O mágico sopro das calemas





















O movimento da luz aquece
as paredes de vidro do teu coração
deixa-me dizer-te outra vez
o mágico sopro das calemas
de oiro em brasa no ouvido
teia de sol batuque de saliva
de um deus perfeito que constrói
a sinopse de prata do teu útero
à sombra das folhas do tabaco
deixa-me escutar outra vez
de oiro em brasa no ouvido
o teu perfume de jibóia sobre a nuca.



José Luis Mendonça

Aprendendo a liberdade






















"Liberty leading the People", Eugène Delacroix



Para ser livre
É necessário possuir força
A determinação de elevar-se
Acima do elogio e da censura
Do direito e do dever
Do certo e do errado
Da virtude e do vício
Do prazer e da dor
Do bem e do mal
Acima de todos os deuses
E acima de si mesmo

Reaprender diariamente
A ver o mundo com novos olhos
Saber criar e destruir
Saber punir e recompensar
Depois pular por cima de si
E rir de seus próprios juízos

Prescindir do absoluto
Prescindir das certezas
Tornar-se mestre na arte
De ser um eterno devir
E amá-lo


André Díspore Cancian

Estou cansada de ser gente






















Estou cansada de ser gente...
Quero um Destino diferente!
Nem ave, nem flor, nem semente...
Quero um Destino diferente!

Gostava de ser estrada!
Uma estrada da vida,
bem pisada,
bem calcada,
bem corrida...

Que a chuva me fustigasse
e o vento me desgrenhasse!
Que a força do furacão
atirasse as minhas pedras
ao meu próprio coração!

Que me corressem os mendigos
com a sacola pesada
e à noite, a horas mortas,
os garotos delinquentes
que roubam fruta nas hortas,
me cuspissem os vestidos
de cascas e de sementes...
E ao domingo, saltitantes,
as meninas do orfanato
com o seu ar sério e abstracto,
me pisassem toda, toda,
me deixassem bem pisada,
passeada,
remexida,
esfarrapada...
Que bom seria ser estrada!




Amélia Veiga

Declaração de amor

Blusa cor de rosa



























Blusa cor de rosa
sobre o ondular marítimo
da tua pele negra

Blusa cor de aves úberes
em voo alísio
nos olhos profundos da mãe-Terra

Blusa cor de rosa
vela enfunada pela anémona
dos teus seios feiticeiros

onde a minha boca
como uma onda quer
in loco mover-se.



José Luís Mendonça

Sobrevivemos!!

O espantoso texto que o Denudado publica no seu brilhante A Matéria do Tempo (e que também já recebi por email) recordou-me um outro que encontrei pela primeira vez no site da TSF, em Fevereiro de 2003, quando a página daquela rádio era um espantoso fórum...
Alguns recordar-se-ão. Aqui fica.


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Olhando para trás, é difícil acreditar que estejamos vivos.
Nós viajávamos em carros sem cintos de segurança ou air bag.
Não tivemos nenhuma tampa à prova de crianças em frascos de remédios, portas, ou armários e andávamos de bicicleta sem capacete, sem contar que pedíamos boleia. Bebíamos água directamente da mangueira e não da garrafa.
Gastámos horas a construir os nossos carrinhos de rolamentos para descer ladeira abaixo e só então descobríamos que nos tínhamos esquecido dos travões. Depois de colidir com algumas árvores, aprendemos a resolver o problema.
Saíamos de casa de manhã, brincávamos o dia inteiro, e só voltávamos quando se acendiam as luzes da rua.
Ninguém nos podia localizar.
Não havia telemóveis.
Nós partimos ossos e dentes, e não havia nenhuma lei para punir os culpados. Eram acidentes. Ninguém para culpar, só a nós próprios.
Tivemos brigas e esmurramos uns aos outros e aprendemos a superar isto.
Comemos doces e bebemos refrigerantes mas não éramos obesos.
Estávamos sempre ao ar livre, a correr e a brincar.
Compartilhamos garrafas de refrigerante e ninguém morreu por causa disso.
Não tivemos Playstations, Nintendo 64, vídeo games, 99 canais a cabo, filmes em vídeo, surround sound, telemóveis, computadores ou Internet.
Nós tivemos amigos. Nós saíamos e Íamos ter com eles. Íamos de bicicleta ou a pé até casa deles e batíamos à porta.
Imaginem tal uma coisa! Sem pedir autorização aos pais, por nós mesmos! Lá fora, no mundo cruel! Sem nenhum responsável!
Como conseguimos fazer isto?
Fizemos jogos com bastões e bolas de ténis e comemos minhocas e, embora nos tenham dito que aconteceria, nunca nos caíram os olhos ou as minhocas ficaram vivas na nossa barriga para sempre.
Nos jogos da escola, nem toda a gente fazia parte da equipa. Os que não fizeram, tiveram que aprender a lidar com a decepção...
Alguns estudantes não eram tão inteligentes quanto os outros. Eles repetiam o ano! Que horror!
Não inventavam testes extras. Éramos responsáveis por nossas acções e arcávamos com as consequências.
Não havia ninguém que pudesse resolver isso. A ideia de um pai nos protegendo, se não respeitássemos alguma lei, era inadmissível! Eles protegiam as leis!
Imaginem! A nossa geração produziu alguns dos melhores compradores de risco, criadores de soluções e inventores.
Os últimos 30 anos foram uma explosão de inovações e novas ideias. Tivemos liberdade, fracasso, sucesso e responsabilidade, e aprendemos a lidar com isso.
Tu és um deles? Parabéns!

Chove





















Chove,

E a trovoada
é um batuque incessante,
uma estranha batucada.

Os raios são setas de fogo
que mesteriosamente, em tom de guerra,
espíritos do mal lançam da Altura
para incendiar a Terra.

O vento
Ora violento, ora brando,
o vento é o cazumbi dos cazumbis
-o deus do mar, do rio e da floresta-
que vai cantando e dançando,
em tragicómica festa,
o seu coro de mil vozes,
os seus bailados febris.

As nuvens negras são virgens tontas,
quais almas do outro mundo,
errando como sonambulas
pelo céu negro e profundo...
E a chuva, constante e forte,
é o pranto (parece eterno)
dos deuses negros que a Morte
sacrificou no Inferno.




Geraldo Bessa Victor

Território proibido




























os olhos e os mistérios
tudo que conheço
tudo que amo

teus olhos claros revelam
alma sacra
destino certo

teu manto escuro guarda
tantos segredos
terra sagrada

e eu proibido
de atravessar fronteiras
me deitar em tua paz


(o eu lírico da poesia é um soldado israelita e sua musa uma mulher palestiniana)




Ana Paula da Silva

Poemas que eu escrevi na areia

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I

Meu bergantim, onde vens,
que te não posso avistar?
Bergantim! Meu bergantim!
Quero partir, rumo ao mar...

Tenho pressa! Tenho pressa!
Já vejo abutres voando
além, por cima de mim...
Tenho medo... Tenho medo
de não me chegar ao fim.

Meus braços estão torcidos.
Minha boca foi rasgada.
Mas os olhos, estão bem vivos,
e esperam, presos ao Céu...

Que haverá p'ra além da noite?
p'ra além da noite de breu?

Ah! Bergantim, como tardas...
Não vês meu corpo jazendo
na praia, do mar esquecido?...
Esse mar que eu quis viver,
e sacudir e beijar,
sem ondas mansas, cobrindo-o...

Quem dera viesses já...
que vai ficando bem tarde!
E eu não me quero acabar,
sem ver o que há para além
deste grande, imenso céu
e desta noite de breu...

Não quero morrer serena
em cada hora que passa
sem conseguir avistar-te...
Com meu olhar enxergando
apenas a noite escura,
e as aves negras, voando...

II

Meu bergantim foi-se ao mar...
Foi-se ao mar e não voltou,
que numa praia distante,
meu bergantim se afundou...

Meu bergantim foi-se ao mar!
levava beijos nas velas,
e nas arcas, ilusões,
que só a mim me ofereci...

Levava à popa, esculpido,
o perfil, leve e discreto,
daqueles que um dia perdi.

Levava mastros pintados,
bandeiras de todo o mundo,
e soldadinhos de chumbo
na coberta, perfilados.

Foi-se ao mar meu bergantim,
Foi-se ao mar... nunca voltou!

.........................

E por sete luas cheias
No areal se chorou...




Alda Lara




Teresa Tarouca
Meu bergantim

Sarita




















Sarita mora no musseque,
sofre no musseque,
mas passeia garrida na baixa
toda vermelha e azul,
toda sorriso branco de marfim,
e os brancos ficam a olhar,
perdidos no seu olhar.
Sarita usa brincos amarelos de lata
penteado de deusa egípcia
andar de gazela no mato,
desce à cidade
e sorri para toda a gente.
Depois, às seis e meia,
Sarita vai viver pró musseque
com os brancos perdidos no seu olhar!




António Cardoso
In No reino de Caliban II - antologia
panorâmica de poesia africana de ex-
pressão portuguesa

Dana


















Pelo trajecto sangrento das acácias,
da Mafalala às areias da Polana,
ou à maré morta da catembe;
do Ho Ling à Casa Elefante,
da Casa Viegas ao prédio Pott;
da opulenta sombra do cajueiro
à nobre majestade do eucalipto,
ainda resiste, na memória, uma cidade.

Por tardes de longa canícula,
sentada em seu regaço, a menina
dos cabelos cor de cobre registra-lhe,
com paciente labor, na brancura
do A-3, a minúcia do perfil
que esbatido aos poucos, lentamente,

no deserto da memória vai morrendo.
Dele, em tempo, só restará o sal
teimoso que, a algum verso,
há-de emprestar o travo amargo
e o que, no rigor afectuoso do seu traço,
da insanável ferida oculta,
é, obstinadamente, a visível cicatriz.




Rui Knopfli

Devia morrer-se de outra maneira






Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão subtil... tão pólen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...




José Gomes Ferreira

Ordem de esquecimento





















Cruel é o camarão tanto se dar ao esforço da comida com
tanta perna a pedalar no limo, a filtrar o céu das águas


Reter em cada sorvo
não mais do que além do que a milésima porção do seu
tão leve corpo,
ainda assim pesado, difícil de suster, e trabalhoso.


Melhor é o leão só carecer do vento que anuncia a caça,
erguer o olhar, aferir o curso da manada, lenta ao seu
encontro e à margem do alcance, explodir a massa
muscular
rasgar a chana a floração avulsa de uma ferida quente.


Para além disso, breve audácia, o leão namora e dorme.


Habita o cio.




Ruy Duarte de Carvalho

Antigamente era







Antigamente era o eu-proscrito
Antigamente era a pele escura-noite do mundo
Antigamente era o canto rindo lamentos
Antigamente era o espírito simples e bom

Outrora tudo era tristeza
Antigamente era tudo sonho de criança

A pele o espírito o canto o choro
eram como a papaia refrescante
para aquele viajante
cujo nome vem nos livros para meninos

Mas dei um passo
ergui os olhos e soltei um grito
que foi ecoar nas mais distantes terras do mundo

Harlem
Pekim
Barcelona
Paris
Nas florestas escondidas do Novo Mundo

E a pele
o espírito
o canto
o choro
brilham como gumes prateados

Crescem
belos e irresistíveis
como o mais belo sol do mais belo dia da Vida.



Agostinho Neto

Uma Onda e África




















1
Uma onda
é amar-te e medo
ciúme deste mar
tan-tan do meu naufrágio
numa canoa de pétala
de acácia

2
Uma jangada
que me tragas feita
de troncos de palmeira
ou de um barco de negreiros
afundado
e dentro de uma concha
uma notícia

3
Amar-te é esta distância
e junto ao mar
senti-lo viajado
azul e com estrondo

4
Amar-te é uma fogueira
sobre a onda
sítio de uma lavra
de milho ou mandioca
na areia que me foge
sob a espuma

5
Amar-te é isto
com o teu perdão
não agarrar a onda
e mastigar-lhe o sal
que apenas sei
ter já beijado
a tua praia

6
Uma onda
que penso.
Outra em que reparo.
A mesma em que pensei
e que retorna ao mar.

7
Porque ficar a onda
— o impossível
(dizem que não havia
mar
remos de sol
nem barcos afundados).



Manuel Rui
A Onda

Os teus olhos


























Eu vi com os meus olhos os teus olhos
Transmitindo em mim genuínos orgulhos
E misturando-os em meus sonhos,
Era o significado de palavras de carinhos,
O resumo de todas as minhas carícias,
A ideia primordial de todas as ideias,
E de felicidade de viver a vida magnífica
Que é pertencermo-nos, significa.



Hilário J. D. Tomocene

O caminho das estrelas















Seguindo
o caminho das estrelas
pela curva ágil do pescoço da gazela
sobre a onda sobre a nuvem
com as asas primaveris da amizade

Simples nota musical
Indispensável átomo da harmonia
partícula
germe
cor
na combinação múltipla do humano

Preciso e inevitável
como o inevitável passado escrevo
através das consciências
como o presente

Não abstracto
incolor
entre ideias sem cor
sem ritmo
entre as arritmias do irreal
inodoro
entre as selvas desaromatizadas
de troncos sem raiz

Mas concreto
vestido do verde
do cheiro novo das florestas depois da chuva

da seiva do raio do trovão
as mãos amparando a germinação do riso
sobre os campos da esperança

A liberdade nos olhos
o som nos ouvidos,
das mãos ávidas sobre a pele do tambor
num acelerado e claro ritmo
de Zaires Calaáris montanhas luz
vermelha de fogueiras infinitas nos capinzais
violentados
harmonia espiritual de vozes tam-tam
num ritmo claro de África

Assim
o caminho das estrelas
pela curva ágil do pescoço da gazela
para a harmonia do mundo.


Agostinho Neto