Comboio malandro


.. Posted by Hello

O comboio malandro passa
passa sempre c'oa força dele
u-u hi-hi te-que-tem te-que-tem
nas janelas muita gente
ah boa viagée adeus homée
n'ganas bonitas
quintandeiras de lenço encarnado
levam cana no Luanda p'ra vender
u-u hi-hi
aquele vagon de grades tem bois
mu mu mu
tem outro igual
com este dos bois
leva gente muita gente como eu
cheio de poeira
gente triste como os bois
gente que vai no contrato

tem bois que morre no viagée
mas preto não morre
canta como é criança
mulondé iakessoa!
uadibalée uadibalée uadibalée
esse comboio malandro
sozinho na estrada de ferro passa
passa sem respeito
u-u hi-hi
com muito fumo no trás
tem-que-tem tem-que-tem

Comboio malandro
o fogo que sai no corpo dele
vai no capim e queima
vai nas casas dos preto e queima
esse comboio malandro
já queimou meu milho

Se na lavra do milho
tem pacaças
eu faço armadilha no chão
se na lavra tem Kiombos
eu tiro espingarda de Kimbundo
e mato neles!

Mas se vai lá fogo
de comboio malandro deixa
só fica fumo
muito fumo mesmo...

Mas espera só
quando esse comboio malandro descarrilar
e os branco chamar os preto p'ra empurrar
eu vou... mas não empurro

Nem com o chicote
finjo só que faço força
comboio malandro
você vai ver só o castigo
vai dormir mesmo no meio do caminho!


António Jacinto

Os detractores dos western...


Cowboy at sunset Posted by Hello

...tinham toda a razão!! Diziam eles que, o fim de todos os filmes era sempre igual -
ao pôr do sol, a rapariga fica sózinha, vendo partir o herói, envolto em poeira, que se irá casar com o cavalo.

Nunca acreditei e cultivei o género... afinal aconteceu!!

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Com Ruy Cinatti, em Timor


Foto de João Pedro Graça, aqui Posted by Hello


Dili-Timor,
dor sempre esquecida,
tão presente dor.
Ruy Cinatti

Talvez Ruy Cinatti
esteja agora em Dili
com um ramo
de flores
na mão - um ramo
de lágrimas. Os mortos
nunca repousam quando
os que amaram sofrem,
choram, feridos
na medula.

Um dia, o sol
virá mais cedo para enxugar
as lágrimas
e o luto, e do chão
empapado de sangue brotará
uma espiga vermelha. A espiga
da alegria.


Albano Martins
(in «Cástalia e Outros Poemas»,
Campo das Letras, 2001)

Aerograma (Põe o meu retrato...)


Imagem daqui Posted by Hello


Deus queira que esta
Vos mate a fome aos sentidos
Por agora

Deus queira que esta
Vos guarde a dor aos gemidos
Noite fora

Dançamos fandangos
Sobre uma navalha
Pássaros em bando
Em nuvens de limalha

E assim eu cá vou indo.

Vem-me o fel à boca
As tripas ao coração
A noite trás a forca pela sua mão

Sonho com fantasmas
De pele preta e luzidia
Com manuais de coragem e cobardia

Dizem que há sempre
Um barco azul para partir
Nosso hino
Embarca a alma
E os restos de um rosto a sorrir
Do destino

Põe o meu retrato
No altar de S. João
E uma vela com formato de canhão

Cansa-se esta escrita
Com dois dedos num baraço
Assim o quis a desdita
Vai um abraço.


João Monge (as palavras)
Trovante (a música)

She

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She may be the face I can't forget,
A trace of pleasure or regret,
May be my treasure or
The price I have to pay.

She may be the song that summer sings,
May be the chill that autumn brings,
May be a hundred different things
Within the measure of a day.

She may be the beauty or the beast,
May be the famine or the feast,
May turn each day into a
Heaven or a hell.

She may be the mirror of my dream,
A smile reflected in a stream,
She may not be what she may seem
Inside her shell.

She who always seems so happy in a crowd,
Whose eyes can be so private and so proud,
No one's allowed to see them
When they cry.

She may be the love that cannot hope to last,
May come to me from shadows of the past,
That I remember till the day I die.

She may be the reason I survive,
The why and wherefore I'm alive,
The one I'll care for through the
Rough and ready years.

Me, I'll take her laughter and her tears
And make them all my souvenirs
For where she goes I've got to be.
The meaning of my life is she, she, she--.



Charles Aznavour


Utopia

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Quisera virar a vida pelo avesso
Criar um mundo só meu
Onde eu pudesse rasgar as máscaras
Quebrar as amarras do medo
Realizar sonhos adormecidos
Resgatar folhas do passado e
arquivá-las na alma
Encontrar as horas perdidas
Fechar os olhos para a realidade
Beijar a boca da alegria
Esvaziar a caixa de saudades
Afogar as tristezas reprimidas
Curar todas as feridas do coração
Tatuar nas retinas as melhores
lembranças
Apagar o tédio
Expulsar a solidão
Romper a monotonia
pálida do cotidiano
Seguir a velocidade do vento
Entrar em uma utopia
Dominar a ciência do tempo
Dar asas aos pensamentos e
brincar de ser feliz!!!!!!!!


Zena Maciel

Nenhum monumento

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(Ruínas da Sé, Mbanza Congo)


Não são aparentes em ti as marcas da grandeza,
nenhum monumento desfigura
ou altera a monotonia sem convulsões
do teu rosto quase anónimo.
A escassez de ogivas, arcobotantes,
rosáceas, burilados portais, cobra-la tu
na gravidade das tuas sombras
e do teu silêncio. Não vem sequer
da tua voz a opressão que cerra
as almas de quantos de ti
se acercam. Não demonstras,
não afirmas, não impões.
Elusiva e discretamente altiva,
fala por ti apenas o tempo.


Rui Knopfli

Que semelhanças?

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O leitor habituado à poesia neste boteco achará que, ao ver a foto da Carla Matadinho, resolvi regalar os sentidos com outra «poesia»... Não deixa de ser verdade... porém, o título e a foto abaixo deixá-los-á perplexos!

Mas que raio poderá ter George W. Bush a ver com Carla Matadinho???

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Este problema, dilacerante surgiu-me ao ler um post de Agradecimento em Raminhos de Oliveira. Lá o motivo de incremento de visitantes foi o «avião» lá em cima...
Aqui uma boa percentagem de visitantes aparecem por pesquisarem o lado ridículo da guerra (war...lol) e chegarem á foto que publiquei nos primeiros tempos desta loja.

Antes o agradecimento tivesse que ser feito (e seria de toda a justiça - e por uma boa causa - digo eu...) á Carla Matadinho!
Para mal dos meus pecados, que gosto tanto dele como Michael Moore (ou menos), tenho que agradecer a George W. Bush o inestimável e decisivo contributo que deu para o aumento da popularidade deste modestíssimo blog.

As mãos

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As mãos
são a paisagem do coração.
Elas se separam às vezes
como desfiladeiros
para que forças indescritíveis rolem.

A mesma mão que o homem
apenas abre quando cheia de fadiga,
agora ele percebe:
por causa dele somente,
outros podem caminhar em paz...

Mãos são como paisagem.
Quando se abrem,
a dor de suas mágoas
corre livre como riacho.
Porém, sem sentimento de dor...
sem grandeza de dor...
Apenas para sua própria
maravilha de grandeza
Ele não conhece a forma
de nomear a mesma.


Andrzej Jawien
(pseudónimo literário de João Paulo II)
1960

Sol no musseque

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Redonda lâmpada acesa
a amarela luz alastrando-se
por sobre o zinco das cubatas
Os fartos cabelos
das mulembeiras
raparigas cartando água
no chafariz
Meninos de barriga inchada
brincando com bola ou
tampas de garrafa


João Melo

Requiem

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Viam a luz nas palhas de um curral,
Criavam-se na serra a guardar gado.
À rabiça do arado,
A perseguir a sombra nas lavras,
aprendiam a ler
O alfabeto do suor honrado.
Até que se cansavam
De tudo o que sabiam,
E, gratos, recebiam
Sete palmos de paz num cemitério
E visitas e flores no dia de finados.
Mas, de repente, um muro de cimento
Interrompeu o canto
De um rio que corria
Nos ouvidos de todos.
E um Letes de silêncio represado
Cobre de esquecimento
Esse mundo sagrado
Onde a vida era um rito demorado
E a morte um segundo nascimento.


Miguel Torga

Coleccionador de quimeras

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Quando as minhas angustias
comecam a morder-me
ponho-lhes a trela
saio a rua a passeá-las
e deixo-as ladrar
ao tédio transeunte.

Depois ponho-lhes asas
e deixo-as voar
como passaros
em busca de primaveras
imprevisiveis.


António Tomé

Presença

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Sou dos que ainda estão presentes
e bebem do amor a única ausência.

Quantos pedaços de mentiras
retenho na viscosidade do meu cuspo?

Quantas verdades apaixonadas
reclamam ansiosas o esperma das palavras?

Nenhumas, talvez, nenhumas...
escravizo o silêncio
e faço dele o meu mensageiro.

Estou presente em tudo ou mais
e aí onde me procurarem
será a minha próxima ausência.

Helder Muteia

Dádiva

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Foto de M. Montenegro em Chamuanzas


Sou mais forte que o silêncio dos muxitos
mas sou igual ao silêncio dos muxitos
nas noites de luar e sem trovões.

Tenho o segredo dos capinzais
soltando ais
ao fogo das queimadas de setembro
tenho a carícia das folhas novas
cantando novas
que antecedem as chuvadas
tenho a sede das plantas e dos rios
quando frios
crestam o ramos das mulembas....

e quando chega o canto das perdizes
e nas anharas revive a terra em cor
sinto em cada flor
nos seus matizes
que és tudo o que a vida me ofereceu.


Fernando Costa Andrade

Não conheço nada do país do meu amado

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Não conheço nada do país do meu amado
Não sei se chove, nem sinto o cheiro das
laranjas.
Abri-lhe as portas do meu país sem perguntar nada
Não sei que tempo era
O meu coração é grande e tinha pressa
Não lhe falei do país, das colheitas, nem da seca
Deixei que ele bebesse do meu país o vinho o mel a carícia
Povoei-lhe os sonhos de asas, plantas e desejo
O meu amado não me disse nada do seu país
Deve ser um estranho paíso país do meu amado
pois não conheço ninguém que não saiba
a hora da colheita
o canto dos pássaros
o sabor da sua terra de manhã cedo
Nada me disse o meu amado
Chegou
Mora no meu país não sei por quanto tempo
É estranho que se sinta bem
e parta.
Volta com um cheiro de país diferente
Volta com os passos de quem não conhece a pressa.


Ana Paula Ribeiro Tavares

O espanto, a tristeza...a estupefacção!

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Acabei de ler em Um pipi no planeta evax que o Dalai Lama terá afirmado:

*Estamos dispostos a ser parte da Republica Popular da China* declarou em resposta à exigência de uma posição clara por parte de Pequim.

Poesia africana

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Lá no horizonte
o fogo
e as silhuetas escuras dos imbondeiros
de braços erguidos.
No ar o cheiro verde das palmeiras queimadas.

Poesia africana.

Na estrada
a fila de carregadores bailundos
gemendo sob o peso da crueira.
No quarto
a mulatinha de olhos meigos
retocando o rosto com rouge e pó de arroz.
A mulher debaixo dos panos fartos remexe as ancas.
Na cama
o homem insone pensando
em comprar garfos e facas para comer à mesa.

No céu o reflexo
do fogo
e as silhuetas dos negros batucando
de braços erguidos.
No ar a melodia quente das marimbas.

Poesia africana.

E na estrada os carregadores
no quarto a mulatinha
na cama o homem insone.

Os braseiros consumindo
consumindo
a terra quente do horizonte em fogo.


Agostinho Neto

I don't know how to love him




I don't know how to love him.
What to do, how to move him.
I've been changed, yes really changed.
In these past few days, when I've seen myself,
I seem like someone else.
I don't know how to take this.
I don't see why he moves me.
He's a man. He's just a man.
And I've had so many men before,
In very many ways,
He's just one more.
Should I bring him down?
Should I scream and shout?
Should I speak of love,
Let my feelings out?
I never thought I'd come to this.
What's it all about?
Don't you think it's rather funny,
I should be in this position.
I'm the one who's always been
So calm, so cool, no lover's fool,
Running every show.
He scares me so.
I never thought I'd come to this.
What's it all about?
Yet, if he said he loved me,
I'd be lost. I'd be frightened.
I couldn't cope, just couldn't cope.
I'd turn my head. I'd back away.
I wouldn't want to know.
He scares me so.
I want him so.
I love him so.

El cóndor pasa

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Oh majestuoso Cóndor de los andes,
llevame, a mi hogar, en los Andes, Oh Cóndor.
Quiero volver a mi terra querida
y vivir con mis hermanos Incas,
que es lo que mas añoro oh Cóndor.

Espérame en Cuzco,
en la plaza principal,
para que vayamos a pasearnos
a Machupicchu y Huayna-picchu.


Um canto de liberdade

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Olhando as mudanças do pôr do sol
meu ser fica imerso em devaneios
Aconchego-me nos doces braços dos sonhos
e deixo-me embalar
A realidade está há milhões de anos luz
de minhas fantasias
Não importa!
Na velocidade do pensamento
dou asas ao coração e simulo vôos de liberdade
Sinto-me dona do tempo
Domino cada minuto ao meu bel prazer
Quero encontrar a terra prometida
porque lá eu escondi meu paraíso
Não vim ao mundo por acaso
Não estou aqui para ocupar apenas um espaço
Quero descortinar todas as cores da vida
Caminhar na insensatez das
belas estradas coloridas
Renascer em dias azuis e noites estreladas
Pôr o infinito na palma da minha mão
e beber todo o néctar desta doce ilusão.
Poder embalar-me neste
canto de liberdade.


Zena Maciel

A Ilha

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Tu vives — mãe adormecida —
nua e esquecida,
seca,
fustigada pelos ventos,
ao som de músicas sem música
das águas que nos prendem…

Ilha:
teus montes e teus vales
não sentiram passar os tempos
e ficaram no mundo dos teus sonhos
— os sonhos dos teus filhos —
a clamar aos ventos que passam,
e às aves que voam, livres,
as tuas ânsias!

Ilha:
colina sem fim de terra vermelha
— terra dura —
rochas escarpadas tapando os horizontes,
mas aos quatro ventos prendendo as nossas ânsias!
Tu vives — mãe adormecida —
nua e esquecida,
seca,
fustigada pelos ventos,
ao som de músicas sem música
das águas que nos prendem…

Ilha:
teus montes e teus vales
não sentiram passar os tempos
e ficaram no mundo dos teus sonhos
— os sonhos dos teus filhos —
a clamar aos ventos que passam,
e às aves que voam, livres,
as tuas ânsias!

Ilha:
colina sem fim de terra vermelha
— terra dura —
rochas escarpadas tapando os horizontes,
mas aos quatro ventos prendendo as nossas ânsias!


Amílcar Cabral
- Praia, Cabo Verde, 1945 -

Vida

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A crioula que meus olhos beijaram a medo
predeu-se na confusão de um porto francês

Ela sorria continuamente, erguendo no seu riso uma cançaão extraordinária.

Não foi um romance de amor
nem mesmo um pequeno segredo entre ambos.

Somente, quando Ela falava ao pé de mim, eu sentia:
um aprazível devaneio
pela maravilha escultural duma Mulher Perfeita.

Depois,
a Vida separando Nós-Dois
a confusão, os ruidos, os braços agitando-se
e o vapor levando para outros mares,
outros portos,
a graça, o mistério, o perfume e os cantares
da crioula que meus olhos beijaram a medo
no tombadilho daquele vapor francês.


Luís Romano
(Clima, 1963)

O peso da vida

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O peso da vida!
Gostava de senti-lo à tua maneira
e ouvi-la crescer dentro de mim,
em carne viva,

não queria somente
rasgar-te a ferida,
não queria apenas esta vocação paciente
do lavrador,
mas, também, a da terra
e que é a tua

Assume o amor como um ofício
onde tens que te esmerar,

repete-o até à perfeição,
repete-o quantas vezes for preciso
até dentro dele tudo durar
e ter sentido

Deixa nele crescer o sol
até tarde,
deixa-o ser a asa da imaginação,
a casa da concórdia,

só nunca deixes que sobre
para não ser memória.


Eduardo White

Para lá da praia

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Á chegada a Praia Gamboa, foto de Carlos Diogo Rosa, em Caminhadas e Descoberta em STP


Baía morena da nossa terra
vem beijar os pezinhos agrestes
das nossas praias sedentas,
e canta, baía minha
os ventres inchados
da minha infância,
sonhos meus, ardentes
da minha gente pequena
lançada na areia
da praia morena
gemendo na areia
da Praia Gamboa.


Canta, criança minha
teu sonho gritante
na areia distante
da praia morena.

Teu tecto de andala
à berma da praia
teu ninho deserto
em dias de feira,
mamã tua, menino
na luta da vida.

Gamã pixi à cabeça
na faina do dia
maninho pequeno, no dorso ambulante
e tu, sonho meu, na areia morena
camisa rasgada,
no lote da vida,
na longa espera, duma perna inchada

Mamã caminhando p'ra venda do peixe
e tu, na canoa das águas marinhas
- Ai peixe à tardinha
na minha baía
mamã minha serena
na venda do peixe
pela luta da fome
da gente pequena.


Alda Espírito Santo


Pátria

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Pátria é, pois, o sol que deu o ser
Drama, poema, tempo e o espaço,
Das gerações, que passam, forte laço
E as verdades que estamos a viver.
Pátria... é sepultura... é sofrer
De quem marca, co’a vida, um novo passo.
Ao povo - uma Pátria - é, num traço
simples... Independência até morrer !
Do trabalho o berço, paz, tormento,
Pátria é a vida, orgulho, a aliança
Da alegria, do amor, do sentimento.
Pátria... é tradições, passado e herança !
O som da bala é ... Pátria, de momento !
Pátria ... é do futuro a esperança !


Xanana Gusmão

Bailarina negra

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Imagem daqui


A noite
(Uma trompete, uma trompete)
fica no jazz

A noite
Sempre a noite
Sempre a indissolúvel noite
Sempre a trompete
Sempre a trépida trompete
Sempre o jazz
Sempre o xinguilante jazz

Um perfume de vida
esvoaça
adjaz
Serpente cabriolante
na ave-gesto da tua negra mão

Amor,
Vênus de quantas áfricas há,
vibrante e tonto, o ritmo no longe
preênsil endoudece

Amor
ritmo negro
no teu corpo negro
e os teus olhos
negros também
nos meus
são tantãs de fogo
amor.


António Jacinto
(Sobreviver em Tarrafal de Santiago)

O insecto


Mujer desnuda, Eduardo Naranjo Posted by Hello


Das tuas ancas aos teus pés
quero fazer uma longa viagem.

Sou mais pequeno que um insecto.

Percorro estas colinas,
são da cor da aveia,
têm trilhos estreitos
que só eu conheço,
centimetros queimados,
pálidas perspectivas.

Há aqui um monte.
Nunca dele sairei.
Oh que musgo gigante!
E uma cratera, uma rosa
de fogo humedecido!

Pelas tuas pernas desço
tecendo uma espiral
ou adormecendo na viagem
e alcanço os teus joelhos
duma dureza redonda
como os ásperos cumes
dum claro continente.

Para teus pés resvalo
para as oito aberturas
dos teus dedos agudos,
lentos, peninsulares,
e deles para o vazio
do lençol branco
caio, procurando cego
e faminto teu contorno
de vaso escaldante!


Pablo Neruda

Testamento


Imagem daqui Posted by Hello



À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro...

E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhando algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda...

Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus...

E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes,
Que nunca souberam ler.

Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada...
Esses, que são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor...

Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,

Vás por essa noite fora...
Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua...


Alda Lara

As Mãos


.. Posted by Hello

Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema - e são de terra.
Com mãos se faz a guerra - e são a paz.

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas, mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.

De mãos é cada flor, cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.


Manuel Alegre


Atlantis




The continent of Atlantis was an island
Which lay before the great flood
In the area we now call the Atlantic Ocean.
So great an area of land,
That from her western shores
Those beautiful sailors journeyed
To the South and the North Americas with ease,
In their ships with painted sails.
To them East Africa was a neighbour,
Across a short strait of sea miles.
The great Egyptian age is

But a remnant of The Atlantian culture.
The antediluvian kings colonised the world
All the Gods who play in the mythological dramas
In all legends from all lands were from far Atlantis.

Knowing her fate,
Atlantis sent out ships to all corners of the Earth.
On board were the Twelve:

The poet, the physician, The farmer, the scientist,
The magician and the other so-called Gods of our legends.
Though Gods they were -
And as the elders of our time choose to remain blind
Let us rejoice
And let us sing
And dance and ring in the new Hail Atlantis!

Way down below the ocean where I wanna be she may be,
Way down below the ocean where I wanna be she may be,
Way down below the ocean where I wanna be she may be.
Way down below the ocean where I wanna be she may be,
Way down below the ocean where I wanna be she may be.
My antediluvian baby, oh yeah yeah, yeah yeah yeah,
I wanna see you some day
My antediluvian baby, oh yeah yeah, yeah yeah yeah,
My antediluvian baby,
My antediluvian baby, I love you, girl,
Girl, I wanna see you some day.
My antediluvian baby, oh yeah
I wanna see you some day, oh My antediluvian baby.
My antediluvian baby, I wanna see you
My antediluvian baby, gotta tell me where she gone
I wanna see you some day Wake up, wake up, wake up, wake up,
oh yeah Oh club club, down down, yeah
My antediluvian baby, oh yeah yeah yeah yeah


Donovan