour silencieux et fidèle
sourit toujours et remercie la vie
Je t'aimais tant tu étais si jolie
Comment veux-tu que je t'oublie
En ce temps-là la vie était plus belle
et le soleil plus brûlant qu'aujourd'hui
Tu étais ma plus douce amie...
Mais je n'ai que faire des regrets
Et la chanson que tu chantais
toujours toujours je l'entendrai

C'est une chanson qui nous ressemble
Toi tu m'aimais
et je t'aimais
Et nous vivions tous deux ensemble
toi qui m'aimais
et que j'aimais
Mais la vie sépare ceux qui s'aiment
tout doucement
sans faire de bruit
et la mer efface sur le sable
les pas des amants désunis



Jacques Prévert


2.ª Transparência (falando do amor)





















Falo do amor
que te rouba e devolve o sangue
que é guerra e paz contínua
alívio e desgraça permanente
falo do amor que não é sexo

falo do amor
que se manifesta nas unhas
que são suores e pelos em chamas
sobrancelhas e tacto em ebulição
falo do amor que não é carne

falo do amor
poliglota, desconhecendo raça e crença
que é um oceano de emoções
que é cicatriz sem ter ferida
falo desse amor que é sexo

falo do amor
interplanetário e atómico
(neutrões, protões e iões em contradição aparente)
naves e corações que descolam
como transitam os símbolos no Zodíaco
falo desse amor que não é carne

falo do amor
que é renascimento
como alguém que atirando pedras ao charco
se vai banhando por dentro
enquanto por fora
o seu tamanho se confunde com o mundo
falo desse amor que não é sexo

falo do amor
que não é língua
mas a saliva
abundante mãos
falo desse amor que é carne…



António Gonçalves

Não tenho retratos amarelecidos

























Foto de "Angola em fotos"




não tenho retratos amarelecidos
dos meus antepassados
não tenho jazigos de família
nem diários escondidos no baú do sótão

não tenho medalhas herdadas
nem sei das fomes dos meus avôs chicoteados
e das revoltas das minhas avós
silenciadas

não tenho escrúpulos a esquecer
para ser aquilo que sou
aqui
neste meu lugar no mundo

não tenho que aplaudir as botas
que esfrangalham o meu jardim
nem tenho de acenar
em janela alguma
ao festejo de mais uma comemoração

ao sol diário do meio-dia
revivo o gosto que tenho
desta certeza
de país
em construção



João Abel

Dime porque (tu te vas)





A primeira vez que eu te vi…
Algo muito forte eu senti…
Eu toquei o céu…
Percorri o mar…
Noites de luar…
não dormi…
Sonho acordado a pensar
A maneira de me aproximar
Do teu coração, ternura e paixão
Mas agora sei que foi em vão
Porque se eu pudesse antever…
O que depois iria acontecer
Não me apaixonava , te atacava… entregava…
Meu coração… sem competição…
Se entregou a ti…confiou em ti…
Mas agora sei que foi em vão…

Dime porque tu te vas… Quando yo te quiero mas…
Aunque te quiero… so no me quiedo…
Que vas e no volveras…
Dime porque tu te vas… Quando yo te quiero mas…
Aunque te quiero… so no me quiedo…
Dime porque tu te vas… assim…

Em ti confiei… também depositei
Toda a confiança e esperança por te amar me enganei…
Mas jamais eu me culparei
Por te dar aquilo que te dei
Eu te dei porque acreditei…
e me apaixonei… Me apaixonei
Será que exagerei
Por te amar como amei
Sera que sofoquei
Por te dar o que eu te dei
Sei que não exagerei sofoquei alias
Amor que é amor nunca e demais
Pois quem ama quer sempre mais

Dime porque tu te vas… Quando yo te quiero mas…
Aunque te quiero… so no me quiedo…
Que vas e no volveras…
Dime porque tu te vas… Quando yo te quiero mas…
Aunque te quiero… so no me quiedo…
Dime porque tu te vas… assim…

Diz me porque… diz…
Sinto tanto a tua falta…

Pero dime se te vas
Pero dime se te vas
Tu me esto a terra e el cielo
Me dice te que me quieres

Dime porque tu te vas… Quando yo te quiero mas…
Aunque te quiero… so no me quiedo…
Que vas e no volveras…
Dime porque tu te vas… Quando yo te quiero mas…
Aunque te quiero… so no me quiedo…
Dime porque tu te vas… …
Dime porque tu te vas… Quando yo te quiero mas…
Aunque te quiero… so no me quiedo…
Que vas e no volveras…
Dime porque tu te vas… Quando yo te quiero mas…
Aunque te quiero… so no me quiedo…
Que vas e no volveras…


SSP

Corpo de mulher

























"Corpo de mulher, alvas colinas, coxas brancas,
ao mundo te assemelhas em teu ato de entrega.
O meu corpo selvagem de camponês te escava
e faz saltar o filho das entranhas da terra!"



Pablo Neruda

As ruas correm


















As ruas correm
largas e frescas
dentro de mim.
Rompe-se a crisálida
do dia.
O céu cresce em meu peito
gigantesca borboleta
pelo amor desenhada.
A vida torna-se bonita
como uma mulher
que se descobre no espelho.



Jurema Barreto de Souza

O teu olhar




















O teu olhar
fala-me de viagens
e lugares distantes.
O teu olhar
fala-me de solidão
em certos instantes.
O teu olhar
fala-me de saudade
e de doçura.
O teu olhar
fala-me de desejo
e de quentura.
O teu olhar,
caminhante em mim...


Jacky, do "Amorizade"

És a vela içada

























És a vela içada
a quilha que contorna
a carne das águas.
És a tempestade
a chuva premeditada
e eu o náufrago
que não se permite afogado.





Eduardo White

Para ti























Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que falhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só olhar
amando de uma só vida.




Mia Couto

Nas algas

















Foto de Manuel Gonçalves em Olha oh Passarinho




Devolvidos em caracteres não descodificados
Jazem nas algas
Recados produzidos além
Como repousassem para futuras leituras.
Cartas antigas. Heroismo e amor.
Contos perdidos na história e sonhos cantados
Em papel de cambraia
Socegadamente dormem no dorso das algas.
Amanhã será o dia maior.
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxO da leitura final



Garcia Bires

Vens de um tempo...











vens de um tempo ardendo por dentro
mas as tuas mãos não se cansam de florir desejos
quando eu te encontro tranquilamente
na exploração das ondas de todos os oceanos.
goteja
xxxxx a
xxxxxxx lâmina
amor!


E. Bonavena

A maior riqueza

























Dentro de poucas horas iniciar-se-á a votação nas Eleições Legislativas em Angola.
Ouço com apreensão as notícias da TSF.

Há 16 anos significou o regresso da guerra.

Angola é riquíssima.
A imensa riqueza que possui pode proporcionar aos seus filhos uma vida digna que faça esquecer todos os sacrifícios por que teve que passar.

Angola tem, sobretudo, um povo soberbo.
Um povo magistralmente retratado em Angola em fotos - o retrato da Angola real, fraterna, leal, solidária e amiga - a Angola que não aparece nos postais da baía ou nas fotos obtidas do terraço do Hotel Presidente.

Esse povo orgulhoso, corajoso e sofredor constitui a sua maior riqueza.
Os seus dirigentes, todos eles, esquecem-no sistemáticamente.
Por uma vez devem lembrar-se dessa riqueza e respeitá-la.

Quando o petróleo e os diamantes tiverem acabado ficará o povo.

Quaisquer que sejam os resultados do veredicto desse magnífico povo, honrem-no!
Respeitem e não desbaratem essa riqueza imensa.

Chama quente
















Gosto de ti apaixonadamente
De ti, és a vitória, a salvação
De ti que me trouxeste pela mão
Até o brilho desta chama quente

A tua linda voz de água corrente
Ensinou-me a cantar... e essa canção
Foi ritmo nos meus versos de paixão
Foi graça no meu peito de descrente

Bordão a amparar minha cegueira,
Da noite negra o mágico farol,
Cravos rubros a arder numa fogueira!

E eu, que era no mundo uma vencida
Ergo a cabeça ao alto, encaro o sol!
― Águia real, apontas-me a subida!



Florbela Espanca








Raimundo Fagner

Encosta-te a mim...





Encosta-te a mim,
nós já vivemos cem mil anos
encosta-te a mim,
talvez eu esteja a exagerar
encosta-te a mim,
dá cabo dos teus desenganos
não queiras ver quem eu não sou,
deixa-me chegar.
Chegado da guerra,
fiz tudo p´ra sobreviver em nome da terra,
no fundo p´ra te merecer
recebe-me bem,
não desencantes os meus passos
faz de mim o teu herói,
não quero adormecer.

Tudo o que eu vi,
estou a partilhar contigo
o que não vivi, hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim.

Encosta-te a mim,
desatinamos tantas vezes
vizinha de mim, deixa ser meu o teu quintal
recebe esta pomba que não está armadilhada
foi comprada, foi roubada, seja como for.
Eu venho do nada porque arrasei o que não quis
em nome da estrada onde só quero ser feliz
enrosca-te a mim, vai desarmar a flor queimada
vai beijar o homem-bomba, quero adormecer.

Tudo o que eu vi,
estou a partilhar contigo o que não vivi,
um dia hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim

Encosta-te a mim
Encosta-te a mim

Quero-te bem.

Encosta-te a mim.



Jorge Palma

Quarto poema sem título



















Como posso não amar-te

Arte de todas as artes
Pedaço de paraíso
Flor múltipla e multicolor
Segredo que segreda em voz alta
Aquário de búzios voadores
Raiz, folha e árvore invisível
Métrica perfeita de uma canção criada
Fuga e regresso de emoções desconhecidas
Salmo que se soletra pela manhã
Alimento de matéria imaterial
Casa sem portas, janelas e tecto.

Como posso não amar-te?


António Gonçalves

Maria Keil




Aires Bustorff, amigo cá de casa, enviou-me amávelmente nota de um facto inacreditável que transcrevo, com a devida vénia, do blog " Cantigueiro".

Com tanto crime violento, este, que a história relata, não é notícia.
Porque... a cultura não é notícia.
Infelizmente.
Nem sequer para alguns blogs que por aí andam, profissionais, com óbvio e encapotado apoio para-institucional. Essas virgens imaculadas, paladinas da pureza e inimigas de estimação de tudo quanto seja público... emudecem perante o que é património de todos. Convenientemente!




















Esta senhora bonita é a nossa amiga Maria Keil, artista plástica.

Em 1941, via-se a si própria desta maneira.

























Maria Keil (gosta que a tratem apenas por Maria) nasceu na cidade de Silves, em 1914. Partilhou a maior parte da sua vida com o arquitecto Francisco Keil do Amaral, com quem se casou, muito jovem, em 1933.

De lá para cá fez milhares de coisas, sobretudo ilustrações, que se podem encontrar em revistas como a “Seara Nova”, livros para adultos e “toneladas” de livros infantis, os de Matilde Rosa Araújo, por exemplo, são em grande quantidade. Está quase a chegar aos 100 anos de idade de uma vida cheia, que nos primeiros tempos teve alguns “sobressaltos”, umas proibições de quadros aqui, uma prisão pela PIDE, ali... as coisas normais para um certo “tipo de pessoas” no tempo do fascismo.



Para esta “história”, no entanto, o que me interessa são os seus azulejos. São aos milhares, em painéis monumentais, espalhados por variadíssimos locais. Uma das maiores contribuições de Maria Keil para a azulejaria lisboeta, foi exactamente para o Metropolitano de Lisboa. Para fugir ao figurativo, que não era o desejado pelos arquitectos do Metro, a Maria Keil partiu para o apuramento das formas geométricas que conseguiram, pelo uso da cor e génio da artista, quebrar a monotonia cinzenta das galerias de cimento armado das primeiras 19, sim, dezanove estações de Metropolitano. Como o marido estava ligado aos trabalhos de arquitectura das estações e conhecendo a fatal “falta de verba” que se fazia sentir, o Metro lá teve de pagar os azulejos, em grande parte fabricados na famosa fábrica de cerâmica “Viúva Lamego”, mas o trabalho insano da criação e pintura dos painéis... ficou de borla. Exactamente! Maria Keil decidiu oferecer o seu enorme trabalho à cidade de Lisboa e ao seu “jovem” Metropolitano.

Estes pormenores das estações do “Intendente” (1966) e “Restauradores” (1959), são bons exemplos.





























Parêntesis: Qualquer alteração na “Gare do Oriente” do Arq. Calatrava, ou nas Torres das Amoreiras, do Arq. Tomás Taveira, só a título de exemplo, têm de ser encomendadas ao arquitecto que as fez e mesmo assim, ele pode recusar-se a alterar a sua obra original. Se os donos da obra avançarem para a alteração sem o acordo do autor, podem ter por garantido um belo processo em tribunal, que acabará numa “salgada” indemnização ao autor.



Finalmente, a história! Recentemente a Metro de Lisboa decidiu remodelar, modernizar, ampliar, etc, várias das estações mais antigas e não foram de modas. Avançaram para as paredes e sem dizer água vai, picaram-nas sem se dar ao trabalho de (antes) retirar os painéis de azulejos, ou ao incómodo de dar uma palavra que fosse à autora dos ditos. Mais tarde, depois da obra irremediavelmente destruída, alguém se encarregaria de apresentar umas desculpas esfarrapadas e “compreender” a tristeza da artista.

A parte “realmente boa” desta (já longa) história é que ao contrário de quase todos os arquitectos, engenheiros, escultores, pintores e quem quer que seja que veja uma sua obra pública alterada ou destruída sem o seu consentimento, Maria Keil não tem direito a qualquer indemnização.

Perguntam vocês “porquê, Samuel?” e eu tão aparvalhado como vós, “Porque na Metro de Lisboa há juristas muito bons, que descobriram não ser obrigatório pedir nada, nem indemnizar a autora, de forma nenhuma... exactamente porque ela não cobrou um tostão que fosse pela sua obra!!!



Este país, por vezes consegue ser “ainda mais extraordinário” do que que é o seu costume! Ou não?



Fontes usadas para as imagens, o Google. Para a história, o blog "As causas da Júlia", seguindo uma pista da minha amiga Isabel, que já deu cartas na "cultura" autárquica aqui no burgo.

Quem


















Quem me fará sorrir
Quem me fará gritar
O grito calado do meu peito?!

O peito rejeita a alma
Angústia transborda e soma
No rosto surrado de dor

Quem me fará falar?
As palavras engolidas
No íntimo
Quando elas flutuam
Sem sentido no leito

Quem me fará pensar
Na consciência rasgada
Dos meus dias
Sem glória e sem luz

Escrevo nova história
Sorrisos e glória
Na tristeza de ontem
Nasci de novo
Sem passado




Maria Fernanda Baião

Carta de um contratado



Um dos mais belos poemas em língua portuguesa, já publicado antes, dito por José Ramos





Eu queria escrever-te uma carta
amor,
uma carta que dissesse
deste anseio
de te ver
deste receio
de te perder
deste mais bem querer que sinto
deste mal indefinido que me persegue
desta saudade a que vivo todo entregue...

Eu queria escrever-te uma carta
amor,
uma carta de confidências íntimas,
uma carta de lembranças de ti,
de ti
dos teus lábios vermelhos como tacula
dos teus cabelos negros como dilôa
dos teus olhos doces como maboque
do teu andar de onça
e dos teus carinhos
que maiores não encontrei por aí...

Eu queria escrever-te uma carta
amor,
que recordasse nossos tempos na capopa
nossas noites perdidas no capim
que recordasse a sombra que nos caía dos jambos
o luar que se coava das palmeiras sem fim
que recordasse a loucura
da nossa paixão
e a amargura da nossa separação...

Eu queria escrever-te uma carta
amor,
que a não lesses sem suspirar
que a escondesses de papai Bombo
que a sonegasses a mamãe Kieza
que a relesses sem a frieza
do esquecimento
uma carta que em todo o Kilombo
outra a ela não tivesse merecimento...

Eu queria escrever-te uma carta
amor,
uma carta que ta levasse o vento que passa
uma carta que os cajús e cafeeiros
que as hienas e palancas
que os jacarés e bagres
pudessem entender
para que o vento a perdesse no caminho
os bichos e plantas
compadecidos de nosso pungente sofrer
de canto em canto
de lamento em lamento
de farfalhar em farfalhar
te levassem puras e quentes
as palavras ardentes
as palavras magoadas da minha carta
que eu queria escrever-te amor....

Eu queria escrever-te uma carta...

Mas ah meu amor, eu não sei compreender
por que é, por que é, por que é, meu bem
que tu não sabes ler
e eu - Oh! Desespero! - não sei escrever também.



António Jacinto

Quero apenas cinco coisas...



















Foto de Anabela Oliveira



Quero apenas cinco coisas...
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser... sem que me olhes.
Abro mão da primavera para que continues me olhando.



Pablo Neruda

Em festa!

























O amigo Armando Rocheteau lembrou-me ontem que, há 4 anos atrás, timidamente, abri as portas deste espaço.
Agradeço-lhe e a todos os que por aqui foram passando, lendo poemas excepcionais de todas as partes da lusofonia, ouvindo músicas, deixando rasto virtual da sua passagem ou simples comentário.

A todos, obrigado!

Eu tenho os dias claros
















"Solidão ao pôr-do-sol", foto de Miguel Teotónio, aqui





Eu tenho os dias claros
de sucessivas luas de Setembro
e a noite que me impõe sinalizar
as direcções cruzadas das mensagens verticais.

Eu estou parado no meio do terreiro
pastado dos meus passos e da minha gente,
ando a ganhar noções de translação
e a medir, pra meu governo, a cor do sol.

Eu entardeço, sobretudo, pouco atento ao vento
que não devo perturbar na sua rota alheia.
Permito, quando muito, que me sinta o cheiro
e deixo-o desfazer, furtivamente, molhos já secos de memória fêmea.

Eu finjo que não sei de elásticas tensões da claridade
e a cada passo meu faço estalar
membranas frias que a tarde debruou em rente azul.

Entendes, companheiro,
eu estou aqui sentado e nu
a procurar não ir além da bárbara carícia
de um olhar sem tacto

e que nem uma lágrima machuque
a capa muito fina da lembrança
que tenho para dar-te.



Ruy Duarte de Carvalho

Kilimandjaro








Don't say you want a better world
Don't say you want a better life
When all you do is watch tv
And listen to the promises

Don't say you want a better world
Don't say you want a better life
When all you do is just rely
on the progresses of science

Don't say another word, just let me dream

And look outside
where the wind blows and the flowers grow
Where the river goes
Taking my dreams away

Just let me go
Where the rain falls and the forest cries
Since there will be no more snow in Kilimandjaro

Don't say you want a better world
Don't say you want a breathe clean air
When all you do is drive around
In your brand new SUV

Don't say you want a better world
For all the children of mankind
When all you do is just rely
on the progresses of science

Don't say another word, just let me dream

And look outisde
where the wind blows and the flowers grow
Where the river goes
Taking my dreams away

Just let me go
Where the rain falls and the forest cries
Since there will be no more snow in Kilimandjaro



Era

História



















Tela de Márcio Camargo





Não havia sol
Não havia sombras
Não havia noite

Havia o mar e o luar
Numa hora indefinida

Havia a voz marítima
Num boiar de ossos
E de cascos de caravelas

E ninguém sabia ver
Para separar
Os ossos
Dos negros
E dos brancos

Havia uma vela branca
Sem barriga de vento
Mas cheia de cantos de Paz.



Tomaz Vieira da Cruz

Manga, manguinha...

























Manga, manguinha…
A manga é um símbolo d‘África:
No seu sabor
No seu aroma
Na sua cor
Na sua forma.

A manga tem o feitio do coração!
A África também
Tem um sabor forte, quente e doce!
A África também.
Tem um tom rubro-moreno
Como os poentes e as queimadas
Da minha Terra apaixonada.

Por isso te gosto e te saboreio
Ó manga!
- Coração vegetal, doce e ameno.

Tu és o amor do abacate
Porque ele guarda no seu meio
Um coração que por ti bate;
Bate, bate, que bate!
Ó manga, manguinha,
Amor do abacate!



Tomaz Vieira da Cruz

Meditemos

















De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.”


Ruy Barbosa
estadista Brasileiro, 1912







"O que mais preocupa não é nem o grito dos violentos, dos corruptos, dos desonestos, dos sem carácter, dos sem ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons."





Martin Luther King

A flor
























Foto de Angola em fotos



Meu tão doce amor de mais ninguém,
Imaginado neste deserto
Destes dias, como único bem
Do caminhante que segue incerto

– Onde o meu distante oásis te tem
Tão escondida, se foi desperto
Que sempre andei nesta vida sem
Nunca o encontrar para mim aberto?!...

Meu tão doce amor de mais ninguém,
Construí-te na dura memória
Como flor mais rara que se tem,

Como a flor mais doce e mais madura,
Que jamais alguém um dia viu,
Mas só amargura em mim floriu!...



António Cardoso

Solidariedade
























O Jumento para ser um dos melhores blogs em português não precisava da "ajuda" de uns quantos idiotas que terão reportado ao blogger ser o palheiro um local impróprio onde os leitores deverão entrar sob reserva, por sua conta e risco!

Inenarrável!

Mas não há que espantar... Povoaonline teve que ficar off, Portugal profundo teve tentativa de afundamento, um outro blog de Pombal (já não me recordo o nome) foi ameaçado...e esteve fechado.

Ou muito me engano ou, com a agitação populista e demagógica que se aproxima haverá mais episódios semelhantes.

Nada de espantoso, porém.
Esta, como se sabe é a arma dos fracos e dos que, sem outros argumentos, optam pela tentativa de silenciamento.

Estas tentativas estão, infelizmente, em linha com todos aqueles que acharam que os melhores portugueses de sempre foram, nem mais nem menos, Salazar e Cunhal.

Eloquente!

Pela minha parte continuarei a ser leitor solidário e assíduo de "O Jumento" e de todos quantos, no Portugal do século XXI sofram censura, independentemente de concordar ou não com o que escrevem.