Soldado conhecido





Foi o treino e o trem
Foi o porto e o barco
O desfile, o abraço
O tambor a rufar

Foi o pranto no cais
O pai sso que fica
Sem jeito p'raida
Foi o eco do mar

Foi a marcha, o calor
Foi o peito inchado
Do homem fardado
Foi o seu funeral

Foi a arma na mão
A besta que nos berra
A força da guerra
O avião

Água que seca no nosso cantil
O lábio que greta, a febre a subir
O sangue que ferve cá dentro de nós
O corpo que treme debaixo do sol
O medo da morte, a noite a gritar
Foi aquilo que a gente não pode falar

Foi o estado maior
Foi a messe e o rancho
O mando, o comando
O quartel general

Os abutres e nós
Foi aquilo que fez
O negócio da guerra
E obrigou a matar

O estilhaço, o napalm
A picada no osso
O Ambriz, o Tomboco
Foi São Salvador

Foi a carta que dói
Da mulher que nos foge
E o puto lá longe
Tão longe de nós

A malta, a maca, o negro que cai
O cabaço da preta, o mulato sem pai
O soldado castrado no corpo e na voz
A mina que rebenta por baixo de nós
Foi o preço, é o braço artificial
É aquilo que a gente não pode calar

Foi a guerra colonial!



Paco Bandeira
do LP "Os ferrinhos, o adufe e a guitarra"
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2 Responses
  1. Este comentário foi removido pelo autor.

  2. Caro Cacusso,

    Esta canção pode não ser uma obra-prima, mas tem uma força tremenda, sobretudo para quem passou pelas situações nela descritas. As imagens que neste video a acompanham dão-lhe muito mais força ainda.

    Confesso que não conhecia esta canção. Aliás, não sou propriamente um fã de Paco Bandeira, por isso dificilmente daria com ela. Muito obrigado por ma revelar.

    Um abraço

    Fernando Ribeiro ("Denudado")


    P.S. - Está visto que estou em maré de recordações. Há pouco tempo fui convivado por um senhor que não conheço de lado nenhum - chamado Inácio Rebelo de Andrade - para escrever no seu blogue um artigo sobre a "contratação" de trabalhadores forçados para as roças de café. Aceitei o convite, tendo em vista a qualidade do blogue. Escarafunchei a minha memória e fui desenterrando recordações de coisas que vi e, sobretudo, que ouvi da boca dos próprios. O texto que escrevi é literariamente muito fraco, mas pode ser lido aqui:
    http://huambino.blogs.sapo.pt/84610.html.