Audácia

Foto de Nuno Barreto, aqui
Audácia
Os versos
dos seus
poemas
eram de
cactos
mas uma
ou outra
borboleta
multicor
pousava
nos seus
espinhos.
Hamilton Monteiro
in "Gume das Palavras"
Madrugada À Dentro

Como eu queria que este dia não terminasse...
Como eu queria que este sonho fosse verdade...
Como eu queria que o dia e a noite,
O sol e a lua, parassem cada
Uma na sua constelação,
Que o dia não terminasse e
Que a noite não chegasse.
Tiraste-me o sol, deixaste-me só
Tiraste-me a lua, deixaste-me lembranças,
Tiraste-me o dia, deixaste-me doida,
Tiraste-me a noite, deixaste-me nua.
Como eu queria ter,
O teu corpo colado ao meu,
Os teus lábios nos meus,
Os teus dedos entrelaçados com os meus.
Como eu queria que ouvisses
O sufocado gemido saído
Da minha boca, o bater
Descompassado do meu coração,
Que visses a alegria espalmada no
Meu rosto, gotas salpicantes de
Suor que brotam do meu corpo...
Ah!... Como eu queria que esta noite
Não terminasse, para que soubesses
Que te amo e que mesmo distante
Sinto-me presente... em sonhos.
Leila dos Anjos
Dia Internacional do Animal
Mila

Foto de Sergey Ozerov, via "O Jumento"
dá-me os cheiros
mais íntimos
xxxxxxxxque teu corpo oferece
dá-me a leveza
mais urgente
que acalenta os sonhos
xxxxxxxtua alma
dá-me este recanto xxxxxsol
mais quente
xxxxxxxxbrota do teu sorrir
xxxxxxxxxxxxxxxxxtons maduros mangas
Dá-me o que palpita em nós
xxxxxx- parece escaparque
xxxxxxos nossos sentidos
cruzam num igual desmaiar
xxxxxxdar-te-ei
a explosão colorida das nuvens
estas mãos xxxxdiamantes xxxxbrilho oculto
Esperar-te-ei
xxxxxxxxxxxbeijo longo que imita a mwamba
xxrosa viçosa com as cores de Maio
xxxxxxxxxxxmúsica quente tambores de África
xxxxxxxxxxxeste coração
inchado da saborosas rimas.
António Azzevas
Quarto poema sem título

Como posso não amar-te
Arte de todas as artes
Pedaço de paraíso
Flor múltipla e multicolor
Segredo que segreda em voz alta
Aquário de búzios voadores
Raiz, folha e árvore invisível
Métrica perfeita de uma canção criada
Fuga e regresso de emoções desconhecidas
Salmo que se soletra pela manhã
Alimento de matéria imaterial
Casa sem portas, janelas e tecto.
Como posso não amar-te?
António Gonçalves
O céu é aquela clareira
o céu é aquela clareira
onde deito os olhos com ténues
cambiantes de cor que quase
gasto nas mãos, e como. como
o céu e aguardo uma
digestão convulsa. enquanto
o aguaceiro seca na terra antes que o
possa beber e deus se
vinga de mim ditando
os versos que escondem
a água ao mundo. já as
fogueiras florindo em volta,
murchando o dia que me
persegue. uma intervenção
divina para me resistir
Valter Hugo Mãe
In “estou escondido na cor amarga do fim da tarde”
Meditemos
Louca Simbiose
Les feuilles mortes

Oh! Je voudrais tant que tu te souviennes
des jours heureux où nour étions amis
En ce temps-là la vie était plus belle
et le soleil plus brûlant qu'aujourd'hui
Les feuilles mortes se ramassent à la pelle...
Tu vois je n'ai pas oublié
Les feuilles mortes se ramassent à la pelle
les souvenirs et les regrets aussi
et le vent du nord les emporte
dans la nuit froide de l'oubli
Tu vois je n'ai pas oublié
la chanson que tu me chantais
C'est une chanson qui nous ressemble
Toi tu m'aimais
et je t'aimais
Et nous vivions tous deux ensemble
toi qui m'aimais
et que j'aimais
Mais la vie sépare ceux qui s'aiment
tout doucement
sans faire de bruit
et la mer efface sur le sable
les pas des amants désunis...
Mais mon amour silencieux et fidèle
sourit toujours et remercie la vie
Je t'aimais tant tu étais si jolie
Comment veux-tu que je t'oublie
En ce temps-là la vie était plus belle
et le soleil plus brûlant qu'aujourd'hui
Tu étais ma plus douce amie...
Mais je n'ai que faire des regrets
Et la chanson que tu chantais
toujours toujours je l'entendrai
C'est une chanson qui nous ressemble
Toi tu m'aimais
et je t'aimais
Et nous vivions tous deux ensemble
toi qui m'aimais
et que j'aimais
Mais la vie sépare ceux qui s'aiment
tout doucement
sans faire de bruit
et la mer efface sur le sable
les pas des amants désunis
Jacques Prévert
2.ª Transparência (falando do amor)

Falo do amor
que te rouba e devolve o sangue
que é guerra e paz contínua
alívio e desgraça permanente
falo do amor que não é sexo
falo do amor
que se manifesta nas unhas
que são suores e pelos em chamas
sobrancelhas e tacto em ebulição
falo do amor que não é carne
falo do amor
poliglota, desconhecendo raça e crença
que é um oceano de emoções
que é cicatriz sem ter ferida
falo desse amor que é sexo
falo do amor
interplanetário e atómico
(neutrões, protões e iões em contradição aparente)
naves e corações que descolam
como transitam os símbolos no Zodíaco
falo desse amor que não é carne
falo do amor
que é renascimento
como alguém que atirando pedras ao charco
se vai banhando por dentro
enquanto por fora
o seu tamanho se confunde com o mundo
falo desse amor que não é sexo
falo do amor
que não é língua
mas a saliva
abundante mãos
falo desse amor que é carne…
António Gonçalves
Não tenho retratos amarelecidos

Foto de "Angola em fotos"
não tenho retratos amarelecidos
dos meus antepassados
não tenho jazigos de família
nem diários escondidos no baú do sótão
não tenho medalhas herdadas
nem sei das fomes dos meus avôs chicoteados
e das revoltas das minhas avós
silenciadas
não tenho escrúpulos a esquecer
para ser aquilo que sou
aqui
neste meu lugar no mundo
não tenho que aplaudir as botas
que esfrangalham o meu jardim
nem tenho de acenar
em janela alguma
ao festejo de mais uma comemoração
ao sol diário do meio-dia
revivo o gosto que tenho
desta certeza
de país
em construção
João Abel
Dime porque (tu te vas)
A primeira vez que eu te vi…
Algo muito forte eu senti…
Eu toquei o céu…
Percorri o mar…
Noites de luar…
não dormi…
Sonho acordado a pensar
A maneira de me aproximar
Do teu coração, ternura e paixão
Mas agora sei que foi em vão
Porque se eu pudesse antever…
O que depois iria acontecer
Não me apaixonava , te atacava… entregava…
Meu coração… sem competição…
Se entregou a ti…confiou em ti…
Mas agora sei que foi em vão…
Dime porque tu te vas… Quando yo te quiero mas…
Aunque te quiero… so no me quiedo…
Que vas e no volveras…
Dime porque tu te vas… Quando yo te quiero mas…
Aunque te quiero… so no me quiedo…
Dime porque tu te vas… assim…
Em ti confiei… também depositei
Toda a confiança e esperança por te amar me enganei…
Mas jamais eu me culparei
Por te dar aquilo que te dei
Eu te dei porque acreditei…
e me apaixonei… Me apaixonei
Será que exagerei
Por te amar como amei
Sera que sofoquei
Por te dar o que eu te dei
Sei que não exagerei sofoquei alias
Amor que é amor nunca e demais
Pois quem ama quer sempre mais
Dime porque tu te vas… Quando yo te quiero mas…
Aunque te quiero… so no me quiedo…
Que vas e no volveras…
Dime porque tu te vas… Quando yo te quiero mas…
Aunque te quiero… so no me quiedo…
Dime porque tu te vas… assim…
Diz me porque… diz…
Sinto tanto a tua falta…
Pero dime se te vas
Pero dime se te vas
Tu me esto a terra e el cielo
Me dice te que me quieres
Dime porque tu te vas… Quando yo te quiero mas…
Aunque te quiero… so no me quiedo…
Que vas e no volveras…
Dime porque tu te vas… Quando yo te quiero mas…
Aunque te quiero… so no me quiedo…
Dime porque tu te vas… …
Dime porque tu te vas… Quando yo te quiero mas…
Aunque te quiero… so no me quiedo…
Que vas e no volveras…
Dime porque tu te vas… Quando yo te quiero mas…
Aunque te quiero… so no me quiedo…
Que vas e no volveras…
SSP
Corpo de mulher
As ruas correm
O teu olhar

O teu olhar
fala-me de viagens
e lugares distantes.
O teu olhar
fala-me de solidão
em certos instantes.
O teu olhar
fala-me de saudade
e de doçura.
O teu olhar
fala-me de desejo
e de quentura.
O teu olhar,
caminhante em mim...
Jacky, do "Amorizade"
És a vela içada
Para ti

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo
Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que falhei
o sabor do sempre
Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só olhar
amando de uma só vida.
Mia Couto
Nas algas

Foto de Manuel Gonçalves em Olha oh Passarinho
Devolvidos em caracteres não descodificados
Jazem nas algas
Recados produzidos além
Como repousassem para futuras leituras.
Cartas antigas. Heroismo e amor.
Contos perdidos na história e sonhos cantados
Em papel de cambraia
Socegadamente dormem no dorso das algas.
Amanhã será o dia maior.
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxO da leitura final
Garcia Bires
Vens de um tempo...
A maior riqueza

Dentro de poucas horas iniciar-se-á a votação nas Eleições Legislativas em Angola.
Ouço com apreensão as notícias da TSF.
Há 16 anos significou o regresso da guerra.
Angola é riquíssima.
A imensa riqueza que possui pode proporcionar aos seus filhos uma vida digna que faça esquecer todos os sacrifícios por que teve que passar.
Angola tem, sobretudo, um povo soberbo.
Um povo magistralmente retratado em Angola em fotos - o retrato da Angola real, fraterna, leal, solidária e amiga - a Angola que não aparece nos postais da baía ou nas fotos obtidas do terraço do Hotel Presidente.
Esse povo orgulhoso, corajoso e sofredor constitui a sua maior riqueza.
Os seus dirigentes, todos eles, esquecem-no sistemáticamente.
Por uma vez devem lembrar-se dessa riqueza e respeitá-la.
Quando o petróleo e os diamantes tiverem acabado ficará o povo.
Quaisquer que sejam os resultados do veredicto desse magnífico povo, honrem-no!
Respeitem e não desbaratem essa riqueza imensa.
Chama quente

Gosto de ti apaixonadamente
De ti, és a vitória, a salvação
De ti que me trouxeste pela mão
Até o brilho desta chama quente
A tua linda voz de água corrente
Ensinou-me a cantar... e essa canção
Foi ritmo nos meus versos de paixão
Foi graça no meu peito de descrente
Bordão a amparar minha cegueira,
Da noite negra o mágico farol,
Cravos rubros a arder numa fogueira!
E eu, que era no mundo uma vencida
Ergo a cabeça ao alto, encaro o sol!
― Águia real, apontas-me a subida!
Florbela Espanca
Raimundo Fagner
Encosta-te a mim...
Encosta-te a mim,
nós já vivemos cem mil anos
encosta-te a mim,
talvez eu esteja a exagerar
encosta-te a mim,
dá cabo dos teus desenganos
não queiras ver quem eu não sou,
deixa-me chegar.
Chegado da guerra,
fiz tudo p´ra sobreviver em nome da terra,
no fundo p´ra te merecer
recebe-me bem,
não desencantes os meus passos
faz de mim o teu herói,
não quero adormecer.
Tudo o que eu vi,
estou a partilhar contigo
o que não vivi, hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim.
Encosta-te a mim,
desatinamos tantas vezes
vizinha de mim, deixa ser meu o teu quintal
recebe esta pomba que não está armadilhada
foi comprada, foi roubada, seja como for.
Eu venho do nada porque arrasei o que não quis
em nome da estrada onde só quero ser feliz
enrosca-te a mim, vai desarmar a flor queimada
vai beijar o homem-bomba, quero adormecer.
Tudo o que eu vi,
estou a partilhar contigo o que não vivi,
um dia hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim
Encosta-te a mim
Encosta-te a mim
Quero-te bem.
Encosta-te a mim.
Jorge Palma
Quarto poema sem título

Como posso não amar-te
Arte de todas as artes
Pedaço de paraíso
Flor múltipla e multicolor
Segredo que segreda em voz alta
Aquário de búzios voadores
Raiz, folha e árvore invisível
Métrica perfeita de uma canção criada
Fuga e regresso de emoções desconhecidas
Salmo que se soletra pela manhã
Alimento de matéria imaterial
Casa sem portas, janelas e tecto.
Como posso não amar-te?
António Gonçalves
Maria Keil
Aires Bustorff, amigo cá de casa, enviou-me amávelmente nota de um facto inacreditável que transcrevo, com a devida vénia, do blog " Cantigueiro".
Com tanto crime violento, este, que a história relata, não é notícia.
Porque... a cultura não é notícia.
Infelizmente.
Nem sequer para alguns blogs que por aí andam, profissionais, com óbvio e encapotado apoio para-institucional. Essas virgens imaculadas, paladinas da pureza e inimigas de estimação de tudo quanto seja público... emudecem perante o que é património de todos. Convenientemente!

Esta senhora bonita é a nossa amiga Maria Keil, artista plástica.
Em 1941, via-se a si própria desta maneira.

Maria Keil (gosta que a tratem apenas por Maria) nasceu na cidade de Silves, em 1914. Partilhou a maior parte da sua vida com o arquitecto Francisco Keil do Amaral, com quem se casou, muito jovem, em 1933.
De lá para cá fez milhares de coisas, sobretudo ilustrações, que se podem encontrar em revistas como a “Seara Nova”, livros para adultos e “toneladas” de livros infantis, os de Matilde Rosa Araújo, por exemplo, são em grande quantidade. Está quase a chegar aos 100 anos de idade de uma vida cheia, que nos primeiros tempos teve alguns “sobressaltos”, umas proibições de quadros aqui, uma prisão pela PIDE, ali... as coisas normais para um certo “tipo de pessoas” no tempo do fascismo.
Para esta “história”, no entanto, o que me interessa são os seus azulejos. São aos milhares, em painéis monumentais, espalhados por variadíssimos locais. Uma das maiores contribuições de Maria Keil para a azulejaria lisboeta, foi exactamente para o Metropolitano de Lisboa. Para fugir ao figurativo, que não era o desejado pelos arquitectos do Metro, a Maria Keil partiu para o apuramento das formas geométricas que conseguiram, pelo uso da cor e génio da artista, quebrar a monotonia cinzenta das galerias de cimento armado das primeiras 19, sim, dezanove estações de Metropolitano. Como o marido estava ligado aos trabalhos de arquitectura das estações e conhecendo a fatal “falta de verba” que se fazia sentir, o Metro lá teve de pagar os azulejos, em grande parte fabricados na famosa fábrica de cerâmica “Viúva Lamego”, mas o trabalho insano da criação e pintura dos painéis... ficou de borla. Exactamente! Maria Keil decidiu oferecer o seu enorme trabalho à cidade de Lisboa e ao seu “jovem” Metropolitano.
Estes pormenores das estações do “Intendente” (1966) e “Restauradores” (1959), são bons exemplos.


Parêntesis: Qualquer alteração na “Gare do Oriente” do Arq. Calatrava, ou nas Torres das Amoreiras, do Arq. Tomás Taveira, só a título de exemplo, têm de ser encomendadas ao arquitecto que as fez e mesmo assim, ele pode recusar-se a alterar a sua obra original. Se os donos da obra avançarem para a alteração sem o acordo do autor, podem ter por garantido um belo processo em tribunal, que acabará numa “salgada” indemnização ao autor.
Finalmente, a história! Recentemente a Metro de Lisboa decidiu remodelar, modernizar, ampliar, etc, várias das estações mais antigas e não foram de modas. Avançaram para as paredes e sem dizer água vai, picaram-nas sem se dar ao trabalho de (antes) retirar os painéis de azulejos, ou ao incómodo de dar uma palavra que fosse à autora dos ditos. Mais tarde, depois da obra irremediavelmente destruída, alguém se encarregaria de apresentar umas desculpas esfarrapadas e “compreender” a tristeza da artista.
A parte “realmente boa” desta (já longa) história é que ao contrário de quase todos os arquitectos, engenheiros, escultores, pintores e quem quer que seja que veja uma sua obra pública alterada ou destruída sem o seu consentimento, Maria Keil não tem direito a qualquer indemnização.
Perguntam vocês “porquê, Samuel?” e eu tão aparvalhado como vós, “Porque na Metro de Lisboa há juristas muito bons, que descobriram não ser obrigatório pedir nada, nem indemnizar a autora, de forma nenhuma... exactamente porque ela não cobrou um tostão que fosse pela sua obra!!!
Este país, por vezes consegue ser “ainda mais extraordinário” do que que é o seu costume! Ou não?
Fontes usadas para as imagens, o Google. Para a história, o blog "As causas da Júlia", seguindo uma pista da minha amiga Isabel, que já deu cartas na "cultura" autárquica aqui no burgo.
Quem

Quem me fará sorrir
Quem me fará gritar
O grito calado do meu peito?!
O peito rejeita a alma
Angústia transborda e soma
No rosto surrado de dor
Quem me fará falar?
As palavras engolidas
No íntimo
Quando elas flutuam
Sem sentido no leito
Quem me fará pensar
Na consciência rasgada
Dos meus dias
Sem glória e sem luz
Escrevo nova história
Sorrisos e glória
Na tristeza de ontem
Nasci de novo
Sem passado
Maria Fernanda Baião
Carta de um contratado
Um dos mais belos poemas em língua portuguesa, já publicado antes, dito por José Ramos
Eu queria escrever-te uma carta
amor,
uma carta que dissesse
deste anseio
de te ver
deste receio
de te perder
deste mais bem querer que sinto
deste mal indefinido que me persegue
desta saudade a que vivo todo entregue...
Eu queria escrever-te uma carta
amor,
uma carta de confidências íntimas,
uma carta de lembranças de ti,
de ti
dos teus lábios vermelhos como tacula
dos teus cabelos negros como dilôa
dos teus olhos doces como maboque
do teu andar de onça
e dos teus carinhos
que maiores não encontrei por aí...
Eu queria escrever-te uma carta
amor,
que recordasse nossos tempos na capopa
nossas noites perdidas no capim
que recordasse a sombra que nos caía dos jambos
o luar que se coava das palmeiras sem fim
que recordasse a loucura
da nossa paixão
e a amargura da nossa separação...
Eu queria escrever-te uma carta
amor,
que a não lesses sem suspirar
que a escondesses de papai Bombo
que a sonegasses a mamãe Kieza
que a relesses sem a frieza
do esquecimento
uma carta que em todo o Kilombo
outra a ela não tivesse merecimento...
Eu queria escrever-te uma carta
amor,
uma carta que ta levasse o vento que passa
uma carta que os cajús e cafeeiros
que as hienas e palancas
que os jacarés e bagres
pudessem entender
para que o vento a perdesse no caminho
os bichos e plantas
compadecidos de nosso pungente sofrer
de canto em canto
de lamento em lamento
de farfalhar em farfalhar
te levassem puras e quentes
as palavras ardentes
as palavras magoadas da minha carta
que eu queria escrever-te amor....
Eu queria escrever-te uma carta...
Mas ah meu amor, eu não sei compreender
por que é, por que é, por que é, meu bem
que tu não sabes ler
e eu - Oh! Desespero! - não sei escrever também.
António Jacinto
Quero apenas cinco coisas...

Foto de Anabela Oliveira
Quero apenas cinco coisas...
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser... sem que me olhes.
Abro mão da primavera para que continues me olhando.
Pablo Neruda
Em festa!

O amigo Armando Rocheteau lembrou-me ontem que, há 4 anos atrás, timidamente, abri as portas deste espaço.
Agradeço-lhe e a todos os que por aqui foram passando, lendo poemas excepcionais de todas as partes da lusofonia, ouvindo músicas, deixando rasto virtual da sua passagem ou simples comentário.
A todos, obrigado!
Eu tenho os dias claros

"Solidão ao pôr-do-sol", foto de Miguel Teotónio, aqui
Eu tenho os dias claros
de sucessivas luas de Setembro
e a noite que me impõe sinalizar
as direcções cruzadas das mensagens verticais.
Eu estou parado no meio do terreiro
pastado dos meus passos e da minha gente,
ando a ganhar noções de translação
e a medir, pra meu governo, a cor do sol.
Eu entardeço, sobretudo, pouco atento ao vento
que não devo perturbar na sua rota alheia.
Permito, quando muito, que me sinta o cheiro
e deixo-o desfazer, furtivamente, molhos já secos de memória fêmea.
Eu finjo que não sei de elásticas tensões da claridade
e a cada passo meu faço estalar
membranas frias que a tarde debruou em rente azul.
Entendes, companheiro,
eu estou aqui sentado e nu
a procurar não ir além da bárbara carícia
de um olhar sem tacto
e que nem uma lágrima machuque
a capa muito fina da lembrança
que tenho para dar-te.
Ruy Duarte de Carvalho
.gif)






