A descoberta da Australia pelos portugueses




















“Desde há mais de 25 anos que tento divulgar estas teorias que deveriam encher de orgulho e justificado interesse em aprofundar tais estudos, todos os que se interessam pela língua, cultura e história portuguesas mas apenas escutei o silêncio cúmplice dos que se sentem culpados do Tratado de Tordesilhas ter sido violado.

Recordemos que até 1832 a Inglaterra não reconheceu como suas as possessões da Austrália Ocidental aguardando que Portugal as reclamasse. Quem sabe se hoje não teríamos metade deste enorme continente a falar Português? Decerto que muitos dos cerca de um milhão de aborígenes poderiam não ter sido exterminados como foram e a Austrália poderia ser mais multirracial do que é.

Este era o tema do tal documentário ficcionado que apresentei à televisão SBS., e à ABC. Ambas as teses aqui delineadas hoje deviam constar dos programas curriculares portugueses como já constam de muitos dos programas australianos. “


J. Chrys Chrystello


Para continuar a ler o excelente artigo, sugiro uma visita a "Página Um".
Vai valer a pena.

1º poema de queixuma muxiluanda














Foto de "Crónicas da Terra Ardente"




nasce peregrino sorriso sobre o asfalto
no alto da noite que guia os pés
um sorriso prostrado na alma da mão prostrada
arisco sobre o asfalto petisco de uma gestação
palco de maratona visto do dorso da poltrona
desfraldada partitura de uma guitarra dúlcida guitarra
circundante e domiciliar
domiciliar e circundante
na ebriez da árvore semeada de pássaros
no remoinho da seiva da anónima pedra que se ergue
no mastro da chuva
esculpe outro sorriso de costas virado ao sexo de ninfa
sem pretensão e sem geração
sem geração e sem pretensão



Trajanno Nankhova Trajanno

You need me




Vale a pena recordar.
Melodia lindíssima.

amar é mesmo assim



















Foto de Alexander Vassilenko, via "O Jumento"






ela tem uma ave nos contornos de mulher
e me vê com as escleróticas em fuga.
deixa-se ir ao tempo com um corpo de
enche a embala com o seu todo.
ela emergiu da “casa inabalável”
e victoriosa depôs o soba.
rendo-me à vassalagem quero-a solta e rica.
certo ou incerto os sonhos errados
tornam-se vivos: como um compêndio
mil escrituras no amor que gesticulo.



João Tala

SIDA em Africa

O amor




Poema de Kahlil Gibran

Desejo




















Aterra-me nos lábios
Com teus beijos
E deixa-me voar nas asas do sonho
Iludido ainda por viver…

Navega-me
O corpo impuro
Do meu casco imaturando,
Com as ondas crespas e revoltas
Do teu negro e revolto cabelo.

Viaja por mim
Teu corpo em carícias
De voltas ao Mundo:
Sejam abraços tão fundos
Sem nunca lhes medir o fim!



António Cardoso

Lisboa perto e longe




1972, São Salvador do Congo, nesta altura do ano.
Na rubrica de "Discos Pedidos" a Rádio Voz do Zaire transmitiu a meu pedido esta belíssima canção de José Cid.
Era novo, a saudade do Puto ainda mordia...

"Aqui Portugal, Estado de Angola, de São Salvador transmite a Rádio Voz do Zaire" (Rádio Xifuta, na versão sarcástica dos estudantes da secção do Liceu Salvador Correia de Sá)

Na versão original a interpretação vocal era apenas de José Cid.
Curioso é o facto de esta versão integrar a voz e as violas de Waldemar Bastos, nascido em 1954, justamente em M'Banza Congo, ex-São Salvador do Congo.

Em obras...




































Do mesmo modo que as estradas para Cabinda, esta "espelunca" necessita de algumas obras...

Já estão iniciadas, confesso que não estou completamente satisfeito com o trabalho do empreiteiro.

Por isso, vou continuar a tentar melhorar o que já está feito.

Os meus amigos merecem o melhor.

Abraço a todos e, se não nos virmos antes, um Feliz Natal para todos e o desejo que o novo ano traga mais saúde e a concretização de todos os desejos.

Imagens de Angola





Angola
As imagens e a voz de Teta Lando

Os grandes indiferentes


















Grafitti em Lisboa (Campolide)




Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia
Tinha não sei qual guerra,
Quando a invasão ardia na cidade
E as mulheres gritavam,
Dois jogadores de xadrez jogavam
O seu jogo contínuo.

À sombra de ampla árvore fitavam
O tabuleiro antigo,
E, ao lado de cada um, esperando os seus
Momentos mais folgados,
Quando havia movido a pedra, e agora
Esperava o adversário.
Um púcaro com vinho refrescava
Sobriamente a sua sede.

Ardiam casas, saqueadas eram
As arcas e as paredes,
Violadas, as mulheres eram postas
Contra os muros caídos,
Traspassadas de lanças, as crianças
Eram sangue nas ruas...
Mas onde estavam, perto da cidade,
E longe do seu ruído,
Os jogadores de xadrez jogavam
O jogo de xadrez.

Inda que nas mensagens do ermo vento
Lhes viessem os gritos,
E, ao refletir, soubessem desde a alma
Que por certo as mulheres
E as tenras filhas violadas eram
Nessa distância próxima,
Inda que, no momento que o pensavam,
Uma sombra ligeira
Lhes passasse na fronte alheada e vaga,
Breve seus olhos calmos
Volviam sua atenta confiança
Ao tabuleiro velho.

Quando o rei de marfim está em perigo,
Que importa a carne e o osso
Das irmãs e das mães e das crianças?
Quando a torre não cobre
A retirada da rainha branca,
O saque pouco importa.
E quando a mão confiada leva o xeque
Ao rei do adversário,
Pouco pesa na alma que lá longe
Estejam morrendo filhos.

Mesmo que, de repente, sobre o muro
Surja a sanhuda face
Dum guerreiro invasor, e breve deva
Em sangue ali cair
O jogador solene de xadrez,
O momento antes desse
(É ainda dado ao cálculo dum lance
Pra a efeito horas depois)
É ainda entregue ao jogo predileto
Dos grandes indif'rentes.

Caiam cidades, sofram povos, cesse
A liberdade e a vida.
Os haveres tranqüilos e avitos
Ardem e que se arranquem,
Mas quando a guerra os jogos interrompa,
Esteja o rei sem xeque,
E o de marfim peão mais avançado
Pronto a comprar a torre.

Meus irmãos em amarmos Epicuro
E o entendermos mais
De acordo com nós-próprios que com ele,
Aprendamos na história
Dos calmos jogadores de xadrez
Como passar a vida.

Tudo o que é sério pouco nos importe,
O grave pouco pese,
O natural impulso dos instintos
Que ceda ao inútil gozo
(Sob a sombra tranqüila do arvoredo)
De jogar um bom jogo.

O que levamos desta vida inútil
Tanto vale se é
A glória, a fama, o amor, a ciência, a vida,
Como se fosse apenas
A memória de um jogo bem jogado
E uma partida ganha
A um jogador melhor.

A glória pesa como um fardo rico,
A fama como a febre,
O amor cansa, porque é a sério e busca,
A ciência nunca encontra,
E a vida passa e dói porque o conhece...
O jogo do xadrez
Prende a alma toda, mas, perdido, pouco
Pesa, pois não é nada.

Ah! sob as sombras que sem qu'rer nos amam,
Com um púcaro de vinho
Ao lado, e atentos só à inútil faina
Do jogo do xadrez
Mesmo que o jogo seja apenas sonho
E não haja parceiro,
Imitemos os persas desta história,
E, enquanto lá fora,
Ou perto ou longe, a guerra e a pátria e a vida
Chamam por nós, deixemos
Que em vão nos chamem, cada um de nós
Sob as sombras amigas
Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez
A sua indiferença.



Ricardo Reis
in "Odes"

Soldado conhecido





Foi o treino e o trem
Foi o porto e o barco
O desfile, o abraço
O tambor a rufar

Foi o pranto no cais
O pai sso que fica
Sem jeito p'raida
Foi o eco do mar

Foi a marcha, o calor
Foi o peito inchado
Do homem fardado
Foi o seu funeral

Foi a arma na mão
A besta que nos berra
A força da guerra
O avião

Água que seca no nosso cantil
O lábio que greta, a febre a subir
O sangue que ferve cá dentro de nós
O corpo que treme debaixo do sol
O medo da morte, a noite a gritar
Foi aquilo que a gente não pode falar

Foi o estado maior
Foi a messe e o rancho
O mando, o comando
O quartel general

Os abutres e nós
Foi aquilo que fez
O negócio da guerra
E obrigou a matar

O estilhaço, o napalm
A picada no osso
O Ambriz, o Tomboco
Foi São Salvador

Foi a carta que dói
Da mulher que nos foge
E o puto lá longe
Tão longe de nós

A malta, a maca, o negro que cai
O cabaço da preta, o mulato sem pai
O soldado castrado no corpo e na voz
A mina que rebenta por baixo de nós
Foi o preço, é o braço artificial
É aquilo que a gente não pode calar

Foi a guerra colonial!



Paco Bandeira
do LP "Os ferrinhos, o adufe e a guitarra"

kilumba muxiluanda
















à
cidade de Luanda.



… num rouco e lânguido muxoxo
ao entardecer
a cidade se espreguiça:
ressonâncias das telúricas
núpcias mar/fogo. oh! vida.

levantam voo asas
de alva espuma.
deposita suaves beijos o mar
nas rochas. e sento-me. absorto

o horizonte, em chamas vespertinas
sorri às ondas
em seu erótico
saracotear
de kilumba muxiluanda.

nas esquinas enrugadas da onda
poiso meu rústico braço.
com ele se evola todo o universo
em tão ígneo verso…

oh! urbana ansiedade: choros risos
e sulfídricas sombras.
com frémito, raios de sol
salgados de sal
bebo. a vida mente.




Conceição Cristóvão

O Poema Que Te Não Sei Fazer





















Tenho um poema todo negro no cérebro.
Um sabor a sangue
Do poema vermelho da boca.
Uma ânsia louca e branca
Do poema róseo
Que me ofereces sôfrega e eterna
Ao artista que sou.

A!, fora eu mágico
E com esta sinfónica paleta
Musicar-te-ia o poema
Que fizesse de ti a rainha
De um tão pobre escravo-poeta.



António Cardoso

Viagem
























Não é preciso morar na esquina
nem ser jovem ou belo:
o amor melhor é sempre dentro
e perto.
Chega inesperado,
vem forte vem doce, acalma
e desatina.

Se está na minha rua ou vem de fora,
ele ignora o tempo e a idade:
o amor é sempre
agora.

É vento sutil e mar sem beira:
o amor é destino de quem está aberto,
e dói sem remissão quando negado.

O melhor amor sacia a fome inteira:
mas tem de ser aceito,
tem de ser ousado, tem de ser
navegado.



Lya Luft

Lembro-me de ti


















Lembro-me de ti
Nesse instante absoluto,
A vida conduzida por um fio de música.
Intenso e delicado, ele vai-nos fechando num casulo
Onde tudo será permitido.
Se é só isso que podemos ter,
Que seja forte. Que seja único.
Tão íntimo quanto ouvirmos a mesma melodia,
Tendo o mesmo - esplêndido - pensamento.



Lya Luft

Dear father




27.4.1934 - 1.10.2009

Maternidade
























Dentro de mim,
é que trago
a voz que se não cala,
e a força
que não mais se apaga...

Dentro de mim
é que o caudal-anseio alaga,
e correndo
há-de ir, de mar em mar,
levar
ao fim da terra,
um sinal de infinito...

Dentro de mim,
do meu sangue nutrida,
e sustentada,
é que a voz não é soluço
mas grito!

Dentro de mim,
eco de paz ou de alerta,
dentro de mim,
é que a eternidade é certa!...



Alda Lara

Lisboa, Fevereiro de 1959

No país dos sacanas














Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?
Todos os são, mesmo os melhores, às suas horas,
e todos estão contentes de se saberem sacanas.
Não há mesmo melhor do que uma sacanice
para poder funcionar fraternalmente
a humidade de próstata ou das glândulas lacrimais,
para além das rivalidades, invejas e mesquinharias
em que tanto se dividem e afinal se irmanam.

Dizer-se que é de heróis e santos o país,
a ver se se convencem e puxam para cima as calças?
Para quê, se toda a gente sabe que só asnos,
ingénuos e sacaneados é que foram disso?

Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.
Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice,
porque no país dos sacanas, ninguém pode entender
que a nobreza, a dignidade, a independência, a
justiça, a bondade, etc., etc., sejam
outra coisa que não patifaria de sacanas refinados
a um ponto que os mais não são capazes de atingir.

No país dos sacanas, ser sacana e meio?
Não, que toda a gente já é pelo menos dois.
Como ser-se então nesse país? Não ser-se?
Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.
Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma.


Jorge de Sena

Trem de lata




Almir Sater

Arbitros












A avaliar pela "exibição" de Vasco Santos no FC Porto/Leixões, é de esperar que o árbitro dê, dentro de momentos, uma ajudinha á treinadora do conjunto da S. Caetano á Lapa.

Os árbitros não conseguem nem disfarçar a vontade de vedetismo nem a tentação de se tranformarem em sujeitos da acção.

Se deixarem os contendores "jogarem" não será um Benfica / V. Setúbal, mas prevejo um jogo duro, com tentativa de jogo sujo... mas com vencedor previsível.

Aguardo o final e, mais que tudo (para poder rir ás gargalhadas...) a campanha de intoxicação que se seguirá por parte dos chamados "comentadores" - essas púdicas virgens que vendem notícias como se vendem t-shirts contrafeitas na Feira de Carcavelos.

Felizmente, embora vão ocorrer interferências no resultado... o verdadeiro árbitro apenas se pronunciará em 27 de Setembro.


Adenda:
O jogo começou e terminou com marcação de penalty contra J. Sócrates.

Foi notória a falta de jeito para o "futebol" por parte de MF Leite e, por isso, foi alvo de protecção por parte do árbitro, marcando "faltas a meio campo" quando o adversário se lançava no contra-ataque.
Sócrates não permitiu que o adversário colocasse em campo o seu jogo sujo, o elaborasse e desenvolvesse, com a vista grossa do árbitro.


Comentário:
Á parte o momento inicial em que os "comentadores" admitiram a vitória de Sócrates, a verdade é que com a naturalidade que o poder económico tenta condicionar o poder e, no limite, controlá-lo... a qualidade da democracia foi, como era previsível, imediatamente colocado em causa.
A título de exemplo...A TSF, que inicialmente colocou no ar a opinião dos comentadores, passou em todos os espaços noticiosos seguintes, a emitir apenas a opinião de MF Leite sobre a impossibilidade de acordo para formar o Bloco Central, com o propósito evidente de credibilizar a opinião da senhora e de desvalorizar o oponente por não passar de uma besta intransigente, omitindo todo o noticiário sobre o debate ou a divulgação dos comentários.


Sucedeu nesta estação emissora, como se passará noutras com armas diferentes com propósitos semelhantes.
Normal!

Amor Em Carta Aberta























Foto de "Angola em fotos"





Meu amor venho em carta aberta, dizer o seguinte:
de ti vi nascer a paz!

Crescer árvores nos baldios das minhas solidões onde pássaros
chilreiam e anunciam o sol e a chuva ao deserto.

Tua chegada trouxe o projecto de uma casa com dois cómodos
apinhados de livros, um pomar de rica sombra e nossos netos de
todas as cores, a treparem pelas nossas bengalas e cadeiras de verga
balanceando com seus choros e fraldas molhadas;


De ti recebi o sémen do amor, verdadeiro de mais, para se esbanjar
pela cercania da mágoa. Hoje enquanto o céu caía sobre mim, da
chuva das tuas lágrimas compreendi a imperfeição da minha alma!
E o que me levou a desentender o percurso de nós. Vejo que o
abismo pode estar onde menos se espera, até, imagina, na esquina
desta entrega que nos parecia ser capaz de superar todas as crateras
e enfrentar as trevas... quanta crueldade!

Enfim, este adiamento ao nosso reencontro e aos nossos corações,
talvez traga maior maturidade e aceitação da vida com a
serenidade das coisas simples:

Somente!



Amélia Dalomba

Mbanza Congo

The road to freedom

Winds of Change

























Foto daqui



Ninguém se apercebe de nada.
Brilha um sol violento como a loucura
e estalam gargalhadas na brancura
violeta do passeio.
É África garrida dos postais,
o fato de linho, o calor obsidiante
e a cerveja bem gelada.
Passam. Passam
e tornam a passar.
Estridem mais gargalhadas,
abrindo uma sobre as outras
como círculos concêntricos.
Os moleques algaraviam, folclóricos,
pelas sombras das esquinas
e no escuro dos portais
adolescentes namoram de mãos dadas.
De facto como é mansa e boa
a Polana
nas suas ruas, túneis de frescura
atapetados de veludo vermelho.
Tudo joga tão certo, tudo está
tão bem
como num filme tecnicolorido.
Passam. Passam
e tornam a passar.
Ninguém se apercebe de nada.



Rui Knopfli

Precisa-se de matéria-prima para construir um País

























A crença geral anterior era de que Santana Lopes não servia, bem como Cavaco, Durão e Guterres.
Agora dizemos que Sócrates não serve.
O que vier depois de Sócrates também não servirá para nada.
Por isso começo a suspeitar que o problema não está no trapalhão que
foi Santana Lopes ou na farsa que é o Sócrates.
O problema está em nós. Nós como povo.
Nós como matéria-prima de um país.

Porque pertenço a um país onde a esperteza é a moeda sempre
valorizada, tanto ou mais do que o euro.
Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais
apreciada do que formar uma família baseada em valores e respeito aos
demais.

Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornais jamais poderão
ser vendidos como em outros países, isto é, pondo umas caixas nos
passeios onde se paga por um só jornal e se tira um só jornal,
deixando-se os demais onde estão.

Pertenço ao país onde as empresas privadas são fornecedoras
particulares dos seus empregados pouco honestos, que levam para casa,
como se fosse correcto, folhas de papel, lápis, canetas, clips e tudo
o que possa ser útil para os trabalhos de escola dos filhos... e para
eles mesmos.

Pertenço a um país onde as pessoas se sentem espertas porque
conseguiram comprar um descodificador falso da TV Cabo, onde se frauda
a declaração de IRS para não pagar ou pagar menos impostos.


Pertenço a um país:
- Onde a falta de pontualidade é um hábito;
- Onde os directores das empresas não valorizam o capital humano.
- Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo
nas ruas e, depois, reclamam do governo por não limpar os esgotos.
- Onde pessoas se queixam que a luz e a água são serviços caros.
- Onde não existe a cultura pela leitura (onde os nossos jovens dizem
que é "muito chato ter que ler") e não há consciência nem memória
política, histórica nem económica.
- Onde os nossos políticos trabalham dois dias por semana para aprovar
projectos e leis que só servem para caçar os pobres, arreliar a classe
média e beneficiar alguns.

Pertenço a um país onde as cartas de condução e as declarações médicas
podem ser "compradas", sem se fazer qualquer exame.
- Um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma
criança nos braços, ou um inválido, fica em pé no autocarro, enquanto
a pessoa que está sentada finge que dorme para não lhe dar o lugar.
- Um país no qual a prioridade de passagem é para o carro e não para o peão.
- Um país onde fazemos muitas coisas erradas, mas estamos sempre a
criticar os nossos governantes.
- Quanto mais analiso os defeitos de Santana Lopes e de Sócrates,
melhor me sinto como pessoa, apesar de que ainda ontem corrompi um
guarda de trânsito para não ser multado.
- Quanto mais digo o quanto o Cavaco é culpado, melhor sou eu como
português, apesar de que ainda hoje pela manhã explorei um cliente que
confiava em mim, o que me ajudou a pagar algumas dívidas.
Não. Não. Não. Já basta.

Como 'matéria prima' de um país, temos muitas coisas boas, mas falta
muito para sermos os homens e as mulheres que o nosso país precisa.

Esses defeitos, essa 'CHICO-ESPERTICE PORTUGUESA' congénita, essa
desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até se
converter em casos escandalosos na política, essa falta de qualidade
humana, mais do que Santana, Guterres, Cavaco ou Sócrates, é que é
real e honestamente má, porque todos eles são portugueses como nós,
ELEITOS POR NÓS. Nascidos aqui, não noutra parte...

Fico triste.

Porque, ainda que Sócrates se fosse embora hoje, o próximo que o
suceder terá que continuar a trabalhar com a mesma matéria prima
defeituosa que, como povo, somos nós mesmos.

E não poderá fazer nada...

Não tenho nenhuma garantia de que alguém possa fazer melhor, mas
enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a erradicar
primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá.

Nem serviu Santana, nem serviu Guterres, não serviu Cavaco, nem serve
Sócrates e nem servirá o que vier.

Qual é a alternativa?

Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a
força e por meio do terror?

Aqui faz falta outra coisa. E enquanto essa 'outra coisa' não comece a
surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro para os
lados, ou como queiram, seguiremos igualmente condenados, igualmente
estancados....igualmente abusados!

É muito bom ser português. Mas quando essa portugalidade autóctone
começa a ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento
como Nação, então tudo muda...

Não esperemos acender uma vela a todos os santos, a ver se nos mandam
um messias.

Nós temos que mudar. Um novo governante com os mesmos portugueses nada
poderá fazer.

Está muito claro... Somos nós que temos que mudar.

Sim, creio que isto encaixa muito bem em tudo o que anda a acontecer-nos:

Desculpamos a mediocridade de programas de televisão nefastos e,
francamente, tolerantes com o fracasso.

É a indústria da desculpa e da estupidez.

Agora, depois desta mensagem, francamente, decidi procurar o
responsável, não para o castigar, mas para lhe exigir (sim, exigir)
que melhore o seu comportamento e que não se faça de mouco, de
desentendido.

Sim, decidi procurar o responsável e ESTOU SEGURO DE QUE O ENCONTRAREI
QUANDO ME OLHAR NO ESPELHO.
AÍ ESTÁ. NÃO PRECISO PROCURÁ-LO NOUTRO LADO.

E você, o que pensa?....
MEDITE!



Eduardo Prado Coelho

Relembrar















São meus ainda
Os fragmentos de aroma
Deixados por ti
Em meus lençóis

São viventes ainda
As tuas canções
Cantadas no meu ouvido
De mulher apaixonada

Sem eco
Sem vibração
Nem expressão de rima
São meus minhas ainda
Os gemidos soltos de mim
Na madrugada
Duas horas antes de partires
Com destino sem regresso

São enfim ainda minhas
Estas vivências sem retracto



Cecília Ndanhakukua

'74 - '75






Got no reason for coming to me and the rain running down.
There's no reason.
And the same voice coming to me like it's all slowin' down.
And believe me --

I was the one who let you know
I was sorry-ever-after. '74-'75.
Giving me more and I'll defy
'Cause you're really only after '74-'75.

It's not easy, nothing to say 'cause it's already said.
It's never easy.
When I look on your eyes then I find that I'll do fine.
When I look on your eyes then I'll do better.

I was the one who let you know
I was your sorry-ever-after. '74-'75.
Giving me more and I'll defy
'Cause you're really only after '74-'75



The Connells

Meditemos
























Ante as sandálias furadas
Que entre cascalhos gastei,
Não culpo o chão das estradas,
Culpo os maus passos que dei.



Machado de Assis

Exile





Cold as the northern winds
In december mornings,
Cold is the cry that rings
From this far distand shore.

Winter has come too late
Too close beside me.
How can I chase away
All these fears deep inside?

I’ll wait the signs to come.
I’ll find a way
I will wait the time to come.
I’ll find a way home.

My light shall be the moon
And my path - the ocean.
My guide the morning star
As I sail home to you.

I’ll wait the signs to come.
I’ll find a way.
I will wait the time to come.
I’ll find a way home.

Who then can warm my soul?
Who can quell my passion?
Out of these dreamsqa boat
I will sail home to you.


Enya

Jeito de mato




Almir Sater & Paula Fernandes

Imprecisão























Foto de Pedro Norton de Matos, em "Caminhadas e Descoberta em STP"





Teu olhar é corsário destemido de aventura
Nómada de oceanos
Ternura em traço leve
Leve traço de ternura

Teu rosto é concha de caranguejo
Abrigo de procelas
Beijo em terra longe
Terra longe num beijo

Tuas mãos são gomil de mestiçagem
Telas de delírio
Paisagens de horizonte
Horizontes de paisagem



Olinda Beja

Homo Angolensis























Foto de "Angola em Fotos"




Mastiga a própria desgraça
com ela improvisa uma farra
precisa de uma boa maka
como do ar para respirar
acha o mundo demasiado pequeno
pró seu coração
ri à toa fornica por disciplina
revolucionária
jura que um dia será potência
gosta de funje todos os sábados
e foge do trabalho na segunda
mas fica limão
quando lhe querem abusar



João Melo

Mar





Mar!
Tinhas um nome que ninguém temia:
Eras um campo macio de lavrar
Ou qualquer sugestão que apetecia...

Mar!
Tinhas um choro de quem sofre tanto
Que não pode calar-se, nem gritar,
Nem aumentar nem sufocar o pranto...

Mar!
Fomos então a ti cheios de amor!
E o fingido lameiro, a soluçar,
Afogava o arado e o lavrador!

Mar!
Enganosa sereia rouca e triste!
Foste tu quem nos veio namorar,
E foste tu depois que nos traíste!

Mar!
E quando terá fim o sofrimento!
E quando deixará de nos tentar
O teu encantamento!


Miguel Torga

Eu creio
























Creio em mim mesmo.
Creio nos que trabalham comigo,
creio nos meus amigos e creio na minha família.


Creio que Deus me emprestará
tudo que necessito para triunfar,
contanto que eu me esforce para alcançar
com meios lícitos e honestos.


Creio nas orações e nunca fecharei
meus olhos para dormir,
sem pedir antes a devida orientação
a fim de ser paciente com os outros
e tolerante com os que
não acreditam no que eu acredito.


Creio que o triunfo é resultado de esforço inteligente,
que não depende da sorte, da magia,
de amigos, companheiros duvidosos ou de meu chefe.


Creio que tirarei da vida exactamente o que nela colocar.
Serei cauteloso quando tratar os outros,
como quero que eles sejam comigo.
Não caluniarei aqueles que não gosto.


Não diminuirei meu trabalho por ver
que os outros o fazem.
Prestarei o melhor serviço de que sou capaz,
porque jurei a mim mesmo triunfar na vida,
e sei que o triunfo é sempre resultado
do esforço consciente e eficaz.


Finalmente, perdoarei os que me ofendem,
porque compreendo que às vezes
ofendo os outros e necessito de perdão.



Mahatma Gandhi

Mãe negra























Foto de "Angola em Fotos"


A mãe negra embala o filho.
Canta a remota canção
Que seus avós já cantavam
Em noites sem madrugada.

Canta, canta para o céu
Tão estrelado e festivo.

É para o céu que ela canta,
Que o céu
Às vezes também é negro.

No céu
Tão estrelado e festivo
Não há branco, não há preto,
Não há vermelho e amarelo.
- Todos são anjos e santos
Guardados por mãos divinas.

A mãe negra não tem casa
Nem carinhos de ninguém...
A mãe negra é triste, triste,
E tem um filho nos braços...

Mas olha o céu estrelado
E de repente sorri.
Parece-lhe que cada estrela
É uma mão acenando
Com simpatia e saudade...



Aguinaldo Fonseca

As mãos de outros

























São as mãos de outros que cultivam a comida que comemos
Que cosem as roupas que vestimos,
Que constroem as casas que habitamos.

São as mãos de outros que nos cuidam quando estamos doentes
E que nos erguem quando caimos;
São as mãos dos outros que nos levantam do berço
E finalmente nos descem para o túmulo



James Stockinger

Minha viola






Infidelidade dos caminhos da vida
Enterrou nossos sonhos numa medida
Tirou-nos a felicidade
A maldade nos separou
Que calamidade no nosso seio
Ai que saudade do teu meio

Levarei minha viola
Lá na frente do combate
Para fazer uma canção
Para você oh minha Maria

Cascar nunca foi minha vontade
Casar contigo é uma verdade
Mas tenho medo da nossa idade

Farrar contigo é minha especialidade
Falar contigo com sinceridade
Ao nosso amor aumenta a qualidade

Cascar não é minha vontade
Ficar contigo é minha especialidade
Andar contigo eu tenho vontade
Mas tenho medo da nossa idade
Oh Maria!

Levarei minha viola
Lá na frente do combate
Para fazer uma canção
Pra você oh minha Maria


Irmãos Almeida

Guerra e Futebol



















Foto daqui




Por mero acaso tive acesso a uma entrevista que António Lobo Antunes concedeu á revista Visão.
É impossível não publicar este excerto.



(...)

Visão (V): Ainda sonha com a guerra?
António Lobo Antunes (ALA): Às vezes tenho um pesadelo tremendo. Sonho que me estão a chamar para voltar para África. Tento explicar que já fui, argumentam que tenho que ir. E o sonho acaba aqui. Nunca sonhei com tiros ou com morteiradas. No meio daquilo tudo havia muito humor. Havia um homem, o Bichezas, que cuidava do morteiro que estava ao pé da messe. Tínhamos mais medo dele do que do MPLA porque o Bichezas disparava com o morteiro na vertical. Aquilo subia... e toda a gente fugia. Apesar de tudo, penso que guardávamos uma parte sã que nos permitia continuar a funcionar. Os que não conseguiam são aqueles que, agora, aparecem nas consultas. Ao mesmo tempo, havia coisas extraordinárias. Quando o Benfica jogava, púnhamos os altifalantes virados para a mata e, assim, não havia ataques.

V: Parava a guerra?
ALA: Parava a guerra. Até o MPLA era do Benfica. Era uma sensação ainda mais estranha porque não faz sentido estarmos zangados com pessoas que são do mesmo clube que nós. O Benfica foi, de facto, o melhor protector da guerra. E nada disto acontecia com os jogos do Porto e do Sporting, coisa que aborrecia o capitão e alguns alferes mais bem nascidos. Eu até percebo que se dispare contra um sócio do Porto, mas agora contra um do Benfica?

V: Não vou pôr isso na entrevista...
ALA: Pode pôr. Pode pôr. Faz algum sentido dar um tiro num sócio do Benfica?




António Lobo Antunes

Meditemos























- Não gosto de pretos.
- Então gosta de quem? Dos brancos?
- Também não.
- Já sei. Gosta dos indianos.
- Não. Gosto dos homens que não têm raça.






Mia Couto
in "Terra Sonâmbula"

Plano tecnológico do PSD...


Sem comentários












Chão da Lagoa: Dirigível ia sobrevoar festa do PSD
Zepelim do PND abatido a tiro




Três tiros de caçadeira disparados por desconhecidos "entrincheirados numas árvores" deitaram ontem por terra a intenção do PND-Madeira de sobrevoar com um Zepelim a festa do Chão da Lagoa, organizada pelos sociais-democratas madeirenses, que reúne milhares de pessoas todos os anos.

Os autores dos disparos não estão identificados, mas já foi apresentada queixa contra desconhecidos, segundo o PND.

O dirigível, comprado em Belgrado pelo PND, no qual se podia ler "O PND voa mais alto" e "olho na ladroagem", estava estacionado no parque ecológico do Funchal, na zona oposta ao Chão da Lagoa.

"O clima já era hostil ontem à noite [sábado, dia 25]", relata ao CM José Manuel Coelho, deputado polémico do PND na Assembleia Legislativa Regional, aludindo ao facto de o dirigível estar estacionado no local na véspera da festa. A Polícia Judiciária foi chamada para averiguar o incidente.

"O dirigível está murcho, no chão e, entre chatear Alberto João Jardim e a eventualidade de ferir alguém, optámos por não continuar com a iniciativa", afirmou Gil Canha, dirigente do PND.

"Quando estávamos a calibrar o dirigível para ir directo ao Chão da Lagoa, foram disparados três tiros que atingiram e furaram o equipamento, assustando algumas pessoas que estavam a acampar no local", descreveu Gil Canha, considerando que o PND não poderia continuar a iniciativa em nome da segurança dos participantes da festa.

O Zepelim, autocomandado, estava devidamente autorizado pelo Instituto Nacional de Navegação Aérea, tem sete metros e três motores, cada um com um quilo e potência de cinco mil amperes.

"Era uma brincadeira inocente", concluiu José Manuel Coelho, com mágoa por não ter realizado o voo na festa social-democrata.


Encantamento


De foto de "Angola em Fotos"





Vi as mulheres azuis do equinócio
voarem como pássaros cegos; e os seus corpos
sem asas afogarem-se, devagar, nos lagos
vulcânicos. Os seus lábios vomitavam o fogo
que traziam de uma infância de magma
calcinado. A água ficava negra, à sua volta;
e os ramos das plantas submersas pelas chuvas
primaveris abraçavam-nas, puxando-as num
estertor de imagens. Tapei-as com o cobertor
do verso; estendi-as na areia grossa
da margem, vendo as cobras de água fugirem
por entre os canaviais. Espreitei-lhes
o sexo por onde escorria o líquido branco
de um início. Pude dizer-lhes que as amava,
abraçando-as, como se estivessem vivas; e
ouvi um restolhar de crianças por entre
os arbustos, repetindo-me as frases com uma
entoação de riso. Onde estão essas mulheres?
Em que leito de rio dormem os seus corpos,
que os meus dedos procuram num gesto
vago de inquietação? Navego contra a corrente;
procuro a fonte, o silêncio frio de uma génese.



Nuno Júdice

Sem nada de meu




Dei-me inteiro. Os outros
fazem o mundo (ou crêem
que fazem) . Eu sento-me
na cancela, sem nada
de meu e tenho um sorriso
triste e uma gota
de ternura branda no olhar.
Dei-me inteiro. Sobram-me
coração, vísceras e um corpo.
Com isso vou vivendo.


Rui Knopfli

A pedra no caminho





Toma essa pedra em tua mão,
toma esse poliedro imperfeito,
duro e poeirento. Aperta em
tua mão esse objecto frio,
redondo aqui, acolá acerado.
redondo aqui, acolá acerado.

Segura com força esse granito
bruto. Uma pedra, uma arma
em tua mão. Uma coisa inócua,
todavia poderosa, tensa,
em sua coesão molecular,
em suas linhas irregulares.

Ao meio-dia em ponto, na avenida
ensolarada, tu és um homem
um pouco diferente. Ao meio-dia
na avenida tu és um homem
segurando uma pedra. Segurando-a
com amor e raiva.



Rui Knopfli

Explicação




Porto de abrigo
de naus carregadas de tristeza
vindas das índias longínquas
do coração negro

banham-me ondas
feitas de desejo e pranto

e trazem-me as brisas
os cantares de homens gemendo
sob o peso da angústia.

Por isso
não demoro meus olhos
sobre as belezas do mundo
seus pores-de-sol
montanhas azuladas
seus mares bonançosos.

Que me importa
o perfume das rosas
os lirismos da vida
se meus irmãos têm fome?

Todo o meu ser se debruça
ante o drama da História
que nos legou
esta alma triste
de submissão e sofrimento

Todo o meu ser
vive
o querer dos homens sem norte
à procura
de Certeza



Agostinho Neto

Meditemos





"(...) Quando morreu a consciência do povo, falou-se em autoridade do governo e lealdade dos cidadãos."


Lao-tsé



Não morreu...ainda.

Todos os dias
seja como fôr
o veneno que a ilude é inoculado,
misturando e confundindo realidades.

Ventos do deserto
transportarão gritos...
mil vezes aumentados.
Imagens irreais.

Uns dirão que o vento empurra
el-rey Dom Sebastião
e que a voziaria outra coisa não é
que a alegria da libertação.

Outros oráculos predirão
serem de sofrimento os gritos... que mais não são que o vento,
de redenção e de futuro as imagens... que outra coisa não são que miragens.

Miragens e uivos do vento,
eis tudo o que nos é oferecido.

No dia em que o povo
aceite a morte da sua consciência,
abraçará bovinamente
a dádiva dos falsos salvadores,
dos monstros lamacentos,
que se pretendem fazer passar
por gloriosas fénix renascidas,
cândidas e impolutas virgens.

Não há vento que sempre dure,
nem miragem que não acabe.

Nenhum povo deixará que lhe matem a consciência.

Aquele que o fez, arrependeu-se!



Cacusso

Para ti




Olhos perdidos perscrutando o mar...
... Para lá... que horizontes se marcaram?...
– África d’oiro e sonho! a perdurar
lembranças d’outros dias que passaram...

O curso?... – Uma aventura!...
A vida?... – Um bem, firmado em grandes Ideais!...
Depois...
(que importa o que é «depois»,
quando se tem a certeza
de sermos sempre DOIS!?...)



Alda Lara

Canção de Embalar Meninos Pretos


Foto de "Angola em Fotos"




“Para ser cantado por um macio coro de anjinhos com um fundo
de música de violino e órgão litúrgico, muito suave. Às vezes
ouve-se um soluço, mas isso não é da partitura...”


O negro já não é fera
Nem curiosidade de feira...
O negro já não assusta
Nem diverte
As grandes crianças brancas...
(Pelo menos de pele branca...)
O negro hoje é bom,
E é sério,
Não ri...
O negro, hoje, trabalha,
Calado e certo como uma máquina...
Sai à pesca do atum
E às vezes morre no mar...
(E é uma maçada,
Porque os contratados são poucos...)
E corta o céu de lado a lado com a enxada...
E às vezes leva pancada...




Agostinho Neto

Vanishing Breed




Este video provém do excepcional canal de katydidscorner no YouTube que merece uma longa visita.

Luanda é a cidade
























Foto de Vasylis, aqui



Luanda é a cidade
que não sabe se é cidade
se é país.
Tanto país se encontra nela
tanta cidade compõe este país
tão país e tão cidade
Luanda mulher criança velha
homem que por ela morre e vive
do Mucussu ás alturas do Belize



Costa Andrade

Entardecer

















Do dia, para mim, o entardecer
É, de longe, o mais belo, o mais suave..
É feito de magia, de poder
Sentir o vôo , a leveza duma ave.

De ar carregado de mensagens,
De brumas enroladas em mistério,
Em poentes rasgando outras paragens
Pintando de vermelho o céu etéreo.

Sensação de findar com tal beleza
Não deverá ninguém triste deixar...
Assim se toca o raiar de uma grandeza
Que todos desejamos alcançar!



Ana Bela

Chama quente





Gosto de ti apaixonadamente
De ti, és a vitória, a salvação
De ti que me trouxeste pela mão
Até o brilho desta chama quente

A tua linda voz de água corrente
Ensinou-me a cantar... e essa canção
Foi ritmo nos meus versos de paixão
Foi graça no meu peito de descrente

Bordão a amparar minha cegueira,
Da noite negra o mágico farol,
Cravos rubros a arder numa fogueira!

E eu, que era no mundo uma vencida
Ergo a cabeça ao alto, encaro o sol!
― Águia real, apontas-me a subida!



Florbela Espanca

Estive lá!

We are the world




Michael Jackson (1958-2009)

Viva o Rei!!


















Pensava eu que só a "má moeda" era sinónimo de trapalhadas.
Engano meu!

De cada vez que ouço intervenções da "boa moeda" aqui, aqui ou aqui, mais me convenço da razão de D. Duarte Pio de Bragança e da necessidade que todos temos de repensar, de facto, sem preconceitos a mudança de regime.

"Um Rei é independente dos partidos e dos interesses económicos."


O ridículo é tão grande que a probabilidade de virmos a ouvir algo como isto é muito elevada:
«Sondagens que terão sido feitas manifestam uma preferência por um regime monárquico, mas, repito, nesta matéria a opinião dos partidos é importante».

De acordo com a homilia interpretativa do teólogo e reverendo pároco da Igreja da Lapa a declaração deverá ser interpretada mais ou menos assim:
«Bom, é provável que tenha razão... Sondagens são sondagens e não é agora que vou comentar... Esta declaração deverá ser lida como uma pré-candidatura ao trono... Aconselho-o a não alimentar o tabu por muito tempo... O núcleo duro do pré-candidato deverá lembrar-se dos resultados funestos que tal estratégia obteve...»


SIADAP
























A leitura do post de "O Jumento", "E se o SIADAP fosse adoptado numa empresa privada?", levou-me a rabiscar algo parecido com um comentário.
A sua dimensão levou-me a publicá-lo aqui.



Qualquer que seja a entidade em questão – empresa privada ou serviço público – terá que ter um sistema de organização o mais simples, claro e funcional possível.
Deverá ter um sistema sério, claro, lógico, justo de avaliação que sirva não apenas de avaliação de cada trabalhador mas que seja, pela obtenção de objectivos, como que um sistema de auditoria interna.

O sistema de avaliação de alguma grandes multinacionais baseia-se não numa “terraplanagem” de objectivos (tipo na ASAE cada fiscal tem que efectuar não sei quantas fiscalizações, detenções, apreender não sei quantas toneladas de material deste ou daquele tipo, fechar não sei quantos restaurantes ou á Divisão de Trânsito da PSP e aos fiscais da EMEL ser exigido a apresentação de x multas mensais e processos de contra-ordenações ou aumentar anualmente em y por cento os mesmos itens) mas na verificação do trabalho desenvolvido por cada colaborador, nas suas capacidades, no que a empresa espera dele em particular na obtenção de objectivos.
O objectivo do colaborador x não tem que ser o mesmo do y.
Os objectivos não são estratosféricos mas de acordo com aquilo que efectivamente é exigível permitindo que o colaborador tenha consciência da real possibilidade de lá chegar e até ultrapassar essas expectativas.
É a possibilidade que é dada ao colaborador em trabalhar com formação e a colocação de fasquia em local atingível que gera a motivação.
Motivação acrescida pela certeza do rigor na avaliação, a certeza que alcançar a classificação máxima depende apenas de cada um, pela inexistência de cotas para os vários níveis de classificações. Entende-se que os Departamentos de Recrutamento fazem o seu trabalho e, do leque total de candidatos, com as devidas oscilações (que se pretendem mínimas), escolheram os melhores ou, se não são os melhores, a organização quer torná-los como tal e o sistema de avaliação fará a devida aferição.

Um tal sistema de avaliação poderá existir em todo o lado, até na FP.
Porém o SIADAP é tudo menos o que ficou enunciado.

Num mundo perfeito, com as devidas adaptações, deveria de facto existir um sistema de avaliação que premiasse o mérito e o desempenho.
Num mundo perfeito, a anterior classificação de serviço que o SIADAP veio substituir deveria funcionar porque era simples e, se rigoroso, teria as suas consequências na separação entre o trigo e o joio embora não enunciasse objectivos ou pudesse ser ferramenta de auditoria.
O que a realidade demonstra é que o anterior sistema faliu por falta de rigor dos avaliadores uma vez que todos os funcionários eram muito bons.
Ser bom era demérito e abaixo de bom, sem que a situação fosse bater nas comissões paritárias eram tão raras ou tão difíceis de encontrar como a vida o é no universo.
Para substituir este malfadado sistema inventou-se uma adaptação que está longe de ser justo e, por isso, se encontra nos antípodas de algo que deveria ser razoável.
Neste, como noutros casos, houve um falhanço total de comunicação, os objectivos foram muitas vezes absurdos e incompreensíveis. A negociação com o colaborador não passou da imaginação de quem adaptou o sistema e a fixação dos objectivos não foi outra coisa que não fosse a tal “terraplanagem” sem ter em conta a capacidade individual e a sua valorização.
O sistema burocrático de suporte, se levado ás últimas consequências, terá que ser (porque não há…) pesadíssimo, absurdo e, na maior parte dos casos impraticável e injusto.
Como é que um avaliador, por exemplo, pode ser justo com 200 colaboradores a avaliar, dispersos por várias unidades de trabalho, cada uma das quais com um ou vários níveis de chefias intermédias, que não avaliam mas aos quais compete transmitir informação??
Tendo em conta que todos os factores positivos e negativos que influenciam a avaliação final estão dependentes de prova factual, imagine-se o peso, o tempo e os gastos económicos que tal sistema comporta.

Os funcionários públicos tiveram que engolir a pastilha sem tugir nem mugir, nestes exactos termos!

Não tenho a mais pequena dúvida que a separação entre os bons e os maus, entre quem se dedica e quem se está nas tintas, tem que ser feito.
Parece-me óbvio que quem mais trabalha, mais se dedica, melhor qualidade e maior quantidade de trabalho apresenta deverá também, mais rapidamente, progredir na carreira e auferir retribuição em função desse desempenho.
Estes são princípios básicos que qualquer cidadão português, quer tenha sido funcionário público ou trabalhador de empresa privada conhece, respeita e defende.
É especialmente válido para todos os que, equiparados a cabo-verdianos ou ucranianos, optaram por, em algum momento da sua vida, ser emigrantes.

No estrangeiro, salvo raras excepções, os trabalhadores trabalham, são formados e respeitados. A idade (experiência) é uma mais valia e a juventude e a formação uma oportunidade de progresso e inovação.
Em Portugal vinga o princípio de que todos os trabalhadores são preguiçosos e sem formação e, por isso, merecedores de baixos salários que, por sua vez, são apresentados como vantagem competitiva do país.
Aos jovens é descredibilizada a sua formação e valorizada a falta de experiência. Aos experientes, ditos velhos, é realçada a sua idade em detrimento da experiência profissional.

Não admira, pois, que sejamos revoltados e ingovernáveis… Isso prova apenas a desorganização existente… e a injustiça da avaliação que nos é comummente feita.

O Luxemburgo não improvisa, não tem recursos naturais, tem cerca de 20 % de mão de obra portuguesa, não tem empresários portugueses… e é um país viável e igualmente muito mais justo.

Deliramos quando as estatísticas, as sondagens (agora tanto em moda…) ou simples inquéritos de rua comprovam que, na improvisação e no desenrascanço, somos os maiores!

Improvisámos em quase todas as crises históricas.
Improvisámos na expulsão dos judeus e na conversão forçada de todos os cristãos-novos…
Improvisámos na introdução da Inquisição… para que D Manuel tentasse aceder ao trono de Espanha….
Improvisou D Sebastião e mais as suas bravatas…~
Improvisámos em 1580…
Improvisámos nas lutas liberais… ao ponto de termos sido temporariamente governados por aquilo que hoje seria um Alto-Comissário da ONU (os ingleses…)
Improvisámos na I República…
Improvisaram os golpistas do 28 de Maio… que não assumiram responsabilidades e, por ignorância própria, foram a Coimbra buscar o ditador…
Improvisou Salazar…porque além do terror e da intriga política para equilibrar e consolidar o seu poder mais nada fez!!
Improvisou ainda o ditador por não ter compreendido que apenas a descolonização servia os interesses do país… A responsabilidade da guerra, de todos os mortos que ocorreram no período entre 1961 e 1974, bem como de todos aqueles, dos povos das antigas colónias portuguesas, que ocorreram posteriormente são crédito na sua conta pessoal pela sua cegueira, sua obstinação…
Improvisaram as Forças Armadas em 25 de Abril porque, não tivesse sido a coragem pessoal de Salgueiro Maia na Av Ribeira das Naus e o desrespeito pelo povo da ordem de recolher obrigatório… teríamos provavelmente saído do Salazar-Caetanismo e caído num consulado extremista de Kaulza de Arriaga ou na passagem simples e pacífica de poder de Caetano para Spínola com resolução dos problemas corporativos das Forças Armadas ou, finalmente, na guerra civil…ou, mais verdadeiramente, na guerra entre facções militares…
Improvisámos em 25 de Novembro, porque a parte rectangular da Península Ibérica já nada interessava ao exterior e, nessa medida… “são brancos, que se entendam”. A guerra, civil desta vez, esteve mais perto que nunca!
Não tenho a certeza que não tenhamos improvisado na integração cega e incondicional na União Europeia. Tenho sérias reservas se estrategicamente este é o caminho (a auto-estrada, o aeroporto, o TGV…) por onde passa o futuro e a afirmação do país…

O saudosismo por um lado pelo barreirismo extremista e folclórico de 74/75, que se “converteu” á democracia burguesa num sucedâneo de marca BE, por outro lado pelo amorfismo independente e salvador de todos os PRD’s que permita a condução do país a um paraíso ético-poético-político (que existe apenas no mundo virtual) ou, ainda, a deriva paternalista e autoritária, que pretende a interrupção da democracia para reformar…a democracia, levam-nos, de novo, a novos improvisos…

Somos muito bons (avaliação própria de desempenho) e muito improvisadores (criativos… na nossa interpretação do vocábulo, perante o avaliador).

O futuro é cada segundo que passa e não aguarda que nós nos organizemos e entendamos!

Numa verdadeira avaliação do SIADAP… Portugal teria nota claramente negativa.
Como não estamos em auto-gestão (acho…) é lícito entregar a nota negativa a alguns dos nossos mais dilectos responsáveis.

O povo é, como os frangos, os suínos e bovinos, engordado com toxinas!

Meditemos























"Não quero que minha casa seja cercada por muros de todos os lados e que as minhas janelas estejam tapadas. Quero que as culturas de todos os povos andem pela minha casa com o máximo de liberdade possível."


"As divergências de opinião não devem significar hostilidade. Se fosse assim, minha mulher e eu deveríamos ser inimigos figadais. Não conheço duas pessoas no mundo que não tenham tido divergências de opinião. Como seguidor da Gita (Bhagavad Gita), sempre procurei nutrir pelos que discordam de mim o mesmo afecto que nutro pelos que me são mais queridos e vizinhos.!"


"Acredito na essencial unidade do homem, e, portanto na unidade de tudo o que vive. Por conseguinte, se um homem progredir espiritualmente, o mundo inteiro progride com ele, e se um homem cai, o mundo inteiro cai em igual medida."


"Uma civilização é julgada pelo tratamento que dispensa às minorias."


"A regra de ouro consiste em sermos amigos do mundo e em considerarmos como uma toda a família humana. Quem faz distinção entre os fiéis da própria religião e os de outra, deseduca os membros da sua religião e abre caminho para o abandono, a irreligião."


"A minha preocupação não está em ser coerente com as minhas afirmações anteriores sobre determinado problema, mas em ser coerente com a verdade."


"O erro não se torna verdade por se difundir e multiplicar facilmente. Do mesmo modo a verdade não se torna erro pelo facto de ninguém a ver."


"A não-violência, em sua concepção dinâmica, significa sofrimento consciente. Não quer absolutamente dizer submissão humilde à vontade do malfeitor, mas um empenho, com todo o ânimo, contra o tirano. Assim um só indivíduo, tendo como base esta lei, pode desafiar os poderes de um império injusto para salvar a própria honra, a própria religião, a própria alma e adiantar as premissas para a queda e a regeneração daquele mesmo império."





Mahatma Gandhi

De que Serve a Bondade

















1

De que serve a bondade
Quando os bondosos são logo abatidos, ou são abatidos
Aqueles para quem foram bondosos?

De que serve a liberdade
Quando os livres têm que viver entre os não-livres?

De que serve a razão
Quando só a sem-razão arranja a comida de que cada um precisa?

2

Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos
Por criar uma situação que torne possível a bondade, e melhor;
A faça supérflua!

Em vez de serdes só livres, esforçai-vos
Por criar uma situação que a todos liberte
E também o amor da liberdade
Faça supérfluo!

Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos
Por criar uma situação que faça da sem-razão dos indivíduos
Um mau negócio!



Bertold Brecht

Balada da Flor de Espuma
























Foto de Salucombo_Jr em "Portfolio Photografico"





Descalça vai pro mercado
Don’ Ana pelas barrocas
vai formosa e vai segura...

Com quatro notas de cem,
em alegre sinecura
leva na boca o refrém
duma canção de ternura.
Vai formosa, e tão segura
Don’ Ana pelas barrocas...

Don’ Ana foi ao mercado,
foi ao mercado do Prenda
com quatro notas de cem
e com uma fome tremenda!
Com seu passinho estugado,
descalça pelas barrocas,
foi de quitanda em quitanda
Don’ Ana pelo mercado,
depressa, como quem anda
a cogitar no almoço.
Pelo mercado do Prenda,
foi num alegre alvoroço
com quatro notas de cem
florindo-lhe a mão pequena.

Mas de quitanda em quitanda.
saltando daqui para além
– com que surpresa, coitada!
com quatro notas de cem
Don’ Ana não comprou nada!

Cada vez mais lentamente,
foi de quitanda em quitanda
olhando p’ra toda a gente.
E as quatro notas de cem,
quatro pétalas de espuma
como uma coisa indecente,
como flor de frustração,
foram murchando uma a uma...

Descalça pelas barrocas,
Don’ Ana voltou p’ra casa
devagar, como quem chora.
E as quatro notas de cem
que Don’ Ana deitou fora
com o desgosto de as ter,
cantam ainda o refrém
numa vozinha cansada:

“mal-me-quer
bem-me-quer,
muito-pouco,
ou nada...”



Henrique Abranches

(primeira fase do amor terapêutico)

















Não é difícil arrumar um poema
que te leve aos poucos para a enorme noite;
ter-me-ás de novo. Boa sorte.
E a lua próxima de ti.
Fogo contigo. Os luares enchem-te o corpo.
Divindades e mãos masculinas abrem-te conchas.
E os frutos prestes a encher a terra.
Não cairás porque o chão aproxima-se de ti;
como fruto ofereces-te à terra.
Prestes a abrir-se o poemário. O pomar.
O pêndulo: as mamas em pertubação.
Repetes o torpor do clímax. Não me ouves?
As mãos acumulam orgasmos contadinhos,
entrego-tos como vinho beberás
tardes tropicais iguais à sobrevivência;
tardes que povoam de emgriaguez um mundo
e o fundo da época. Tardes de brasa
em teu fundo frio.



João Tala

os mortos não dormem
























Os mortos não dormem são quissanjes
de profundos teclados em repouso
Atravessam levemente o rio
da eternidade e a sua voz levita e é o maximbombo
de um certo munhungo extraterrestre
Discam os signos da noite
nas grandes mansões em que sonhamos
Os mortos não dormem caminham
connosco vivendo a vida que esquecemos


José Luís Mendonça

Ainda Não Fiz Um Poema De Amor























Foto de Vitaly-Sokol, via "O Jumento"




Falta-me fazer o poema de amor
Consciente,
Sentindo os pés bem firmes na terra
E o sexo como a semente
Que promete em breve ser uma flor.

Falta-me fazê-lo
E mandá-lo à noite
Quando o corpo dela nu
Se mirar nos vidros da janela
Fugindo das roupas que o prendem.

Depois colher a flor
Como a ave que leva no bico
Uma palha para o ninho,
Ou como o viajante sequioso
Que bebe na fonte do caminho...



António Cardoso

The ball




Orlando Mesquita

Je ne regrette rien




Edith Piaf & Isabelle Boulay

Adultério Literário



















Alguém me disse que pareço mais velho
Sinceramente acho que sim
Fui envelhecido pelas muitas vidas que vivi
Já fui viajante, religioso,
Revolucionário, músico,
Louco... e até trabalhador.


Hoje sou poeta, faço versos
Uso as palavras
Sou possuído por elas
Tomam-me de assalto
E quando percebo, escrevo
Saem de mim correndo
Para encontrarem seu papel
São como as espumas
Que o mar não consegue esconder,
Brotam, esbravejam, quebram


Tenho um caso de amor com as palavras
Um romance secreto, adultério
São minhas amantes caladas
E me cobram encontros noturnos
Na calada da noite, na praia...
E eu vou, contestando a moral
Ao encontro fugaz dessas doidas
Que me enchem a mente arredia
Fazendo de mim refém
Se não escrevo, maltratam-me
Pois não saem da cabeça


Tenho que escreve-las, me ordenam
Dominam-me, como na cama
Domina a mulher sorrateira
Enlouquecem-me até que de gozo
Chego a explodir muitas delas
Prazer, choro, alívio
Elas já não me aprisionam
Agora me deixam livre...
Livre ???


Daqui a pouco começa tudo de novo...




José Barbosa Júnior

Sócrates...é responsável pela gripe H1N1




Absolutamente fantástico!!!

Lisboa - 1971
















A Ovídio Martins e Osvaldo Osório





Em verdade Lisboa não estava ali para nos saudar.
Eis-nos enfim transidos e quase perdidos
no meio de guardas e aviões da Portela.

Em verdade éramos o gado mais pobre
d'África trazido àquele lugar
e como folhas varridas pela vassoura do vento
nossos paramentos de presunção e de casta.

E quando mais tarde surpreendemos o espanto
da mulher que vendia maçãs
e queria saber donde... ao que vínhamos
descobrimos o logro a circular no coração do Império.

Porém o desencanto, que desce ao peito
e trepa a montanha,
necessita da levedura que o tempo fornece.

E num caminhão, por entre caixotes e resquícios da véspera,
fomos seguindo nosso destino
naquela manhã friorenta e molhada por chuviscos d'inverno



Arménio Vieira

Companheiros






















Vinde companheiros!
Que os vossos braços se abram
Aos nossos braços de amigos.

– Toma uma cadeira. Senta-te. Conta:
Desditas, anseios, desventuras
e desse fulgor ardente que se adivinha
no teu olhar, cavado das viagens,
como uma estrela numa noite morta...

Nós somos todos irmãos.

Ah, quando te invadir a solidão
e olhares à volta e sentires apenas
a presença perturbável dos teus ombros,
não estás só!
Vem até nós.
Estarás comigo.
Não será morta, a morta esperança
do teu olhar sem luz.

Mas, que fôlego ingénuo na aventura
te lançou em tão inóspitos lugares
deixando assim o teu lar, amigo?
Não contes, eu sei qual foi. Foi
essa vontade de produzir, de criar, de vencer...

Oh! nossa terra, oh nossa mãe!
Como se casam em nós os prodígios
da tua natureza forte!
O húmus inculto das florestas
brota em nós, freme em nós, canta em nós
no grito de todos os gritos,
na ânsia da tua descoberta!...
O amor dos nossos corações
transborda da nossa alma
como a força impulsiva dos teus rios...

Vês, companheiro, eu sou teu irmão,
toma a minha mão, dá-me a tua mão.




Alexandre Dáskalos